19.3.11

A seguir nos próximos capítulos


Quando se está vários dias sem seguir os episódios de uma telenovela, leva-se algum tempo a retomar o fio à meada. É o que está a acontecer-me para conseguir digerir estas afirmações de António Costa:


Mesmo sabendo que houve umas trapalhadas com um PEC x, y ou z, os discursos mudaram tanto em dez dias que tudo leva a crer que, tal como acontece com muitas telenovelas, o guião inicial esteja a ser alterado e que se chegue a um desfecho diferente do inicialmente previsto.
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17.3.11

Paradise


Em Beruwela, algures na costa ocidental do Sri Lanka, numa praia com trovoadas à noite e muto Sol durante o dia, coqueiros, pouca gente e água do mar com uma temperatura inimaginável!

Quatro dias de descanso total, depois de uma semana muito interessante, mas um pouco violenta: 1.600 quilómetros em estradas que são como a que se vê na foto (aqui, um pouco mais abaixo), ou «normais» mas numa espécie de gincana constante, porque só existem duas faixas de rodagem para milhares de automóveis, camiões, tuc tucs, peões, vacas e elefantes. Os cães dormem no asfalto e esperam que os carros os contornem - e estes obedecem.

Desvantagens que são o reverso do bom lado da moeda: o turismo ainda não chegou em força, recente que é o fim das guerras internas e, também, o efeito devastador do tsunami de há quatro anos. Last but not (at all ) the least: tudo é extremamente barato para nós…

Por falar em tsunami, ontem passei por várias povoações com muitas casas ainda em ruínas e vi alguns cemitérios improvisados à beira da estrada. Recorde-se que houve então mais de 40.000 mortos neste país.

Pelo caminho foi dia de muita fauna, por exemplo numa visita a um interessante centro de protecção de tartarugas em Kosgoda. Estas desovam na praia, os ovos são recolhidos e «chocados» debaixo de terra, algumas semanas mais tarde as crias nascem e são guardadas três dias em tanques e depois lançadas ao mar (as da foto, tinham 24 horas de idade…). Em tanques especiais, vivem algumas estropiadas, recolhidas nos destroços do tsunami.

Recta quase final da viagem: depois desta estadia em Beruwela, um dia em Colombo e… o longo, muito longo regresso!...

(P.S. – O dr. Cavaco está melhor?)


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16.3.11

Chorar os mortos se os vivos os não merecerem

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Chego tarde, porque estou longe, mas não quero deixar de registar os elogios de Cavaco à coragem, ao desprendimento e à determinação «com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar»».

Não vale a pena disfarçar: Salazar não diria melhor, se fosse vivo em Março de 2011. Milhares de mortos em várias frentes de Guerra Colonial, cinco décadas de História, com uma revolução e quase trinta e sete anos de democracia pelo meio, tê-lo-iam, provavelmente, «transformado» mais do que afectaram o nosso actual presidente da República – traído pelo fundo e pela forma das suas afirmações.

Alguma dúvida? Exagero? Oiça-se este excerto do célebre discurso de Salazar sobre os vivos e os mortos. Não vem a propósito?



«Nós havemos de chorar os mortos se os vivos os não merecerem».
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15.3.11

Ainda no rescaldo do 12 de Março


Eu ainda ando pela Ásia, entre faunas e floras mais ou menos exóticas, mas vou seguindo como posso o que por aí se vai escrevendo e não quero deixar passar, sem o referir, um texto do Rui Tavares, editado no Público de ontem (e agora já no seu blogue), bem como um «complemento», também do Rui, publicado hoje pelo Miguel Serras Pereira no Vias de Facto.

Dois excertos:

«Não tenho ilusões. Numa economia globalizada, assente em coisas como computadores e aviões a jato, o que pode o neomutualismo é sempre de natureza limitada. Mas o objectivo aqui é reinventar o princípio da solidariedade de uma maneira que a política institucionalizada não pode — e que, no caso da União Europeia, manifestamente não quer. Para participar, as pessoas precisam de razões para acreditar. E depois de sábado, vão precisar delas mais do que nunca.»

«Como pode a esquerda reconstituir a base de apoio que estabeleceu na viragem entre o século XIX e o século XX e que ainda é a que lhe vai dando algum gás hoje, em particular nos sindicatos? Mas como pode fazê-lo em condições que são hoje muito diferentes, de precariado, globalização, e redes sociais assentes na internet? Resposta: pode fazê-lo como fez então: dando razões às pessoas para acreditar. Essas razões são, de forma não exaustiva: soluções concretas, laços de solidariedade, vitórias.»
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14.3.11

Por aqui, camisa é camisa e sapato é sapato


As antigas capitais deste país já ficaram para trás, fui entretanto descendo em latitude e subindo em altura. Estou neste momento a cerca de 2.000 metros, num hotel que já foi uma grande fábrica de chá, rodeado por uma paisagem linda de morrer.

Chá foi, aliás, o que mais vi nos últimos dois dias, em socalcos que parecem desenhados a compasso e, por vezes, de acesso quase inimaginável, entre árvores gigantescas de todos os tons de verde do universo.

Se as cidades nada têm de especial em termos urbanísticos, tudo o que as rodeia é magnífico - floresta, flores ou quedas de água.

Pelo caminho, andei também por uma sementeira de especiarias (ou não tivessem sido elas a atraírem tanto os nossos antepassados…), das mais variadas espécies e aplicações, desde condimentos para culinária até unguentos para todas as partes do corpo e do espírito.

E a propósito dos tais antepassados, foi por eles que os habitantes desta ilha ficaram a saber o que era pão e o que era vinho e a influência da língua veio para ficar: ainda hoje, camisa é camisa e sapato é sapato…

Quanto à ditosa pátria, deixei-a há menos de uma semana e sinto que certas realidades estão já a escapar-me. Parece que há mais PECs e que desta vez é que ninguém os quer, devo ter percebido mal uma notícia, lida de raspão, onde se dizia que Sócrates vai baixar o IVA do golfe para 6% e, ao entrar em certos blogues, só me vem à cabeça um velho dichote da minha mãe: «Deu a louca na farinha Amparo!». Mas o mal deve estar em mim, tudo voltará certamente ao sítio quando eu regressar – só daqui a muuuitos dias…


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13.3.11

Depois do 12 de Março


Tinha escrito um pequeno texto sobre o meu quinto dia de viagem pelo Sri Lanka, mas perdeu todo o sentido depois de ler as notícias sobre a manifestação de ontem - num ou outro resumo de jornal, no Facebook e em alguns blogues. Um grande dia para todos os que, como eu, acreditaram que algo de novo estava a acontecer!

Aos que não gostaram da iniciativa e do seu sucesso, e talvez sobretudo aos que assobiaram para o ar ou para o lado, apetece-me dizer, apenas, que se habituem. Porque, para já, retive uma frase do Luís Januário: "Durante algum tempo haverá dois países."

Depois? Depois, logo se verá.
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12.3.11

Civilizámos, nós?


Podia falar da cidadela de Sigiriya, construída no século V, duzentos metros acima do solo e da selva, mas visitei melhor e fiquei mais impressionada com Polonnaruwa, a segunda capital que este país teve e que nasceu do nada nos séculos XI e XII.

Quando os nossos Afonsos e os nossos Sanchos iam apenas começar a espalhar por aí modestíssimos castelos para se defenderem dos mouros, as gentes desta terra concebiam e punham de pé uma grande cidade de 122 hectares, numa região próspera por causa de um complexo sistema de irrigação entretanto criado, com uma série de edifícios, ruas e jardins perfeitamente desenhados, mosteiros, piscinas e anfiteatros – tudo em torno de um Palácio Real (na foto, o que dele resta), com sete andares e 1.000 divisões!!!

Num pequeno museu, simples mas bem organizado, é possível ver hoje maquetas e desenhos que «reconstituem» os edifícios primitivos. Absolutamente impressionante!

Alguns séculos (poucos…) mais tarde, chegaram os europeus para «civilizarem» esta ilha – com os portugueses à cabeça, como é sabido.


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Onde eu estaria, sei eu


... se não estivesse do outro lado do mundo.

Rua, que se faz tarde! Boa manifestação por aí.
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11.3.11

Cuidado com eles


… os crocodilos! Muitos avisos para abrandar a marcha, que já não é rápida, em estradas ladeadas por alguns dos 35.000 lagos artificiais que se espalham por todo o Sri Lanka. Crocodilos ainda não vi, mas não faltam macacos, em amena convivência com cães, vitelos e lindíssimos pássaros.

Quanto ao caminho das pedras, no célebre Triângulo Cultural deste país, ainda hoje começou e logo com uma pequena peripécia em Anuradhapura. Nem sonho quantos graus estariam ao princípio da tarde, mas houve que descalçar os sapatos à entrada de uma longa alameda, que dava acesso a uma stupa monumental, e o calor era tanto que os primeiros cem metros deram para perceber que as pedras do chão estavam a cumprir a função de frigideiras e que a pele dos pés por lá ficaria muito rapidamente. Com respeito pelo budismo ma no troppo, alguém acabou por convencer um polícia (bem calçado, pois com certeza, já que buda deve permitir tudo às autoridades…) que as nossas extremidades não estavam habituadas àquilo e que daríamos nem mais um passo, nem para trás nem para diante, sem sapatos.

Amanhã? Pode ser que em Sigiriya esteja mais fresco…

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10.3.11

Elephant’s day


Neste país totalmente verde, hoje foi dia de viagem por longas e atribuladas estradas, com paragem mais do que obrigatória no Pinnawela Elephant Orphanage. Fundado em 1975, com sete elefantes órfãos, atrai actualmente ao Sri Lanka estudiosos do mundo inteiro, é objecto de inúmeros filmes e livros, cresceu e multiplicou-se.

Os ditos elefantes são agora muitos, de todas as idades e tamanhos, os primeiros sete já são avós, vêm todos refrescar-se ao rio, duas vezes por dia, e os turistas agradecem.

Quanto às estradas, estão longe de ser famosas e têm muito trânsito, um pouco perturbado por umas tantas vacas solitárias e um ou outro macaco tresmalhado que se atravessam. Alguém já viu um porco-espinho levado à trela? Vi eu: não um, mas dois…

O que se vê, durante quilómetros e quilómetros, para além de muitas povoações à beira da estrada (o Sri Lanka tem o dobro da população de Portugal e, mais ou menos, metade da superfície) é uma selva tropical fabulosa e tórrida. Agradece-se o ar condicionado do carro…

Amanhã, começa o circuito por ruínas de cidades antigas e templos budistas. Com várias garrafas de água na bagagem.


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