9.11.24

É mesmo bonito!

 


Vaso "Hibisco", cerca de 1897.
Estúdios Tiffany,


Daqui.

09.11.1975 – «O povo é sereno, é apenas fumaça!»

 


Há 49 anos, a pouco mais de duas semanas do 25 de Novembro, os ânimos andavam bem exaltados.

PS e PPD, secundados por CDS, PPM e PCP(m-l), convocaram uma manifestação de apoio ao VI Governo Provisório e ao primeiro-ministro, com o lema: «Pinheiro, em frente, tens aqui a tua gente!». O Terreiro do Paço encheu-se, mas ninguém recordaria hoje o facto (todos os espaços se enchiam, dia sim dia sim…) sem as granadas de fumo e de gás lacrimogéneo e mais alguns tiros que deflagraram durante o discurso de Pinheiro de Azevedo. Iniciativa de autoria não muito clara e objecto de acusações cruzadas, mas que foi um enorme susto para muitos e gáudio para a esquerda da esquerda que viu a cena em casa, em directo televisivo.

«O povo é sereno, é apenas fumaça!», gritou o então primeiro-ministro, numa tirada que ficou para a pequena história dos últimos dias do PREC e que pode ser ouvida neste vídeo:


09.11.1989 – O dia em que caiu um muro em Berlim

 


Crise da democracia

 

Jackson Pollock

«Tudo é mau nos resultados eleitorais dos EUA. Acontece. Já não é a primeira vez na história que demagogos, populistas, protoditadores ganham eleições e, sem excepção, os efeitos são sempre maus. Não são maus para toda a gente, nem são maus para tudo, mas no geral são maus, em primeiro lugar, para a democracia, depois, dependendo do país, são maus para outros países ou para o mundo. No caso de Trump, são maus para quase tudo, a não ser para a direita radical em todo o mundo e para a Rússia porque, como se vê, eles são “estranhos companheiros de cama”, para não dizer em inglês.

Como quem me lê sabe, não foram uma surpresa estes resultados e a preocupação com a possibilidade e depois com a sua concretização. Estando a escrever dos EUA, em plena Trumplândia, e tendo tido já várias discussões com votantes no Trump, lendo a propaganda republicana, ouvindo as rádios como a Patriot Radio, tenho uma noção do que levou Trump ao poder. Percebe-se muito bem como os MAGA e Trump ganharam primeiro a guerra cultural, depois a guerra política, por esta ordem. A esquerda que anda há mais de uma década convencida das suas “causas fracturantes”, que nos EUA tem consequências práticas, muito mais absurdas do que na Europa, acantonou-se nas elites e perdeu as suas bases sociais, a começar pelos sindicatos. Se lessem Marx, perceberiam que trocar “bases sociais” por “bases intelectuais” é derrota certa. Não é razão única, mas foi a fundação em que todo o resto se construiu: medos, ódio ao “outro”, identidade construída contra o “outro”, radicalidade grupal, substituição da ciência e do saber por fake news e teorias conspirativas, ignorância agressiva, discurso violento nas redes sociais que são excelentes para isso, dissolução de muitos mecanismos que são fundamentais para haver democracia. Não é um anátema contra os votantes de Trump, mas é isso mesmo que os “faz”.

Eu não me irrito com muita coisa, mas a minimização do Trump, antes e depois das eleições, sob várias formas e feitios, deixa-me “balístico” e a cantar o hino nacional como se fazia antes do 25 de Abril, com uma subida do tom de voz numa certa parte da letra. A Marselhesa também serve. E a Constituição americana também.

Não tenham ilusões: há muita gente em Portugal, no processo de radicalização à direita dos últimos anos, que está feliz com a vitória de Trump, e não é só o Chega. Estão felizes com a derrota dos “outros”, os socialistas, os bloquistas, os centristas, os do “sistema”, e essa felicidade transparece por todo o lado.

Sem dúvida que é necessária análise no comentário e na academia sobre as “razões” do que se passou, até porque há muita coisa nova no movimento MAGA e nas razões do seu crescimento e no papel carismático de Trump. Mas para quem sabe o que é a fragilidade da democracia, há um combate político imediato a travar. Nós não estamos nos anos 30, mas também estamos nos anos 30.

Por tudo isto, deve denunciar-se a minimização em curso do que se passou, e as suas várias formas – uma delas é só falar dos malefícios e asneiras dos democratas em tom de fúria, muito trumpista, aliás, para evitar falar dos desmandos de Trump; outra é dizer que não se deve tomar à letra o que ele diz, que hoje tem uma equipa e um programa (um susto de equipa e o programa é o do Project 2025), que não vai fazer o que disse que ia fazer (esquecendo que ele é um narcisista patológico e, pelo menos, vai tentar, deixando um rastro de estragos pelo caminho), que não vai entregar a Ucrânia a Putin, que não vai aprovar taxas aduaneiras retaliatórias, que não se vai vingar (vai, vai) dos seus opositores, e que não vai fazer nada do que prometeu no “primeiro dia” em que quer ser “ditador”. Esquecem-se de que Trump é um criminoso que se vai perdoar a si próprio e aos assaltantes condenados do 6 de Janeiro, e que não há hoje para um homem como Trump quaisquer “checks and balances”, com uma interpretação absoluta do poder presidencial, tendo na mão o Supremo Tribunal, o Senado e talvez a Câmara dos Representantes.

Deixei para o fim a questão, que presumo alguns vão logo fazer depois de lerem o primeiro parágrafo deste artigo: "E, então, a pujança da democracia americana, o valor do voto popular, a escolha inequívoca dos americanos?" É que há um pequeno problema, o mesmo com que faz que seja uma asneira dizer que Hitler subiu ao poder democraticamente: é que a democracia não é apenas a vontade popular expressa no voto, é o primado da lei, o valor dos procedimentos constitucionais, o respeito pelos limites e separação dos poderes. Democracia apenas com o voto, sem a lei, é demagogia e a demagogia é o terreno ideal para os ditadores. Esperem por seis meses de Trump e voltamos aqui.»


8.11.24

Há mais vida para além de Trump!

 



António Capinha


Edmundo Pedro: seriam 106

 


Tive o privilégio de ser sua amiga, de gostar muito de conversar com ele, de ler muitos dos seus textos por vezes antes de serem publicados. Quando fez 99, referimos a festa inevitável que teria lugar para assinalar os 100 – festa que já não existiu.

Retomo um resumido «percurso existencial», de que gosto muito, escrito pelo próprio:

«Comecei a trabalhar aos doze anos numa oficina de serralharia. Daí em diante, interrompi o curso diurno da Escola Industrial Machado de Castro e passei a estudar à noite. Aos treze, entrei para o Arsenal da Marinha. Aí conheci dois vultos cimeiros do movimento operário de então, meus colegas de trabalho na oficina de máquinas do Arsenal: António Bento Gonçalves e Francisco Paula de Oliveira. Este último viria a celebrizar-se sob o pseudónimo de “Pavel”.

O primeiro era então Secretário-geral do PCP, o segundo Secretário-geral da Federação da Juventude Comunista. Ambos exerceram no meu espírito uma influência determinante.

Filiei-me na Juventude Comunista aos treze anos, pouco depois de ser admitido naquela empresa do Estado.

Fui detido pela primeira vez pela polícia política no dia 17 de Janeiro de 1934, pouco depois de ter completado os 15 anos de idade, por estar envolvido na preparação da tentativa de greve geral que deflagraria no dia seguinte. A minha primeira detenção está, pois, estreitamente ligada ao movimento de protesto contra a liquidação do sindicalismo livre. Esse movimento ficaria conhecido na história das lutas operárias como o «18 de Janeiro». Pela minha acção na preparação desse evento, fui condenado pelo Tribunal Militar Especial, acabado de criar por Salazar, à pena de um ano de prisão e à perda dos «direitos políticos» durante cinco anos…

Logo que fui libertado, retomei a oposição à ditadura como militante da Juventude Comunista. Em Abril de 1935 fui eleito, com Álvaro Cunhal, entre outros, para a direcção da Juventude Comunista.

Preso, uma vez mais, em Fevereiro de 1936, sob a acusação de ser dirigente da JC, acabaria, em Outubro desse ano, por ser deportado para Cabo Verde, onde fui estrear o tristemente célebre Campo de Concentração do Tarrafal. Ao fim de nove anos, regressei a Lisboa para ser, de novo, julgado no Tribunal Militar Especial. Depois de ter aguardado julgamento, ao todo, durante dez anos, fui condenado, por aquele tribunal de excepção, à pena de vinte e dois meses de prisão correccional, acrescida da perda dos «direitos políticos» pelo período de dez anos!

Ao longo de todo tempo que mediou entre o fim de 1945 e o 25 de Abril de 1974, conspirei sempre contra a ditadura. De forma especialmente activa, a partir da campanha para a Presidência da República do general Humberto Delgado, durante a qual comecei a preparar, com Piteira Santos, Varela Gomes e outros, um movimento insurreccional que pusesse fim à ditadura.

Estive envolvido, com o grupo inspirado por Fernando Piteira Santos, no «12 de Março» de 1959. Mas, dessa vez, não fui referenciado na polícia política.

Dois anos depois, no dia 1 de Janeiro de 1962, tomei uma parte muito activa no chamado «golpe de Beja», ocorrido na madrugada daquele dia, no Quartel de Infantaria Três, aquartelado na cidade de Beja. Depois daquele movimento ter abortado, fugi para o Algarve onde fui detido, em Tavira, na manhã desse mesmo dia, junto com Manuel Serra e o então capitão Eugénio de Oliveira. Pela minha intervenção nesse movimento fui condenado, em 1964, a três anos e oito meses de prisão maior e à perda do «direitos políticos» pelo período de quinze anos. Cumpri quatro anos de cadeia. Fui libertado no fim de 1965.

Aderi ao Partido Socialista, por intermédio de Mário Soares, em Setembro de 1973. Sou, portanto, um dos fundadores daquele partido.

No primeiro congresso realizado na legalidade, em Dezembro de 1974, fui eleito para a sua Comissão Nacional e, em seguida, para a sua Comissão Política. Fui integrado no seu Secretariado Nacional em 1975. Em 25 de Abril de 1976, nas primeiras eleições legislativas, fui eleito Deputado pelo PS. Exerci esse cargo durante onze anos. Em 1977/78, fui designado Presidente da RTP. Actualmente continuo no PS, mas como militante de base.

Ninguém na minha família escapou à repressão salazarista. O meu pai estreou comigo o Campo de Concentração do Tarrafal. Esteve ali, tal como eu, cerca de nove anos. Foi, reconhecidamente, o mais perseguido de todos os presos daquele presídio de má memória. É considerado o mártir do Tarrafal. Morreu no exílio, em França, dois anos antes do 25 de Abril. A minha mãe esteve detida durante longo tempo por ser militante do PCP. A minha irmã Gabriela, que fugira de Portugal para evitar ser detida pela sua actividade no âmbito do movimento estudantil, morreu em Paris, aos vinte anos, na emigração política. Um irmão meu, o João Ervedoso, foi assassinado no âmbito de uma manifestação estudantil, por um provocador ao serviço da polícia política, quando tinha acabado de completar catorze anos. O meu irmão Germano, o mais novo dos três, entretanto falecido, esteve detido durante três anos por envolvimento na preparação da tentativa insurreccional de Beja. A minha própria mulher, para não fugir à sina da família, também experimentou os cárceres da polícia política.»
.

É a classe, estúpido!

 


«Trump ganhou entre os hispânicos porque eles se preocupam com a segurança, com a economia, com os temas de que se fala à volta da mesa da cozinha”, disse, no encerramento da noite eleitoral da CNN, David Urban, conselheiro de Trump na campanha de 2016. Van Jones, advogado de direitos cívicos e democrata, respondeu-lhe com as afro-americanas magoadas por não assistirem à vitória de uma delas, com os trans e com os imigrantes indocumentados. Disse, com razão, que não será a elite a pagar o preço desta eleição. Mas não concedeu na parte em que o republicano tinha razão: sendo brancos, negros, hispânicos ou homossexuais, os americanos que fizeram a diferença, votando em Trump ou ficando em casa, fizeram-no por causa da economia, dos salários, das contas para pagar. Aquilo de que a esquerda costumava falar.

Esta foi, antes de tudo, uma derrota dos democratas. Trump até perdeu 1,6 milhões de votos. Só que Kamala perdeu mais de 13 milhões. Desta vez, não são precisos cientistas políticos para explicar o resultado das eleições: 72% dos norte-americanos estão insatisfeitos com a situa-ção do país, dois terços dizem que a economia está mal e, destes, 70% votaram em Trump. Kamala ficou abaixo de Biden em todo o lado, perdeu voto negro e, acima de tudo, perdeu voto hispânico. Durante dois anos, a inflação superou o aumento dos salários. Apesar de isso ter sido, em grande parte, compensado nos dois últimos anos, com um aumento real de salários, a cicatriz ficou lá. Quase todos os governos democráticos foram castigados pela crise inflacionista. Assim como Trump foi castigado pela pandemia. Não sendo os números da economia maus, procuramos a razão do voto em erros de perceção dos eleitores. Mas de que andaram os democratas a falar, durante este tempo todo? Da democracia, com razão. Se ainda deram alguma luta foi por causa disso. E do que acham que interessa a cada nicho eleitoral em que pensam quando pensam em política. Porque teimam em seccioná-lo pela etnia, género ou orientação sexual para explicar um fenómeno que está nos velhos livros de política: a economia, estúpidos!

Diz-se que os democratas abandonaram os trabalhadores brancos, mas o que toda a gente ouve é a palavra “brancos”, não a palavra “trabalhadores”. Essa é a grande vitória do trumpismo. Como se viu pelo comportamento eleitoral, quando a condição social supera a identitária, trabalhadores hispânicos e negros votam como os trabalhadores brancos. E, no entanto, continuamos a falar como se o racismo e o sexismo de Trump fossem o maior segredo para a sua vitória. Quando, num debate, em 2018, o instalado congressista democrata Joe Crowley exibia o seu trabalho pelas minorias, Alexandria Ocasio-Cortez, a jovem de 29 anos que o iria derrotar, não lhe recordou que era uma mulher porto-riquenha. Disse-lhe: “O que está em causa não é a diversidade ou a raça, é a classe.” Só que a palavra “classe”, ao contrário de “etnia” e “orientação sexual”, passou a ter um peso ideológico que a tornou impronunciável. Esta é a derrota histórica que deu à extrema-direita a hegemonia na classe trabalhadora num dos países mais desiguais do mundo desenvolvido. De tal forma, que já nem compreendemos um fenómeno eleitoral que nada tem de extraordinário.

Nestas circunstâncias, Kamala até fez milagres. Em três meses, com baixa popularidade e sem ter ido a primárias, preparou um debate que venceu e fez campanha por todo um continente. E ainda teve mais votos do que Hillary, em 2016. O pecado original foi a recandidatura de Biden. Kamala só foi apanhar os cacos. Ainda assim, como é que Trump, depois do 6 de janeiro, consegue ser um dos dois republicanos que, desde 1988, vence no voto popular? Porque o sistema normalizou uma tentativa de golpe contra a democracia. Nisto, não há meios termos: ou era condenado e preso, ou um candidato como os outros.

Este não é o Trump de 2016. Controla a Presidência, o Senado e provavelmente a Câmara dos Representantes. O Supremo tornou-o inimputável, mudando a natureza do regime. Esmagou o partido republicano, que é um mero suporte institucional do movimento MAGA. E rodeou-se de gente ainda mais fanática e perigosa do que ele. Começa, em janeiro, uma nova ordem de bilionários tecnológicos que se sentarão na cadeira do poder político para moldar o mundo aos seus sonhos distópicos. As duas guerras que nos assustam seguirão para o seu epílogo trágico. Esta vitória vai-se disseminar por todo o mundo ocidental. E vai ser tudo demasiado rápido para nos prepararmos. Mas podemos, ao menos, perceber que as respostas que temos dado não resultam. Talvez as certas sejam as que esquecemos.»


Um pouco mais de azul (17)

 




7.11.24

Os bons velhos tempos

 

«Não é possível exagerar as consequências da viragem norte-americana. A Guerra Russo-Ucraniana confirmou que a Europa não é capaz de garantir a sua própria segurança sem os Estados Unidos e sem a NATO, e que os Estados europeus continuam a não ser capazes de se unir, se não puderem contar com a direcção estratégica e política do seu aliado indispensável. Por certo, os responsáveis políticos europeus estão há meses a preparar-se para a possibilidade da reeleição de Trump, mas parecem estar tão impreparados como no dia em que começaram a sua preparação. As três principais potências europeias estão divididas, o velho eixo formado por Berlim e Paris deixou de existir e não há sequer uma estratégia comum credível para preencher o vazio que a próxima retirada norte-americana vai deixar na Ucrânia.

Os Estados Unidos deixaram de travar as guerras dos outros – na Europa ou no Médio Oriente. A sua prioridade, numa linha de continuidade essencial, é conter a China e impedir a hegemonia chinesa na Ásia. A Europa e os aliados europeus são relevantes na exacta medida em que puderem contribuir para o objectivo central da estratégia norte-americana.»

Os bons velhos tempos chegaram ao fim.»


07.11. 1913 – Albert Camus

 


Um novo tempo de trevas

 


«O farol da democracia dos Estados Unidos apagou-se esta terça-feira e só os mais optimistas hão-de acreditar que a sua luz só está temporariamente perdida num nevoeiro fugaz. Na obscuridade, não haja dúvidas, haverá jornalistas, magistrados, servidores públicos, académicos, artistas e milhões de cidadãos a lutar pelo seu brilho e a seguir a iluminação dos seus avisos. Mas depois da onda de choque provocada pela brutal vitória de Donald Trump nas eleições de terça-feira, não há razões para se acreditar que está em causa um fenómeno passageiro. Os Estados Unidos e, muito provavelmente por efeitos de contágio, a Europa e o mundo estão de volta a uma ordem política. O sentido de progresso da Humanidade em direcção às Luzes que o Ocidente começou a construir há dois séculos entrou outra vez em recuo. As trevas estão de volta. A democracia sofreu uma das suas maiores derrotas de sempre.

Que a vanguarda desse movimento esteja no país mais desenvolvido, mais aberto, mais liberal do mundo diz muito do que está em causa. Não se trata da obra de um homem ou de um movimento com poder ou carisma para criar uma onda de choque numa sociedade subdesenvolvida e pouco esclarecida O que mudou radicalmente num curto espaço de tempo foram as pessoas, que perderam o sentido de comunidade, passaram a olhar os outros como uma ameaça e para o poder como uma redenção baseada na agressividade e no conflito. A mudança, clara e indiscutível, que milhões de americanos sufragaram livremente nestas eleições projecta uma nova ideologia. Uma nova forma de ver o mundo e uma nova proposta para o transformar. As suas raízes são antigas, encontram-se no populismo que odeia as elites, na catalogação de inimigos, no desprezo com que se encaram os adversários políticos.

Ao contrário do que aconteceu em outros momentos dramáticos da História, esta emergência do radicalismo da extrema-direita não ocorre num quadro real de dificuldades. Os Estados Unidos, ou a Europa, não vivem numa crise desgraçada como a que causou miséria no pós-I Guerra Mundial ou na ressaca da crise de 1929. Não há desemprego em massa, não há conflitos entre milícias extremistas nas ruas das grandes cidades, não há uma falência óbvia da lei, da ordem ou do Estado como nos tempos que determinaram as trevas dos anos 20 ou 30 do século passado. O que há são percepções, “storytellings hegemónicos”, para usar uma expressão do sociólogo João Teixeira Lopes, que desenterraram os instintos mais básicos e perigosos da humanidade. O propósito é conhecido: criar um quadro de ameaças que exige combate, primeiro, e eliminação, depois.

Sabemos muito bem o que originou esta terrível mudança, mas não sabemos ainda como a reverter. Essa é de resto a origem da grande angústia dos nossos tempos: como recuperar o consenso democrático? Sabemos que a estupidez da esquerda, que trocou as grandes causas, dos pobres, dos operários, das nações oprimidas, pelas múltiplas fatias das causas identitárias, é responsável pelo que está a acontecer. Sabemos que a incapacidade das democracias em travar a crescente e indecente desigualdade na partilha de rendimentos fomentou o ressentimento. Sabemos que a ausência de perspectivas para milhões de pessoas dos países ricos as levou para os braços do niilismo e da desesperança. Mas sabemos também que a aposta no fortalecimento da classe média, desde sempre o cimento da democracia, ou na inclusão dos temas do racismo ou da igualdade de género nos grandes programas dos partidos do centro do poder já não bastam para reverter a tendência.

Não são Trump, Orbán ou Ventura que justificam a maior preocupação. Eles são apenas o espelho e ao mesmo tempo o íman de uma vaga de fundo que começa a dominar as novas formas de ler o mundo. Claro que a estimulam. É evidente que sabem muito bem usar as novas ferramentas da era digital para a acelerar. Mas não haja ilusões: o que eles fazem é regar as sementes da frustração e do ressentimento que foram germinando nas sociedades livres ao longo das últimas décadas. O grande drama existencial dos democratas está exactamente nesta constatação. É fácil apontar o dedo e denunciar as patranhas da demagogia populista e extremista, mas é muito difícil encontrar argumentos, ideias e projectos capazes de mudar o sentimento de uma franja cada vez mais maior das sociedades da América ou da Europa.

Até porque, como já se percebeu, o recurso aos velhos argumentos da razão não funciona. A razão, a grande conquista da Europa e do Ocidente que promoveu o progresso, a Declaração Universal dos Direitos do Homem, o Estado de direito, as constituições liberais ou a criação de instituições multilaterais como a ONU para regular as tensões geopolíticas, deixou de ser um bem percebido e partilhado por homens e mulheres livres.

A razão nos nossos tempos é lida como um privilégio das elites políticas ou intelectuais. Não é vista um utensílio mental para determinar posições éticas perante os problemas das pessoas ou das sociedades. É apenas um ardil para abrir portas à imigração ou promover as guerras culturais da esquerda. Para os eleitores de Trump ou de Ventura, a razão é o grau zero da política. Nada vale como argumento para a denúncia dos perigos do proteccionismo, da intolerância ou da tirania. Sem quadros de referência éticos ou filosóficos, os eleitores dos Estados Unidos ou, em número crescente, na Europa, estilhaçam todo o catálogo de valores que erigiram as sociedades democráticas. Regressam assim à regra onde os autocratas, a violência do poder e a ausência da liberdade vívida e consciente ditam as regras.

A extrema-direita, oleada por elites empresariais, por homens sem escrúpulos e pelo poder destruidor das redes sociais, chegou para durar. O novo farol dos Estados Unidos vai influenciar o futuro da política no Brasil e na Europa. Autocratas como Putin, Orbán ou Netanyahu serão reforçados – deixam de ser a excrescência do poder político e entram na galeria de estrelas da nova ordem política. A escuridão parece inexorável. As coisas vão piorar até que, num futuro próximo, a luz regresse. Oxalá não seja necessário, como em outros tempos, experimentar a guerra para que a ordem em curso se destrua e seja preciso construir uma nova. Mas nem isso podemos dar por garantido: ouçam-se os discursos de Trump com atenção para se perceber como palavras sensíveis e carregadas de História como “deportação”, “países de merda”, “vermes” ou “miseráveis” se pronunciam sem escrúpulo.

In God We Trust (Confiamos em Deus), diz o lema dos Estados Unidos que se lê nos dólares. Bem precisam.»


6.11.24

Lindo dantes e agora

 


Centro de mesa de cristal verde e donzelas, cerca de 1900.
WMF Alemanha.

Daqui.