23.9.12

Não têm emenda, não há nada a fazer!



Não vale a pena tentar defender Miguel Macedo, como já vi escrito por aí, dizendo que ele não pretendeu chamar preguiçosos à maior parte dos seus compatriotas ao afirmar, hoje, que Portugal não pode ser «um país de muitas cigarras e poucas formigas». Será muito ignorante, mas conhece certamente o sentido da fábula. 

De piegas, passámos portanto a cigarras. Mas isto diz-se? É estupidez ou provocação? Ou andará Miguel Macedo a ver uma versão antiga do canal Panda?

Que autoridade tem para falar de formigas, e desdenhar de cigarras, num país com centenas de milhares de pessoas que procuram trabalho, quem chegou aos 53 anos sem ter no currículo uma única actividade profissional fora da asa protectora do partido?

Começo a crer que há infiltrados no governo que não querem outra coisa que não seja liquidá-lo o mais depressa possível. MM pode ser um deles – de infiltrados deve ele entender... 
.

Os números e as pessoas


A Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP) «é um organismo laical da Conferência Episcopal Portuguesa, que tem como finalidade promover e defender a Justiça e a Paz, à luz do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja». Actualmente, é presidida por Alfredo Bruto da Costa. 

Quando as posições da Igreja deixam muitas vezes tanto a desejar quanto a firmeza e frontalidade, vale a pena não deixar de sublinhar um Comunicado divulgado pela referida Comissão: «Os Números e as Pessoas»

 Um único excerto e a recomendação de leitura na íntegra

«Pelo que respeita às notícias veiculadas pelo Governo quanto à 5ª avaliação da Troika, a primeira nota que ressalta é a de um discurso determinista e fatalista, do «caminho único» e do «não há outra via», quando o mais verdadeiro e humilde seria o de dizer "eu não conheço outro caminho", ou "eu não sou capaz de seguir outra orientação". E note-se que algumas das vias alternativas foram fechadas pelo próprio Governo, através da total aceitação dos ditames da Troika, com pública declaração de concordância. Só aqui, reconhecendo aos credores o direito de ditar, em nome de uma "credibilidade externa", amputou o país de uns quantos graus de liberdade. Esqueceu-se que os credores não são um grupo qualquer de agiotas, mas instituições internacionais de que Portugal é membro, com deveres e direitos. Pelo menos neste contexto, seria exigível um comportamento civilizado, justo e solidário entre todas as partes.» 
.

Tecnologias



.

Governo: a prazo?



Consta que a reunião do Conselho de Estado foi tão longa porque esteve a ser discutido o tipo de Contrato de Trabalho que se aplica, a partir de agora, a este governo. Terá sido decidido que é o Contrato de Trabalho com Termo Incerto.

Há muitos que não duvidam: 

« Este governo acabou por razões internas e exteriores como o levantamento popular de sábado. O PR tudo fará para lhe adiar a certidão de óbito até à apresentação de uma modelada proposta orçamental. A partir daí, o caminho estará traçado. Só faltarão o tempo e o modo.» 
José Medeiros Ferreira, ontem, no CM: Governo a prazo

«O estertor nunca é um espectáculo dignificante, mas o que estamos a assistir está para lá do suportável. Surpreendentemente, há quem ache que uma remodelação poderia dar um novo fôlego ao Governo. Esqueçamos, por instantes, que os cadáveres não respiram. Só alguém completamente alheio da realidade pode acreditar que existe um profissional competente que aceite fazer parte dum Governo que tem por estratégia a implementação duma política que vai levar o País ao mais absoluto caos.»
Pedro Marques Lopes, hoje no DN: O .estertor.
 .

22.9.12

A grande conspiração



Recomendo a leitura da crónica semanal de Miguel Sousa Tavares (sem link), com o título deste post, no primeiro caderno do Expresso de hoje. Sei que me repito, mas não me importo: já não são apenas os perigosos esquerdistas que alertam para o projecto ideológico subjacente aos «ajustamentos» de que estamos a ser objecto e vítimas e que o caracterizam mais ou menos explicitamente. 

Alguns excertos do texto, que me parecem «cristalinos»: 

«Há quase um ano que o venho escrevendo aqui: o programa económico deste Governo não se limita a tentar endireitar as contas públicas à custa de sacrifícios cuja insensibilidade e ineficácia são de bradar aos céus. Há também uma agenda escondida, que envolve uma vingança sobre a história, uma desforra de classe, quase uma alteração dos valores cívicos em que a Europa se funda. (...) 

O objectivo de Passos Coelho e do seu quinteto de terroristas económicos (Gaspar, Moedas, António Borges, Braga de Macedo e Ferraz da Costa) é outro bem diferente: eles querem mudar o paradigma económico, mesmo que para tal tenham de destruir o país, como, aliás, estão a fazer. Fiel aos ensinamentos dos seus profetas americanos, esta extrema-direita económica que nos caiu em cima acredita que o Estado deve deixar de gastar recursos com quem não garante retorno e concentrar-se apenas em apoiar, ajudar, estimular e dar livre freio aos poucos negócios escolhidos — que, assim, não poderão deixar de prosperar. (...) 

Isto tornou-se claro com a história da TSU. Acreditar que uma medida tão irracional, fundada em estudos que nem se atrevem a mostrar e desacreditada por todos, capaz de pôr o país na rua e ameaçar o tão louvado consenso social e político, terá sido tomada por mera incompetência e precipitação é tomá-los por estúpidos. O que se pretendia não era aliviar a tesouraria das empresas ou potenciar as exportações. O que se pretendia, como ficou evidente na entrevista do PM à RTP, era garantir uma “vantagem” permanente: a baixa de salários. Porque esse é um dos objectivos centrais desta cruzada: desvalorizar por todas as formas, incluindo por via fiscal, o valor do trabalho. O princípio é simples e, se atentarem bem, tudo segue uma ordem pré-estabelecida: primeiro, rever a legislação laboral, para tornar os despedimentos fáceis e baratos; por essa via, criar um batalhão de desempregados que pressionem o mercado de trabalho, fazendo baixar os custos salariais; assim, potenciar os lucros de algumas empresas de mão-de-obra intensiva; e, assim, garantir o sucesso do “ajustamento” da nossa economia, “so help them God”.

Lembrem-se do Hamlet: "a loucura dos poderosos não pode passar sem vigilância".» 
.

Maria Benedita, 91 anos



Esteve ontem em Belém. 

Conheço-a há muitos anos, nem sei dizer quantos. Pertenceu, tal como eu, a várias gerações de católicos que não se conformaram com a ditadura e que participaram, à sua maneira, nas lutas que a fariam cair. Em condições especiais: mãe de nove filhos, a MB pertencia a «boas famílias», do mais salazarista que imaginar se possa, tanto no plano estritamente político como religioso. Tinha dois cunhados que recordo como figuras absolutamente sinistras do clero português, um marido de que já falarei.

Esteve sempre «presente», sobretudo a partir da década de 60 e até ao 25 de Abril. Participou, por exemplo, na vigília da capela do Rato e, muito antes, vivi com ela um episódio que aqui recordo. 

Entre Abril e Novembro de 1967, desenvolveu-se todo um processo relacionado com a perseguição ao padre Felicidade Alves, uma das figuras centrais da história da luta dos católicos contra o fascismo, que era prior de Belém (paróquia a que MB pertencia) e que acabou por ser destituído do cargo. Houve inúmeras reacções ao facto e, a páginas tantas, um grande grupo de pessoas solidárias com o padre Felicidade dirigiu-se de Belém para o Patriarcado, onde se acantonou no átrio e numa pequena área do passeio, protegida por um gradeamento e por isso a salvo da intervenção da polícia que se perfilava frente ao palácio. Foi pedida uma audiência a Cerejeira que não apareceu mas enviou um secretário com a missão de dispersar os presentes. Ficará na memória de todos «Esta casa é nossa!», um grito repetidamente lançado nessa tarde, no seu jeito bem peculiar, por Francisco de Sousa Tavares. O Cardeal não nos recebeu, mas estava reunido, a essa mesma hora, com alguns paroquianos de Belém muito activos contra o padre Felicidade. Quando essa reunião terminou e os participantes desceram a escada, deu-se uma cena patética: uma dessas pessoas, salazarista ferrenho, viu, no meio da multidão que se encontrava no átrio, a mulher (a MB) acompanhada por uma das filhas. Gritou mandando-as para casa, elas não arredaram pé e choraram abraçadas, silenciosamente. Inesquecível, por muito tempo que eu viva.... 

Estive anos sem ver a MB. Em 2004, encontrei-a, já com 83 anos, lindíssima e muito calma como sempre, numa manifestação, frente ao palácio de Belém, contra a possível nomeação de Santana Lopes como primeiro-ministro. Disse-me então: «Sabe? Eu estou cansada mas era importante vir, não consegui ficar em casa.»

Ontem, no mesmo local, não a encontrei. Mas soube que lá esteve por uma imagem num vídeo e por esta fotografia que a Myriam Zaluar hoje me «ofereceu». Quando meteu conversa com ela, sem a conhecer, obteve como resposta: «Nós temos de lutar!»

Exacto. Continuemos.
.

Na noite em que o Conselho ignorou o povo



O presidente da República esteve reunido, durante oito horas, com cerca de duas dezenas de senadores do País. No fim e como previsto, um não-senador leu um comunicado. Inócuo, incolor e inodoro. 

Era de esperar outra coisa? Não, de modo algum. Já se sabia que se ia dizer que a coligação voltou a estar bem muito obrigada e que a TSU vai ser substituída por outras medidas aparentemente menos canhestras. E, também, que não faltariam uns parágrafos bem-pensantes sobre necessidade de desenvolvimento, de consensos, diálogos e generalidades do mesmo tipo.

Durante muitas horas, milhares de pessoas em Lisboa, e muitas outras espalhadas pelo país, deram ao conclave e aos seus membros a importância suficiente para esperarem, de pé, e lançarem gritos de protesto, de apelo, de raiva. Continuaram o que várias centenas de milhares de portugueses tinham começado alguns dias antes.

Mas não mereceram uma simples referência no longo texto do comunicado, por mais ligeira e não «comprometida» que fosse. Foram ignorados. Os senadores limitaram-se a vê-los, através dos vidros dos carros topo de gama em que saíram a correr do palácio.

Quando os mais altos responsáveis de um Estado ignoram, oficialmente, que o povo está na rua, com a dimensão e o civismo mais do que demonstrados, entram em guerra contra ele. São agressivos – violência é isto. 
.

21.9.12

Um momento alto



(Via Joana Manuel no Facebook)
.

À espera dos conselheiros...



Estiveram muitos, ainda estão muitos em Belém. Muitas palavras de ordem não são meigas, muitos cartazes também não. Mas cantou-se «Acordai!» e «Grândola, vila morena» também. O país está vivo.




.

Portas ao poder



As crónicas de Ricardo Araújo Pereira regressaram à Visão e eu com elas. Esta é a de ontem. 

«Portas é um dos poucos políticos do mundo com habilidade suficiente para criar uma crise enquanto se gaba de a ter evitado. 

Por isso, o principal aliado de Passos Coelho acaba por ser António José Seguro. (...) A minha proposta é que entre em palco ao som do apito da mira técnica. Aquele silvo contínuo que a televisão transmite quando a programação ainda não começou. Mesmo assim, receio que seja demasiado excitante.» 

Na íntegra AQUI.
.

Passa por mim em Belém



... num Conselho de Estado perto de ti.
.

Too much



«Nos 15 minutos que o Sr. Passos Coelho levou para anunciar o seu esquema, na televisão, no início deste mês, realizou a notável proeza de unir não só os partidos de oposição contra o seu plano "intolerável", como também sindicalistas, grandes empresas e economistas. (...) 

As políticas de Passos Coelho podem ter conseguido sublinhar as diferenças entre Portugal e a Grécia. Mas ele está também a descobrir que a austeridade não pode levada para além de um limite que é determinado pelos eleitores, quer estes protestem violentamente em Atenas ou marchem pacificamente em Lisboa.» 

Na íntegra, o texto de The Economist: The tipping point - How much austerity is too much?