2.3.24

Cafeteiras

 


Cafeteira Arte Nova William Moorcroft Cornflower, cerca de 1911.

Daqui.
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José Manuel Galvão Teles

 


Um ano sem ele no mundo. Estou longe de estar habituada.
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Nuno Melo – Deve andar nervoso

 




Notícia AQUI.
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Radicalização à direita da campanha da AD

 


«As eleições legislativas antecipadas no domingo 10 de Março serão um momento de viragem na governação em Portugal, seja qual for o partido ou coligação que vier a ganhar nas urnas. Depois de oito anos de governação do PS de António Costa, mesmo que os socialistas ganhem, a governação de Pedro Nuno Santos, o novo líder, será sempre diversa. Embora, em muitos dos temas políticos, as orientações sejam de continuidade, até porque o programa e o ideário social-democrata do partido são os mesmos, é evidente que, quer pela personalidade, quer pela geração, quer ainda pelo momento concreto em que o país vive, um governo de Pedro Nuno Santos comportará também ele mudanças, ainda que na continuidade. Uma viragem de orientação governativa que está explícita na proposta e no discurso de Luís Montenegro, líder do PSD, e da coligação pré-eleitoral Alternativa Democrática (AD), que inclui também o CDS e o PPM.

Na semana de campanha que resta, ainda muito está em aberto. A percentagem de indecisos nas sondagens é elevada e é sabido que um número significativo de eleitores só decide o seu voto na última semana de campanha ou mesmo no próprio dia das eleições. Resta aos líderes de todas as forças políticas em disputa defenderem as suas propostas e conquistarem votos para o seu projecto. Mas era bom que se falasse mais de propostas e projectos para o país, até como forma de ajudar os eleitores a decidirem. Sobretudo, das grandes questões da sociedade como a habitação, a saúde, a educação, a justiça.

Até agora, a mediatização do debate eleitoral tem sido contaminada por outro tipo de questões, menos nobres e mais tácticas. A última semana de pré-campanha foi dominada pela discussão sobre estratégias de alianças pós-eleitorais. Depois de, no frente-a-frente nas televisões, Pedro Nuno Santos ter surpreendido ao garantir que os socialistas viabilizariam um governo minoritário do PSD, a verdade é que o líder do PS levou dias a clarificar a sua posição e a esclarecer que tal só acontecerá se houver uma maioria de direita e o PS não conseguir uma convergência parlamentar à esquerda.

A demora de Pedro Nuno Santos em deixar clara a sua posição, mas também a forma como Luís Montenegro se recusou a esclarecer se o seu partido viabilizará ou não um governo minoritário do PS, acabou por reverter a favor de Luís Montenegro. Isto porque, enquanto o líder do PS se desdobrava em declarações, aparentemente contraditórias, o líder do PSD manteve o silêncio e chamou sobre si a atenção dos jornalistas, ganhando alguma dinâmica de campanha. Mas a mobilização e a centralidade da AD, na campanha, aumentaram na segunda-feira, no comício de Faro, em que participou Pedro Passos Coelho.

É sabido que o ex-primeiro-ministro é uma personalidade política que empolga o PSD e une a direita, na idêntica proporção que irrita e é rejeitado pela esquerda. Mas a viragem que Pedro Passos Coelho trouxe à campanha não foi só o facto de estar presente. A forma como discursou, o conteúdo do que disse, veio recolocar a campanha da AD e puxá-la mais à direita, radicalizá-la, talvez na tentativa de combater a fuga de votos para o Chega. Com um tom mais conservador do que Luís Montenegro tem adoptado, Pedro Passos Coelho afirmou: “Nós precisamos de ter um país aberto à imigração, mas cuidado que precisamos também de ter um país seguro.”

Uma declaração de teor populista radical de extrema-direita, securitária e xenófoba, que faz uma associação falsa entre imigração e criminalidade, como o PÚBLICO demonstrou numa Prova dos Factos. Isto num país que é dos mais seguros do mundo, em que a criminalidade não vem maioritariamente de imigrantes e em que estes, aliás, são necessários ao funcionamento de alguns sectores da economia, e garantem, actualmente, a sustentabilidade da Segurança Social e asseguram o crescimento demográfico.

Por mais disparatada e falsa que tenha sido a afirmação de Pedro Passos Coelho, a verdade é que marcou a campanha e abriu a porta a um crescendo de discurso conservador, que, na terça-feira, foi continuado, num debate de campanha organizado pela Federação Portuguesa pela Vida, por Paulo Núncio, candidato da AD, no círculo de Lisboa, e vice-presidente do CDS. “Depois de a liberalização ter sido aprovada por referendo, embora não vinculativo, mas com significado político, é muito difícil reverter a lei apenas no Parlamento. Acho que a única forma de revertermos a liberalização da lei do aborto passa por um novo referendo”, defendeu.

Na quarta-feira de manhã, o líder do CDS, Nuno Melo, veio desautorizar o seu vice-presidente, garantindo que um referendo ao aborto “não é tema para a próxima legislatura” e “não consta do programa da coligação”. E o líder do PSD e da AD, Luís Montenegro, considerou que se trata de um “assunto fechado”. Mas a tirada conservadora de Paulo Núncio, ao criar polémica, diversificou o ideário que se reúne na coligação e aumentou a mediatização da campanha da AD.

Radicais e com carácter até negacionista de que há uma crise climática, foram as declarações, na quinta-feira, do cabeça de lista da AD por Santarém e ex-líder da CAP, Eduardo Oliveira e Sousa, que defendeu que “sempre existiram fenómenos extremos”, como fortes inundações, e criticou o Governo por ter recusado um investimento em eucaliptos por “falsas razões climáticas”.

É pena que a campanha esteja a ser contaminada por polémicas de radicalização populista de extrema-direita. Na semana que resta, era importante que os partidos e coligações falassem mais dos problemas do país. Mas é sobretudo de lamentar que a AD esteja a radicalizar o seu discurso à direita, no que pode ser uma tentativa de travar o voto no Chega, mas que, na prática, normaliza o partido de André Ventura. E transforma o perfil político do Parlamento, onde este partido populista radical de extrema-direita vai crescer, protagonizando uma das mudanças do novo ciclo político.»

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1.3.24

AD – A Pérola do dia

 



Eduardo Oliveira Sousa, cabeça de lista da AD por Santarém e ex-presidente da CAP.
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Grande boneco!

 


Expresso, 01.03.2024 
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Rui Tavares em cima do muro

 

«Sucede que, no dia seguinte ao de sabermos da intervenção de Paulo Núncio no debate organizado pela Federação Portuguesa pela Vida, Rui Tavares achou que era um bom momento para anunciar a sua disponibilidade para dialogar com a AD. Já agora, também dialogar com a IL. Um partido que tem propostas que só podem arrepiar quem se diz de esquerda e falo no ataque demolidor ao Estado social. Mas no mundo de Rui Tavares nada como um bom diálogo. (…)

Estar em cima do muro é muito simpático e apreciado. Mas nunca vi ninguém lutar verdadeiramente por nada nesse sítio. Serve para agradar, mas não serve para conquistar. Em cima do muro não teríamos legalizado o aborto e nem teríamos feito o 25 de abril. Rui Tavares pode anunciar diálogos com a direita em plena campanha eleitoral, e com isso marcar pontos e dar um ar de quem desanuvia o ambiente, porque existe à esquerda quem não faça cedências.»

Carmo Afonso
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Pode escolher a cor desde que seja laranja

 


«Devo começar por fazer o registo de interesses: participo semanalmente num programa da RTP sobre a situação política e faço uma rúbrica na TSF também sobre política. Não gosto da designação, mas sou “comentadora” e faço-o a partir da minha visão sobre os problemas dos país e do mundo, e assente nos meus valores. Tento ser objetiva, mas não sou “neutra” nas minhas intervenções. E também não sou, nem finjo ser, jornalista.

Nos últimos anos, a paisagem na comunicação social portuguesa teve sobressaltos e mudanças profundas, que merecem uma análise detalhada, mas que não faço aqui por agora. O quero discutir é a perspetiva de quem tem acompanhado, sentada no sofá, as longas emissões noticiosas das televisões privadas nestes tempos de pré-campanha. Não há forma subtil ou elegante de o dizer de outra maneira: creio que as televisões privadas têm hoje um profundo enviesamento à direita, quer no alinhamento e escolha dos temas, quer na maioria do comentário em emissão.

Nos últimos anos, a contabilização dos minutos televisivos dedicados aos principais dirigentes políticos feita pela Marktest mostra que o líder do partido da extrema-direita figurou quase sempre entre os mais favorecidos. Não explica tudo, nem todo o crescimento da extrema-direita em Portugal. Mas a verdade é que essa mediatização se vem somar aos de bots criados nas redes sociais e aos vídeos no Youtube da eficiente máquina de propaganda do Chega, paga pelos seus financiadores. O destaque dado a Ventura nas televisões não é o culpado disto tudo, mas certamente não é irrelevante.

Já no contexto pré-eleitoral, somaram-se painéis de análise política que tendem a ser compostos por comentadores, jornalistas e editores maioritariamente alinhados à direita, e onde figura depois um solitário jornalista/comentador mais ou menos à esquerda, que assegura o “pluralismo”. Na SIC, continuamos a ter preleções semanais e sem contraditório de um advogado com um passado na extrema-direita nacionalista e salazarista (José Miguel Júdice) e de um ex-líder do PSD (Marques Mendes). Na TVI é um ex-líder do CDS (Paulo Portas).

O que parece escassear são comentadores ou jornalistas/editores mais identificados com área do PS. O que, convenhamos, é bizarro num país em que a esquerda tem sido maioritária desde 2015 e onde, há apenas dois anos, o PS teve a maioria dos votos dos portugueses. A comunicação social não tem que mimetizar o país, mas não pode menorizar a participação da área política do maior partido português do seu espaço de opinião e análise.

Neste período em que nos aproximamos das eleições, aconteceram algumas coisas que me parecem extraordinárias. No debate entre Mortágua e Ventura, a líder do Bloco acusou Ventura de ter estado numa Comissão Parlamentar de Inquérito ao serviço dos privados que são acionistas dos CTT e que financiam o Chega. Não há acusação mais grave a um deputado. Nada é comparável: nem os deputados faltosos, nem mesmo a indicação de residência em Angola para ganhar abonos do Parlamento. Esta é a acusação de corrupção da democracia -- o deputado não representa os cidadãos que nele votaram, mas antes interesses particulares em troca de dinheiro para o partido. Pois, por esses mesmos dias, a acusação a Ventura morreu na praia e as televisões entenderam que a polémica interessante era a “avó da Mariana”. Posso discordar da pessoalização da intervenção política, mas a escolha do foco de análise jornalística parece-me inexplicável.

Como é inexplicável que o Diretor-adjunto de informação da SIC consiga argumentar que a associação entre a troika e Passos Coelho é “a grande mentira do século”, o governo da troika foi o PS de Sócrates. Nem sei o que diga… E, dias antes, dava a “vitória” a Montenegro no debate com Pedro Nuno Santos, porque “o modelo económico dele (Montenegro) é o melhor para criar riqueza”. Note-se: não é discordância política que aqui inquieta -- tenho calo, já nem pestanejo quando ouço um neoliberal. O que me deprime é o paroquialismo da análise. Que, discutindo modelos económicos, um jornalista de economia não tente informar os telespectadores sobre os debates que se hoje se fazem sobre a relação entre impostos e crescimento económico no contexto internacional. Isto depois desta estratégia ter sido tentada por Liz Truss no Reino Unido, e ter levado à quase imediata queda do seu governo, não pela oposição da esquerda, mas pela mão da própria direita neoliberal inglesa, tal era a sua falta de credibilidade. Que não se traga a debate as alterações que já se desenham no contexto europeu, que desaconselham a perda de receita fiscal num cenário de desaceleração do crescimento; que não refira o debate sobre a divergência do desempenho negativo da economia europeia em relação à americana -- que tem sido discutida à luz dos efeitos longos da austeridade pós-2010 e do fraco crescimento de salários na Zona Euro; que nada seja dito sobre a chamada nova política industrial e o que está a ser feitos pela Bidenomics. Enfim, que a opinião de um jornalista tenha o gosto de propaganda partidária sem um pingo de informação que capacite os cidadãos para as escolhas que têm de fazer.

Não creio que seja pedir demais às televisões: equilíbrio, informação, pluralismo real e sobriedade. Diz-me um amigo que estas minhas críticas não me ajudam a fazer amigos e que quem se mete com as televisões, leva. Seja. É a vida.»

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29.2.24

Balanças

 


Balança inglesa vintage (anos 30) de ferro fundido, com taça de latão e um conjunto de pesos empilháveis.

Daqui.
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Ouvido ao almoço

 

- O Rui Tavares? Perigosíssimo! É mesmo da extrema esquerda.

Os adjectivos não são o que já foram. E a culpa nem sempre é do Acordo Ortográfico.
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Alfredo Cunha, 25 de Abril (9)

 


«Amigos

A partir de agora, recomeço a publicar, na medida do possível, fotografias relativas ao livro "25 de Abril de 1974, Quinta feira". Espero que gostem tanto como eu gostei de o fazer.»

Alfredo Cunha no Facebook
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Quem fala da insegurança em que vivem os imigrantes?

 


«Há muitos imigrantes que conhecemos. Os que trabalham nas lojas onde vamos, na restauração, na construção civil, que se tornaram vizinhos, os alunos de outras nacionalidades com quem convivemos nas escolas. É conhecendo nomes e rostos de imigração concretos que percebemos a importância do acolhimento, da força de trabalho que os imigrantes nos trazem e que, nós portugueses, também fomos e somos lá fora.

Falar de fronteiras totalmente fechadas ou abertas, não resolve nada. A solução está no equilíbrio. As fronteiras têm de ser controladas, até para proteger melhor as pessoas que podem ser vítimas de tráfico de seres humanos, mas esse controlo não é para usar de discriminação. Associar diretamente as migrações à ameaça à segurança é desonesto e infundado. É trair a social-democracia e virar para o populismo oportunista. O aumento da insegurança, se existe nos últimos anos, é para os imigrantes: os que são alvo de tráfico de seres humanos, os que continuam com dificuldades em aceder aos serviços públicos para regularizar a sua situação, mesmo trabalhando e contribuindo.

A extinção do SEF e a disseminação do seu trabalho para outros organismos trouxe dificuldades aos utentes. Também a própria capacidade das ONG que trabalham junto dos imigrantes diminuiu, operando em situações de grande precariedade, principalmente se são subvencionadas pelo Estado. Os relatórios da CICDR registam recordes de queixas recebidas de discurso de ódio contra imigrantes.

Ainda que o relatório anual do Observatório das Migrações sublinhe que Portugal é dos países da Europa que consideram que os imigrantes não aumentam a criminalidade, é preciso vincar a ideia de que o fenómeno da criminalidade em Portugal está estudado e não tem que ver com nacionalidades. No nosso país, desde 2006, a criminalidade tem vindo a decrescer (dados do Relatório Anual de Segurança Interna) e o valor efetivo de reclusos estrangeiros é de apenas 3,8%.

É, por isso, tempo de acolher sem olhos receosos e narrativas que potenciem o ódio. A diversidade é uma força, não uma ameaça. O bom acolhimento e integração, o combate ao tráfico de seres humanos e a proteção de todas as pessoas é um imperativo para qualquer político, não o ódio.»

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