27.6.23

Armários

 


Armário Arte Nova com porta espelhada, Museu Wiesbaden, Alemanha, cerca de 1900.
Arquitecto e «designer»: Hector Guimard.

Daqui.
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«No céu cinzento sob o astro mudo»

 


Agora é que é, desde ontem, no sentido literal da frase.
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Nazis de sexta e 25 de Abril de sábado

 

«Este fim-de-semana tivemos uma pequena amostra daquilo que nos separa, como povo e como sistema político, da Rússia. Quer tenha sido real, quer tenha sido uma encenação, estamos perante um universo paralelo. Não sei se alguém entre nós está apto a fazer de intérprete da realidade russa e a torná-la inteligível e lógica. Tenho sérias dúvidas que sim.

Mas vi muitos a torcer pelo grupo Wagner e até por uma guerra civil na Rússia. Vi referirem o Prigozhin como se fosse o Salgueiro Maia. Os nazis de sexta já eram o 25 de abril de sábado. Quase que houve uma festa e bonita. É o que temos. Também não somos inteligíveis e lógicos.»

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O burro era inteligente

 


«As duas coisas que mais me ocorrem, esteja eu a fazer o que estiver, são irritantemente as mesmas coisas que o meu pai estava sempre a dizer-me:

“Pensa!”

e

“Olha para o que estás a fazer!”

Mas, claro está, quando eu pensava, ou olhava para o que estava a fazer, os conselhos mudavam:

“Despacha-te!”

e

“A pensar morreu um burro!”

Em adulto, diverti-me muito com o meu pai ao longo dos anos, falando sobre este problema.

Infelizmente, agora há a moda de denunciar o chamado overthinking (perder tempo e capacidade de decisão a pensar excessivamente). Claro que aquilo que se pretende atacar é o pensamento, o thinking, em si.

As pessoas inteligentes que se obrigam a usar a inteligência que têm (em vez de despachar-se) hesitam muito.

A hesitação é sinal de pensamento: identifica um problema de escolha. A dificuldade é o resultado correcto: saber o que se perde quando se escolhe outra coisa, incluindo a escolha que talvez seja a mais inteligente.

O burro que morreu a pensar, por exemplo, tem muito que se lhe diga. Buridan disse que é impossível escolher entre dois bens muito semelhantes, porque não há razão inteligente para escolher um e rejeitar o outro.

Não é preciso ir para a simplificação do burro que morre porque, estando cheio de sede e de fome, é incapaz de escolher entre o balde com água e o balde com aveia que estão à frente dele.

Quando ambas as coisas desejáveis são boas, é uma reacção frequente não escolher nenhuma, só para fugir à angústia da escolha e, uma vez feita, fugir à angústia de desconfiar que se fez a escolha errada.

Mas é o exercício de escolher que faz bem. Exercita o cérebro. Obriga-o a fazer o trabalho para o qual foi concebido.

É pensar que faz bem. O tempo que leva e as decisões que se tomam por força de muito pensar são questões secundárias.

As boas e más decisões também se podem tomar sem pensar, rapidamente, atirando uma moeda ao ar.

Pensar é que é importante.

E quem sabe se um dia pode vir a ser útil?»

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26.6.23

Estantes

 


Estante Arte Nova, Stavelot, Bélgica, 1899.
Arquitecto e «designer» de mobiliário: Gustave Serrurier-Bovy.

Daqui.
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26.06.1963 – «Ich bin ein Berliner»

 


Frase proferida por John F. Kennedy em Berlim Ocidental, exactamente há 60 anos, quase dois depois de o Muro ter dividido a cidade, num discurso que foi considerado um dos momentos mais importantes da Guerra Fria. Seis décadas depois como está o mundo? Nem sabemos bem…



Poucos meses depois, Kennedy foi assassinado em Dallas.
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Maria Velho da Costa

 


Seriam 85, hoje.
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Os investimentos que o Governo não fez

 


«Ficámos a saber há dias que o Governo bateu um novo recorde: pela primeira vez neste século há um excedente orçamental no primeiro trimestre do ano. Mais uma vez, as contas públicas estão a superar as metas estabelecidas pelo próprio Governo. Aconteceu de forma recorrente durante o mandato de Mário Centeno à frente das Finanças. Voltou a acontecer em 2022, quando Fernando Medina anunciou com orgulho um défice público de 0,4% do PIB, em vez dos 0,9% previstos no Orçamento do Estado (OE). Com os dados agora conhecidos, é possível que o saldo orçamental seja positivo já em 2023 – e não em 2027, como o Governo previa em Abril no Programa de Estabilidade.

Os que defendem tais desempenhos orçamentais afirmam que eles são essenciais para fazer descer a dívida pública. Não há dúvida de que reduzir o rácio da dívida é uma opção correcta, por dois motivos principais.

Primeiro, um país muito endividado, em particular se não tiver moeda própria, fica mais vulnerável a crises financeiras internacionais: no meio do pânico, pode ser difícil obter financiamento para pagar as dívidas passadas; se o banco central não intervier, substituindo-se aos investidores privados, os Estados podem entrar em incumprimento, tornando ainda mais difícil o seu financiamento. Ou então ficam dependentes de empréstimos externos condicionais, como aconteceu em vários países da UE na crise do euro, entre 2010 e 2012. Em ambos os casos, os custos económicos e sociais são elevados.

O segundo motivo pelo qual devemos reduzir a dívida é menos dramático, mas ainda assim relevante: quanto menor for a dívida, menos o Estado gasta no pagamento de juros, libertando recursos para outros fins. Isto é ainda mais importante quando as taxas de juro aumentam, como tem vindo a acontecer.

Mas reduzir o peso da dívida pública não é o mesmo que fazê-lo de pressa e à bruta.

Ao contrário do que muitas vezes se diz, não é preciso eliminar os défices para que o peso da dívida desça. É isso que mostra a história recente: entre 2016 e 2019 o rácio da dívida caiu de forma acentuada (de 131,5% para 116,6% do PIB), num período em que o défice orçamental foi em média de 1,1%; o mesmo aconteceu entre 2020 e 2022, com a dívida a cair de 134,9% do PIB para 113,9%, enquanto o défice foi em média de 1,7%. Como se vê, é possível descer o peso da dívida de forma significativa, tendo défices sempre superiores a 1% do PIB (a explicação é simples: dentro de certos limites, o aumento do PIB mais do que compensa a diferença entre receitas e despesas registada em cada ano).

E, ao contrário da ideia que parece empolgar Fernando Medina, uma redução abrupta do rácio da dívida pública não tira Portugal da lista dos países vulneráveis à próxima crise financeira. A história da crise do euro mostra-nos isso mesmo: dos oito países da UE que foram então sujeitos a programas de resgate, seis tinham rácios da dívida inferiores à média da zona euro. O que afastou os investidores destes países foram outros factores – em particular, a fragilidade dos seus sistemas financeiros, a acumulação de dívida externa (pública e privada) nos anos anteriores à crise e as baixas perspectivas de crescimento económico nos anos seguintes.

Ou seja, nem os saldos orçamentais positivos são necessários para que a dívida pública caia em percentagem do PIB, nem uma descida abrupta do rácio da dívida protege os países de crises financeiras internacionais (na verdade, só os bancos centrais o conseguem fazer). Resta-nos o argumento de que a redução da dívida faz baixar as despesas do Estado com o pagamento dos juros. O problema é que esta vantagem não está livre de custos.

Uma das principais vítimas da obsessão com a redução acelerada da dívida tem sido o investimento público, que todos os anos fica aquém do orçamentado. Para quem governa, os retornos políticos desta opção são óbvios: quando apresenta o OE para o ano seguinte, o governo vangloria-se pelos recordes previstos no investimento público; no final desse novo ano, fica com os louros dos recordes que bateu na redução da dívida e do défice – muito à custa do investimento que anunciou, mas não fez. No ano de 2022, este padrão foi levado ao extremo: a taxa de execução do investimento público foi a mais baixa desde 2012 (o valor investido não chegou a três quartos do que estava previsto no OE).

Na última década o investimento público em percentagem do PIB em Portugal foi sempre inferior ao da média da UE (2,1% contra 3,1%, no conjunto do período). Fazendo as contas, se o rácio tivesse sido idêntico à média europeia, o Estado português teria investido mais 16,7 mil milhões de euros do que de facto aconteceu (um valor equivalente a toda a dotação inicial do PRR).

Segundo a OCDE, num relatório recente sobre a economia portuguesa, o investimento público que ficou por realizar em Portugal na última década teria contribuído para um crescimento económico mais forte. Maiores investimentos em linhas de metropolitano, na rede ferroviária, na renovação das frotas de autocarros públicos e na eficiência energética dos edifícios teriam reduzido as emissões de CO2, bem como o peso da energia nos custos suportados pelo Estado, pelas empresas e pelas famílias. Maiores investimentos nos serviços públicos de emprego e em programas de requalificação de activos teriam melhorado o ajustamento entre a procura e a oferta de qualificações, com impactos positivos na produtividade. Na área da saúde, não faltam à OCDE exemplos de investimentos que poderiam contribuir para reduzir custos, para além de melhorarem o acesso da população aos cuidados médicos: o investimento em cuidados primários e em médicos de família teria permitido atenuar o recurso excessivo às urgências hospitalares (que têm custos médios muito mais elevados); o investimento em prevenção da doença, que apresenta em Portugal um dos valores mais baixos entre os países da OCDE, poderia evitar custos futuros com o sistema de saúde; e o investimento na digitalização dos registos médicos e na articulação da rede de cuidados traria ganhos de eficiência ao sistema.

Estes exemplos estão longe de esgotar a lista de investimentos que poderiam aumentar a produtividade em Portugal de forma duradoura, mas que ficaram por realizar nos últimos anos para que o Governo pudesse mostrar serviço na frente orçamental.

Em 2011 havia um primeiro-ministro que queria ir – e foi – além da troika. Hoje temos um ministro das Finanças que quer forçar a redução da dívida e do défice para lá do que as regras europeias obrigam. Isto mostra que a troika saiu do país, mas ficou nos corações de alguns portugueses. Incluindo alguns membros deste Governo.»

Ricardo Paes Mamede
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25.6.23

Uma casa muito especial

 


Casa Batlló, edifício do modernismo catalão, Barcelona, 1904-1906.
Arquitecto: Antoni Gaudi (auxiliado por Josep Maria Jujol e Joan Rubió i Bellversituado).

Hoje não podia escolher outro arquitecto, já que Gaudí nasceu num 25 de Junho. Sobre esta Casa, pode ser lido mais aqui. A fotografia foi tirada por mim.
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Antoni Gaudí nasceu num 25 de Junho

 


Antoni Gaudí nasceu em 25 de Junho de 1852 e teve uma morte insólita, a poucos dias de fazer 74 anos: ao sair da sua catedral Sagrada Família, foi atropelado por um carro eléctrico numa rua de Barcelona. Sem documentos nem dinheiro na algibeira, acabou por ser levado para um hospital e depositado numa ala comum reservada aos pobres.

Estranhando a ausência, os seus colaboradores localizaram-no no dia seguinte, quiseram levá-lo para um hospital com melhores condições, mas viram a proposta recusada pelo próprio e assistiram à sua morte em 10 de Junho de 1926. Dois dias depois, uma multidão prestou-lhe uma última homenagem, num longo cortejo que acompanhou a urna até à cripta da catedral.

Polémico como poucos, odiado por alguns, idolatrado por outros, único para todos. Em jeito de homenagem, fotos de algumas das suas obras mais emblemáticas. 



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George Orwell faria hoje 120 anos. Nasceu em Motihari, nas Índias Orientais, onde ninguém deixa de reivindicar o facto quando a voz corrente o considera originário de Myanmar – reivindicação que ouviu mais de uma vez, quando andei por lá perto, a caminho do Butão. Mas, de facto, foi só em 1922 que Orwell chegou a Mandalay, na Birmânia, para frequentar a escola que o tornaria membro da Polícia Imperial de Indiana naquela então colónia britânica. Manteve-se nessa função até 1927, ano em que contraiu a dengue e regressou a Inglaterra.

Continuar a ler AQUI, num post do ano passado.
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Emergência climática

 


«Cientistas afirmam que o Planeta Terra se extinguirá daqui a uns quantos milhões de anos, mas o ser humano parece, absurda e drasticamente, empenhado em apressar o seu fim. Líderes mundiais reúnem-se, sob o manto de boas intenções, numa tentativa de alcançar um acordo suficientemente capaz de reverter a situação de quase tragédia climática, mas ficam-se, uns pelas promessas que não cumprem, outros abertamente negam-se a assumir projectos e protocolos de reabilitação da Natureza, desinteressando-se de atingir a neutralidade carbónica.

Desde o criminoso desígnio de esventrar a Amazónia, pulmão do nosso Planeta, à compra das percentagens de emissão de carbono pelos países ricos e desenvolvidos aos países emergentes e em desenvolvimento, à poluição dos rios, dos mares e do ar, tudo são contributos mortais para a vida na Terra. A ganância do ser humano pode ser insuportável pela falta de limites e de ética. Peritos na matéria procuram com redobrada ansiedade novos planetas que apresentem características e elementos básicos para o suporte da vida humana, creio que não só pela intrínseca vontade de ir sempre mais além na descoberta do Universo, mas também para garantir a migração dos humanos sobreviventes à previsível morte do Planeta Terra. Vamos destruindo negligente e sistematicamente o nosso refúgio, a nossa casa comum e já buscamos novo berço para, provavelmente, o destruir também. É urgente a consciencialização individual para que possamos intervir publicamente com voz activa, assertiva e contundente e dizer basta à destruição da Natureza a que vimos assistindo impavidamente. As alterações climáticas que já estavam previstas para ocorrerem dentro de anos já cá estão com todos os desastres atmosféricos com que somos confrontados. Chuvas torrenciais, secas intermináveis, vagas de calor, tufões, ciclones e tornados em quantidade e violência improváveis, o degelo dos glaciares multiplicam-se a uma velocidade estonteante. Não há já estações definidas, com graves prejuízos para as nossas rotinas. Essencial à vida, a água já não é um bem ilimitado. Esbanjamos, todos os dias, este suporte, enquanto cerca de dois mil milhões de pessoas no Mundo não têm acesso a água potável. Ao mesmo tempo que em alguma parte do Mundo se morre devido às cheias, desabamento de terras, inundações de vilas e cidades, noutra morre-se de fome, de sede e de doença provocadas pelas secas que matam as sementes e as plantas que nos alimentam. Esperar pelos outros não é uma opção. Sendo fundamental o Mundo global encontrar uma solução para a continuação da vida na Terra, cada país, cada um de nós tem de assumir-se como defensor da Natureza e lutar por ela. Não é só a economia e o nosso bem-estar social que estão em causa, é a nossa própria subsistência.

É a vida do Planeta que urge defender e melhorar, corrigindo erros passados e enveredando pela criação de uma vivência sustentável e amigável.»

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