18.1.22

Ary dos Santos

 



Deixou-nos há 38 anos, num 18 de Janeiro.
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O melhor tweet de ontem

 

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Costa a sugar a Esquerda

 


«Mesmo tratando-se de um momento com tanto de marcante como de escusado, aquele erguer de mão de António Costa com um Orçamento de Estado defunto na mão, no final do debate com Rui Rio, merece reflexão.

O Governo caiu na sequência do chumbo deste documento, num divórcio com os parceiros da Esquerda que parece estar para durar. De outra forma, o líder do PS não faria daquele Orçamento bandeira de campanha. Se o recusaram uma vez, por que razão Bloco de Esquerda e CDU haveriam de o deixar passar dentro de meses?

Atendendo a estes sinais e à forma como decorreram os debates com as peças da finada "geringonça", António Costa parece apostar tudo numa maioria absoluta que, segundo as sondagens, será pouco provável. Mas os socialistas acreditam, o que é legítimo e compreensível. Surpreendente mesmo só a estratégia que estão a utilizar para a conseguirem, procurando entrar a fundo no eleitorado à esquerda do PS. Ao não ceder um milímetro às correções propostas por comunistas e bloquistas, tudo o que Costa conseguiu foi "provocar" eleições, que, numa espécie de teoria da responsabilização, resultam em perdas para estes dois partidos e ganhos para o PS.

Depois de dobrar com a vela aberta as tormentas que poderiam ser os debates televisivos, agora, com a campanha na estrada, Costa pensará apenas em manter o ritmo, sendo bem possível que continue a tentar minar o caminho às forças que, teoricamente, o podem ajudar a formar Governo. Aliás, até o PAN já pode considerar-se vítima, quando viu o ainda primeiro-ministro aconselhar quem não vota no PS a optar pelo bloco liderado por Inês Sousa Real. A melhor maneira de desmobilizar o eleitorado de um partido pequeno é fazer acreditar que votar noutro maior vai dar ao mesmo. E Costa, na sua demanda de sugar a Esquerda, parece estar a fazer isso bem.»

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17.1.22

Prisioneiros

 


Cais do Sodré, embarque de prisioneiros para Caxias, 19XX?
Fotografia de Joshua Benoliel, AML.
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14.01.2022 – Debate Catarina Martins / Francisco Rodrigues dos Santos

 


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17.01.1944 – Françoise Hardy

 


Françoise Hardy chega hoje aos 78. Leio que continua a sofrer de efeitos graves da radioterapia e não só e que afirmou, há alguns meses, que gostava de recorrer ao direito de morrer com dignidade: «Gostaria de ter essa hipótese, mas, dada a minha pequena notoriedade, ninguém vai ainda querer correr o risco de ser expulso da ordem dos médicos».

Seja como for, quando desaparecer, nós, «les garçons et les filles de son âge», ficaremos para sempre a dever-lhe memórias de ternura e de inocência. Voltar a ouvi-la, nos seus primeiros tempos, devolve-nos uma ingenuidade que parece hoje irreal, quase impossível que alguma vez tenha existido.

Ler mais e ver alguns vídeos neste post do ano passado.
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Votómetro

 


O Votómetro está a encher as redes sociais e também lá fui. É um questionário bem feito, embora incompleto, que dá ao próprio a imagem das suas tendências de voto em função das respostas a 21 perguntas.

Bingo, no meu caso, quanto à primeira escolha, mais ao menos coerência quanto ao resto.
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Costa mais arrogante, mas Rio não fala para os eleitores que precisa



«O momento mais triste do debate de quinta-feira foi quando, mesmo no fim, de uma forma um pouco infantil, António Costa exibiu a sua proposta de Orçamento do Estado para 2022. Esse gesto remetia para o que tinha sido dito uma hora antes, quando Costa mostrou aos portugueses a arrogância que muito provavelmente teve nas negociações: independentemente do resultado de 30 de janeiro, que traduzirá a vontade popular quanto à correlação de forças entre os vários partidos, se ele for, como indicam as sondagens, primeiro-ministro, o OE será exatamente aquele. Disponibilidade para negociar depois de ouvir o povo? Zero. Espero que quem tivesse dívidas quanto ao passado recente as tenha finalmente esclarecido. Talvez tenha sido este o tom no processo negocial.

A quem conseguirá Costa impor esta arrogância prévia? Aparentemente, sabe que a ninguém, por isso quer governar sozinho. Pode ser com maioria absoluta ou sujeitará o país ao pântano que escolheu, depois de quatro anos de estabilidade baseados em acordos escritos, em 2019. No meio, apela ao voto no PAN, o segundo momento mais absurdo do debate.

Sim, estou cansado de tanta arrogância. É ela que explica as críticas que desde 2019 faço a Costa, baseadas no pântano em que quer continuar a governar se não aceitarem a sua vontade. Pelo menos até haver uma vaga na Europa para fugir de um cargo de que parece estar farto. Mas há uma coisa que não faço: tomar este meu cansaço com o primeiro-ministro pelo estado de espírito da maioria país.

Nenhum dado em nenhuma sondagem (e nem me refiro especialmente às intensões de voto, mas mais a outras avaliações) nos permite concluir que o país está farto de Costa. O governo estará naturalmente mais desgastado, mas o primeiro-ministro não tem grandes índices de rejeição. E o problema de grande parte das análises que ouvi e li aos debates é basearem-se nesta convicção, que não tem outra fonte que não seja o sentimento dos próprios comentadores.

Costa sempre foi mau em debates (e em campanhas) e mesmo assim ganhou eleições. Na quinta-feira, foi péssimo a defender o legado deste governo. Mas o legado deste governo é amplamente conhecido e a avaliação da maioria parece ser consistentemente positiva. As incógnitas são outras: as condições políticas de governabilidade e o que tem o concorrente de Costa para oferecer. Quanto à primeira questão, Costa enfiou-se num beco ainda mais estreito. Os eleitores não costumam gostar de ser chantageados. Mas na segunda, as coisas não se podem resumir à desenvoltura da prestação de cada um.

Sim, Rui Rio esteve bem melhor do que é seu costume e as espectativas eram baixas. Ligo pouco a notas artísticas, mas até é possível que tenha estado melhor na forma do que Costa. Serve para animar os convencidos, é pouco relevante para o voto. Para o voto, quando se está a quase 10% de distância (em três sondagens de três empresas diferentes), conta a capacidade de atrair boa parte do eleitorado do lado de lá. Ou pelo menos desmobiliza-la, desdramatizando os riscos que dali pode vir. Tinha de se colocar ainda mais ao centro do que na campanha interna do PSD. Mais importante do que a posição geométrica: tinha de não assustar aqueles que votaram em Costa depois de quatro anos de geringonça e que até agora não mudaram de opinião. Não me parece que tenha conseguido conforta-los.

Não conseguiu quando manteve as críticas ao aumento do Salário Mínimo Nacional que não fez perder um emprego ou atrasou a economia, mas afastou milhares de trabalhadores da pobreza. E Costa até perdeu a oportunidade de o confrontar com a posição do PSD sobre a redução do passe social ou das propinas, apesar de as ter referido. É curioso, aliás, que estas bandeiras que o primeiro-ministro agita para sublinhar o aumento de rendimento indireto não estavam no programa do PS de 2015. São conquistas daqueles com quem não quer falar. Mas servem-lhe bem em campanha.Rio também não conseguiu falar para lá do seu campo quando prometeu uma queda do IRC (sem qualquer critério económico e social), deixando o IRS na mesma, aumentando assim o peso relativo do fardo fiscal sobre os trabalhadores. Não conseguiu quando Costa sacou da proposta de revisão constitucional e demonstrou que o PSD mantém a ideia de pôr fim ao SNS tendencialmente gratuito para a classe média – só assim pode ser lida a sua substituição pela garantia de que o “acesso a cuidados de saúde do SNS não pode em caso algum ser recusado por insuficiência de meios económicos”. E não conseguiu contrapor um horizonte com propostas concretas perante o estado de negação em que Costa vive em relação ao que está a acontecer no SNS. Tudo temas que dizem muito as pessoas.

A pergunta não é se os eleitores de Rio ficaram satisfeitos com a sua prestação, depois de 15 dias a fazer-se de morto. É se algum eleitor que em 2019 votou para reeditar uma aliança do PS com o BE e o PCP e que entretanto não mudou se opinião se sentiu confiante e confortável para mudar para Rio, mesmo que até o possa considerar mais genuíno (tanto que exibe sem filtros a sua ignorância em relação ao voto antecipado em mobilidade). Não o vi onde, sobretudo perante a distância que separa os dois. Terá sido ao agitar o “papão” de Pedro Nuno Santos? O maior desgaste a Costa foi causado pela arrogância de Costa. O que até pode ter causado mais estragos no flanco esquerdo do eleitorado do PS.»

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16.1.22

A brincar mas com coisas bem sérias

 

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Rui Rio julga que tem graça ou é só tonto?

 

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PS e PAN

 



«A abertura manifestada por António Costa no frente-a-frente televisivo com Rui Rio de poder vir a coligar-se com PAN, caso não consiga a maioria absoluta nas legislativas, deixou a Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) indignada e com vontade de fazer campanha para boicotar o voto no PS nas eleições do dia 30 de Janeiro. (…)

Indignado com a situação, o secretário-geral da CAP disse este sábado ao PÚBLICO que está a apelar aos agricultores para o “risco enorme de votarem no PS”. “Votar no PS é comprometer a continuidade das actividades agrícolas tendo em conta as exigências que o PAN tem no seu programa eleitoral”, apontou, sublinhando que “esta posição de António Costa de governar em coligação com o PAN é uma linha vermelha para a Confederação dos Agricultores e pode custar ao PS entre 300 a 400 mil votos”.»
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O frenesim e a impotência política

 

@Edvard Munch

«Nas últimas semanas fomos tomados pelo frenesim mediático em torno dos debates da pré-campanha eleitoral. Para quem guardou algum distanciamento, o que se vislumbrou provocou apenas melancolia, pela dissociação entre a excitação em torno das performances e do desenho de cenários políticos depois das eleições, e a escassez de novidades. Não faltam partidos políticos. Não falta agitação. Mas é tudo algo artificial ou previsível. Os problemas são comprimidos. E não apareceram ideias, empenho mobilizador e outras possibilidades para superar os impasses.

O mundo mudou. O modelo neoliberal dominante e consensual durante décadas tem revelado erosão. Produz-se muito, mas as desigualdades avolumam-se. A democracia é agredida. Estamos imersos numa crise ambiental e a tentar sair da pandemia – mas nos debates nada disso se entreviu. Claro que existem muitas diferenças de conteúdo e de estilo entre as diferentes propostas, mas sente-se cristalização nas respostas políticas. Fala-se até à náusea de carga fiscal, mas nunca da aplicação dos nossos impostos, se para bens públicos, saúde, educação, cultura e ciência de qualidade para todos, ou para subsidiar uma mão-cheia de empresas.

Tal como se discorre sobre crescimento económico, visto como a solução de todos os problemas, mas sem um desenho global. Todos desejam que a economia cresça, mas mesmo nas economias mais estáveis o crescimento é hoje residual, se compararmos com o que acontecia há dez ou 20 anos. Por outro lado, vivemos com a consciência de que o crescimento não é infinito, pela situação ambiental. O crescimento deve ser meta, mas em coabitação com novos cenários de desenvolvimento e redistribuição, tendo em atenção as desigualdades e os recursos limitados do planeta.

Nos debates o que se viu foi a repetição do mantra do crescimento económico como se estivéssemos nos anos 80 dos yuppies. É como se quiséssemos resolver os problemas, recorrendo aos princípios que estiveram na sua origem. E depois falou-se também muito da Justiça e do Serviço Nacional de Saúde. Ainda bem. São fundamentais. Mas também a educação, a cultura, a habitação, a sustentabilidade do Estado social, a Europa, a transição digital, a emigração, as discriminações e exclusões, e disso falou-se pouco ou nada. Até nessa conformidade de não nos desviarmos da lógica doméstica, do aqui e agora, faltou discutir-se com mais profundidade os fundos europeus.

E, quando se afloraram algumas novidades, como o rendimento básico incondicional, imperou a preguiça de alguns, sempre prontos a cunhar de “delirantes” tais propostas, quando toda a gente sabe que o mercado de trabalho passa por profundas transformações. Não são apenas os vencimentos baixos. É como reduzir a carga horária sem que isso signifique reduzir salários. É como fazer com que as inovações tecnológicas não constituíam um problema, mas sejam solução para a criação de trabalhos mais criativos e ajudar a abolir os automatizados.

Em 2015, em Portugal, houve um momento em que pareceu que era possível romper com esta cristalização política, quando o PS e os partidos à sua esquerda, por norma excluídos do chamado “arco da governação”, viabilizaram uma solução governativa. Foi um arrojo parcial, mas que serviu para mostrar que a ladainha do “não existe alternativa à austeridade” era um equívoco. A solução estava em devolver, e não em cortar, rendimento às famílias. Não foi uma revolução, mas foi importante, até internacionalmente, para mostrar que há outras opções para enfrentar alturas de crise.

Agora, durante os debates, a sensação é que voltamos para uma zona de paralisia. Até a pandemia, um acontecimento com profundo impacto, e que impõe reflexões de mudanças de paradigma, foi abordado como se fosse um mero acidente de percurso. As eleições legislativas deviam ser oportunidade para pensar o futuro. Não se duvida que alguns políticos levem a sério esse propósito, mas até agora a exaltação mediática apenas tem sublinhado uma certa impotência, quando precisávamos da criação de horizontes.»

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