11.6.22

Janelas, muitas janelas

 


Hawa Mahal ou Palácio dos Ventos, Jaipur (Índia), 2005.
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E.T. Phone Home – há 40 anos

 


E.T. foi lançado em 11 de Junho de 1982. Alguns meses depois, antes do Natal do mesmo ano, essa belíssima história de amor teve estreia em Portugal e foi, para muitas crianças, a primeira oportunidade de verem um grande filme numa sala de cinema – e de chorarem, como outros o tinham feito, décadas antes, quando apareceu o Bambi.

Logo no ano seguinte recebeu Óscares para melhor banda sonora, melhores efeitos especiais, melhores efeitos sonoros e melhor som. Foi um extraordinário sucesso em termos de bilheteira, até ser batido por mais um filme também de Spielberg – Jurassic Park –, lançado num outro 11 de Junho (de 1993).

Quem não se lembra do desfecho do E.T.?




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Contradições irritantes

 


«O primeiro-ministro (PM) assumiu alguns importantes compromissos com os portugueses, nas áreas do trabalho e da economia, por reconhecer que aí se arrastam problemas crónicos - como é o caso dos baixos salários e da falta de oportunidades para "a geração mais qualificada de sempre" - que bloqueiam o desenvolvimento do país. Todavia, as políticas que vai pondo em prática surgem, cada vez mais, em oposição aos objetivos enunciados.

No passado sábado, o PM afirmou: "nós temos que nos próximos quatro anos conseguir fazer, todos em conjunto, o esforço para que o peso dos salários dos portugueses, no conjunto do produto interno bruto, seja pelo menos idêntico àquele que existe na média europeia, ou seja, subir dos 45% para os 48%, o que implica um aumento de 20% no salário médio do nosso país". Ora, o PM sabe que, se a inflação sobe e não se aumentam os salários, se agravam as injustiças, se reduz a parte dos salários na riqueza produzida e, em regra, aumentam os lucros.

Como é possível chegar àquela meta, se no primeiro dos quatro anos (2022) o Governo impõe, na Administração Pública (AP), um aumento salarial nominal de 0,9%? Como vai conseguir colmatar a falta de quadros altamente qualificados na Administração Central, Regional e Local, a contratação de professores, de médicos e outros profissionais, se nem sequer assegura o poder de compra dos salários no setor público?

António Costa sabe muito bem que, historicamente, as políticas aplicadas na Administração Pública - as salariais e laborais, as de emprego e até as de gestão - são não só um sinal como também o motor das práticas privadas. Por isso, surgiram empresários a acusá-lo de desacerto entre o que diz e o que faz e a aproveitar para lhe dizer que ele anunciou o objetivo, mas "se esqueceu do manual de instruções". Estas contradições minam as condições de envolvimento e de responsabilização das empresas e da sociedade, tão necessárias para a obtenção daquela e outras metas.

Interrogado por jornalistas sobre o que o Governo poderá fazer face ao aumento dos preços dos combustíveis, o PM disse, na passada terça feira: "é preciso ser claro para todos, os preços só vão baixar quando a guerra parar e quando for restabelecida a normalidade no fornecimento de combustível". Ninguém de bom senso ignora os impactos da crise pandémica ou da guerra na Ucrânia, mas todos sabemos que os aumentos dos produtos energéticos têm tido uma forte componente especulativa. O Governo de Portugal acomodar-se a uma inevitabilidade tão questionável é negar o fundamental da ação política que se exige para dar confiança às pessoas e às organizações.

Entretanto, vários membros do Governo, que juram ser contra a austeridade, têm-se ocupado a argumentar que o aumento dos salários podia agravar a inflação. Trata-se de um exercício de dupla negação facilmente identificável: primeiro, a austeridade troikiana teve como primeiro instrumento a desvalorização salarial, objetivo a que se pode chegar por várias vias; segundo, se o trabalho é colocado como potencial fator inflacionário, isso fixa-o exatamente como variável de ajustamento para as políticas macroeconómicas. Tornar-se-á evidente que estão a virar a página para uma nova austeridade.

Precisamos que o Governo abandone este quase negacionismo irritante e seja fator de esperança no futuro.»

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10.6.22

10 de Junho

 


Visto por João Abel Manta.
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Putin

 

«Disse alguém que Vladimir Putin pode pescar com êxito nas águas turvas do desencanto europeu. Tudo se joga no combate das ideias: Moscovo tornou-se na capital, já não da utopia comunista, mas do autoritarismo conservador, do nacionalismo reaccionário e do despotismo autocrático. É o modelo que nos propõe. Como se diria em linguagem trivial: é preciso ter lata.»

Jorge Almeida Fernandes 
Newsletter do Público, 09.06.2022
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Hoje é o dia para reviver isto




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O que valorizamos na vida

 


«A nossa esperança média de vida duplicou em pouco mais de um século. Mas estes anos adicionais de vida que o conhecimento nos proporcionou nem sempre são acompanhados com a qualidade prometida e desejada. Muitos são os que têm a consciência clara de que a perda de autonomia, autoestima e dignidade, assim como o sofrimento físico e psicológico que sentem, se irão acentuar no tempo de vida que ainda lhes resta. São múltiplas as narrativas heroicas ou dramáticas que “usamos” para justificarmos o que pensamos sobre este tema. Se, para uns, a resposta evidente são os cuidados paliativos, para outros, é a possibilidade de pôr fim rapidamente a esse sofrimento. Uns criticam a “obstinação terapêutica”, outros a “prepotência da autonomia”. Uns invocam dogmas, outros, questões económicas, e outros relativizam o sofrimento. O diálogo é muitas vezes entre surdos e ilustra aquilo que é expectável numa democracia, nomeadamente a priorização variável dos valores que nos regem.

Os que defendem os cuidados paliativos afirmam que, em situações de grande fragilidade, é fácil convencer a pessoa de que não vale mesmo a pena fazer mais nada. Mas o argumento é o mesmo se a quisermos convencer exatamente do contrário. Para muitos (em que eu me incluo), a “quantidade de vida” adicional nem sempre compensa a “qualidade de vida” perdida. E suspeito que quanto mais rica tiver sido essa qualidade, menos valor terão as semanas ou meses de vida adicionais.

Atualmente, em Portugal, continua a ser crime a assistência por parte de outrem, em particular por um profissional de saúde, à morte de alguém que a tenha solicitado repetidamente. E é esta a questão principal em discussão no debate atual sobre a morte assistida.

A ideia de que estes profissionais devem tratar e acompanhar os doentes, nunca matar, é universal. Mas devem ser poucos os que não suspeitam de inúmeros casos de ajuda, por profissionais de saúde, a doentes perto do fim, que querem acelerar a sua morte e que imploram pela compaixão do profissional de saúde. Sempre feito às escondidas, à margem da lei, com enormes riscos de denúncia e com consequências profissionais gravíssimas. Não seria muito mais honesto e racional acabar com esta situação?

Muitos destes profissionais pensam o mesmo e afirmam-no publicamente. E ninguém duvida da sua integridade profissional e ética.

O argumento da “rampa deslizante” de que Portugal se transforme num centro mundial de morte assistida não faz sentido. Este mesmo argumento foi alvo de (ab)uso nos debates da estratégia para a toxicodependência e da interrupção voluntária da gravidez. A evidência mostra exatamente o contrário.

A nossa Diretiva Antecipada de Vontade prevê, na fase terminal para acelerar a sua morte, que o paciente possa escolher ser mantido sem alimentação e hidratação artificial, o que pode durar dias. É por muitos considerada uma solução cruel e insensível. E é a razão principal para eu ainda não ter submetido este documento.

A História está cheia de exemplos de pessoas que escolheram morrer para não traírem a sua “honra”, a sua “dignidade” ou a sua “verdade”. São normalmente respeitados, até venerados. Numa democracia em que temos o direito de escolher como queremos viver e o dever de respeitar o direito dos outros, poder escolher a forma como queremos morrer parece inevitável. Não nascemos por vontade própria. Que a nossa vida e morte sejam escolhas pessoais.

A morte assistida deve ser legalizada e regulamentada. Que o processo seja o mais exigente e rigoroso possível para que a nossa confiança nas instituições seja reforçada.»

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9.6.22

Eutanásia

 


Já está (na Generalidade)!

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Utopia

 

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Eheheheh!


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Parem lá de gozar, se faz favor

 


«Às vezes, fico com a ideia de que os governantes gostam de gozar connosco. Voltei a ter essa sensação quando ouvi António Costa falar da necessidade de aumentar o peso dos salários no PIB e exortou as empresas a que fizessem um esforço coletivo nesse sentido. Pôs mesmo uma meta: até 2026, aumentar o salário médio em 20%. Neste caso, esta simples declaração é como um bom bolo de bolacha, tem várias camadas de gozo.

A primeira camada de gozo é a de fixar uma meta que em nada depende do Governo. Não é António Costa quem define quais os salários que as empresas pagam. Este discurso serve essencialmente para chamar a si mesmo o mérito de eventuais aumentos salariais que venham a ser concedidos no sector privado.

A segunda camada tem a ver com a justificação que o Governo deu, ainda não há muitas semanas, para não aumentar os funcionários públicos em mais do que 0,9%: não queria alimentar uma espiral inflacionista. Até parece que só os aumentos dos funcionários públicos é que causam inflação. Os aumentos dos salários no sector privado não.

(Se pensarmos com cuidado, percebemos que é precisamente o oposto. O perigo de os aumentos salariais alimentarem a inflação tem a ver com o facto de o empregador poder aumentar os preços transferindo o aumento de custos para o cliente. Esse perigo é muito maior no sector privado do que no público. Por exemplo, não é por se aumentarem os professores universitários que as propinas ficarão mais altas.)

A terceira camada é o próprio objetivo fixado e a forma de lá chegar. Diz António Costa que o peso dos salários no PIB é de 45% e quer que suba para 48%. Para tal ser possível é necessário que os salários aumentem mais do que o PIB. De acordo com as previsões da Comissão Europeia, o PIB português deverá crescer, em termos nominais, 8,8%. Na verdade, como a inflação prevista tem estado sempre a ser revista em alta, o provável é mesmo que o PIB nominal aumente ainda mais. (Note-se que o PIB representa o valor de todos os bens e serviços produzidos num ano, pelo que pode aumentar porque cresceu a produção e/ou porque os preços subiram; já quando falamos do PIB real, estamos a abstrair-nos dos efeitos inflacionistas.) Se as empresas seguirem o exemplo do Governo e aumentarem os salários em 1%, o que vai acontecer é que o peso dos salários no PIB, em vez de subir de 45% para 48%, desce para 42%. Se as empresas, em vez de fazerem o que António Costa diz, fizerem o que ele faz, o peso dos salários, em vez de aumentar três pontos percentuais, cairá em igual montante. Bem prega Frei Tomás…

Há uma quarta camada de gozo que é o de não dizer se o aumento de 20% é em termos reais ou nominais. Habituámo-nos de tal forma a não ter inflação que nos esquecemos que um aumento dos salários igual à taxa de inflação não é aumento nenhum. Se os preços em Portugal congelassem até ao fim do ano, a taxa de inflação de 2022 seria de 6,7%. Se traçar cenários otimistas e pessimistas para a inflação até 2026, concluirá que, até ao fim de 2026, os preços subirão entre 20% e 30%.

Portanto, se António Costa fala de um aumento nominal dos salários, 20% não é nada. Por trás de um número aparentemente ambicioso está, na verdade, uma ambição de descida dos salários reais. Faz lembrar quando, durante a campanha, o aumento de 0,9% dos salários da Função Pública foi apresentado como uma promessa eleitoralista. A promessa só era eleitoralista porque somos burros, dado que a inflação era bastante superior.

Se Costa se refere a aumentos reais dos salários, isso quer dizer que os salários têm de subir bastante acima da inflação. Admita, só para simplificar as contas, que a inflação em 2022 é de 7%, depois cai para 5% em 2023, 3% em 2024 e 2% em 2025 e 2026. Para que haja um aumento real de 20% dos salários, estes terão de crescer 3,85 pontos percentuais acima da inflação todos os anos. Só este ano teriam de subir quase 11%.

Há ainda uma quinta camada de gozo. O objetivo de aumentar os salários em 20% surge na mesma altura em que o Governo anuncia experiências-piloto para testar a semana dos quatro dias de trabalho. O Governo acena com menos um dia de trabalho por semana (ou seja, uma redução de 20% da carga de trabalho semanal) ao mesmo tempo que fixa como meta 20% de aumento salarial. Andam os economistas a discutir se será possível reduzir a semana de trabalho sem baixar salários e o Governo não só acha possível não baixar salários como até acha que dá para os aumentar em 20%. Se fizer as contas, verá que, para aumentar o salário em 20% ao mesmo tempo que reduz o horário noutros 20%, o salário por hora terá de aumentar 50%.

Fico na dúvida sobre se estão a gozar ou se não têm qualquer noção do que dizem.»

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