6.5.25

Quando não víamos as horas em telemóveis

 


Relógio «Deux Figurines», de vidro transparente e fosco com base iluminada. Duas mulheres de estilo grego seguram uma grinalda em redor do mostrador do relógio. Cerca de 1926.
René Lalique.

Daqui.

06.05.1968 – Barricadas em Paris



 

Na segunda-feira, 6 de Maio, começou a semana das barricadas. A partir das 15:00 horas, registaram-se muitos e graves confrontos entre estudantes e polícia. Neste vídeo, o resumo do que se passou durante os dias que se seguiram, até à reabertura da Sorbonne:



Na véspera, 5 de Maio, Cohn-Bendit, fizera a seguinte declaração: «Nous disons que l'État est partie prenante de l'antagonisme de classe, que l'État représente une classe. La bourgeoisie cherche à préserver une partie des étudiants, futurs cadres de la société. Le pouvoir possède la radio et la télévision, et un parlement à sa main. Nous allons nous expliquer directement dans la rue, nous allons pratiquer une politique de démocratie directe.»
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É mesmo assim

 


Quando um deputado quer aceder ao registo telefónico de um jornalista é grave, senhor Presidente. Não é só campanha

 


«Não sei se foi a extrema-direita que se aproveitou da beligerância que vive acampada nas redes sociais, e cresceu, ou se foi ela própria que, com a sua violência, fez das redes sociais o chiqueiro certo para funcionar como campo de treino. Certo é que essa forma de debater, em que ninguém ouve ninguém, não sendo já um exclusivo seu no teatro político, mostra-a como o original que as cópias tanto valorizam. Transportam consigo uma agenda que não precisa que eles cheguem ao poder para si impor. Vejam como o governo está em campanha: no Algarve e no Alentejo, o PSD faz da imigração o tema central da sua propaganda, no dia seguinte a AIMA anuncia que deu ordem de marcha a milhares de imigrantes.

Ainda assim, sendo mau que a agenda mediática fique contaminada pela forma de tratar os temas mais sensíveis acrescentando divisão a uma sociedade já muito polarizada, há coisas piores a acontecer. O sorriso nervoso de Marcelo, gracejando com a ameaça feita a políticos da oposição e a jornalistas, por parte do partido que está no poder, diz-nos que o Presidente sabe que nós sabemos que ele sabe que não é apenas campanha. Não se quer comprometer e percebe-se porquê. Agora, que há reais possibilidades de deixar Belém com estabilidade política e uma maioria (AD+IL) no Parlamento, Marcelo não dirá nada que possa prejudicar a sua família política. E, sobretudo, que possa prejudicar o seu legado político. Imaginem a festa de arromba no Palácio de Belém, se no dia 18 se formar uma maioria parlamentar.

Só que a ideia de vasculhar registos telefónicos para descobrir a fonte de um jornalista do Expresso é tão estúpida que dá para perceber que não se resume a um simples desvio de atenções sobre a nova lista de empresas da Spinumviva. Se fosse só isso, Marcelo tinha razão, era só campanha. Só que a ideia também é atingir o Expresso conotando-o com uma fonte socialista, contando para isso com a preciosa ajuda da notícia do Observador sobre Pedro Delgado Alves. Seguramente, a Hugo Carneiro não lhe passaria pela cabeça pôr a PJ a investigar quem são as fontes que informaram o Observador em matérias que estavam em segredo de justiça. Ao Expresso, aposto, também não. Revelar possíveis fontes de um jornalista para responder a uma declaração política do líder da oposição, que apontava ao primeiro-ministro a responsabilidade da divulgação da informação, pode parecer assunto de grande relevância jornalística, mas é só mais um passo no caminho de descredibilizar o jornalismo, entrincheirando-o. Coloca o jornalismo no ponto onde ele pode ser manietado, insinuando que é apenas fiel depositário de interesses alheios. Pode não ter sido essa a intenção, mas foi esse o resultado. No final, ficou a insinuação de que a fonte do Expresso foi o deputado socialista.

Aliás, para contraditar a insinuação do líder do PS, bastaria dizer que o primeiro-ministro garantia não ter sido ele a fonte do Expresso e acrescentar que havia uma série de pessoas, na Entidade da Transparência e no Parlamento, com acesso àquela informação. Ir mais longe do que isto é pretender insinuar a fonte. Eu não sei quem foi, nem estou interessado em saber, o Observador não sabe quem foi, o PSD não sabe quem foi e ninguém ficará a saber. Nem mesmo com a peregrina ideia de pôr a PJ a vasculhar o registo telefónico do jornalista do Expresso por interposto registo de um deputado. Sim, para o efeito pretendido só haveria interesse se no registo de Pedro Delgado Alves houvesse uma chamada para um telefone de um jornalista do Expresso. Sim, o deputado do PSD queria aceder ao registo telefónico de um jornalista. Quando a campanha terminar, faça o favor de se meter ao caminho, senhor Presidente, e avise os deputados que não há Democracia sem liberdade de imprensa. Se quem faz as leis não as conhece, estamos muito mal entregues.»


5.5.25

Houve um 5 de Maio que passei no Butão

 


Já passaram quinze anos. Fui como turista, mas sei de quem lá esteve muito recentemente, mais de um mês a trabalhar, e que pensa, tal como eu, que é um país que não se parece com nenhum outro. É dificil de explicar porquê, mas é assim…

Copio um paragráfo de um texto que escrevi lá nesse, 5 de Maio. Quem quiser pode clicar AQUI para ler o resto ou AQUI para mais reflexões sobre o país.

«Saio amanhã do Butão com uma enorme simpatia por este povo de uma delicadeza que roça a candura. E com uma grande curiosidade quanto à evolução política e social de tudo isto: para os nossos cérebros ocidentais, é difícil levar a sério o tal conceito de «Gross National Happiness». E confesso que ouvir dizer, sem pestanejar, que se mede o desenvolvimento e o progresso de um país pelo grau de sorriso das pessoas ultrapassa todas as utopias com que alguma vez sonhei…»

Cenas de um debate

 


O imigrante é uma arma

 


«Longe vão os tempos em que José Mário Branco escreveu “A cantiga é uma arma” – ainda que Luís Montenegro ache que vai ganhar votos (e se calhar vai) com o indigente hino “Deixem o Luís trabalhar”, que está uns metros abaixo, na escala da foleirice, do famoso “menino guerreiro” com que Santana Lopes se apresentou na campanha de 2005.

Para a AD, agora a grande arma chama-se “caça ao imigrante”. O imigrante vai ser rebaixado até ao infinito porque a AD precisa dos votos do Chega e de engordar a sua votação à conta do eleitorado que no ano passado votou no partido de André Ventura.

Valerá tudo. Sábado alvoreceu com o anúncio solene de Leitão Amaro de que nas próximas semanas vai atingir o lindo número de “18 mil pessoas com recusas já decididas” para abandonar o país. Mas que ninguém se engane: o Governo quer mostrar que está a trabalhar para nos libertar de imigrantes.

No Facebook, o socialista Francisco Assis escreveu: “O Governo e o PSD instrumentalizam de modo obsceno o complexo e sensível fenómeno da imigração com o exclusivo objectivo de obtenção de alguns ganhos eleitorais.”

A “trumpização” no discurso sobre imigrantes é óbvia, embora na lei o não seja. Montenegro chega à noite de sábado a ir muito mais longe do que Passos Coelho foi no ano passado no discurso de Faro. No comício de Paredes, Montenegro sacou da sua pistola particular: “Os que não cumprirem as regras temos de os fazer regressar à sua origem”. Afinal, este domingo em Bragança pôs Soflan no discurso: “O processo começou em Junho do ano passado. Não foi acelerado agora.” Pois. Só que interessou pôr o Governo a anunciar a suposta “montenegrização” do país.

Se o imigrante já é pau para toda a obra que os portugueses não querem fazer, o arranque da campanha serviu para mostrar que a humilhação do imigrante é uma arma eleitoral para a AD tentar recuperar os votos que foram para Ventura. Só falta associar a imigração à insegurança, como fez Passos Coelho no ano passado. A xenofobia vencerá.»


Desejo elementar

 


4.5.25

Azul, muito azul

 


Vaso, linha de esmaltes Black Iris, argila branca vidrada. Cerâmica Rookwood, Cincinnati. Morse de Arte Americana. Cerca de 1903.
Decorador: Charles (Carl) Schmidt.

Daqui.

Alô, eleitores do Chega, a AD chama por vós

 


Por pura «coincidência» de calendários, 4574 imigrantes serão avisados menos de duas semanas antes das eleições e deverão deixar Portugal logo a seguir.

Parvos somos, mas não tanto assim.

O PSD no seu labirinto

 



O apagão ressuscitou um monstro

 


«O SIRESP é calor em tempo de seca, tromba de água no dilúvio, cozido à portuguesa à noite. Quando a sua presença é dispensável, está sempre lá, prontinho a ser usado. Trata-se de um sistema em perfeitas condições de operacionalidade quando não é necessário operar com ele. Durante a última década e meia, apesar de se manter 24 horas por dia ligada à ficha, poucas vezes se falou da rede destinada às comunicações dos serviços de emergência e segurança em período de crise. O sistema mostrou pela primeira vez o grau de fiabilidade num incêndio no Caramulo, em 2013, voltou à cena mediática no pós-tragédia de Pedrógão, em 2017, e ressuscitou na segunda-feira, durante o apagão. Manteve-se, no entanto, moribundo, tornando a falhar em toda a linha. O único dado positivo que se consegue extrair desta análise rápida é que o SIRESP, ao contrário de outros serviços do Estado, é bastante previsível: em caso de catástrofe, nunca funciona. A falência deste monstro composto por antenas e falsas redundâncias ilustra bem a incompetência de sucessivos governos. Se custasse um euro, já seria caro, como o país paga milhões para sustentar o zombie, é lamentável que os constrangimentos persistam numa infraestrutura tão sensível e essencial para a segurança dos cidadãos, sobretudo em caso de catástrofe. Mas em vez de servir a comunidade, o SIRESP tem um potencial de destruição arrasador para credibilidade das instituições democráticas, porque ninguém compreende a inércia dos políticos perante o que está à vista de todos. Se não serve, é para desligar, depois de contratualizar um novo serviço. Passados quase 20 anos, será assim tão difícil perceber?»