3.9.24
03.09.1940 – Eduardo Galeano
Um grande uruguaio que nasceu em Montevidéu e que nos deixou em 2015. Quis ser jogador de futebol, mas acabou escritor com mais de quarenta livros publicados. Andou a fugir de ditaduras, em 1973 foi preso depois do golpe militar no seu país e exilou-se na Argentina. Com outro golpe militar – o de Jorge Videla em 1976 –, viu o nome colocado na lista dos «esquadrões da morte», partiu para Espanha e só nove anos mais tarde regressou à cidade que o viu nascer.
Ia assim o mundo em 3 de Setembro de 1940, descrito por Galeano nesta página de Os filhos dos dias, publicado em 2012:
Dois vídeos:
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Muito menos do que humanas
Ebrahim Noroozi/AP
«Horia Mosadiq, jornalista e ativista afegã, desfia memórias que hoje parecem devaneios impossíveis. “Em miúda, lembro-me da minha mãe a vestir minissaias e a levar-nos ao cinema.” Esse tempo e as imagens de um Afeganistão que não foi sempre sombrio são o mais óbvio desmentido dos argumentos do regime talibã, que não apenas impôs um total apagamento das mulheres nas mais recentes leis de vício e virtude, como tentou criticar as reações externas.
Zabihullah Mujahid, o principal porta-voz do governo talibã, diz haver “arrogância” e desconhecimento da lei islâmica. Além de não haver direito à “compreensão” da comunidade internacional perante graves atentados a direitos humanos, o que está a ser aplicado não encontra respaldo no islamismo, como o comprova a história do próprio Afeganistão e de outros países islâmicos. Assiste-se a uma supressão total de 14 milhões de mulheres e meninas e a uma afirmação de ódio pela figura feminina.
Nos três anos desde que tomou o poder, o regime já tinha excluído as mulheres de quase toda a vida pública, impedindo a frequência do ensino médio, o emprego remunerado ou o simples ato de ir a um salão de beleza. Estava-lhes igualmente vedado o acesso ao sistema de justiça e foi assumida uma aplicação discricionária de punições, incluindo a normalização do apedrejamento. Agora até a voz é proibida, mesmo em circunstâncias em que seja audível a partir do interior de uma casa.
A reação da comunidade internacional é demasiado tímida, quase limitada à posição das Nações Unidas e aos alertas das associações de defesa dos direitos humanos. O que se passa no Afeganistão é demasiado monstruoso e não é um problema de mulheres. É um ataque a todos os seres humanos. Uma negação do direito a existir. Uma obsessiva intervenção para tornar menos do que humana metade da população do Afeganistão.»
2.9.24
Montenegro, as tragédias e as águas turvas
A justificação que deu, segundo a qual pretendeu “verificar a magnitude da situação e estar pessoalmente com os mergulhadores”, que nessa altura ainda estavam ocupados numa complexa missão de busca de militares da GNR que perderam a vida, mostra bons pensamentos (embora tirar fotografias e depois fazê-las chegar aos órgãos de comunicação social, pode levar a pensar em intenções menos nobres), mas revela inexperiência política a lidar com situações de elevada complexidade operacional, envolvendo várias forças de segurança e de proteção civil.»
02.09.1939 - Neruda e a chegada de exilados da Guerra Civil Espanhola ao Chile
Na noite de 2 de Setembro de 1939, o Winnipeg chegou a Valparaíso, no Chile, com 2.365 espanhóis, exilados da Guerra Civil Espanhola e que se encontravam refugiados em campos, em França.
Quando desembarcaram, no dia seguinte, nem queriam acreditar no que viam, nem percebiam bem onde estavam: o Chile era uma terra longínqua e estavam a ser recebidos como heróis...
Se Pablo Neruda não foi o único promotor desta iniciativa, foi certamente o principal. No dia 4 de Agosto, quando o barco saíra do porto francês de Trompeloup, tinha escrito o que viria a relatar mais tarde nas suas Memórias: «Que la crítica borre toda mi poesía, si le parece. Pero este poema, que hoy recuerdo, no podrá borrarlo nadie.»
Em Memorial de Isla Negra, incluiu o seguinte poema:
Yo los puse en mi barco.
Era de día y Francia
su vestido de lujo
de cada día tuvo aquella vez,
fue
la misma claridad de vino y aire
su ropaje de diosa forestal.
Mi navío esperaba
con su remoto nombre “Winnipeg”
Pero mis españoles no venían
de Versalles,
del baile plateado,
de las viejas alfombras de amaranto,
de las copas que trinan
con el vino,
no, de allí no venían,
no, de allí no venían.
De más lejos,
de campos de prisiones,
de las arenas negras
del Sahara,
de ásperos escondrijos
donde yacieron
hambrientos y desnudos,
allí a mi barco claro,
al navío en el mar, a la esperanza
acudieron llamados uno a uno
por mí, desde sus cárceles,
desde las fortalezas
de Francia tambaleante
por mi boca llamados
acudieron,
Saavedra, dije, y vino el albañil,
Zúñiga, dije, y allí estaba,
Roces, llamé, y llegó con severa sonrisa,
grité, Alberti! y con manos de cuarzo
acudió la poesía.
Labriegos, carpinteros,
pescadores,
torneros, maquinistas,
alfareros, curtidores:
se iba poblando el barco
que partía a mi patria. Yo sentía en los dedos
las semillas
de España
que rescaté yo mismo y esparcí
sobre el mar, dirigidas
a la paz
de las praderas.
(Mais descrições aqui e aqui.)
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Montenegro prefere eleições
Nuno Veiga
«”O PS tem uma responsabilidade acrescida por ser responsável pelo caos nacional”. Foi desta forma bizarra que o líder parlamentar do PSD convidou os socialistas para o diálogo. É assim há meses: os convites para a negociação são acompanhados pela agressividade típica das campanhas eleitorais, quando os consensos são naturalmente impossíveis. Com o guião revelado logo depois das eleições, só é enganado quem quer: ou o PS se anula, ou vai-se a votos de novo.
O governo avançou com um programa fiscal radical e iníquo que atenta contra a progressividade do nosso sistema e concentra benefícios numa minoria de jovens privilegiados. Minou boas reformas em curso, afastando os quadros que as lideravam. Resumiu a governação à comunicação, apresentando sucessivos e vagos pacotes. Depois de ter lançado um falso alarme sobre a saúde das contas públicas, começou a distribuir dinheiro centrada em setores com mais peso eleitoral, sem que a isso corresponda a um programa político coerente ou uma planificação da despesa (acompanhada por perda de receita) que não se baseie no milagre económico da descida do IRC.
O peso orçamental e a centralidade que o governo dá ao IRS Jovem e IRC para justificar a recuperação da economia que cobrirá a perda de receita e o aumento da despesa obriga a que quem viabilize essas duas medidas viabilize o OE. O PS não pode aceitar ser mero ser retificador de decisões do PSD, Chega e IL. Se o PSD quer o voto do PS, não tem espaço para este caminho. Se tem espaço para este caminho com o voto do Chega e da IL, a eles deve pedir o voto para viabilizar o Orçamento de Estado.
Nada indicia um interesse em negociar ou uma perspetiva de governar a longo prazo. Apenas um cerco ao PS para o responsabilizar por novas eleições e a criação de boas condições para ir a votos. Por isso, a pressão sobre o PS, nestas circunstâncias, só pode ter um de dois objetivos: tirar poder negocial aos socialistas, obrigando-os a aceitar quase integralmente o programa da direita, ou criar o ambiente para o responsabilizar pela crise política. No caso de viabilizar um Orçamento nos seus antípodas, Pedro Nuno Santos transformar-se-ia num novo António José Seguro. No caso de chumbar o Orçamento, os riscos seriam enormes.
Se as pessoas responsabilizassem o PS pela crise e este perdesse as eleições, o PSD reforçaria a sua posição e até poderia conquistar uma maioria com o seu pequeno clone, a IL. E Pedro Nuno Santos seria afastado. Se os eleitores responsabilizassem a AD e o PS vencesse, a sua situação, com uma maioria de direita, seria ainda mais insustentável do que a de Montenegro. Pedro Nuno Santos sabe que o PS precisa de uma cura de oposição para vencer o cansaço dos eleitores, recuperar voto jovem e afirmar a nova liderança. Mas não pode aceitar que esse cálculo torne o PS numa inutilidade política.
A AD sabe que, desde que consiga responsabilizar o PS pela crise, a probabilidade de vencer e se reforçar é alta. Por isso, quanto mais se percepcionar, com uma campanha prévia nesse sentido, que a responsabilidade de um chumbo ou de uma aprovação do Orçamento é do PS, e não do governo, mais o PSD procurará essa crise porque mais essa crise lhe será favorável. A pressão sobre o PS não vem, portanto, de quem busca a estabilidade, mas de quem procura o cenário mais favorável para a direita ir já a votos, com medidas populares frescas e sem ter de lidar com as suas consequências. Repetir 1987, como nos foi explicado vezes sem conta. Quem quer estabilidade pressiona o único partido que ganharia alguma coisa com eleições e tem, por isso, menos interesse a negociar: o PSD.
O governo fala dos deveres de quem se limitou a não aprovar a moção de rejeição ao seu programa (diferente de aprovar um programa), mas nunca assume a responsabilidade de quem aceitou ser indigitado sem ter maioria: a de trabalhar para as condições para governar. A forma como o governo se recusa a dar informação ao PS sobre a receita prevista, exigindo que este assine por baixo a fezada do efeito milagroso da descida do IRC, não é de quem procura um ambiente favorável à negociação. Mesmo no arranque das supostas negociações, o discurso de Montenegro, colado a um vergonhoso oportunismo nas águas do Douro (talvez dedique outro texto a este momento triste), foi de pré-campanha.
A culpa é do Presidente da República Deveria ter sido ele a exigir negociações prévias à indigitação. Marcelo, como Montenegro, apostou na chantagem sobre o PS. E o PS pôs-se a jeito, caindo na armadilha de uma inusitada negociação prévia do OE, que normalmente se faz depois da sua apresentação. Como se vê, não passa de uma armadilha.
Com tudo a seu favor, a começar pelo ambiente mediático, a AD parte para esta suposta negociação impondo condições que são, elas próprias, a negação de uma negociação. Não dá informação que permita fazer propostas e construir consensos. Não aceita que ela belisque os elementos essenciais do seu programa, que obteve 29% dos votos. E exige que a oposição se abstenha de propor alterações de monta na especialidade. Quer uma oposição mais neutralizada do que se houvesse uma maioria absoluta. A ideia de que o PS negoceia previamente um orçamento que está bloqueado a mudanças estruturais e está impedido de fazer alterações na especialidade que incomodem o governo é a evidência de que nada está, realmente, a ser negociado. Está a ser preparada uma humilhação política ou a responsabilização do PS por uma crise.»
1.9.24
01.09.1939 - A invasão da Polónia
Na manhã de 1 de Setembro de 1939, a Alemanha invadiu a Polónia e, dois dias depois, a Grã-Bretanha e a França declararam guerra à Alemanha.
Três vídeos muito úteis para aprender ou relembrar:
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O turismo como técnica de monocultivo
«“Mudam-se os tempos, mudam-se as cidades. E agora a Baixa está em baixo. Vem perdendo o seu brilho. Vão-se-lhe os dedos e ficam só os anéis: belos monumentos à míngua de olhos que os mirem, estátuas tristes dando o flanco desprotegido aos graffitti e às pombas, testemunhando o esvaziamento populacional, a ausência do torvelinho que fazia das Baixas lugares densos, habitados, envolventes. Enfim, a Baixa está cabisbaixa. (…) E os lugares antes densos da Baixa são agora, a partir do fim do dia, terras-de-ninguém, espaços ocos, entregues ao escoar lento da cidade noturna, despovoada e à mercê de intrusos e inquietações.”
De que cidade está ele a falar?, pergunta quem só conhece o Porto de há uma dúzia de anos para cá. As linhas anteriores pertencem a uma crónica que escrevi neste mesmo jornal em 2003. Intitulei-a “a cabisbaixa”, condensando numa palavra o cenário que então se vivia no centro do Porto. A intensa terciarização dos anos 1980 e 90 tinha tido como consequência o esvaziamento da Baixa.
A terciarização é um processo que ocorre nas cidades globais desde finais dos anos 1970, caracterizado pela perda de peso do setor industrial em favor do setor dos serviços. As cidades passam a ser centros da economia especulativa do solo e do investimento financeiro. Uma das consequências que mais atingem os habitantes é a da pressão do custo da habitação. De novo a crónica de 2003: “A excessiva terciarização é antagónica da função residencial, arrastando o esvaziamento dos espaços públicos a partir do fim da tarde e a degradação do parque habitacional que vai ficando semidevoluto.”
Que se passou daí para cá? Depois da terciarização, veio a turistificação. O turismo trouxe consigo muitas coisas boas. Mas à medida que se transformou em turismo de massas os inconvenientes começaram a surgir. António Alves Ferreira sintetiza-os magistralmente em “O turismo como insulto meritocrático”, capítulo do livro Protejam as Crianças da Meritocracia: uma questão de sobrevivência da humanidade, que acaba de ser publicado pela U. Porto Press.
O antropólogo catalão Miquel Fernández González, em Matar al Chino, analisa as consequências negativas da turistificação no Bairro Chino de Barcelona. O que diz assenta como luva no que está a passar-se no Porto ou em Lisboa e pode resumir-se assim: as cidades globais, para serem competitivas, têm de oferecer aos investidores mundiais as melhores condições para que os fluxos de capital produzam lucros substantivos. Esta competição impulsiona um segundo processo, que envolve as cidades numa corrida sem fim para construírem um espaço ideal, repleto de atrações, o que as torna parecidas a um parque temático. Para isso, utilizam a cultura como vantagem competitiva, apropriando-se de espaços de maneira física e simbólica (pensemos nos centros históricos, ou em locais-romaria como a livraria Lello ou o Majestic).
Com a tematização — alguns chamam-lhe também disneylandização, outros artistização — oculta-se o facto de que estas transformações respondem a poderosos interesses económicos privados, com a intenção de transformar em espaços de consumo os lugares de residência, participação e encontro. O resultado são quarteirões desabitados, cheios de restaurantes, bares, hotéis e lojas de luxo. Terreno propício a uma especulação imobiliária que exige preços exorbitantes para habitar e promove assédio urbanístico sobre os residentes economicamente mais frágeis. O risco, diz-nos Miquel Fernández González, é o da submissão da vida urbana a uma simplicidade representacional inspirada em lugares-comuns que apostam no turismo como técnica de monocultivo.»
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