28.12.24

Cheira a passagem do ano

 


Garrafa Arte Nova, cerca de 1903.
Paul Milet.


Daqui.

A fábrica de percepções

 


«Olhando para os números disponíveis, o “peso” dos migrantes é, na pior das hipóteses, negligenciável. É natural que assim seja, a população migrante é, na sua maioria, jovem e saudável.

O governo garante que não comprometerá o atendimento destas pessoas em serviço de urgência, que a proibição será só na atividade programada. Esquece-se que é na atividade programada que se tratam as doenças crónicas e que estas, quando não são tratadas, descompensam em doença aguda, que por sua vez é tratada... na urgência. Portanto, a medida vai agravar o congestionamento nas urgências!

Se estas pessoas não vão ter acesso a um médico de família, seguramente não terão acesso a medicina preventiva, ou seja, vacinas, programas de vigilância de gravidezes, entre outras coisas. Só que estas pessoas, sobretudo estas grávidas e estas crianças, circulam nas nossas cidades e aldeias e convivem connosco. Vão, por exemplo, à escola onde estão os nossos filhos e netos. A pergunta que importa fazer é: quererá alguém que na escola do seu filho estejam meninos e meninas não vacinados para a difteria e a tosse convulsa?»

Vale muito a pena ler o texto de Bruno Maia na íntegra, que está disponível AQUI.

Princípio quase universal?

 


O que mostra o lixo

 


«Pensa-se no Natal e há imagens que associamos imediatamente à quadra. O bacalhau na noite de Consoada, o peru no almoço de Natal, o velho bolo-rei num cantinho da mesa, quase esquecido perante outros doces ainda mais gulosos que se partilham por estes dias. Também já faz parte do quadro festivo aquela enésima exibição do Sozinho em Casa a competir, no ecrã da TV, com as performances dos artistas de circo pela atenção dos portugueses. Nos últimos anos, há uma outra imagem que começa a ganhar esses contornos de clássico natalício: as montanhas de lixo nas ruas de Lisboa devido às greves dos trabalhadores da Higiene Urbana.

Este ano não foi exceção. O DN testemunhou logo os primeiros sinais do problema no Dia de Natal, numa viagem pelos bairros de Alvalade, Graça, Lumiar, Telheiras e Areeiro, bem como as queixas dos moradores e um certo conformismo com a situação: “Todos os anos é assim”. No dia seguinte, a situação agravou-se e a reportagem da agência Lusa até notou que, apesar de não existirem sinais de “tempestade no mar” (como diz o ditado popular), havia muitas “gaivotas em terra”, que aproveitavam o lixo disperso para se alimentar e, também elas, terem direito a um Natal mais abundante.

Mas o problema do lixo nem sequer é novo ou um exclusivo da quadra de Natal, pois já em setembro o PS viu nesta questão uma alavanca para propaganda política contra o autarca da capital, espalhando cartazes pela cidade com a palavra Moedas, onde o O era uma composição fotográfica de caixotes do lixo a abarrotar. Como se os socialistas, quando estiveram à frente da câmara, tivessem conseguido uma solução definitiva para o tema. Certo é que os ‘Novos Tempos’ que Moedas prometia para Lisboa também não trouxeram solução para a falta de profissionais e quantidade de viaturas inoperacionais.

Os trabalhadores da Higiene Urbana são vitais para o bem-estar da cidade. Mas inaugurações, renovações, requalificações e outras palavras que rimam com milhões (de euros) são muito mais apelativas para quem lidera, pois geram títulos positivos nos jornais e passam uma imagem de ação, de obra feita ou projetada, que rende votos. Infelizmente, esta é uma realidade que grassa por todo o lado. Promete-se apostar em novos rumos, novas soluções e investimentos, enquanto se ignoram os problemas de quem faz a máquina funcionar. Como se fosse um dado adquirido que, mais cedo ou mais tarde, se vão calar e sujeitar ao que já existe. As pessoas não são um papel que se amarrota e se coloca num caixote à espera que se reciclem. Tratar atempadamente de soluções justas para os seus problemas devia estar no topo das prioridades, até para evitar outro clássico português: ser preciso uma crise para se discutirem soluções. O lixo é um bom exemplo deste sistema que se perpetua e ignora um princípio básico: tratar primeiro do essencial para depois abraçar o futuro com maior segurança.»


27.12.24

Quimonos

 


Quimono em seda bordada em crepe de seda, com um pavão na árvore., Japão. The San Diego Museum of Art. Cerca de 1910.

Daqui.

27.12.1943 – Joan Manuel Serrat

 


Chega hoje aos 81, nasceu no bairro Poble Sec de Barcelona, numa família de operários. Começou por cantar em catalão, passou depois para castelhano no fim da década de 60, o que provocou fortes acusações de traição por parte dos seus conterrâneos. Mas em 1968, selecionado para representar a Espanha no Festival Eurovisão da Canção, disse que só o faria se cantasse em catalão, proposta que não foi aceite e que esteve na origem da proibição, pelo governo, que actuasse na televisão e que as suas canções fossem transmitidas na rádio.

Os anos forma passando e, no Natal de 2014, estoirou de novo a polémica por ter recorrido de novo ao catalão, na TVE, poucos minutos depois do discurso do rei.

Em Novembro de 2015 terminou uma turnê em que deu mais de 100 concertos na América Latina, Estados Unidos e Europa. E continuou. Em 2017 e 2018, realizou outra turnê – "Mediterraneo da Capo" –  para comemorar o 47º aniversário de seu mítico disco "Mediterraneo".


Algumas clássicas:





Do concerto realizado em Barcelona, em 2022:


.

A necropolítica do medo

 



António Guerreiro

Conto de Natal naval

 


«Quando a eternidade, que é bastante sossegada, foi interrompida pelo som de três pancadas, São Pedro sobressaltou-se. Alguém estava a bater à porta do seu gabinete, o que era invulgar. Abriu a porta e D. João II, que tinha sido tão discreto nos 529 anos que já levava de Paraíso, entrou bastante nervoso.

— Desculpe, São Pedro, mas isto não pode ser. Acabo de ler na “Revista da Armada” que, e cito, “se D. João II visse os drones, a inteligência artificial e a tecnologia que hoje temos disponível, certamente não hesitaria em trocar ideias com o almirante” Gouveia e Melo. Parece que leram os meus pensamentos. Há anos que essa é a minha maior ambição, mas sempre pensei que o sr. almirante Gouveia e Melo não tivesse paciência para me receber. Ora, a revista dá a entender o contrário. Repare como, no desenho, o sr. almirante Gouveia e Melo pousa a mão nas minhas costas, num gesto paternal e convidativo. Assim que li isto manifestei a intenção de visitar imediatamente o sr. almirante, mas os serviços aqui do Céu dizem-me que não é possível.

— Assim é. De facto, são dois planos de realidade diferentes, que não comunicam.

— Ah, mas nesse caso há aqui um erro de concepção gravíssimo. Além de que não me parece que um sítio onde eu sou impedido de trocar ideias com o sr. almirante Gouveia e Melo mereça o nome de Paraíso. É uma designação totalmente desajustada.

— Desculpem interromper — disse Leonardo da Vinci —, mas se for possível trocar ideias com o sr. almirante Gouveia e Melo, eu gostaria de integrar essa comitiva. Trouxe comigo, aliás, alguns amigos que desejam fazer o mesmo pedido. Está aqui o Shakespeare, o Einstein, o Galileu, o Mozart, o Gandhi, o Dostoievsky e o Freud.

— Bom — disse São Pedro —, talvez seja melhor então implementarmos aqui um sistema de senhas. Cada um tira uma e aguarda a sua vez.

— Parece-me uma excelente solução — observou D. João II —, até porque é claramente inspirada no modelo que o sr. almirante Gouveia e Melo adoptou na sua histórica campanha de vacinação.

— Não pude deixar de ouvir a vossa conversa — disse um velho de barbas. Era Arquimedes. — Se essa viagem se concretizar, gostaria de ser um dos primeiros a fazê-la. Eu tive uma ideia dentro de água, mas o sr. almirante Gouveia e Melo tem tido várias, e todas melhores que a minha, e eu gostaria de lhe manifestar a minha profunda admiração.

— Sem querer ser chato, parece-me que quem tem prioridade sou eu — disse Jonas Salk. — Sou protagonista de uma das maiores injustiças que já foram cometidas. Como sabem, inventei a vacina contra a poliomielite, e ainda hoje sou celebrado por isso. Mas a pessoa que desenhou a campanha de vacinação permanece na obscuridade. É tempo de darmos o mérito a quem o tem e, na pessoa do sr. almirante Gouveia e Melo, homenagearmos todos os burocratas que planearam operações de vacinação.

— Mais devagar, Jonas! — bradou Camões. — O primeiro a encontrar-se com o sr. almirante Gouveia e Melo serei eu. Terminei agora uma errata aos “Lusíadas”, com um canto novo que relata exclusivamente as façanhas desse herói. Foi difícil, porque quase nada rima com covid.

— E eu irei contigo, Luís Vaz. — Era Fernando Pessoa que falava agora. — Emendei a “Mensagem” e agora sim, está terminada. Vejam o que vos parece esta alteração: “E mais que o mostrengo, que me a alma teme/ E perante ele de medo congelo;/ Manda a vontade, que me ata ao leme,/ Do sr. almirante Gouveia e Melo!”

— Bravo! — gritou D. João II.

Nisto, o gabinete de São Pedro iluminou-se. E todos os presentes se ajoelharam perante a figura que chegava. Era Nosso Senhor Jesus Cristo.

— Pedro — disse ele —, como sabes, fiz anos na semana passada. Não consigo imaginar melhor presente do que uma reunião a sós com o sr. almirante Gouveia e Melo.

— Claro, Senhor. Farei todos os possíveis. Vou ver com a secretária dele, pode ser?

— Naturalmente. Não me passa pela cabeça impor-Lhe a minha presença. Só se e quando ele tiver disponibilidade — concordou o Messias.»


26.12.24

Passarinho com perfume

 


Frasco de perfume com pássaro como rolha. Museu de Ontário Real, Toronto, 1880 – 1890.
Provavelmente inglês.

Daqui.

Portugal em 2º lugar!

 


Estes imigrantes irão apanhar frutos vermelhos em Odemira?

26.12.1930 - Jean Ferrat

 


Representante típico de gerações de intérpretes politicamente comprometidos, para sempre ligado a «Nuit et Brouillard» e a tantos outros títulos, o eterno «compagnon de route» do Partido Comunista Francês, que não hesitou em denunciar a invasão de Praga em 1968. E muito mais.




C'est un nom terrible Camarade / C'est un nom terrible à dire / Quand le temps d'une mascarade / Il ne fait plus que fremir / Que venez-vous faire Camarade / Que venez-vous faire ici / Ce fut à cinq heures dans Prague / Que le mois d'août s'obscurcit.

Mas não só:


.

Mao Tsé-Tung

 


Chegaria hoje aos 131. E, com a diferença de fusos horários, até pode ter nascido no «nosso» dia de Natal.