11.4.15

Brumas – e vão 8



Oito anos de vida tem este blogue e este é o 9326º dos posts que fui publicando e que foram escritos nesta casa e nos muitos países por onde fui andando.

Cresci a ouvir dizer que sou teimosa. Mas um amigo disse-me um dia que admirava a minha tenacidade e nem ele sabe como deu assim um ar de virtude ao meu grande defeito de infância. Seja como for, é talvez por isso que esta barraca continua activa quando tantas outras, na vizinhança, fecharam portas ou as mantêm apenas entreabertas. Chamem-me excêntrica que eu gosto.

Muito obrigada a todos os que passaram por cá nestes oito anos, ficam já agradecimentos antecipados para os que continuarem a fazê-lo.

La nave va!

A cooperativa PRAGMA, há 51 anos



Se é totalmente incorrecto fazer coincidir o início da oposição dos católicos ao salazarismo com a década de 60, não há dúvida que foi nela que se deu a verdadeira explosão de actividades daquela oposição. Dois factores contribuíram decisivamente para que isto acontecesse: dentro da Igreja, as perspectivas de abertura criadas pelo Concílio Vaticano II e o conservantismo da Igreja portuguesa; na sociedade em geral, a ausência de liberdades elementares e a manutenção da guerra colonial, com todas as insuportáveis consequências que arrastou. Ao invocarem a sua condição de católicos em iniciativas cada vez mais radicais, aqueles que o fizeram atingiram um dos pilares ideológicos mais fortes do regime e este foi acusando o toque.

É certo que se tratou de uma oposição que manteve sempre uma certa informalidade organizativa. Concretizou-se em iniciativas e instituições, mais ou menos ligadas entre si através dos seus membros, mas, em parte propositadamente, sem uma estruturação sólida e definida. Daí derivaram fraquezas e forças e, definitivamente, características específicas.

A Pragma foi uma dessas instituições – com uma importância e projecção ainda relativamente desconhecidas. Foi fundada por um grupo de católicos, em 11 de Abril de 1964, como uma «Cooperativa de Difusão Cultural e Acção Comunitária». Porquê uma cooperativa? Porque foi a forma de tirar o partido possível de uma lacuna legislativa: as cooperativas não tinham sido abrangidas pelas limitações impostas ao direito de associação e, por essa razão, nem os seus estatutos eram sujeitos a aprovação legal, nem a eleição dos seus dirigentes a ratificação pelas entidades governamentais. Forçando uma porta entreaberta por um lapso do poder, os fundadores da Pragma puseram mais uma peça no puzzle da oposição ao regime – cuidadosa e imaginativamente.

Desde o seu núcleo inicial, a Pragma não se restringiu ao universo «intelectual» e incluiu também sócios provenientes do meio operário, nomeadamente dirigentes e militantes das organizações operárias da Acção Católica. Os horizontes abriram-se rapidamente e muitos dos seus futuros membros nem sequer seriam católicos. Aliás, a Pragma acabou por funcionar também como uma espécie de plataforma aglutinadora de elementos da esquerda não-PC que, por não estarem integrados em qualquer estrutura organizativa, nela identificaram um espaço de debate e de encontro (foi o caso, por exemplo, de muitos activistas das lutas estudantis de 1962).

Subjacente a este novo projecto estava, obviamente, um posicionamento de oposição ao regime como um todo, à falta de liberdades, à guerra de África. Pretendeu-se explorar mais uma janela legal de oportunidades, complementar outras iniciativas, criar possibilidades para acções concretas e úteis, aumentar a consciência política e social de um número cada vez maior de pessoas.

Mais detalhes aqui.
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Mais uma candidata?


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Andam a vender pó marado à AT

Tempos excepcionais (II)



Na sequência de um texto publicado há duas semanas e que aqui referi, Manuel Loff escreve hoje, no Público, um segundo artigo de opinião sobre os mesmo temas. Ambos se inscrevem na linha do Manifesto para uma esquerda que responda por Portugal, de que foi o primeiro subscritor.

«Desde que a crise se instalou no nosso país, os eleitores portugueses passaram a castigar mais duramente cada governo na eleição seguinte do que o fizeram no passado. Até 2011 não deixaram de usar os dois jogadores do rotativismo para o fazer: o PS contra o PSD, o PSD contra o PS. Ao fim de quatro eleições desde 2002, verificam, mais rapidamente que no passado, que não têm conseguido mudança alguma. Muda o condutor, mas o trajeto é o mesmo.

A grande maioria de quem votar, não se duvide, vai querer castigar a direita de Passos e Portas como já o fez, por muito menos, em 2005. A grande diferença é que o velho instrumento que usavam – o PS – parece-lhes ainda menos fiável do que antes. Já em 2011, ele próprio foi castigado por ter começado a mesma austeridade que a direita logo veio agravar. Só quem acredita que os portugueses escolherão simplesmente entre o mau e o menos mau acredita que o PS de Costa ganhará o apoio deste oceano de descontentes e vencerá confortavelmente as eleições. 2015 não é 2005, muito menos os anos 80 ou 90. (...)

A mudança também não virá daqueles que têm alimentado esta mentira de que o PS não dança à esquerda porque não tem par disponível. Quem deixou voluntariamente de estar à esquerda não quer dançar com ela. É por isso que os novos pretendentes a dançar com o PS não são nenhuma versão portuguesa do Podemos espanhol ou do Syriza.

A mudança que mude a sério o curso da nossa vida colectiva, emancipe o Estado da tutela de Bruxelas, do FMI e dos grupos económicos que já sequestraram uma parte importante dos nossos recursos, e retome o caminho da democracia social, só chegará se a esquerda que nunca deixou de ser de esquerda e que se compromete a romper com a austeridade reunir força política suficiente para obrigar à viragem. A tal ponto que seja alternativa viável ao PS e à direita. Aqui como em Espanha, como na Grécia, como em toda a Europa. Essa esquerda – a CDU e o Bloco, fundamentalmente – pode continuar a apresentar-se separada às eleições, apesar de ter saído junta à rua nas grandes manifestações dos últimos anos, partilhar militância sindical, votar da mesma forma no Parlamento. Mas acho que já deveria ter percebido que, dessa forma, limita a sua capacidade de atracção de muitos daqueles que querem forçar a mudança mas que não acreditam que ela se faça no mesmo quadro político que até agora tivemos. Este deveria ser o momento para discutir, abertamente e sem sectarismos, a cooperação entre quem, ao longo destes anos, assegurou o enorme esforço de resistência à devastação social, mas que, oferecendo em separado propostas coerentes e sem ambiguidades contra a austeridade, arrisca-se muito a não conseguir transformar em votos a maioria da mobilização cidadã destes anos. A memória das tensões vividas na resistência e na Revolução é muito da identidade de comunistas e bloquistas – mas não é uma memória vivida na primeira pessoa pela grande maioria dos seus activistas e dos seus eleitores. O Bloco nasceu cheio de preconceitos políticos e culturais contra o PCP; uma grande parte dos comunistas responde(u)-lhe na mesma moeda. Ao fim de 16 anos, e das tensões internas por que os dois partidos passaram (o PCP em 2000-02, o BE em 2011-13), a verdade é que se têm encontrado no mesmo lado da barricada. Em tempos excepcionais, parece-me evidente que deveriam dar passos excepcionais. E mostrar a quem não se resigna a que tudo fique na mesma que eles partilham um espaço comum onde, no respeito da diversidade, se não trai a confiança. E que pode ser decisivo.» (Realce meu.) 
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Dica (35)




«We wouldn’t be fit for the purpose if we were not prepared to take the political costs which are necessary to stabilize Greece and lead it to growth, but let me be very precise on this, we are prepared to make all sorts of compromises, we are not prepared to be compromised.» (Yanis Varoufakis) 
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10.4.15

Desgeopolitizados



«Hoje a poeira está mais assente do que ontem. que estava tudo muito excitado a cascar na ida de Tsipras ao salão de Putin, mas é impressivo (para não usar palavras menos caridosas) que muito comentariato europeu ache que os periféricos não têm "activos geopolíticos" e que, por isso, que algum desses ex-PIIGS queira fazer algo em torno do tema seja, de imediato, gozado, insultado, ridicularizado. O ponto de "desgeopolitização" chegou tão baixo na escala que só Merkel ou Hollande, para esse comentariato, têm direito a jogar esse monopólio seja em Beijing, em Moscovo, em Teerão ou Tel-Avive, por exemplo. Quanto muito, aos periféricos "desgeopolitizados", é concedido o favor de fazerem algum caixismo-viajante de feira exportadora ou promoção de vistos gold. Ora, quando se empurram países que têm história e activos geoestratégicos reais (não de ficção) para a sarjeta, o feedback da coisa daqui a algum tempo não vai ser educado.» 

Jorge Nascimento Rodrigues, no Facebook.
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Recordar é viver



A Capital, 11.04.1975, recordado no Expresso diário de hoje.
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Socialistas nunca, nunca desiludem

E a cultura?



«A recente morte de Manoel de Oliveira e de Herberto Hélder, que motivaram horas de abertura nos telejornais televisivos e a semântica do nada dos políticos pesarosos, poderiam dar a noção que Portugal é um País sitiado pela dívida e pelo défice, mas florescente em termos culturais. Um equívoco. O panorama televisivo, onde a generalidade dos portugueses bebe o seu conhecimento, é revelador da mediocridade reinante. A cultura portuguesa serviu sempre como medalha da classe política em tempos eleitorais, perante a própria comiseração dos criadores, muitos deles a encararem a produção cultural como uma obrigação única do Estado. (...) Os homens falam mais a partir de "smartphones" do que entre si, as frases foram substituídas por "slogans" no Twitter. As leituras são superficiais e feitas na internet. O património só é encarado em termos de lucro turístico. Nada que admire: as nossas elites são há muito um exemplo de falência cultural. (...)

Numa era em que a sociedade de emprego desapareceu (mas ainda se finge que é um desígnio político), em que a economia de mercado foi substituída em parte por uma economia especulativa, em que a sociedade de consumo foi transformada num fosso em que os que têm muito consomem pouco e os que desejam o consumo não têm dinheiro para o fazer, a cultura deixou de fazer parte das prioridades. Porque é-se alguém de sucesso pelo que se tem, não pelas ideias que traz ou partilha. (...)

A fraca inteligência da elite política nacional, pobre até na forma como se despediu de Manoel de Oliveira e Herberto Hélder, mostra o desastre em que vivemos. Tudo ficou exemplarmente explicado quando o ministro Aguiar-Branco disse, sobre a morte de Silva Lopes, que "era uma felicidade ter partido no mesmo dia de Manoel de Oliveira".»

Fernando Sobral

9.4.15

Dica (34)

Fluxo de inconsciência



Ricardo Araújo Pereira, na Visão de hoje, a propósito das declarações de Aguiar Branco sobre a «felicidade» que Silva Lopes teve de partilhar o momento da morte com Manoel Oliveira:

«É possível recolher, na estranha amálgama de vocábulos proferidos pelo ministro, três magníficos conceitos novos.
O primeiro conceito é o do óbito sincronizado. (...)
O segundo conceito é o do falecimento de prestígio. (...)
O último conceito é o do defunto pendura. Não se pode ignorar que, neste jogo de passamentos, há um defunto mais prestigiado que dá uma boleia de status ao outro, a caminho da eternidade. Quando pensávamos que a morte nos torna iguais uns aos outros, Aguiar Branco consegue descobrir ainda um restinho de desigualdade, uma pole position rumo ao infinito.»

Na íntegra AQUI.
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