Na praceta onde moro, o estacionamento passou a ser pago há cerca de um ano. A ganância é tal que nem o espaço onde termina a passagem de peões foi poupado: transformaram-no em lugar para um carro…
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27.7.19
27.07.1970 – O dia em que Salazar morreu
A ler: este texto de Diana Andringa, então presa em Caxias, em que ela descreve como a notícia foi recebida: O velho foi à viola.
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A Europa nunca foi fascista
«Quanto mais migrantes vierem, mais diluídos serão os nossos valores cristãos", afirmou o bispo de Szged, uma cidade no sul da Hungria. O bispo falava também em nome do seu primeiro-ministro, Viktor Orbán, mentor de várias medidas antidemocráticas, contra a imprensa, os juízes ou a universidade. Ideia semelhante foi lançada em Portugal, há uns dias. Como chegámos aqui? O que nos tem trazido de um mundo liberal, de reforço democrático, desde a queda das ditaduras do sul e do Muro de Berlim, a um mundo em que o discurso do mal se banaliza? Em vez de respondermos diretamente a estas perguntas e assim ceder à agenda política de quem as causa, recordemos do que falamos quando falamos da Europa. O resultado, como veremos, é altamente positivo. A Europa nunca teve donos e não será desta que os terá. A Europa é de quem nela vive e ninguém tem o poder de decidir quem tem esse direito. Procuremos ver o todo através de algumas partes.
Corria o ano de 711 quando uma estirpe de seguidores de Maomé, vindos de onde hoje é a Síria, aportou às costas da Península Ibérica, onde, organizados politicamente, ficaram durante mais de quatro séculos; e para sempre no sangue, na cultura, na ciência ou na tecnologia. Ficaram simplesmente porque trouxeram coisas novas que a todos beneficiou e porque assim funcionava o mundo. Esta troca não foi apanágio do sul, pois a Europa cruzou influências com o exterior em todos os quadrantes. Os reinos árabes peninsulares seriam derrotados por reinos cristãos. Seguiram-se séculos de afirmação dos poderes centrais - e isso em toda a Europa. Todavia, a religião que serviu como distinção perante o exterior cedo se transformou na base da guerra dentro de fronteiras. Desses confrontos religiosos resultaram reinos ou impérios cada vez mais fortes, divididos pelas diferentes faces do cristianismo. A leste manteve-se o espectro da fronteira muçulmana.
Este quadro, naturalmente incompleto e frágil, define apenas a grande organização política. Se o seguíssemos acriticamente, veríamos a ele associados o nascimento dos Estados-nação, o advento dos impérios autoritários, assim como dos Estados fascistas e do estalinismo. Mas temos de olhar para além disso, temos de olhar para a Europa dos indivíduos e dos povos, que foi crescendo sob essa ordem superior.
A revolução comercial medieval, dentro e depois fora das fronteiras do continente, trouxe novas formas de poder político, que viriam a traduzir-se nos Estados livres e abertos do nordeste europeu. As revoluções do conhecimento e científica que se seguiram, as ideias do iluminismo, acabariam por libertar uma das maiores nações europeias, a França, numa revolução que viria a deixar um importante legado nos Estados alemães ocidentais, e nas penínsulas ibérica e italiana. Não foi um movimento de um só sentido, mas sim de avanços e recuos. Todavia, se escolhermos um qualquer ponto de um qualquer século da história europeia, somos obrigados a fazer um balanço positivo dos avanços da força dessa Europa dos povos.
O predomínio da vontade dos muitos sobre os poucos é uma das características mais importantes da história da Europa e essa persistência faz-nos pensar que assim continuará. Mas é preciso estarmos atentos às tentativas de contrariar esse domínio e isso deve ser feito de forma estruturada, institucional, e não casuística e individual. O domínio dos povos depende da força de organização dos povos. A invenção da democracia universal, em que todos votam, é o melhor exemplo disso.
As palavras do bispo e do primeiro-ministro húngaro estão a ser replicadas em outros países europeus. Precisamos de estar atentos e de estudar e recordar o que a Europa significa. É um erro cair na ratoeira de se discutir estes temas com base na retórica nacionalista ou racista. É preciso contrapor ideias sobre o que é a Europa, ideais da respetiva história.
E há vantagens neste jogo. Os nacionalistas e racistas não conseguem unir-se para além das fronteiras, porque se rejeitam entre si. Quem apela ao "cristianismo" na Hungria olha com superioridade a quem faz o mesmo apelo em Portugal, país com uma herança considerada demasiadamente pesada dessa mesma Síria de onde vêm os visados dos nacionalistas húngaros. E isso não é uma ironia da história: é a própria história. Ninguém, por muito que tente, consegue subir na escala social através do racismo ou do nacionalismo. A Europa, simplesmente, não funciona assim. Nem o mundo.»
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26.7.19
As "cobras" de Cabrita
«Esta sexta-feira, o ministro Eduardo Cabrita, depois de recusar responder às perguntas colocadas pela jornalista da Renascença e por outros colegas de televisão, esperou que as luzes de apagassem e, já com os microfones desligados, mimoseou os repórteres com o epíteto de “cobras”. (…)
O ministro da Administração Interna, mesmo sem o querer, mostrou, na sua arrogância e falta de cultura democrática, o que pode constituir a prática corrente de um futuro não muito longínquo. Basta lembrar a célebre frase de Jorge Coelho “Quem se mete com o PS leva” num contexto da já mais do que provável maioria absoluta. (…)
Para o Governo este é “um não-caso”. Os kits distribuídos no quadro dos programas "Aldeias Seguras" e "Pessoas Seguras" são kits de demonstração sem qualquer valor de proteção pessoal como insiste a Proteção Civil.
E nós somos todos parvos? As lanternas também não dão luz? Os rádios não funcionam?
Vamos só pensar dois minutos: o Governo faz uma grande campanha contra a propagação da SIDA e fornece um kit onde para ilustrar a necessidade de sexo “seguro” fornece uma embalagem de preservativos furados. Se existir um 'boom' de gravidezes indesejadas, vem depois dizer candidamente que não eram “obviamente” para utilizar?»
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Podemos ser parvos, mas não somos estúpidos
«A Protecção Civil garante que os kits fazem parte de uma mera campanha de sensibilização (e não devem ser usados em incêndios), mas o Ministério da Administração Interna chamou-lhes “kits de autoprotecção e golas de protecção fumo” num balanço relativo aos incêndios rurais de 2018 onde se fala dos programas Aldeia Segura e Pessoas Seguras.»
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Do resultado previsto
«A previsibilidade em política só não antecipa a morte do artista se ainda houver terra para queimar após vindima. Que foi chão que deu uvas, isso todos dirão.
Rui Rio tem lidado, desde o seu primeiro dia como líder do PSD, com uma tropa de execução que não lhe permite um sopro de descanso. Nada como a disputa eleitoral magna de Outubro para clarificar de vez o que lhe sopram pelas costas e por cima do ombro. Com a exclusão de Maria Luís Albuquerque das listas para as próximas eleições legislativas, por não querer dormir com o inimigo, Rio é agora o líder da oposição interna a si mesmo. Estendeu uma passadeira à sua rendição. O mal pode ser aterrador mas nunca foi desconhecido. Está de fora mas vem de dentro, totalmente complacente. O PSD vive o momento em que vê na autofagia a sua solução.
As eleições são provas exigentes para quem não consegue fazer a digestão dos resultados. A obra-género de Rui Rio será sempre incompleta enquanto o partido que dirige teimar em fazer Brexit do país, preocupando-se apenas com as guerras intestinas. Contrariamente a Boris Johnson, outro primeiro-ministro improvável, Rio não sucede. Não sucede a Passos, sucede ao Diabo que não veio e teve que passar por três eleições, duas internas e uma europeia. Se, relativamente ao agora primeiro-ministro britânico, as expectativas são tão baixas que só muito dificilmente poderá deixar de ser surpreendente, Rio só será capaz de continuar a surpreender pela forma como resiste ao desfile tortuoso de apunhalamentos. Assim se sente a orfandade social-democrata: os órfãos de Passos e do neoliberalismo acreditam mesmo que a "geringonça" foi uma máquina usurpadora de poder e Rui Rio um colector de restos.
As sondagens raramente nos informam da tendência da improbabilidade. O piscar de olhos enamorado de Santana Lopes ao PSD é a assunção de que, não podendo esvaziar mais o que já está vazio, prefere fazer de conta que não bateu com a porta dos fundos, há poucos meses, à procura de estrondo. A maçonaria que Rui Rio culpa pela hecatombe da mais recente sondagem que coloca o PS mais perto da maioria absoluta, também deve andar a executar rituais de iniciação nas estruturas locais do partido. Uns, autoexcluem-se. Outros, fazem finca-pé no confronto sabendo o desgaste que causam à liderança. José Afonso cantava "das eleições acabadas/ do resultado previsto/ saiu o que tendes visto/ muitas obras embargadas". Estamos a cerca de dois meses das eleições e é o que vemos.»
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25.7.19
Força, força, companheiro Santana Lopes
“As pessoas estão muito preocupadas com a extrema-esquerda, com as políticas que cheiram a gonçalvismo. Há a hipótese de dois terços da próxima Assembleia da República ser assim, nem quero pensar nisso.”
Ena! Gonçalvismo à vista!!!
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Prestar contas (II)
«O poder político democrático não é uma prerrogativa herdada, não é um prémio, uma honra ou recompensa por serviços ou favores prestados. Por isso mesmo também não é um poder vitalício.
É apenas, simplesmente, o exercício de um mandato atribuído por força da vontade expressa pela maioria dos cidadãos em eleições livres e independentes. Estão, portanto, excluídas da qualificação do poder político, em democracia, as relações de fidelidade e vassalagem associadas às ditaduras e, no passado, aos regimes senhoriais. Em vez disso, o mandato implica responsabilidades específicas dos eleitos para serem cumpridas num período de tempo limitado e de cuja execução se espera leal e tempestiva prestação de contas aos mandantes, ou seja, aos cidadãos eleitores.
Já falta pouco mais de dois meses para que a maioria e a Oposição enfrentem novas eleições e todos respondam perante o povo que os elegeu.
No mandato que agora finda, destaca-se como extraordinária aquisição política do próprio regime constitucional, o reforço notável da dimensão parlamentar da democracia representativa desenhada pela Lei Fundamental. O acordo parlamentar firmado pelo PS com os Verdes, o PCP e o Bloco de Esquerda, na sequência das eleições de 2015, permitiu à Esquerda constituir-se como uma maioria capaz de assumir os compromissos da campanha eleitoral e de os cumprir, escrupulosamente, ao longo de uma legislatura inteira. Pelo contrário, a Direita revelou-se incapaz de compreender a sua derrota e ficou dividida entre a fidelidade aos dogmas que arrasaram os serviços públicos e as instituições do Estado - ao longo dos quatro impiedosos anos da "austeridade" - por um lado, e a tentação demagógica de multiplicar promessas à custa de recursos financeiros que antes dizia não existirem. Perante a mais grave ofensiva ideológica das forças da Direita em toda a curta vida da democracia conquistada pela Revolução de Abril, a Esquerda soube defender os valores da solidariedade e da dignidade humana, soube falar verdade, cumprir o prometido e reconquistar a confiança sem a qual nenhuma democracia sobrevive.
Como disse aqui na última semana acerca desta legislatura e da solução de governo acordada, o debate político e o confronto de ideias acabou por se confinar às contradições entre as diversas forças políticas da Esquerda enquanto a Oposição de Direita se resignou às suas inconciliáveis contradições e resvalou no populismo que hoje constitui a mais séria ameaça à liberdade e à democracia. Os cidadãos sabem reconhecer quem lhes fala verdade e cumpre o que promete. É neste caminho de consolidação da confiança que o Partido Socialista tem de prosseguir.»
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