23.3.13

A testemunha



A ler, com muita atenção, este texto de Maria José Morgado, publicado no Expresso de hoje (sem link). Mal, muito mal, vai um país cujos cidadãos perderam a confiança nos magistrados e nos tribunais.

«A procuradora sentiu o peso esmagador da inoperância da justiça para o combate a este tipo de corrupção perante a falta de confiança nos magistrados e nos tribunais.» A procuradora esperava pela testemunha mergulhada na serenidade mental dos momentos incandescentes. Sabia que tanto podia ter a prova completa de um crime de corrupção em marcha como o fracasso total das provas.

A testemunha, coautora de um crime de corrupção, havia-lhe pedido uma reunião para a denúncia do caso. Só assim seria possível conhecer as profundezas da história, fazer prova em tribunal e ter uma condenação justa.

Quando ela entrou lembra-se de ter reparado também na sua calma alinhada, no olhar aparentemente decidido.

A história rocambolesca podia ter um desfecho simples com a colaboração ativa da testemunha. Um interminável martírio de burocracias absurdas para obter um mero licenciamento dependente de muitas decisões, muitos estudos e agora em fase final. O decisor final propunha à testemunha o pagamento de uma comissão de 150.000 euros a troco do licenciamento dali a três dias. A testemunha oscilava entre a tentação egoísta de pagar para pôr fim a cinco anos de via-sacra de repartições públicas ou fazer a entrega à polícia da vil criatura, com custos porventura superiores ao do suborno pedido.

A procuradora explicou-lhe com clareza as vantagens do estatuto legal de proteção de testemunhas colaboradoras com a justiça, que beneficiaria de causas de exclusão da ilicitude desde que entregasse voluntariamente provas importantes. Era importante manter o encontro para o pagamento do suborno combinado entre ambos e nesse dia as autoridades prenderiam a pessoa em causa a coberto da sua revelação. Também lhe explicou que seria o único desfecho justo para um caso tão repugnante cuja punição dependia exclusivamente da sua colaboração espontânea e legal. A testemunha pediu um dia para pensar e voltou no dia seguinte. Chorava de revolta. Declarou que só confiava na pessoa à sua frente, que tinha medo de ser colaboradora num processo sujeito a tramitações infindáveis, a perseguições da comunicação social, a uma duração indefinida para no fim arriscar ser condenada por causa de uma colaboração que se viraria contra ela diante do tribunal inseguro perante as peripécias da prova e a ausência de confissão do decisor público corrupto. Pediu-lhe para esquecer para sempre tudo o que lhe tinha dito, inclusive o seu nome. Despediram-se com tristeza inexplicável.

A procuradora sentiu mais uma vez o peso esmagador da inoperância da justiça para o combate a este tipo de corrupção perante a falta de confiança das pessoas nos magistrados e nos tribunais. Perante uma certa tendência para tratar os arrependidos como traidores e bufos desprezíveis. Lembrou-se dos ensinamentos do juiz Falcone durante a investigação da máfia siciliana ao beneficiar da portentosa colaboração dos arrependidos que lhe entregaram toda a organização mafiosa. Conta-se que o fizeram por confiarem cegamente naquele homem.

Sentiu com amargura que havia um oceano intransponível de dificuldades entre aqueles que querem fazer justiça e a própria justiça — a falta de confiança na justiça.»
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Ainda há quem diga que o Bloco não é pioneiro?


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Óscar Lopes



Sobre o co-autor da História da Literatura Portuguesa, que tantas gerações nunca se cansaram de ler e de consultar, já quase tudo foi escrito, desde que a sua morte foi ontem anunciada. Do resistente ao fascismo e da sua militância no Partido Comunista, também.

Vale a pena ler uma entrevista que deu ao Público em Agosto de 1999, ele que nasceu no ano em que aconteceu a revolução bolchevista e em que muitos acreditam que uma Senhora apareceu em Fátima. Menino de coro na infância, activista com Vitorino Magalhães Godinho e outros socialistas, entrou para o Partido Comunista em 1944 e nele permanceu até à morte.

«Eu sei que não sou Napoleão, nem talvez doido, nem crítico, nem ensaísta, nem mesmo essencialmente professor, linguista ou político, assim como nunca me revejo, num estilo ou numa visão pessoal do mundo, a não ser pelas limitações ou pontos mortos a que se sujeita tudo aquilo que temos o ensejo e a gana de fazer algum dia. Não confio em qualquer título de auto-reconhecimento, porque tanto as nossas imagens a um espelho polido como as nossas imagens que os olhos alheios nos devolvem estão, não apenas erradas na sua simetria axial, mas medusadas pelo reflexo inverso do nosso próprio olhar que fita, e fixa, essas imagens.

Nunca me senti a fazer crítica: apenas se trata de obedecer a uns impulsos, sempre complicados e em conflito, no sentido de continuar, de algum modo, os movimentos também conflituais de que um texto é feito, ou de que mais evidentemente participa. Não faço linguística: trata-se apenas de, com a mais rigorosa metodologia disponível, reflectir sobre certos gestos do nosso espontâneo modo de falar, gestos que têm que ver com relações especiais de tempo, de atitude e de referência da comunicação social possível. Também não sou político por vocação: apenas nasci num povo em que a luta de classes só não será evidente para uma certa cegueira de espírito, e comungo de uma nação periodicamente renegada por classes dirigentes, que há precisamente seis séculos ardiam em fidelidade dinástica castelhana, há quatro séculos se queriam integrar no grande império pluricontinental dos Habsburgos, e que hoje se pretendem entusiasmados por uma Europa problemática, uma Europa muito diferente daquela que, no Canto III d'Os Lusíadas, avança, em 15 estrofes, desde os Urales até «onde a terra acaba e o mar começa», ao passo que a nova Europa, a que afinal ainda não pertencíamos detém-se no Oder e ainda parece ter a capital militar no Pentágono.»

[Excerto da alocução na entrega do Prémio Jacinto do Prado Coelho (1984), atribuída pela Associação de Críticos Literários em Maio de 1985, transcrita e actualizada in Cifras do Tempo, editorial Caminho, 1990]

(Texto via Rui Almeida no Facebook) 
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22.3.13

Impressionante




On May 28, 2008, Adam Le Winter and Director Jeff Orlowski filmed a historic breakup at the Ilulissat Glacier in Western Greenland. The calving event lasted for 75 minutes and the glacier retreated a full mile across a calving face three miles wide. The height of the ice is about 3,000 feet, 300-400 feet above water and the rest below water.

Chasing Ice won the award for Excellence in Cinematography at the 2012 Sundance Film Festival and the Best Documentary from the International Press Association. It has won over 30 awards at festivals worldwide. Still playing in theaters nationwide. 
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O bloco central apresenta o seu programa de governo




Roubado ao Porfírio Silva (título do post incluído).
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A ordem dos factores nem sempre é arbitrária

O que pertence ao povo



«O que está em causa em Portugal não é censurar um governo que nunca existiu. A urgência em Portugal não é a de baralhar as cartas gastas, para dar de novo. O inadiável em Portugal é permitir que o povo possa transformar a sua revolta em semente política de futuro. Os portugueses têm de ir às urnas para, serenamente, dizerem se querem, ou não, seguir pela estrada de destruição a que conduz a continuação do Ultimato da Troika. (...)

Uma votação maciça contra a agonia inútil do programa da Troika será a base de um novo contrato social. Será a nova fonte de legitimidade. O governo que vier ficará vinculado por um mandato claro: só será válido um rumo europeu que proteja e alargue as liberdades constitucionais, que garanta e aprofunde os direitos económicos e sociais, incluindo o direito ao trabalho. Ao votarmos esmagadora e pacificamente contra o Ultimato daremos também um sinal de esperança concreta para os outros povos europeus, incluindo o povo alemão. A democracia foi inventada na Europa clássica. A dignidade da pessoa, na Europa cristã. A ideia de que a liberdade é mais forte do que a opressão está no ADN da Europa moderna.»

Viriato Soromenho-Marques
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Sempre atenta!


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21.3.13

Carta aos desempregados



Ricardo Araújo Pereira, na Visão, mais sério e acutilante do que nunca.

«Antigamente estávamos todos a viver acima das nossas possibilidades. Agora estamos só a viver, o que aparentemente continua a estar acima das nossas possibilidades. Começamos a perceber que as nossas necessidades estão acima das nossas possibilidades. A tua necessidade de arranjar um emprego está muito acima das tuas possibilidades. É possível que a tua necessidade de comer também esteja. (...) Viver é um mal caríssimo.»

Na íntegra AQUI.
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«Guia de entrega»» de Américo Tomás e Marcelo Caetano



Numa tertúlia organizada pelo movimento «Não apaguem a memória!», no passado Sábado, no café Vavá, em Lisboa, muitas pessoas levaram objectos relacionados com a memória dos tempos da ditadura e falaram sobre os mesmos.

Uma dessas pessoas foi Martins Guerreiro, militar de Abril, que mostrou e leu um documento que depois lhe pedi pelo seu interesse histórico!

Como é sabido, no dia 26 de Abril de 1974, Américo Tomás, Marcelo Caetano, Silva Cunha e Moreira Baptista seguiram de avião, de Lisboa para o Funchal. Esta é a «DECLARAÇÃO DE ENTREGA DOS EX-MEMBROS DO GOVERNO». assinada pelo Governador Militar. (Clicar na imagem para ler.)

A «mercadoria» ficou depositada e seguiu mais tarde para outros destinos.
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Obviamente, pois claro



Fonte Luminosa, Lisboa, 21/3/2013
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Hoje ainda não é 1 de Abril



A ser verdade, é oficial: não estou psicologicamente preparada para rever e voltar a ouvir Sócrates. 

No estado em que tudo isto está, não vislumbro neste regresso prematuro qualquer benefício para a castigada pátria bem-amada. Está tudo suficientemente confuso para que não seja útil introduzir mais um pau em várias engrenagens.

Shame on you, RTP.
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