23.5.23

23.05.1934 - Bonnie & Clyde

 


Bonnie Parker e Clyde Barrow morreram há 89 anos. Ela tinha apenas 23 anos, ele 25, mas, apesar de curtas, as suas vidas foram atribuladíssimas, recheadas de assaltos e assassinatos, até que eles próprios foram abatidos numa emboscada, numa estrada deserta, algures no estado da Louisiana – cravados de balas, cerca de cinquenta para cada um, segundo consta. 



Ficaram imortalizados no imaginário da história do crime norte-americano como Bonnie & Clyde e foram trazidos para o nosso por um magnífico filme de Arthur Penn (1967), com «som» de Serge Gainsbourg, e, também, por uma inesquecível balada cantada por Giorgie Fame. 




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Eduarda Dionísio

 


Tudo sobre esta mulher fora de série está a ser dito por muitos.

Eu guardei para sempre a imagem da Eduarda, era ela talvez mais jovem do que nesta fotografia, no «Anfitrião» de António José da Silva, interpretado pelo Grupo de Teatro da Faculdade de Letras no Teatro da Feira Popular – em 1969, se a memória não me trai. Com Luís Miguel Cintra, Jorge Silva Melo e alguns outros, foi uma verdadeira pedrada no charco. Gente grande, gente boa – como o futuro veio a confirmar.
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A economia das pessoas

 


«Paolo Gentiloni, comissário europeu da Economia, veio a Lisboa, na última sexta-feira, e disse que há margem para aumentar os salários em Portugal. A afirmação não deixa de ser surpreendente e quase passou despercebida. Muitos terão pensado que foi um lapso.

Os números relativos ao PIB, ao défice e à dívida pública estão excelentes. Infelizmente, a vida das pessoas está bem pior. Desçamos ao país real. Imaginemos uma dona de um pequeno restaurante no interior do país. A história é real. No espaço de poucos meses, o cabaz de compras para confecionar os pratos que estão no menu encareceu mil euros. "Até durmo mal a pensar que vou à falência. Eu não posso duplicar os preços, se não fico sem clientes". Apliquemos este caso aos quase 37 mil restaurantes e cafés (muitos servem refeições) espalhados pelo país. O rendimento destas famílias terá caído a pique. Não dependem do Estado ou do patrão (eles é que são os donos) para que os seus proventos aumentem e, logo, possam fazer face à inflação.

Atentemos então nos milhões de clientes destes negócios da restauração. Se são trabalhadores independentes, estarão também a enfrentar agravamentos de custos. Se quem se senta à mesa é um trabalhador por conta de outrem (Estado ou privados), o problema é igualmente sério. Segundo o INE, a remuneração bruta média por trabalhador cresceu 3,6% no ano passado, em comparação com o ano anterior, tendo atingido 1411 euros. No entanto, devido aos quase 8% da inflação, o salário encolheu cerca de 4%.

De quem é a culpa de todo este espartilho? Do Estado e dos próprios empresários, por esta ordem de importância. Porquê? Se a carga fiscal baixasse - Portugal é dos países que mais penalizam o trabalho -, o empregado teria mais dinheiro disponível. Quanto ao empresário, quando a ganância é grande ou a crise eleva os seus custos, o capital humano é a vítima mais fácil no conjunto dos múltiplos fatores de produção.»

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22.5.23

Candeeiros

 


Candeeiro meia lua, cerca de 1930.

Daqui.
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Júlio Pomar

 


Deixou-nos ele, há cinco anos, mas não as suas pegadas inesquecíveis.
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Charles Aznavour

 



Seriam 99.
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- Está lá, dr. Cavaco?

 


- É só para dizer que escusa de estar preocupado, a gente amanha-se. E calce as pantufas que as noites estão frescotas.
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Marcelo e Costa: engulam o orgulho e cumpram as vossas funções

 


«Marcelo Rebelo de Sousa convocou os jornalistas para o que não era uma conferência de imprensa, desconvocou-os por não ter agenda, e, a essa mesma hora, passeou à frente do Palácio de Belém para lhes dizer que nada tinha para dizer que não tivesse dito antes. Se não nos tivéssemos habituado a situações caricatas este episódio seria motivo de galhofa durante dias. A falta de aprumo institucional tornou-se corriqueira. E, ao pé do que aconteceu no Ministério das Infraestruturas, até parece normal.

Claro que António Costa tem direito à sua vida privada e familiar. Mas é impossível não lhe ter ocorrido que, num momento em que o confronto semiótico entre o Presidente e o primeiro-ministro está ao rubro, dançar ao som dos Coldplay enquanto o ministro mais periclitante – que pode fazer cair um governo – era grelhado numa Comissão Parlamentar de Inquérito podia passar uma imagem de displicência, não de serenidade.

Neste momento, as duas principais figuras políticas nacionais estão a jogar poker aberto. E nenhum deles tem grande jogo. Não há qualquer pessoa no país que não perceba o que estão a fazer e, num momento em que o povo vive sérias dificuldades, essa perceção degrada ainda mais a confiança na política e nas instituições. É urgente que primeiro-ministro e Presidente da República esqueçam todas as jogadas anteriores e as que já tenham pensado para a frente. Que esqueçam as humilhações e os truques. Que se voltem a concentrar nas suas verdadeiras funções.

Seria excelente que Marcelo desarmasse a armadilha da dissolução. Se a tiver de usar, ela continua disponível. Mas mantê-la a pairar enfraquece-o mais a ele do que ao governo. Enviar recados, vindo de si ou de quem abusivamente fala em seu nome, de que fará cair Costa se este recuar e demitir João Galamba apenas serve para apodrecer ainda mais o ambiente político. Demitido agora ou mais tarde, este é um poder que é mesmo exclusivo do primeiro-ministro. Assumir isto implica o Presidente da República aceitar a derrota simbólica que infligiu a si mesmo quando abusou da ameaça dissolução para manter um governo sob tutela.

Costa deve aceitar que se o ministro das Infraestruturas não tem condições políticas para desempenhar as suas funções e deve ser demitido pelo menos fim da CPI, momento em que tiraria todas as conclusões, segundo disse. Independentemente daquilo em que cada um acredite, quem foi incapaz de gerir uma crise num gabinete e, tendo a iniciativa de despejar tudo na praça pública, a transformou numa crise política não pode gerir um ministério com esta sensibilidade. Ainda mais depois de ter envolvido o SIS e, com ele, meio governo. Isto implica o primeiro-ministro aceitar que o Presidente tinha, no que a este caso diz respeito, toda a razão. E que dar-lhe razão nisto não é dar-lhe o poder de demitir ministros.

O problema de Marcelo parece ser a pressão dos setores mais excitados da direita, regularmente representados pelos discursos ressentidos de Cavaco Silva – até falou da falta de respeito pela oposição, assunto em que a sua autoridade é menos do que nula. Se o ex-presidente quis pressionar e menorizar o seu sucessor, que conseguiu uma reeleição bem mais folgada do que a sua e níveis popularidade e abrangência com que Cavaco Silva nunca sonhou em Belém, o resultado foi outro: fazer parecer Luís Montenegro, para quem até guardou elogios, um líder fraco. As aparições do líder do PSD não são semestrais. E ninguém pode liderar a oposição pedindo diariamente uma demissão do governo. Ainda mais quando sabe que ela não irá acontecer. Cavaco foi a um encontro de autarcas sublinhar o que boa parte da direita vê como tibieza. E, de caminho, teve o efeito que tem sempre que abre a boca: deu alguma coesão a uma esquerda desmoralizada.

Voltando aos atores relevantes, e Cavaco Silva não o é há muitos anos, não sabemos o que acontecerá no futuro próximo porque eles próprios não o sabem. António Costa não sabe se ida a de Pedro Nuno Santos à CPI fará esquecer episódio de João Galamba e se o atual ministro, a que se agrilhoou, lhe reserva mais surpresas. Marcelo Rebelo de Sousa não sabe se a recuperação económica será suficiente para cobrir as perdas da inflação e do aumento das taxas de juro, a ponto disso se traduzir em alguma recuperação de votos para o PS. Saberá apenas que, chegados às eleições europeias, com uma abstenção enorme, corre o risco de ter o Chega com uma percentagem assustadora e, a partir daí, não poderá dissolver o parlamento.

Por mim, só sei uma coisa: enquanto debatem estes episódios e não o estado do SNS, a crise habitação ou a recuperação salarial, o PSD não ganha um voto. Se tivesse alguma coisa diferente para propor sobre estes temas ganharia em fazer deles assunto. É o que afeta a vidas concretas que levam as pessoas a querer mudar de governo. Assim como são eles que fazem os partidos à esquerda do PS roubar votos aos socialistas. Com a estas novelas, só ganha o Chega. A degradação das instituições faz Ventura parecer um político comum.

Cavaco Silva pode gritar o seu ressentimento tantas vezes como as que lhe ponham um microfone à frente. O fim desta crise artificial, divorciada da verdadeira crise que afeta os portugueses, está nas mãos dos dois principais atores políticos. O que temos de lhes explicar é que, neste tempo difícil, não precisamos de dois jogadores orgulhosos. Precisamos de dois homens de Estado.

O primeiro-ministro deve assumir que um ministro que perdeu as condições para o ser não as passa a ter só porque demiti-lo parece uma cedência ao Presidente. O Presidente deve assumir que a estabilidade política que nos prometeu não deixa de ser um objetivo só porque parte da direita a considera sinal de fraqueza. Pode fazer oposição, como fez Eanes a Soares, Soares a Cavaco e Cavaco a Costa. Não deve fazer do poder de dissolução o alfa e o ómega da política nacional. Se os dois fecharem esta novela com as decisões sensatas que já deviam ter tomado, os discursos invariavelmente raivosos de Cavaco valerão o que sempre valeram desde que saiu de Belém.»

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21.5.23

Casas

 


Casa Gazzoni, Milão, 1904-1905.
Arquitecto: Giovanni Battista Bossi.
Trabalho de ferro forjado de Alessandro Mazzucotelli.


Daqui.
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João Bénard da Costa

 


O João morreu há catorze anos. Foi anteontem.
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E porque hoje é domingo

 


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O estado a que o Estado chegou

 


«No meio da algazarra instalada e que nos é servida, em palpitantes fascículos, por cada sessão da comissão parlamentar relativa à TAP, torna-se difícil fixar a atenção nos verdadeiros assuntos de Estado. A atenção disponível tende a ser monopolizada pelos episódios mais suculentos, que revelam, sobretudo, o estado a que o Estado chegou. O grotesco usa ser atraente.

O envolvimento de personagens reais, vulgo respeitáveis políticos e seus gabinetes, adjuntos proscritos e ministros contactados de urgência noite dentro, mais um sortido inabitual de polícias e secretas mobilizadas a partir do topo das suas hierarquias, são condimentos que tornam a coisa muito picante e, por essa via, verdadeiramente irresistível. Mas estes segmentos mais divertidos e o impacto lúdico que geram não retiram a enorme gravidade de muito do que vai vindo à tona e que não é apenas periférico.

Há assuntos seriíssimos em cima da mesa, que merecem um tratamento à altura da sua importância. O que vale uma oportuna advertência: mesmo quando rir se afigura ser o melhor remédio para lidar com tanto despautério, devemos fazê-lo sob a égide desta quadra de Aleixo: “Julgando um dever cumprir,/ sem descer no meu critério,/ digo verdades a rir,/ aos que me mentem a sério.”

No meio da turbulência instalada, é fundamental não deixarmos que os epifenómenos nos vedem o acesso aos fenómenos. Fenómenos entendidos como o naipe de questões fundamentais, suscitadas na turbulenta comissão de inquérito. É muito importante que a cidadania ativa separe o trigo do joio e não deixe ficar sem resposta algumas perguntas capitais.

Permitam-me dar alguns exemplos, começando por matéria já algo esquecida, dado o desvio de rota operado na comissão: por que motivo foi paga uma indemnização à eng.ª Alexandra Reis, quando ela própria, pouco tempo antes do famigerado acordo, se dispusera a sair da comissão executiva da TAP sem reclamar qualquer pagamento, tal como é hoje público e foi reconhecido pela própria? Com base em que critérios e/ou pareceres os responsáveis políticos da altura anuíram ao pagamento feito? Em que medida tinham estes responsáveis conhecimento da disponibilidade da eng.ª Alexandra Reis para deixar a comissão executiva sem qualquer contrapartida?

Noutro plano: é ou não é verdade que o celebérrimo plano de reestruturação da TAP estava guardado no computador do dr. Frederico Pinheiro? É ou não verdade que só estaria nesse computador? Quem determinou essa opção? Como se compatibiliza ela com a preservação do que agora se diz ser informação classificada? Tem o Estado meios para preservar informação classificada em casos de quebra de confiança, ou terá de continuar a utilizar primitivos métodos musculados de ação direta? Como se justifica a intervenção, que tenho por ilegal, do SIS? Quem assume a responsabilidade por essa intervenção (o que se distingue de saber quem o terá chamado a intervir)? Para quem acha essa intervenção legalmente justificada, em que normas legais se baseia? Não vale ensaiar explicações do tipo “o SIS tinha de intervir por ter havido crime”, para depois, com a mesma candura, dizer que o SIS pôde intervir porque não houve crime”!

Muitas outras questões relevantes carecerão de resposta. Mas estes esclarecimentos ajudarão a levantar o véu sobre quatro pontos cardeais que envolvem opções tomadas e os seus protagonistas: como se administra; como se gere o dinheiro público; como se age e como se reage. A bem da democracia, do Estado de direito e do estado dos direitos.»

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