8.7.25

Edgar Morin

 


Conheci-o numa das suas primeiras vindas a Portugal nos idos de 60, sempre presente num mundo a que eu também pertencia. Lembro-me de muitas reuniões e colóquios, e até de termos assistido, na TV e em grande grupo, a um decisivo desafio de futebol. Também, de ter convivido com ele no Algarve, em casa de amigos muito próximos onde se refugiara para escrever.

No Twitter, vejo hoje que continua a partilhar muitos posts (ainda ontem o fez) e encontrei este, da sua autoria, de 5 de Junho: «Trop d'absurdité, trop de cruauté trop de barbarie, trop de haine, trop de mépris trop de carnages».
(«Demasiado absurdo, demasiada crueldade, demasiada barbárie, demasiado ódio, demasiado desprezo, demasiada carnificina.»)

Todos os nomes. Um dia será o do seu filho

 

«Seria apenas mais um episódio infeliz da deplorável miséria humana que caracteriza André Ventura e Rita Matias, se não se desse o caso de se estar a tornar o dia-a-dia de um Parlamento cada vez mais degradado pela ação dos que têm como objetivo político sério o desrespeito pelas instituições democráticas. Só vale a pena a nossa indignação para travarmos, porque ainda estamos a tempo de o fazer, a indigência moral coletiva para que estes seres nos querem atirar como país.

Começou nas redes sociais, pela voz da triste Rita Matias, continuou na Assembleia da República pela voz de André Ventura, com a muito infeliz concordância de Marcos Perestrello, que presidia aos trabalhos. Ler uma lista de nomes de crianças inscritas numa escola pública para fomentar o ódio aos imigrantes; só não sei se é o mais baixo a que se pode descer, porque tenho quase a certeza de que o Chega chegará ainda mais baixo nesta sua determinação em trazer à superfície toda a indignidade que a natureza humana pode gerar. (…)

Tenhamos todos bem noção do que é o Chega. É feito de gente sem moral e sem escrúpulos. Oportunistas que hoje defendem os que atacarão amanhã, ao sabor das suas conveniências. Hoje, foram os filhos dos imigrantes. Em breve, serão os nossos filhos.»


Sabe-se lá quem é de cá?

 


«Quando o Governo decidiu mudar a lei da nacionalidade, não respondeu a um excesso. Respondeu a um eco. Não quis reformar. Quis marcar posição. Quis, sobretudo, deixar claro que, em certos temas, já não teme parecer parecido com quem antes garantia nunca imitar.

A proposta não é neutra. Aumenta prazos, estreita acessos, reintroduz a ideia — insuspeitada numa democracia madura — de que a cidadania pode ser retirada como se fosse um favor e não um direito. Passa a ser preciso viver mais tempo em Portugal para pedir nacionalidade. Mesmo quando se nasce cá, mesmo quando se cresce cá, mesmo quando se pertence sem dúvida ao país, a dúvida passa a contar mais. Os filhos de imigrantes verão adiado o reconhecimento de uma pertença que já existe na prática. E, aos adultos, a nacionalidade poderá ser retirada se forem condenados a mais de cinco anos de prisão. A justiça já não basta. O castigo estende-se à identidade.

É um recuo. Não na lei apenas, mas na ideia de país. E apresenta-se como prudência, apesar de nascer do medo. Medo de parecer brando. Medo de não controlar o discurso público. Medo, no fundo, de ficar para trás numa corrida que a extrema-direita corre sozinha, porque escolheu o percurso. O PSD quis antecipar-se, mas chegou na mesma linha. E, ao fazê-lo, validou o terreno.

Nada do que é essencial se resolve. Os serviços continuam assoberbados. Os processos atrasados. A integração entregue a boas vontades. O tráfico sem dissuasão eficaz. Mas discute-se, com zelo, o número de anos que os pais de um recém-nascido precisam de ter acumulado para que o país reconheça que é de cá. E institui-se, com gravidade, o princípio de que há portugueses de primeira e portugueses de precaução.

É este o ponto: a nacionalidade deixa de ser vínculo para passar a ser vigilância. Deixa de ser pertença para se tornar uma cláusula. Quando um país faz isto, está a dizer que não sabe confiar. Que prefere desconfiar antes que aconteça. Que, perante a complexidade da imigração, escolhe o símbolo. E entrega à extrema-direita aquilo que ela menos merece: a agenda.

A Dinamarca enfrentou a mesma tensão. A diferença foi de método. E de coragem. Mette Frederiksen percebeu que o discurso extremado só recua quando a política ocupa o espaço. Endureceu regras, é certo, regulou a entrada, acelerou processos de expulsão de imigrantes sem documentos. Mas não cedeu no essencial: recusou a ideia de que a resposta à imigração deve ser baseada na retórica xenófoba.

Em vez de um conflito identitário, a Dinamarca construiu uma política de integração exigente, centrada na coesão social. Disse que a solidariedade nacional não se aguenta se for ressentida. Que o Estado social precisa de confiança mútua, não de desconfiança selectiva. E que só há legitimidade para exigir se houver clareza para proteger. Resultado: a extrema-direita encolheu. A tensão diluiu-se. O tema perdeu a carga tóxica. E a democracia respirou.

Portugal preferiu o contrário. Não resolveu, mas sinalizou. Não integrou, mas endureceu. E assim, em vez de responder aos desafios com política, respondeu com gestos. Porque é mais fácil parecer severo do que ser eficaz. Porque é mais fácil assustar do que governar.

Fazê-lo em nome da ordem é uma contradição. Porque a ordem não se impõe com papéis revogáveis, impõe-se com instituições que funcionam. Com serviços públicos capazes. Com regras claras. Com justiça que não escolhe a dedo quem merece pertencer.

A proposta do Governo não é apenas errada nos seus efeitos. É errada na sua origem. Porque nasce de um cálculo que parte de um erro: a ideia de que, para travar a extrema-direita, é preciso antecipar-lhe o tom. Mas a história recente mostra o contrário. A cedência nunca basta. Aclara o caminho, valida o discurso, reforça a desconfiança geral em tudo o que não seja ruído.

A nacionalidade é um dos contratos mais sérios que uma democracia pode assinar com quem vive dentro das suas fronteiras. Torná-la precária é transformar esse contrato num favor revogável.

E isso não é prudência. É fraqueza.»


7.7.25

Quem se atreve a diminuir o que é tão virtuoso?

 


A insegurança num país seguro

 


«Luís Montenegro deslocou-se a Espanha para dizer coisas importantes sobre Portugal. O congresso do Partido Popular ouviu-o reclamar mais segurança para as ruas portuguesas e mais autoridade para a Polícia. Quem desconhecesse a realidade do nosso país, um dos mais seguros do Mundo, poderia pensar que, atendendo a tamanha preocupação, Portugal estaria a tornar-se numa espécie de anarquia onde a violência toma conta das cidades. (…)

Voltando à discussão de fundo lançada pelo líder do Governo, importa ter presente que talvez tenha razão, sobretudo se recuarmos umas semanas, ao dia em que Polícia Judiciária desmantelou um grupo neonazi com objetivos tão perigosos como o de invadir a Assembleia da República. (…)

uma das maiores ameaças à segurança do país estará escondida no submundo das organizações ultranacionalistas, cujo discurso de ódio, segundo peritos da União Europeia, é legitimado por partidos como o Chega. Portanto, para nos sentirmos seguros, também é necessário que o PSD saiba escolher os parceiros para negociar no Parlamento, até porque os indicadores dos últimos dias não vão nesse sentido.»

Na íntegra AQUI.

Espectáculo de drones pacíficos

 


Chongqing, China.

Morreu o “não é não”. A abjeção foi manobra de diversão

 

«O vídeo feito por Rita Matias, em que identifica o nome e apelido de crianças, revela, antes de tudo, a ausência de limites humanos de pessoas que acham que a política, sendo um jogo, não se relaciona com os valores que vão norteando as nossas vidas. Os juristas dirão se é crime e, se for, deve seguir para o Ministério Público. Parece-me que os dirigentes do Chega estarão convencidos que sim, já que, repetindo a rábula abjeta, André Ventura omitiu, no Parlamento, os apelidos.

A utilização de crianças para o discurso de ódio define a miséria humana de Ventura e Matias. Mas é errado pensar que nada tem a ver com política. A desumanização do outro é tema político. E não julguem que os eleitores do Chega se vão comover. Esta desumanização faz-se aos poucos e não tem fim, como aprendemos há cem anos (e estamos a reaprender em Gaza), o ódio normaliza-se muito para lá do que vimos nas bocas de Matias e Ventura. Nunca poupou os filhos dos que transformamos em sub-humanos.

A indignação é justa e é difícil não reagir, quando se ultrapassam os limites mais básicos da dignidade. Mas o truque é outro. Depois de culpar os imigrantes do colapso do SNS e da crise de habitação, o Chega também os responsabiliza pelo investimento insuficiente e a recusa em criar uma rede pública de creches. A função do Chega é esconder todos os problemas, transferindo para os imigrantes a responsabilidades de erros políticos. O Chega é o antídoto para a incompetência política de qualquer governo. A culpa está sempre em baixo.

Mas o mais relevante, na semana passada, foi uma mudança política radical. Quando se dizia que “não é não”, não se estava seguramente a falar na perigosa influência do Chega em questões fiscais (onde o governo também já se comprometeu a ir ao encontro das suas exigências) ou orçamentais. Ao assumir (e Luís Montenegro assumiu-o) a relação preferencial com a extrema-direita nos temas em que se esperava um verdadeiro cordão sanitário – a imigração e a nacionalidade – desfez todas as dúvidas sobre este tema. Há uma maioria entre o PSD e o Chega, a que o PS será chamado se Ventura trair os compromissos e para aprovar o OE e ficar amarrado.

No que conta para o Chega e no Chega, o diálogo preferencial é com o Chega. Que o mesmo partido que acusava o PS de se aliar ao Chega por votarem juntos o fim de portagens tente negar, quando o entendimento se faz no coração do programa da extrema-direita, é a demonstração de que nem o respeito pelo mínimo de inteligência sobrevive a esta guinada política.

Claro que o Chega iria mais longe na lei da nacionalidade. Irá sempre, mesmo com todas as cedências. Mesmo perante as denúncias de potencial inconstitucionalidade das medidas apresentadas pelo governo, apontadas por Jorge Miranda (retroatividade da lei, discriminação entre portugueses de origem e adquiridos e excesso de discricionariedade na atribuição de nacionalidade), a proposta de retirada administrativa da nacionalidade, sem ser como sanção acessória determinada por um juiz, não passaria a porta da entrada do Tribunal Constitucional. Foi apresentada para ser recusada. O essencial que o Chega defende está na lei.

O Chega precisa de continuar a garantir o seu espaço, mostrando ao país que é determinante para impor a sua agenda, mas não permitindo que os novos consensos lhe retirem a liderança e o palco. Sabendo-se vencedores na agenda da imigração, usou o dia da vitória para ficar sozinho no palco, com algo suficientemente abjeto que levasse a reações e polémicas, mantendo-se na liderança de todo o processo. Radicaliza mais um pouco para não deixar de estar fora quando há o risco da cedência do outro o pôr dentro.

É assim que funciona: o governo cede ao Chega e o Chega faz qualquer coisa abjeta para a cedência parecer apenas a aceitação de mínimos. E nós caímos. A enumeração de nomes completos de crianças, num vídeo, poderá ter de seguir para o Ministério Público. Mas a política tem de falar da aliança entre a AD e o Chega, que se fechou, com mais ou menos conflitos.

Isto está a acontecer porque o PS acredita que pode usar a receita do passado: esperar que o governo se estatele ou que Montenegro seja engolido pelo regresso da Spinunviva, para voltar a existir. Ignora que, se e quando esse momento existir, quem se está a colocar para ser alternativa é o Chega. O “bom comportamento” do PS tem uma única consequência: permitir que o debate se desequilibre de tal forma (a imigração é apenas um dos exemplos), que, em pouco tempo, nem os mínimos de decência terão lugar no espaço público.»


6.7.25

Vaso com uvas

 


Vaso decorado com uvas cor de rosa, Museu de Belas Artes da Nancy, 1925.
Daum Frères.

Daqui.

O herói e a rotunda

 


«Como um doente de malária, Portugal sofre de acessos periódicos: uma febre de desespero que, no seu delírio, lhe evoca invariavelmente a miragem de um redentor. Com o Estado em chagas e a política num pântano, a nação, farta de uma liberdade desordeira, deixa de querer um governante: implora por um Licurgo. É o eterno e patético fantasma sebastianista: a busca por um homem de farda, de queixo firme e — pormenor essencial — de biografia convenientemente curta, que venha finalmente oferecer o mais simples dos pactos – a troca da liberdade, essa tarefa insuportável, pelo alívio da obediência cega. (…)

A Presidência da República é, para um homem de ação, o mais gélido dos mausoléus: a um executor, exige que se torne pregador; a um comandante, oferece um púlpito para homilias. A sua marcha para Belém, agora iniciada, irá reduzi-lo rapidamente à condição de um busto de gesso constitucional — com o dever de inaugurar rotundas e de sorrir para fotografias ao lado de autarcas pressurosos —, forçado a comentar a desgraça em vez de a poder travar, e condenado a presidir, com a dignidade possível, à lenta decomposição do país que um dia fantasiou poder salvar com um golpe de leme. É o mais triste dos fins para um herói: a nota de rodapé na página da história que sonhou escrever em maiúsculas.»


O «drama» das crianças imigrantes

 


«A “Class of Wonders”, startup portuguesa que, a partir de uma metodologia de gamificação, lançou dois jogos que facilitam a aprendizagem de numeracia e literacia, tem sido decisiva na integração de crianças migrantes ou filhas de pais estrangeiros e que contactam pela primeira vez com a língua portuguesa.»


Frida Kahlo

 


Nasceu em 06.07.1907 e nem chegou aos 68 anos.

Forte impulso regressivo

 


«De forma significativa, o novo ciclo político começa com o Governo do PSD/Montenegro a concertar entendimentos com a extrema-direita. Os resultados eleitorais não o obrigavam a tomar esta via: fá-lo por escolha. Este não é mais um Governo da Direita, como já tivemos muitos ao longo dos 50 anos da democracia. Trata-se de um Governo com uma agenda regressiva nunca vista, a executar com a extrema-direita, num contexto europeu e mundial perigoso.

A alteração à Lei da Nacionalidade é uma escolha política deliberada, não resulta de uma necessidade objetiva. Como já foi observado por vários constitucionalistas, incluindo o professor Jorge Miranda, ela estará ferida de inconstitucionalidade em vários aspetos. Esta alteração, onde até o acesso à nacionalidade pode ser uma questão de se ser ou não rico, é uma bandeira da extrema-direita para semear o ódio.

Segundo a última edição do “Expresso”, “60% dos novos portugueses vivem fora do país”. Em 2023, os “israelitas concentram 40% das nacionalidades adquiridas”, ou seja, atribuídas. “A nova comunidade do subcontinente asiático, que inclui Bangladeche, Nepal, Índia e Paquistão, ainda é uma minoria estatística de 7%”. São apenas 2795 naquele ano. Os argumentos do Governo e da extrema-direita são, pois, escabrosos.

Estão em marcha políticas regressivas para a vida das pessoas e para o exercício das liberdades. Propagandeiam-se políticas fiscais amigas dos cidadãos, mas as medidas que o Governo avança para o IRS são globalmente regressivas. Com as políticas migratórias a alimentarem práticas de baixos salários, com a habitação entregue à especulação e o SNS colocado como área de negócio, jamais teremos melhoria de rendimentos e de condições de vida da maioria dos portugueses. Começa a ser desmantelado tudo o que possa ser obstáculo à apropriação indevida da riqueza, em particular atacam-se os direitos do trabalho, que são direitos humanos e estão plasmados na Constituição da República. Os patrões que mais recorrem ao trabalho precário, mal pago e sem direitos (veja-se posições da Confederação do Turismo), são os mais ansiosos pelas “profundas alterações” que o Governo pretenderá fazer, “desejavelmente na Concertação Social”. Ou seja, se não o conseguir ali, avançará via Assembleia da República com apoio da extrema-direita. O ataque (ideológico) à Lei da Greve visa reforçar instrumentos do Governo e dos patrões no quadro muito delicado que se vai viver. Nenhuma organização sindical pode condescender com tais objetivos. Mas, até agora, só a CGTP- IN foi clara. Em 1987 e 1988, perante uma ofensiva forte (a atual pode ser maior), o movimento sindical foi capaz de responder com eficácia. A CGTP entrou para a Concertação Social, fez-se diálogo entre a CGTP e a UGT e as duas realizaram uma extraordinária greve geral (28/3/88) que travou por muitos anos a ofensiva.

Boas experiências vividas no passado, podem ser inspiradoras no presente.»