18.6.24

Outra bela casa

 


Casa Fuster, Barcelona, 1908-1910, convertida num hotel de luxo em 2004.
Arquitecto: Lluís Domènech i Montaner.

Daqui.

Maria Bethânia

 


Chega hoje aos 78 com uma carreira iniciada em 1963, quando o seu irmão Caetano Veloso a convidou a participar na peça «Boca de Ouro». Foi nessa época que, tal como Caetano, conheceu Gilberto Gil e Gal Costa, e com eles entrou em «Nós, Por Exemplo» (Agosto de 1964).

Depois… continuou até hoje.







«Noturno» ao vivo (2021), versão completa:


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Anouk Aimée

 


Morreu hoje com 92. Menos uma que deixou marca na juventude de muitos de nós.



De Gaulle e a Resistência francesa

 



Vale a pena ouvir este apelo do general De Gaulle, lido na BBC em 18.06.1940, considerado como símbolo e início da Resistência francesa na II Guerra Mundial.


Gaza e o clima são duas crises e uma só indignação

 


«As novas gerações — porque são sobretudo elas que o fazem — protestam contra o suicídio colectivo que as alterações climáticas representam, e protestam contra as consequências trágicas do que se passa em Gaza, porque ambas merecem a mesma indignação, pela angústia da impotência que provocam e pelo desconforto da injustiça que alimentam. Essa indignação é fácil de perceber, tão fácil de subscrever.

A crise climática e a crise humanitária criam um sentimento de impotência individual e uma raiva de grupo na crítica da hipocrisia de Estados e governos que só se preocupam com elas na aparência dos discursos solenes. Um discurso duplo, ambíguo.

À ansiedade climática associa-se agora uma ansiedade humanitária e um activismo mais combativo. São duas ânsias e atitudes que não se auto-excluem nem sobrepõem. Pelo contrário, as duas complementam-se como visão crítica de um mundo governado por uma classe política encarada como falsa e cínica, capaz de sacrificar o planeta e o respeito pela vida humana, em nome de interesses opostos aos valores que tanto gostam de incluir nos seus discursos sobre a superioridade moral e ética das democracias face às tiranias.

Encontros como as COP e os protocolos de Quioto são boas intenções ultrapassadas pelas segundas intenções das potências dominantes e poluentes, que geram descrença e revolta. Na última COP 28, os activistas do clima defenderam a inclusão da Palestina no debate sobre a justiça climática global e reuniram-se à volta de campanhas como #NoClimateJusticeWithoutHumanRights.

A repetição dos ataques a Gaza, que vitimam a população civil, sem qualquer protecção, e o seu prolongamento indefinido cria uma incomodidade semelhante: como lidar com a impotência e a ansiedade destas imagens? A ecoansiedade ou a ansiedade para com Gaza têm um vírus em comum: a inacção. E a exigência de justiça como obrigação ética.

Esta discrepância entre uma crescente ansiedade, que exige mais acção, e o desinteresse dos Estados, que se confunde com inacção, aprofunda um abismo geracional e político entre quem representa e quem é representado.

Os partidos continuam a ignorar as mudanças sociológicas do eleitorado, particularmente estas inquietudes geracionais, relacionadas com a forma de governar e não com a forma de taxar impostos, e a actuar como se o mundo não estivesse em transformação, à excepção de acharem prioritário passar a mensagem política no TikTok e nos programas televisivos da manhã.

Este desfasamento mina a confiança no sistema de representação. Quem protesta convence-se que o coro de indignação a que pertence é ignorado pela classe política, e que esta promete justiça como uma noção meramente instrumental e utilitária, em negação de qualquer imperativo categórico kantiano, que tanto discurso inflamou sobre a superioridade ocidental.

Felizmente, a direita radical não sabe como lucrar com esse descontentamento, ou porque nega as alterações climáticas ou se está a borrifar para elas, mas sabe lucrar com quem pertence à mesma geração e a quem a inacção não perturba. O sectarismo à esquerda afunila-se numa estratégia de combate, o que faz com que o pluralismo seja uma extravagância dos dois lados da barricada, que não tem como consequência o alargamento da sua base de apoio.

Quer num caso, quer no outro, tem sido a Organização das Nações Unidas, enquanto organização, e não o seu Conselho de Segurança, que mais se tem batido para que o mundo acabe com a sua inércia.

O ano passado foi o mais quente de que há registo e o secretário-geral da ONU não se tem cansado de alertar para o facto de termos passado da era do aquecimento global para a da ebulição global e para a necessidade de uma “bóia de salvação” para a Terra.

Como nunca tinha acontecido em outra guerra, as instituições e funcionários das Nações Unidas e de organizações humanitárias (para não falar nos jornalistas) transformaram-se em alvos militares, como observou ao PÚBLICO o subsecretário-geral da ONU e director executivo da UNOPS, a agência da organização para as Operações. A ninguém nesta guerra é atribuído o estatuto da neutralidade.

António Guterres e Jorge Moreira da Silva não se conformam com a passividade com que assistimos à acelerada destruição do planeta e à inconcebível destruição da mais básica das básicas noções de humanidade. Os dois têm denunciado o que deveria ser denunciado ou sustentado pelas principais democracias dominantes sentadas no Conselho de Segurança e fazem-no com coragem e determinação, em nome de valores que não se transaccionam.

Infelizmente, a tentativa de acção da ONU não tem conseguido romper a inércia dos Estados. A carta das Nações Unidas não pode ser uma letra morta.»


17.6.24

Uma bonita «casinha»

 


Villa Broggi Caraceni, Arte Nova, Florença, 1911.
Arquitecto: John Michelazzi.


Daqui.

Jean-Louis Trintignant

 


Tinha 91 anos e morreu em 17 de Juno de 2022. Ficam no baú da nossa memória «Un homme et une femme», «Ma Nuit Chez Maud», «Z» e tantos outros filmes.




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Já podemos discutir a UE a sério?

 


«Para a generalidade dos comentadores, os campos em disputa nas recentes eleições para o Parlamento Europeu reduziam-se a dois: os pró-União Europeia e os anti-União Europeia (UE). Nunca se percebeu muito bem em que consistia uma coisa e outra, mas não importa: para quê complicar uma coisa que é simples?

Na verdade, lendo os programas e ouvindo os discursos, não é assim tão simples. Todos os principais partidos portugueses têm propostas sobre a UE. Nenhum defende o fim da UE, nem o fim da participação de Portugal no processo de integração. Todos fazem críticas e todos têm ideias sobre como melhorar o que existe, embora defendam coisas diferentes. Para tornar tudo um pouco mais complexo, alguns dos mais ferrenhos adeptos da integração europeia estão entre os mais insatisfeitos com aspectos centrais da UE (como ela é de facto e não como gostariam que fosse).

Isto não é de agora. José Medeiros Ferreira foi um dos maiores impulsionadores da adesão de Portugal à CEE; no último livro que escreveu antes de nos deixar (Não Há Mapa Cor-de-Rosa. A História (Mal)Dita da Integração Europeia), publicado em 2013, mostrava-se alarmado com o estado deplorável em que se encontrava a UE (e com a falta de sentido crítico dos dirigentes políticos portugueses sobre o assunto). O filósofo e professor universitário Viriato Soromenho Marques é um dos intelectuais portugueses que mais se têm destacado pela defesa da união política na Europa; num artigo publicado dois anos mais tarde (Os quatro pecados mortais da Zona Euro), apresentava a moeda única como “uma criatura incompatível com a vida e a prosperidade dos europeus”. Elisa Ferreira, a política portuguesa que mais contribuiu, enquanto eurodeputada e enquanto membro da Comissão Europeia, para atenuar algumas falhas da União Económica e Monetária (UEM), escrevia em 2015, na sequela da crise dos anos anteriores: “A agenda europeia de fundo continua a ser tão urgente como antes, porque as brechas que se tornaram óbvias em 2012 persistem, embora disfarçadas sob capas de sinais de saída do fundo da depressão ou de uma baixa generalizada dos juros.”

Nunca José Medeiros Ferreira, Viriato Soromenho Marques ou Elisa Ferreira deixaram de ser defensores da integração europeia. Isto não lhe toldou a capacidade de perceber as enormes imperfeições da arquitectura institucional da zona euro – e as consequências devastadoras que podem ter para economias como a portuguesa.

Mesmo críticos mais acérrimos, como João Ferreira do Amaral (professor universitário e assessor de dois presidentes da República, Mário Soares e Jorge Sampaio), não deixam de valorizar a lógica cooperativa que esteve nas origens da UE. Em vários dos livros que escreveu contra a moeda única, o economista sublinhava que o euro era, na verdade, o maior inimigo da coesão política entre países europeus.

Para o mundo a preto e branco que nos é servido no comentário político ou se é contra ou a favor da UE. Quem é favor elogia; quem é contra critica; não há espaço para mais. Mas não é bem assim.

Podemos reconhecer o contributo decisivo que a UE teve, desde as suas origens, para trazer a paz a um continente onde a guerra era até aí a norma. Ou a institucionalização dos valores da liberdade, da democracia, dos direitos humanos e da protecção do ambiente. Ou ainda o diálogo entre culturas e a troca de experiências que enriquecem as pessoas e as instituições que neles participam. Reconhecer tudo isto e muito mais não nos impede – nem deve impedir – de assinalar os aspectos menos consensuais da UE realmente existente.

Vale a pena ter presente que a manutenção da paz não foi o único objectivo que levou à criação da CEE em 1957. Os seis países fundadores tinham sido até havia pouco grandes potências económicas e políticas à escala global. Quando a II Guerra Mundial terminou, estavam reduzidos ao estatuto de potências intermédias, com economias destruídas e endividadas. Desde o início que a UE foi um projecto de poder político e económico de um conjunto muito restrito de nações ricas que não se resignam a ter um papel secundário no panorama mundial.

A criação de um mercado unificado de escala continental cumpria todos aqueles propósitos: promovia a paz por via da interdependência económica; criava oportunidades para as grandes empresas dos países mais ricos se tornarem ainda maiores e mais eficientes, tirando partido de economias de escala; e dava maior poder negocial às maiores nações europeias nas relações económicas internacionais.

Com os anos, o mercado interno europeu tornou-se um fim em si mesmo. Foi em nome dele que se criou a moeda única (seria difícil manter as fronteiras comerciais abertas, se houvesse oscilações cambiais entre os países). Foi também em nome dele que se limitou o espaço de intervenção dos Estados nas economias (tal seria considerado concorrência desleal).

Mas há um problema: quando se unificam mercados, não se promove apenas a concorrência entre empresas. Os custos de produção reflectem as escolhas que as sociedades fazem sobre o seu modelo de desenvolvimento, traduzindo-se em salários mínimos, direitos laborais, regras ambientais, impostos, etc. Ou seja, o mercado único põe em competição directa não apenas as empresas europeias, mas também os modelos sociais dos países participantes. Deixando de ter controlo sobre a taxa de câmbio, a emissão de moeda, a taxa de juro e as taxas aduaneiras, os Estados nacionais pouco mais podem fazer do que conter os salários e reduzir os impostos para ganhar competitividade e/ou combater as crises. A UE retirou muito poder aos Estados, mas não lhes tirou a “liberdade” de reduzirem os direitos e os impostos sobre os lucros para resolverem os problemas que enfrentam.

Muitos dos defensores da cooperação entre países e povos europeus percebem bem que a UE que hoje existe conduz, com frequência, à delapidação de direitos laborais, à fragilização do Estado social, à instabilidade financeira e ao aumento das assimetrias entre países e entre grupos sociais. Uns vivem bem com isso, pois acreditam que a constitucionalização da concorrência de todos contra todos tratará prosperidade. Outros empenham-se em corrigir o viés neoliberal da arquitectura da UEM, valorizando as evoluções da última década. Outros ainda são muito cépticos quanto à possibilidade de inverter um rumo que é, de facto, contrário à ideia de Europa social. Entre os últimos há quem (já) não acredite que a UE possa ser muito diferente do que é. Mas até entre esses há quem lute para que seja menos má. As coisas são mesmo mais complicadas do que nos querem fazer crer.»

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16.6.24

Marketing realista, com pitada de humor negro

 


As feridas do Interior

 

«Completa-se amanhã mais um ano sobre o incêndio que mais vítimas causou no país e é provável que o tema entre pouco no espaço mediático, visto que o 10 de Junho já passou por Pedrógão. Ouviram-se odes ao país inteiro, à ruralidade, à coesão social e à resiliência. Prometeu-se que será desta que as medidas para corrigir assimetrias serão concretizadas e que as políticas de valorização da metade mais esquecida do país não ficarão na gaveta. Para o ano, muito provavelmente, voltaremos a ouvir reflexões idênticas.»


David Mourão-Ferreira morreu num 16 de Junho

 


David Mourão-Ferreira morreu em 16 de Junho de 1996. Um dos nossos grandes poetas do século XX, ficcionista também, acidentalmente político como Secretário de Estado da Cultura, de 1976 a Janeiro de 1978 e em 1979, autor de alguns poemas imortalizados pelo fado na voz de Amália Rodrigues.

Dois poemas ditos pelo próprio, um cantado por Amália:








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25 de Novembro: a direita obrigou-se a homenagear Vasco Lourenço

 


«Uma parte da direita sempre se sentiu desconfortável com o 25 de Abril e fez do 25 de Novembro a “sua” data. O desconforto com as comemorações da revolução via-se em coisas quase risíveis – como a recusa de muitos dos seus deputados e altas figuras do Estado a usar o cravo vermelho nas comemorações oficiais na Assembleia da República. Cavaco Silva nunca o fez.

A prova de que o 25 de Abril, pelo menos nos seus primeiros 20 anos, continuava a ser efectivamente uma data “fracturante”, via-se na recusa do seu símbolo popular: um cravo que, espontaneamente, uma florista ofereceu aos militares. Uma flor! Nessa flor, para os partidos da direita, estava condensado todo o “comunismo” que abjuravam na data.

Aqueles que se insurgiram, anos depois, com o facto de a esquerda aparecer como “dona do 25 de Abril”, esqueciam-se que era a direita – e não só Marcello Caetano e os seus ministros – que viveu aquele dia e os seguintes com “mixed feelings” ou mesmo “bad feelings”.

Algumas dessas personalidades emigraram logo para o Brasil ou para outros países e só voltaram anos depois. Uma parte esteve, depois, num grupo terrorista chamado MDLP, sob a liderança de António de Spínola – o mesmo a quem os capitães entregaram o poder que tinham conquistado e que se tornou o primeiro Presidente da República da democracia.

Alguns desses ex-MDLP que queriam a contra-revolução andam por aí: o advogado José Miguel Júdice pode ver-se todas as terças-feiras na SIC Notícias; Diogo Pacheco de Amorim é hoje vice-presidente da Assembleia da República.

O 25 de Novembro ainda hoje é considerado pelos historiadores como “uma nebulosa”. Há algumas coisas provadas, outras não. O papel do PSD e do CDS aparenta ser diminuto. Foi um confronto entre o Grupo dos Nove alinhado com Mário Soares (o Grupo dos Nove era uma facção moderada das Forças Armadas onde pontificavam Melo Antunes e Vasco Lourenço, entre outros) com a esquerda militar.

Independentemente de, a 26 de Novembro, Melo Antunes ter declarado que finalmente se poderia implantar o socialismo em Portugal, não há nada a fazer. É nessa data que a direita festeja o seu 25 de Abril.

O PS de Mário Soares e o Grupo dos Nove engendraram o 25 de Novembro e depois foram à sua vida. A direita agarrou-se à data como contraponto ao 25 de Abril. Na realidade, a data fracturante, para uma parte da direita, é o 25 de Abril.»

Com a aprovação das celebrações anuais do 25 de Novembro na Assembleia da República (e o Chega ainda queria mais um feriadozinho), os partidos da direita, se quisessem mesmo ser fiéis à história, teriam de, anualmente, homenagear Mário Soares, Vasco Lourenço, Melo Antunes, Pezarat Correia, Franco Charais, Rodrigo Sousa e Castro, Vítor Alves, Canto e Castro, Costa Neves e Vítor Crespo.

Mas isso nunca irá acontecer. O que os partidos da direita querem é homenagear Jaime Neves, do regimento de Comandos da Amadora, o responsável operacional. Porquê? Porque Jaime Neves queria a ilegalização do Partido Comunista no dia seguinte. E tanto Melo Antunes como Mário Soares vieram imediatamente pôr cobro ao delírio do operacional do 25 de Novembro.

O PCP continuou no Governo liderado por Pinheiro de Azevedo, ao lado do PS e do PSD. A esquerda militar foi derrotada a 25 de Novembro. Álvaro Cunhal deu ordem aos militares comunistas para não se mexerem – eventualmente depois de uma conversa com Francisco da Costa Gomes, um homem também hoje odiado pela direita e que foi essencial naquele tempo para evitar a guerra civil.

A história é sempre muito complexa e nunca a preto e branco. Obviamente, para efeitos de política imediata, é mais fácil usar slogans e panfletos do que ir estudar. Mas os acontecimentos desta semana vieram demonstrar a relação complicada que alguma direita ainda tem com o 25 de Abril, pondo o 25 de Novembro ao mesmo nível. Cinquenta anos depois, é obra.»