17.10.23

Banksy em Gaza

 




Mais AQUI.
.

Lá vamos

 

.

Uma questão de princípio

 


«Um professor em protesto, que decidiu viver numa carrinha para solucionar o problema da habitação, estacionou à porta do Palácio de Belém. O objetivo era denunciar as dificuldades por que muitos professores passam quando são colocados longe de casa. É um protesto justo, concorde-se ou não com a forma, mas todo o fundamento ficou reduzido a nada quando o professor fez saber que o presidente da República lhe pagou, e ele aceitou, uma noite numa pensão onde pôde tomar o seu “banhinho”.

Se não fosse burlesco seria, no mínimo, estranho. Primeiro, Marcelo Rebelo de Sousa, mesmo enquanto cidadão, deveria evitar essa postura e o próprio professor tinha a obrigação de rejeitar uma ajuda completamente inútil. Por uma questão de princípio.

Assim, caiu por terra todo o fundamento de uma ação que pretendia usar um caso limite para ilustrar as dificuldades de muitos professores.

A tal oferta de uma noite de estadia na pensão da zona é a prova de que o presidente da República ou não percebeu o alcance da questão - e isso é muito improvável - ou acha que, mais do que resolver problemas, é importante aproveitar a oportunidade de se mostrar próximo das pessoas, mesmo que com atos inúteis na sua essência.

Ao aceitar a ajuda, o professor que se manifestava prestou um mau serviço aos colegas, mesmo que alguns que se juntaram ao seu protesto tenham aplaudido a iniciativa individual de Marcelo Rebelo de Sousa.

“O senhor presidente, pago do seu bolso, tomou a iniciativa de alugar-me um quarto, aqui na pensão Setubalense, onde eu posso tomar o meu banhinho e fazer a minha dormida. Posso pernoitar hoje e fico muito agradecido ao senhor presidente.” Com esta frase, conseguiu arruinar todo o capital que possa ter acumulado com o seu caso.

A classe docente deve também pensar na forma como o presidente da República, com uma suposta ação de boa vontade, conseguiu dar uma machadada numa luta cuja origem está longe de ser resolvida.»

.

16.10.23

Há sempre mais uma bela porta

 


Porta da Casa Joan Barata, Tarrasa, Catalunha, Espanha, 1905.
Arquitecto: Lluís Muncunill i Parellada.


Daqui.
.

16.10.1968 - Jogos Olímpicos do México

 




Ler: As luvas pretas que ajudaram a mudar o mundo
.

Ana Gomes sobre a guerra

 




.

16.10.1982 – 41 anos sem Adriano

 


Adriano Correia de Oliveira tinha apenas 40 anos quando morreu. Estudante de Direito em Coimbra, aderiu ao PCP na década de 60, foi activista na crise académica de 1962 e participou num elevado número de actividades culturais, sobretudo naquela cidade universitária.

«Trova do vento que passa», com poema de Manuel Alegre, gravado em 196, viria a tornar-se uma espécie de hino da resistência dos estudantes à ditadura. 





Muitos outros temas se juntaram, de um dos nossos mais célebres cantores de intervenção, antes e depois do 25 de Abril.






..

Como criminalizar o apoio a 140 resoluções da ONU

 


«Um vídeo com mais de 230 mil visualizações, no próprio dia em que foi publicado no Twitter, mostra um membro do Hamas a abater um helicóptero israelita. Outro, com mais de 3 milhões, exibe um edifício a ruir em Israel depois de um ataque do Hamas. Têm em comum serem falsos. O primeiro é retirado de um jogo de computador, Arma 3, o segundo mostra o resultado do ataque aéreo israelita à Torre Palestina, em Gaza. Não são casos isolados. Shayan Sardarizadeh, o jornalista do programa de verificação de conteúdos falsos da BBC, garante nunca ter visto tanto conteúdo falso a circular no Twitter ou no Tik Tok.

Nunca tivemos acesso a tantas imagens dos conflitos que mais ocupam o espaço público como na última década e meia – Síria, Ucrânia e Israel e Gaza. Com a viralidade das redes sociais, o seu alcance é instantâneo e quanto mais brutal mais longe e depressa chega. As partes beligerantes sabem-no. A Ucrânia revelou-se exímia no aproveitamento mediático das redes sociais, com uma gestão hiperprofissional da atenção e simpatia das opiniões públicas. O Hamas filmou e divulgou a barbárie do dia 7 de outubro como ponto central da campanha de choque e terror para forçar uma violentíssima reação israelita.

Gerou polémica, em 1991, a presença de jornalistas nas colunas militares norte-americanas na guerra do Iraque. Onde esse tempo já vai. Se a objetividade jornalística era vítima da voracidade dos ciclos noticiosos cada vez mais curtos da televisão por cabo, o aparecimento das redes sociais deixou o jornalismo para trás.

Grande parte das imagens que vemos nas televisões mundiais são fornecidas, direta ou indiretamente, pelas forças em conflito. Sejam soldados nas trincheiras do sul da Ucrânia, a filmar a dureza dos combates com câmaras no capacete, seja a violência indizível do assassinato de civis a sangue pelo Hamas, sejam os ataques aéreos a Gaza, demasiado parecidos com um jogo de vídeo. Cada uma serve um propósito diferente, consoante a estratégia de cada força, mas o objetivo é sempre o mesmo: transmitir a sua versão do conflito.

Não é por acaso que Israel condicionou o acesso à internet na faixa de Gaza. As razões são as mesmas que levaram a impedir o acesso da imprensa a Gaza, em 2008, numa das expedições punitivas que ciclicamente travam nesta pequena faixa. É assim que não vemos tantas imagens, nos media ocidentais, das vítimas em Gaza. Felizmente existe a Al-Jazeera (e mais algumas cadeias internacionais com meios para estar no terreno perigoso), o que até levaria a um debate interessante sobre a importância do peso económico de cada lado para contar uma versão de uma história.

Sem Internet e com condicionamento jornalístico, ficam são os vídeos que o exército israelita vai produzindo para canais como o Tik Tok. Neles vemos prédios em ruínas, esfumaçando depois das explosões, mas não há grandes planos das vítimas ou da dor e sofrimentos das suas famílias. Isto quando sabemos que na última semana já foram mortos mais palestinianos do que israelitas.

Quem controla as imagens que circulam no gigantesco mercado de difusão narrativa em que se tornaram as redes sociais controla não apenas a informação, mas a perceção pública. E quem controla a perceção controla quase tudo. As imagens moldam e deformam a visão que temos dos conflitos. Que, nesta permanente sucessão de imagens choque é visto como se tivesse começado na semana passada. Na Internet nada se perde, a não ser o contexto. Nada existe para lá do presente. Veja-se como, num conflito com dezenas de anos de amargurada história de ressentimentos, violência sectária e humilhação, a discussão é sempre feita como se tudo tivesse começado com a barbárie de 7 de outubro. Sem passado ou contexto.

Em Israel, a comparação com o Holocausto criou uma tal pressão política que a simples referência às vítimas civis em Gaza é tratada como uma traição abjeta. Ainda assim, é natural, num país que passou por um trauma. Mas não é só em Israel. A comparação com o ISIS espalhou-se como um vírus, apesar de qualquer pessoa que saiba alguma coisa sobre aquele conflito perceber que é falha em quase todas as condicionantes políticas, históricas e geográficas. A interdição do "mas", mesmo que esse "mas" se resuma a informação útil para a compreensão de um conflito com 70 anos, e não com uma semana, é o retrato perfeito da confusão entre firmeza moral e simplificação extrema de um conflito, como cada parte beligerante deseja sempre que seja. E acaba onde acabou sempre: na terraplanagem do pluralismo, na polarização perigosa e na porta aberta para a conivência com o abuso de um dos lados e com a limitação da liberdade.

Vale a pena ler o notável artigo em que o editor internacional da BBC explica por que razão o canal público britânico não chama “terroristas” ao Hamas. Pela mesma razão, adianta, que na Segunda Guerra Mundial, mesmo quando o país estava a ser bombardeado, nunca chamaram outra coisa aos alemães que não fosse “o”, evitando termos pejorativos. Porque a tarefa dos jornalistas é fornecer dados e factos e cada pessoa fazer a sua leitura. “Acima de tudo, dizia um documento da BBC sobre tudo isto, não deve haver lugar a discursos demagógicos. O nosso tom tinha de ser calmo e controlado”.

Concorde-se ou não com o caminho seguido pela BBC, ele nasce de uma discussão interna sobre a consequência e o poder das palavras e imagens que parece ter sido completamente eclipsado da maioria dos canais noticiosos. Numa luta com a velocidade, alcance e impacto, o jornalismo aproximou-se dos códigos das redes em vez do oposto. A exploração da emoção substituiu a escolha do que é relevante, a “folhetinização” o contexto. A emoção pode gerar boas novelas, não nos dá boa informação.

A forma como a história das crianças decapitadas ocupou o espaço comunicacional de meio mundo é reveladora desta pressão para a publicação imediata do mais chocante. Matar uma criança, seja de que forma for, é um ato de grotesca desumanidade e a decapitação é um acrescento macabro, mas não o mais relevante do ponto de vista moral. Mas a forma como foi comunicada interessa do ponto de vista jornalístico. Porque nos diz como a desinformação circula.

O que ficámos a saber é que tudo nasceu de um relato indireto, contado por um soldado, a um jornalista israelita, que mais nenhum colega internacional ouviu ou corroborou. O próprio exército israelita não confirmou, mas a história seguiu o seu caminho até ao próprio Biden, desmentido depois pela Casa Branca. A história está cheia de confirmações e desmentidose até apareceram outras fotos grutescas. Mas a generalidade da comunicação social divulgou uma informação sem fonte clara e verificação. Isto não torna os atos do Hamas menos horrendos. Apenas mostra os riscos de um jornalismo que funciona como caixa de ressonância da desinformação do lado que está, a cada momento, mais disposto a ouvir.

Doses massivas de emoção prendem as pessoas ao ecrã, mas minam o espírito crítico e diminuem o espaço para a dúvida. E sem dúvida não há contraditório. Não há o imprescindível “mas”, a mais importante conjunção para a democracia. A emoção alimenta maniqueísmo em vez da divergência racional, tantas vezes fundada no contexto e na história. E se há conflito que tem contexto e história é este.

É este ambiente mais uma vez emocional nos encaminha para a tentativa moralmente aberrante de criminalizar o apoio à causa palestiniana. Isto aconteceu com a guerra na Ucrânia, mas neste caso é muito mais perverso, porque o apoio à causa palestiniana (não ao Hamas) é o apoio às vitimas de uma continuada violação do direito internacional.

A Feira do Livro de Frankfurt cancelou o prémio literário que tinha previsto entregar a Adania Shibli, porque o tema do seu livro é o assassinato de uma jovem palestiniana pelo exercito israelita em 1949. França e Alemanha proibiram manifestações de apoio à Palestina, com vários manifestantes que empunhavam a bandeira desta nação a serem detidos. O governo do Reino Unido dá ordens à polícia para intervir no mesmo sentido.

A instauração do delito de opinião será sempre inaceitável e um perigoso sinal dos tempos que vivemos na Europa. Mas é ainda mais inacreditável quando estamos a falar de uma causa que tem o direito internacional do seu lado – desde 2015, a Assembleia Geral da ONU aprovou 140 resoluções criticando Israel. Durante o mesmo período, aprovou 68 resoluções contra todos os outros países, de acordo com o relatório da ONU Watch. É ainda mais incrível quando todo o mundo assiste à violação concreta, clara e indesmentível das leis da guerra, neste preciso momento, cometidas aproveitando a anestesia moral da emoção. Ao fim de quantos milhares de palestinianos mortos podemos ser solidários?

O jornalismo emocional não se limita a acordar consciências. Também as anestesia. O papel do jornalismo é acrescentar contexto e razão ao que é paixão e emoção. Por isso a BBC é tão exigente nos termos que usa. Infelizmente, disputando o mercado da atenção e não o da credibilidade, as televisões vão esmagando o pensamento crítico, a dúvida, a saudável adversativa, o contexto e a memória com uma enxurrada de imagens e lágrima e gritos e gestos de solidariedade... E nada é mais fácil de manipular do que a dor.»

.

15.10.23

Camisarias

 


Camisaria Niguet, Bruxelas, 1896.
Arquitecto: Paul Hankar.


Daqui.
.

É mais ou menos isto

 

.

Palestina

 


.

Os “anti-semitas” e a honra perdida de Ursula von der Leyen

 


«Ursula von der Leyen foi a Israel na sexta-feira, com Roberta Metsola, a presidente do Parlamento Europeu, e disse a Israel para fazer o que quisesse aos palestinianos, que a Europa apoiava cegamente.

A única versão benévola das inacreditáveis declarações de Von der Leyen, ao lado de Benjamin Netanyahu, é o facto de, enquanto cidadã da Alemanha, lhe ter assaltado a culpa do Holocausto, levado a cabo pelos seus antepassados.

Percebo o sentimento de culpa transgeracional, também me sinto culpada pelos crimes do colonialismo e, tal como Ursula com o Holocausto, só soube a posteriori.

A questão é que a quantidade de sentimento de culpa e remorso que um europeu consegue abraçar é finita e no nosso arsenal de culpa colectiva só cabe uma vítima – os judeus, perseguidos durante séculos por motivos religiosos e de racismo, que culminaram nos horrores do Holocausto.

Esta é a versão benévola: a outra é que Ursula von der Leyen prepara-se, à semelhança de muitos na Europa, no Reino Unido e nos Estados Unidos, para ignorarem tudo o que se passou antes do ataque carniceiro do Hamas a Israel há uma semana. E não estão muito preocupados com o que se passou entretanto e se vai passar depois.

Até Anthony Blinken, o secretário de Estado do país cujo apoio à vingança de Israel seria automático, conseguiu lá pôr um “mas” que Ursula von der Leyen decidiu não colocar: “A nossa humanidade – o valor que atribuímos à vida humana e à dignidade humana – é o que nos torna quem somos. E é um dos nossos maiores pontos fortes. É por isso que é tão importante tomar todas as precauções possíveis para evitar ferir civis. Por isso lamentamos a perda de todas as vidas inocentes, de civis de todas as religiões, de todas as nacionalidades, que foram mortos.”

É uma citação comprida que pelo menos afirma algo que Ursula podia escolher dizer – no mínimo, cumprir a decisão que tinha saído da reunião dos ministros europeus de terça-feira – e que preferiu não fazer e envergonhou profundamente a União Europeia.

Neste dia em que escrevo, a UE prepara-se para apoiar toda a selvajaria prevista na contra-ofensiva que Israel prepara, ainda que Josep Borrel tenha vindo amaciar as declarações de Ursula von der Leyen.

O Hamas procedeu a uma acção terrorista criminosa, Netanyahu – a praticar terrorismo de Estado há muito tempo e a liderar um país onde vigora o apartheid – vai responder até conseguir exterminar os árabes da Palestina (não vai ser só o Hamas). E que, como Jorge Almeida Fernandes aqui bem lembrou, nasceu com o apoio de Israel para debilitar a OLP – Organização para a Libertação da Palestina.

Se Ursula ainda pode ter o “benefício da dúvida” da culpa transgeracional, Rishi Sunak, o primeiro-ministro britânico, está agora a aproveitar o ataque do Hamas a Israel por razões estritamente políticas: este sábado fez um comunicado em que ignorou os civis palestinianos e as resoluções da ONU continuamente violadas por Israel. Segundo o Guardian, os trabalhistas estão apreensivos com o risco de que Sunak lhes cole o rótulo de “anti-semitas”, o que pode ser prejudicial nas próximas eleições. Keir Starmer, que afastou o anterior líder Jeremy Corbyn por alegado “anti-semitismo” e agora o proibiu de se recandidatar sob a bandeira do Labour, está a provar do seu próprio veneno.

O apelo a que não se politize a guerra já está perdido. “Don’t”, disseram Biden e Blinken obviamente com outros objectivos. Mas aqui na Europa, “they do”.

O nosso “doer” – fazedor – da política de usar a guerra para obter ganhos políticos é Carlos Moedas, o presidente da Câmara de Lisboa, que esta semana acusou “a extrema-esquerda” de “conivência com terroristas”, com discurso que “roçou o anti-semitismo, a pior forma de racismo”. A acusação de anti-semitismo está a começar a vulgarizar-se e é o pior serviço a Israel que qualquer pessoa com responsabilidades políticas pode fazer. Antes fôssemos todos animais: haveria mais empatia, se tivessem sido 3000 gatinhos mortos em Israel e na Palestina e não o número de pessoas de carne e osso que já foram mortas dos dois lados.

Os termos da discussão pública – mesmo nas mais altas instâncias, a começar pela presidente da Comissão – são indignos e limitam-se à desumanidade que é a de cada um escolher o seu morto. Isto é a barbárie.»

.