17.12.24

17.12.1906 – Fernando Lopes-Graça

 


Seriam 118.



D. Henrique Eduardo Passaláqua, o nacionalista imperfeito

 

Capa da Revista da Armada

«Começo por fazer um mea culpa, confessando a incapacidade de silenciar a batota de um almirante que utiliza os meios do Estado para promover a sua pré-candidatura presidencial. Não posso, sequer, apontar-lhe o dedo por fazer o que nunca teria sido feito, de forma pacóvia, por governos sucessivos e autarcas em revistas que têm mais fotos dos incumbentes que páginas nas ditas publicações. Retribuir a atenção que ele nos impinge de forma tortuosa é beneficiar o infractor dando-lhe publicidade para lá daquela que ele pagou com o dinheiro dos nossos bolsos. Não há como escapar, acontece com ele o que acontece com a generalidade dos populistas, são beneficiados porque não parámos de falar deles e são beneficiados quando calamos a denúncia das suas diatribes encapotadas. Fazendo uso do direito à indignação, decretado em tempos pelo pai da democracia portuguesa, que não lhes aproveite o nosso silêncio.

Henrique Eduardo Passaláqua de Gouveia e Melo, de seu nome completo, já nos tinha tentado convencer que “a farda ajuda” a resolver os problemas em Portugal, dando de si próprio a imagem de um timoneiro que impõe a autoridade, a ordem e a disciplina, como é suposto termos visto no combate à pandemia. D. Henrique, no entanto, não apenas se apresenta como o homem do leme, como se arroga com capacidade de ensinar alguma coisa a D. João II. Este rei, a quem chamamos Príncipe Perfeito, também tinha defeitos e nunca se pode esquecer que a centralização do poder e a repressão sobre a nobreza (mandou matar ou matou quem lhe fazia frente) fez dele o percursor do absolutismo.

Obviamente, não é esta faceta de D. João II, autocrata que não olhou a meios para manter e reforçar o seu poder, que D. Henrique quer realçar. O que ele quer é que nos lembremos deste rei inteligente e hábil que delineou um projecto que acabaria por levar os portugueses pelo mar até à Índia e que depois fez nascer toda a portugalidade. Tinha-me passado completamente despercebido, até o ouvir no podcast Lei da Paridade, mas o almirante aproveitou uma das suas palestras como CEMA para dizer o seguinte: “Portugal é uma grande nação dividida em diferentes estados, digamos a portugalidade, somos uma grande nação que se dividiu no estado português, no estado cabo-verdiano, no estado brasileiro, no estado angolano, etc.”. “Vamos ver se nos entendemos”, como dizia Oliveira Salazar, antes de começar a explicar porque é que em relação ao Portugal ultramarino nós tínhamos razão e o resto do mundo não, esta tirada de D. Henrique Eduardo Passaláqua de Gouveia e Melo é uma pérola!

Com as devidas distâncias, porque não se imagina D. Henrique Eduardo a mandar suprimir a existência dos seus adversários, começa a não ser difícil imaginar o almirante-candidato a promover a existência de um partido nacionalista que o ajude a centralizar poder no palácio de Belém. Ao apresentar-se fardado e associado a D. João II, o candidato quer ser visto como alguém que, além de garantir a lei e a ordem, também é capaz de resgatar o orgulho nacional e devolver o país a um caminho de grandeza, para benefício do povo que vem sendo prejudicado pela acção da nobreza partidária. Esta imagem que valoriza as tradições e o nacionalismo está para lá da questão de saber se o candidato é militar ou não, até porque já terá passado à reserva, porque a ideia mais forte é a de que D. Henrique Eduardo Passaláqua vem de fora da política partidária.

Se por tudo isto, os portugueses escolherem Gouveia e Melo para a Presidência da República é a democracia a funcionar, mas convém que se procure explicar o que está em jogo, a começar pelo facto do presidente não ter entre as suas competências a de governar o país. A não ser que subverta o sistema.»


Poligrafar o Polígrafo

 



16.12.24

O Natal do sinaleiro

 


Os «mais crescidos» devem lembrar-se.

16.12.1938 – Liv Ullmann

 


Liv Ullmann nasceu em Tóquio, filha de pais noruegueses e chega hoje aos 86.

Começou a carreira como actriz de teatro na Noruega, na década de 1950, mas foi como musa e companheira de Ingmar Bergman (com quem viveu alguns anos e de quem teve uma filha) que se tornou célebre. Como esquecer «Persona», o seu primeiro filme de 1966 («A Máscara», em Portugal), como não ter retido as imagens do seu papel em «Saraband» (2003), o último filme realizado por Bergman – só para citar dois exemplos. 

Ficam aqui dois vídeos:




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A culpa é nossa

 


O’Neill e os idiotas

 


A política das percepções

 


«O momento em que o primeiro-ministro reuniu o país, à hora de jantar, para relatar operações policiais num dos “países mais seguros do mundo” vai continuar a ecoar como uma marca da comunicação política deste Governo. Mesmo que o problema possa não ser grave, se existe uma alegada percepção de gravidade por parte da população, há que mostrar energia e exibir músculo.

Foi com a segurança, é com a saúde. Não se sabe se a alegada “utilização abusiva” do Serviço Nacional de Saúde por parte de estrangeiros é mesmo um problema – pelo menos, para o inspector-geral das Actividades em Saúde, não é. A haver casos, são certamente fonte de sentimento de injustiça, mas um bom sistema de saúde, aberto a quem nos visita, também é uma marca importante, num país que tem no turismo uma das suas mais importantes fontes de riqueza.

Mesmo assim, e sem esperar resultados de uma auditoria entretanto lançada, o PSD, o CDS e o Chega acham necessário alterar a Lei de Bases da Saúde para impedir o acesso de quem não esteja numa situação de estada ou residência legal no país. Com a quantidade de excepções enunciadas, não dá para perceber muito bem que situações ficam abrangidas, mas o importante é dar um “sinal”, tal como afirmou o deputado do CDS, João Almeida.

Com mais uma esperada disputa parlamentar com a esquerda neste tema, o sinal dado, não por acaso, vai ao encontro do que a cartilha nos diz serem os temas que alimentam a ascensão do Chega. Se o Chega constrói narrativas que alimentam percepções, o Governo, numa marcação cerrada, responde com medidas que são mais percepções de acção, mas que ajudam a preencher a agenda política.

O problema é que essa estratégia era mais explicável quando a incerteza sobre a aprovação do Orçamento do Estado fazia pairar a possibilidade de eleições. Ultrapassado o cabo Bojador, o registo mantém-se, só que não faltará muito até todos perceberem que algo, que pode não ser mais do que um por cento dos casos atendidos no SNS, distrai, mas não resolve os problemas na Saúde. Ou que nos falta mão-de-obra imigrante.

Luís Montenegro, até na forma como durante meses convenceu o país de que a aprovação do Orçamento era um problema do PS, tem sido um mestre na gestão das “percepções”. Mas o tempo é outro e exige que nos mostre que o seu foco não está na correria aos temas do Chega. O país precisa de ambição para lá das causas fracturantes, senão sobressai a percepção de que não está a ser governado no que realmente importa.»


15.12.24

Fininho mas azul

 


Vaso Arte Nova, montagem em estanho. Cerca de 1905.
Atribuído a Kralik.


Daqui.

É foleiro dizer que querem é poleiro

 



Difícil, muito difícil

 


A AIMA e a desilusão de quem escolhe Portugal para viver e trabalhar

 


«A AIMA é mais um organismo do Estado que não consegue dar a devida resposta às solicitações. Se é verdade que o número de imigrantes tem aumentado no nosso país, não é menos verdade que devem ser bem acolhidos e que podem ser uma mais-valia, tendo em conta o facto de termos uma população envelhecida e falta de mão de obra.

Não é aceitável que as pessoas, quando chegam a Portugal, se deparem com tamanha dificuldade para cá obterem um visto de residência que lhes permita arrendar uma casa, arranjar um emprego ou até estudar.

É obvio que é desejável que haja um controlo rigoroso da imigração, mas isso não implica a morosidade atual e o desrespeito por quem escolheu o nosso país para viver. Os processos têm que ser mais céleres e impõe-se um apoio direcionado para informação e acolhimento das pessoas. Se há falta de funcionários, contratem-se mais, mas não nos envergonhem com o serviço deficitário que estão a prestar.

As lacunas referidas anteriormente só interessam a quem procura mão de obra barata e “clandestina” ou quem arrenda quartos por valores inflacionados sem declarar às Finanças. Por outro lado, há empresários corretos que querem contratar algumas dessas pessoas e não o podem fazer enquanto estas não tiverem a sua situação regularizada.

O populismo barato que tenta criar uma onda anti-imigração não colhe, e não pode colher, sob pena de penalizarmos a nossa economia e de nos tornarmos naquilo que nunca fomos. Sempre fomos um povo hospitaleiro, humanista e grato, essa é a nossa génese e ninguém a pode adulterar.

É importante “distinguir o trigo do joio”, há muito boa gente que vem para cá para trabalhar com o intuito de conseguir obter uma vida melhor e esses não podem ser confundidos com os que nada querem fazer ou se dedicam à criminalidade.

É complexo fazer essa distinção de forma perfeita, sabemos disso, mas não há soluções perfeitas e também por cá temos gente boa e gente menos boa e não é por isso que os expulsamos de cá, muitas vezes, ainda lhes damos subsídios tendo a noção que não querem trabalhar ou escolhem a criminalidade como modo de vida.

Este tema merece uma reflexão de todos, lembremo-nos de quantos emigrantes temos atualmente e de quantos tivemos no passado, das pessoas que vivem em condições desumanas, das empresas que necessitam de mão de obra, dos oportunistas a quem esta situação serve que nem uma luva e de como se sentirão muitos dos imigrantes que cá estão e tantas vezes são olhados de lado.

Essas pessoas estão longe dos seus países, das suas famílias e, a grande maioria, apenas arriscou na procura legítima de uma vida melhor e merece todo o nosso respeito. Não podemos transformar os seus sonhos em pesadelos, desiludindo-os por nos terem escolhido.

Orgulhemo-nos e honremos a nossa história, dando um sinal claro de que não somos melhores nem piores do que outros países, somos orgulhosamente portugueses!»