4.9.08

«Não podemos ignorar» (2)














Depois de um post sobre «catolicices» que publiquei há dias, recebi um telefonema de uma amiga que vem desde os bancos da escola e que é das tais que «foram ficando» pelos catolicismos. Muito discreta, raramente deixa rasto, mas anda sempre por aqui perto: é madrinha de um blogger, foi catequista relativamente recente de outro (mas aqui não vai link porque ninguém tem nada a ver com isso) e queria dizer-me que eu sou a pessoa mais clerical que ela conhece - pela importância que dou ainda a posições do papa, de bispos e de outros que tais. Trocámos ideias sobre o assunto pela quinquagésima vez e registei a ideia, divertida.

Ontem (já hoje), a muito altas horas da noite, recebi um comentário ao mesmo post, acusando-me de anti-clericalismo primário: porque estou sempre à espreita do menor deslize das hierarquias para o sublinhar, porque, voluntariamente, faço o jogo dos «comunas» (sic) nos ataques à religião, porque, ardilosamente, espicaço e apoio os «maus» cristãos que dão cabo de tudo com missas esquisitas, defesas do aborto e outras coisas que tais. Não publiquei o referido comentário, não porque fosse ofensivo para mim porque não o era, mas pelos termos muito menos macios dos que aqueles que utilizei com que eram tratados «os irmãos na fé» da autora do comentário. Registei também, desta vez menos divertida.

Há, em Portugal, muito mais intolerância e fundamentalismo religioso activo do que talvez se pense. Acordamos para ele em períodos agudos, como foi o caso da campanha a favor da IVG em 2007, mas depois distraímo-nos. Lemos que as igrejas se vão esvaziando e, secretamente, alegramo-nos com o facto (é pelo menos o meu caso). Mas esse fundamentalismo obscurantista, e o intolerável moralismo que lhe está sempre associado, existe e aparece agora muitas vezes sob a capa de associações e ONG's beneficentes. Continua a minar este país, o profundo e o urbano, com grandes danos e muitas consequências.

9 comments:

Fernando Vasconcelos disse...

Bom por acaso não posso concordar com o seu ultimo parágrafo. Sou católico praticante. Reconheço que muitos dos dogmas da minha igreja estão incorrectos e acho que as missas são estupidamente afastadas dos problemas reais e espirituais das pessoas. Por isso e pela mensagem críptica as igrejas se esvaziam. Agora não posso concordar quando fala de ONGs e associações beneficentes e sem as distinguir (coloca-as todas assim no mesmo saco) , o que é profundamente errado fala de intolerável moralismo e grandes danos ... Intolerável? Desculpe-me mas não será essa também uma forma de fundamentalismo?

Joana Lopes disse...

Caro Fernando Vasconcelos,

Leia outra vez o que escrevi, por favor, e estou certa de que me dará razão: em relação a ONG's e associações, uso a expressão «muitas vezas» e não «sempre», não meto tudo no mesmo saco. E mantenho.

Quanto ao termo «moralismo», ele tem pos si só um sentifo negativo: o de considerar a moral como um absoluto que se basta a si mesmo e tudo domina.
Outra moisa é «moralidade».

Fernando Vasconcelos disse...

Ora bem Joana
a sua frase é "que lhe está sempre associado, existe e aparece agora muitas vezes sob a capa de associações e ONG's beneficentes."
Muitas vezes admito que não seja sempre e concedo-lhe em parte razão. Mas "muitas vezes" parece-me ainda assim injusto. Quanto ao moralismo admito que tenha razão. Porém sabe que da mesma forma que não derivo especial satisfação em ver uma Igreja cheia também me custa a entender porque razão se alegra com uma vazia. Admito que isso me tenha deixado azedo.

Joana Lopes disse...

Agora sou eu a reconhecer que o regozijo por saber que as igrejas se esvaziam é uma «boutade»: uma maneira de exprimir, rápidamente e em força, o meu ateísmo (eu que tive um longuíssimo passado de católica militante, como sabe quem acompanha este blogue regularmente).

Muito obrigada, sinceramente, pelas suas observações.

cristã disse...

Olá Joana. Concordo completamente quando diz que há ainda um fundamentalismo religioso e uma intolerância moralista na sociedade portuguesa ( nas ONG's não sei- conheço mal essa realidade).A ICAR continua a entender o laicismo do Estado como um ataque à fé e o laicismo das leis como uma ofensa ao dogma. As Igrejas continuam a tentar iludir e contornar (em muitos países islamicos a desrespeitar e a violar )um básico civilizacional - à Igreja, o que é dos fiéis e ao Estado, o que é dos cidadãos. E como cristã fico sinceramente muito preocupada quando ainda oiço- ao Papa, por exemplo, e recentemente - aplicar o termo heresia ou pecado a ateus ou agnósticos.

Joana Lopes disse...

Olá, «cristã», há muito que não aparecia como tal, mas o tema justifica-o...

Mas agnósticos e ateus serão sempre «hereos ateus serão sempre hereges!!

cristã disse...

Pois. esquecem-se esses que pecado e blasfémia ou heresia só fazem sentido - se é que algum sentido fazem - na ordem deles e se aplicados a eles.

Anónimo disse...

Boa noite, cristã. Já agora gostava que me indicasse em que documento ou intervenção o Papa fez essas afirmações?
E talvez fosse prudente distinguir laicismo de laicidade. Ou não?

cristã disse...

caro anónimo - começemos pelos significados:laicidade, qualidade de laico; laico, do Lat. laicu, leigo;secular;não religioso. Laicismo - doutrina tendente a reservar aos leigos certa parte no governo da Igreja; mas também sistema dos que pretendem dar às instituições um carácter não religioso.
Quanto ao Papa e à blásfémia, reconheço o erro fruto de uma leitura apressada - e porque, se reparar, se misturam declarações de Pahl com citações da carta do Vaticano escrita em nome do Papa - disto(http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2008/08/28/museu_desafia_papa_mantem_escultura_de_sapo_crucificado-547983847.asp: "O trabalho do artista alemão Martin Kippenberger, morto em 1997, foi exposto na Tate Modern e na Galeria Saatchi, em Londres, e na Bienal de Veneza(...) Em nome do papa, o Vaticano escreveu uma carta de apoio a Franz Pahl, líder do governo daquela região e uma das vozes contrárias à escultura."Claramente, não se trata de uma obra de arte, mas de uma blasfêmia e de um degradante pedaço de lixo que deixou muitas pessoas indignadas", afirmou Pahl à Reuters, por telefone, enquanto a diretoria do museu realizava sua reunião. Na carta, o Vaticano disse que a obra "fere os sentimentos religiosos de muitas pessoas que vêem na cruz o símbolo do amor divino". O mea culpa não é contudo retrataccão ao que disse : à hierarquia da Igreja continua a desagradar, infeliz e desgraçadamente - séculos o comprovam -, a necessidade de um Estado laico e a ideia básica de que o cidadão vale mais do que o crente. Sempre e em todas as circunstâncias.