13.10.18

13.10.1921 – Yves Montand



Yves Montand, de facto Ivo Livi, nascido italiano e naturalizado francês, cantor e actor, que começou por ser comunista para deixar de o ser mais tarde, faria hoje 97 anos.

Pretexto para recordar algumas das suas interpretações, entre muitas.


Paris, Paris:






Porque é tempo delas:




E, inevitavelmente:


.

Os «polícias» da net



Há alguns dias divulguei aqui um vídeo sobre as condições em que, nas Filipinas, milhares de pessoas são contratadas para «limparem» a net e em que contextos terríveis e traumáticos trabalham. Alguém me disse então, no Facebook, que isso também existe em Portugal. Aqui fica a confirmação:

.

O Orçamento da burocracia de Bruxelas



José Pacheco Pereira no Público de hoje:

«Ele é preciso estar sempre a repetir as mesmas coisas, porque há uma intencional dureza de ouvido, que ao menos vale a pena incomodar. Repito: o Orçamento de 2019 que vai ser apresentado ao Parlamento português não é nem português, nem é decidido pela Assembleia da República, nem é o que vai ser aplicado, nem é o resultado das “regras europeias”, não é nenhuma coisa daquelas com que vai ser designado. Voltando a Orwell, é um exemplo primoroso do doubletalk parecido com a designação da defunta República Democrática Alemã, que não era nem república, nem democrática, nem alemã.

Voltamos às repetições: o Orçamento não é português, é estrangeiro, subordinado aos interesses dos nossos credores e às políticas que eles impõem, que não são “portuguesas” num aspecto fundamental — é que não servem o interesse nacional, nem as necessidades de desenvolvimento do país, mas apenas a submissão às políticas alemãs e à vulgata política da troika disfarçada de inevitabilidade económica. O Orçamento serve o pagamento da dívida transformado no alfa e no ómega de toda a política de défice zero. Há outras coisas sob o mesmo céu, mas aqui o sol não nasce para todos.

O Orçamento não é aprovado pelo Parlamento português, que apenas assina de cruz um texto que é decidido em Bruxelas e no Eurogrupo, que tem um direito efectivo de veto sobre as suas medidas. A perda do poder orçamental do Parlamento português, nunca discutida, nem decidida pelos portugueses, é uma das mais graves entorses da nossa democracia. O Parlamento, cuja função orçamental é crucial na identidade de qualquer parlamento em democracia, está castrado nessa função e uma elite, que fala fininho como os eunucos nas óperas antigas, faz a rábula de uma autoria e de um poder que não tem. Também não é verdade que a perda de soberania do Parlamento seja o resultado da adesão aos tratados europeus, visto que muitas das “regras” que recitamos como um mantra não estão em nenhuns tratados, alguns dos quais, como o de Lisboa, foram “vendidos” com dolo, apresentados como reforçando os poderes dos parlamentos nacionais. Quem conheça a burocracia europeia em acto, com a sua enorme arrogância, ao considerar que governa melhor os países da União do que os políticos eleitos, sabe muito bem como se fez e com quem se fez o caminho para a submissão de países como Portugal. E acresce, repetindo-me, que o Tratado Orçamental e o Eurogrupo não são instituições da União Europeia. E, repetindo-me, de novo, o Orçamento aprovado vai ser tão ficcional como a Branca de Neve. Como já aconteceu aos orçamentos anteriores, o Orçamento real é o Orçamento resultante das cativações dentro do Orçamento de fachada.

Nestas matérias está-se como a “voz clamando no deserto”. O que se ouve de imediato como resposta é uma variante do discurso do ocupado que interioriza o discurso do ocupante, uma soma de argumentos ad terrorem, de que quem contesta o oito quer o 80, ou do desabar cataclísmico de tudo, à mais pequena contestação do estado de coisas. É um discurso de quem tem medo de levantar um dedo que seja, e que começa por se apresentar como “realista” e contrariado pela ocupação, para acabar por ser entusiástico com o ocupante.

Na história, é um discurso conhecido e, sem querer ser excessivo, é muito parecido com o discurso dos franceses depois da derrota de 1940, em que começaram por pregar uma atitude de “realismo”, face à ocupação alemã, dizendo que ser patriota era apoiar Pétain, que obteve a “pacificação” da França derrotada. Diziam que a soberania muito limitada que os alemães permitiram durante algum tempo garantia a continuidade da França no fim da guerra, claro, se ela fosse vencida pelos alemães. Terminou tudo como se sabe, com a “colaboração”, com o fim da zona “livre”, com os italianos a ocuparem a Riviera e os alemães a França toda, e a guerra civil com todas as suas violências. A excepção solitária foi De Gaulle e alguns dos seus companheiros que, esses sim, salvaram a França.

A discussão enganadora sobre o Orçamento e as migalhas de decisão que o Governo e o Parlamento ainda têm retiram conteúdo à política em democracia, ou seja, tornam-na menos democrática. O PSD, o CDS e PS são partidos do Tratado Orçamental, o BE e o PCP por razão da “geringonça” não têm qualquer autonomia nesta matéria. À mais pequena crise de fora, vai desabar tudo. E depois queixem-se do populismo.»
.

12.10.18

A Mafalda é que sabe


.

12.10.1960 - O sapato de Nikita


Há 58 anos, durante uma agitadíssima Assembleia Geral da ONU, Nikita Kruschev tirou um sapato e bateu furiosamente com ele na sua bancada.

O incidente produziu-se num momento de grande tensão na Guerra Fria, cinco meses depois de um avião-espia americano ter sido abatido em território soviético e quando o recentíssimo governo de Fidel Castro se aproximava cada vez mais da URSS.

Na origem do gesto de Kruschev esteve uma intervenção do representante das Filipinas, em que este acusou a União Soviética de «colonizar» os países da Europa de Leste e os privar de direitos civis e políticos.

Seguiu-se uma sequência rocambolesca: Nikita protestou com o sapato, o presidente da Assembleia tentou controlá-lo batendo na mesa com um martelo, partiu-o, apagou a comunicação das traduções simultâneas e interrompeu a sessão.

Nos dias que se seguiram, não se falou de outra coisa - num mundo muito menos mediático do que hoje, foi «um sucesso».

>

(Fonte)
....

Brasil: Isto não é um poema, é um desabafo!




Obrigatório ouvir.
.

O fim da realidade



«Não é "1984" de George Orwell que define estes dias. Nem, talvez, o injustamente esquecido "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley. Embora uma frase deste anda ecoe: "A ditadura perfeita terá a aparência da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão." Talvez o mais visionário de todos, sobre este novo tempo, tivesse sido Philip K. Dick. Foi o desaparecimento da realidade que ele antecipou nestes tempos de Donald Trump, de Jair Bolsonaro, de Salvini, Órban ou Steve Bannon. Ou dessas figuras menores e vazias como André Ventura. Em que o caos destrói, sem remorsos, a pretensa ordem e o desarticulado contrato social no qual julgávamos viver. Muitos, nesta era de globalização económica e financeira, se espantam com o regresso das fronteiras estanques. Com os votos em Bolsonaro, arauto de um Brasil que quer ordem, porque todos necessitam de acreditar em algo. Não se percebe a admiração: se escutarmos música este é o tempo definido por George Clinton e os Parliament, com o seu álbum novo, "Medicaid Fraud Dogg" ou, se atentarmos à cultura, pelo significado do quadro de Bansky adquirido por 1.185.000 euros e que se autodestruiu segundos depois. Porquê a admiração? Alguém comprava um nome e não uma obra. De que serve a realidade nestes dias?

Nestes dias em que a democracia vive os seus piores momentos, e que o Estado do Bem-Estar se afunda no mal-estar das sociedades, em que os partidos tradicionais não vislumbram a mudança climática e dos costumes, os erros acumulam-se para conduzir à chegada de messias. A pobreza acumulada, o fim da classe média por causa da austeridade e do final da lógica de ascensor social, só poderiam conduzir a este beco com uma única saída: as ideias musculadas. A vitória de Bolsonaro que tanto escandalizou as almas castas entre nós é o fruto podre de uma sociedade perdida. É a crise da cultura, da ética e da verdade. É sobretudo o fim da palavra. Porque, como sucedeu nos EUA, deixou de se cumprir a democracia: não há debate de opiniões. Não se discutem ideias, programas. Tudo o que é importante discutir é tratado com leviandade ou com um grande cansaço. Afunila-se tudo: já não importa o conteúdo, mas sim o que se dizer como "slogan". Os factos deixaram de importar, porque já ninguém se importa em saber se eles são verdadeiros ou não. As redes sociais tornaram-se o laboratório destes dias: frases com ódio extremo devoram qualquer tentativa de uma discussão franca. Não há espaço para o debate, só para o ruído. Tudo é "heavy metal" ou "rap" do pior. No Brasil, o culpado não é Bolsonaro nem quem tem um projecto para "limpar" o Brasil: é também de todos os que, como Lula da Silva ou a inefável Dilma Rousseff (cuja arrogância é impossível esquecer quando visitou Portugal nas alturas da intervenção da troika), em vez de criarem uma aliança, julgaram poder vencer sozinhos o "tsunami" do "contra". Erraram e agora o Brasil está à beira do abismo. Mas, na Europa, não podemos sorrir: os mesmos erros estão a cometer-se aqui. A realidade, como anteviu Philip K. Dick, evaporou-se.»

.

11.10.18

Gabriela Moita



Vale muito a pensa ouvir esta entrevista, transmitida ontem pela RTP3.
.

Dica (816)




«La democracia brasilera recibió un nuevo y duro golpe. Entenderlo es una de las condiciones necesarias para seguir luchando por ella. Los fascistas pueden tener victorias, pero éstas serán siempre pasajeras, mucho más efímeras de lo que ellos creen. Porque el fascismo está condenado a ser siempre derrotado por los que seguimos, a pesar de todo, convencidos de que la esperanza vence al miedo.»
.

O silêncio dos bons



«"O que me preocupa não é o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética. O que me preocupa é o silêncio dos bons." (Martin Luther King)

Como falar sobre comunicação nesta semana sem referir as eleições presidenciais brasileiras? Os ângulos possíveis são muitos, todos vão de alguma maneira incomodar uma ou ambas as partes políticas envolvidas.

O meu Tio Olavo costumava dizer que "o fim do mundo não é esse fim do mundo todo que as pessoas pensam". Costumava. Mudou de opinião. É que ele tem, como eu, uma quantidade imensa de brasileiros a frequentar o timeline do Facebook.

Onde antes pululavam gatinhos e frases bonitas assinadas por Machado de Assis, Fernando Pessoa e Clarice Lispector, mesmo que nunca ditas pelos próprios, agora há ofensas em caixa alta, ameaças seguidas de múltiplas exclamações e muitos emojis zangados ou a vomitar.

As recentes eleições transformaram as redes sociais brasileiras em batalhas campais, em que familiares se ofendem, amigos se insultam, conhecidos se bloqueiam.

Isto nem é muito novo, apenas ganhou mais expressão. Desde as precursoras caixas de comentários dos jornais online (lar das mais bizarras opiniões, reduto dos que só são valentes por trás do anonimato) que a insanidade verbal se tornou o novo normal. O problema é que o que era só virtual vazou para o mundo real.

O provável futuro Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, já avisou que o que os seus militantes fazem não é da conta dele. Ou seja, assobiou para o lado pois sabe que uma vez a porteira aberta a boiada não tem mais controle.

Como todos os líderes extremistas, Bolsonaro funciona como o fulano que cobre a floresta de querosene, mas não se considera incendiário, pois quem levou o isqueiro foi um amigo. E, assim, alguns milhões de brasileiros mostram ao mundo o que há de mais feio, rude e violento.

Peço desculpas antecipadas aos eleitores de Bolsonaro que não fazem parte da imensa militância fascista que o acompanha. Mas, diz-me com que votas e tirarei algumas ilações sobre quem és.

Para os que gostam de relativizar, o argumento que os petistas também eram e são chatos e radicais, apesar de verdadeiro, não serve como justificativa para os péssimos comportamentos da nova direita.

Os novos bárbaros misturam-se aos bem-intencionados, desinformados, ingénuos ou revoltados contra o sistema criando o caldo de cultura que dá força a um verdadeiro gangue que quer ditar comportamentos ("Morte aos maconheiros", "Vamos acabar com a ditadura gay", "Quem adora o diabo que vá para o inferno"), reativar preconceitos ("Lugar de negro é na senzala", "Brasil: ame-o ou deixe-o", "Mulher é ser inferior"), regredir a um passado que só na cabeça deles era bonito, limpo, honesto, seguro, onde todos eram felizes e os rios eram de chocolate.

A narrativa de Bolsonaro é tão eficaz quanto irreal. O que faz lembrar Aristóteles que alertou na sua "Poética" o quanto o ser humano tinha necessidade de ficcionar o mundo. Só tenho pena que o meu Brasil está a um passo de optar em se tornar um filme de época, em preto e branco e de terror.»

.

10.10.18

Nem precisa de legenda



É Hong Kong, obviamente.
.

Há 55 anos, calou-se Edith Piaf



Uns dizem que morreu em 10 de Outubro de 1963, outros que foi no dia seguinte, poucas horas antes do seu grande amigo Jean Cocteau.

Piaf colou-se para sempre à «pele» da minha geração, como tantos outros cantores sobretudo franceses, quando este país era quase tão sombrio como os vestidos pretos que ela nunca largou. Mas acrescento uma nota pessoal: acabada de regressar de Portugal, onde tinha vivido a primeira parte da crise académica de 1962, eu vi-a e ouvi-a, em Lovaina, no mesmo dia (vim a sabê-lo algumas horas mais tarde) em que 1.500 estudantes foram presos na Cantina da Cidade Universitária de Lisboa. «L'hymne à l'amour» ficou para sempre associado, em mim, ao Dia do Estudante.



Cantou Paris como poucos:



Mais:







.