1.1.22

Concerto de Ano Novo

 


O ano passado foi assim: teatro vazio e palmas a distância por telemóvel. Este ano já não, embora com público de máscara e ainda reduzido. Esperemos que o de 2023 seja já totalmente normal.

Hoje acabou assim:


.

Um ano sem ele

 


,

2022, Odisseia no Espaço

 

«É sexta feira, último dia do ano, estão 11 graus e o sol vai brilhar. Pode saber-se mais informações rigorosas na app Metereologia. Inclusive, como estará o tempo em Phoenix.

Este ano o mundo continuou a mudar a uma velocidade insuspeitada. Os adolescentes da geração alfa usam agora o androide como uma extensão do corpo. Está colado ás mãos e aos dedos. Não faz sentido perguntar como o transportam, ou ter medo que o percam. O tempo de ecrã é todo o tempo. A realidade virtual é a realidade. Escrevo isto num computador portátil e espero que alguns amigos o leiam numa rede social. Já não sei como é a minha caligrafia. As minhas canetas de tinta permanente são uma antiguidade.

Gostei deste ano. Trabalhei, mesmo quando não era suposto. Aprendi a conhecer as pessoas pelos olhos. E a surpreender-me com os seus rostos privados, nos avatares. Neste sentido somos todos, agora, muçulmanos, e os medos do Houellebeck cumpriram-se, sem darmos conta. O Houellebeck é tão feio e o que escreve tão assustador, que a França criou um candidato a primeiro-ministro com a sua face . Já arrasta multidões, pelo ódio. Mas o ano de 2021 foi contraditório. Viu cair Trump, o farol da maldade medíocre. E há, um pouco por todo o planeta, alguns governos razoáveis, que alimentam a esperança da humanidade a que pertenço. Entre nós a coisa está má. Não tenho, agora, um partido que me represente. Esta liberdade assusta-me um pouco. Mas sei que a partilho com milhares de pessoas que continuam a acreditar num mundo onde o colapso seja travado e os bens mais justamente repartidos. Agradeço a esses a literatura e a música, o cinema e o teatro, a ciência e o ensino, as artes performativas, a escultura e a pintura, a curadoria. Agradeço ao meu amigo que edita a mais humilde das revistas, e aos visionários que lá escrevem. Agradeço a carpintaria e a agricultura. Agradeço os ofícios que subsistem. As costureiras e os padeiros e os calceteiros e as cabeleireiras. Agradeço aos cozinheiros e às cozinheiras.

Agradeço às crianças que caminham nos campos e atravessam regatos. E ao chibito que partiu a corda e fugiu, arrastando um cadela que não sabia bem o que fazer. Passou-se em Fátima e foi outro milagre. Alertados por um post do Facebook, os populares foram assinalando a sua passagem, e uma mulher e uma criança procuraram-nos e chamaram por eles, nas aldeias do Sicó, até os resgatarem aos sete dias de errância. Vai começar um ano que só de o escrever me faz viver uma aventura inesperada. 2022. Todos os anos têm agora a aura de uma aventura no espaço. Sinto passar por mim a corrente de um sentimento que ora se chama solidariedade, comunhão, esperança, tristeza, revolta, alegria, desilusão. Às vezes paixão e agora amor.»

Luís Januário ontem no Facebook
.

O «saudoso» Tomás

 


Não há dia 1 de Janeiro sem que me lembre de Américo Tomás que nos brindava com discursos de Ano Novo inesquecíveis.

Mais dois:

«Eis-nos chegados ao primeiro dia da oitava década do século XX, pelo que precisamente de hoje a trinta anos surgirá, para os que então viverem, o primeiro dia do século XXI.» (1 de Janeiro de 1971)

«Decorreu célere, como os que o precederam, o ano que acabou de sumir-se na voragem do tempo. Outro o substituiu, para uma vida igualmente efémera. Nesta mutação constante, afigura-se haver agora um fenómeno de visível incongruência, pois, quando tudo se processa a ritmo que se acelera constantemente, pareceria lógico que de tal circunstância resultasse um aparente alongamento no tempo e não precisamente o inverso. Se sempre o presente, mal o é, se torna logo em passado, nunca, como nos nossos dias, tão evidente verdade pareceu mais evidente.» (1 de Janeiro de 1966)
.

31.12.21

Ano Novo

 


O Tintim é que sabe, pensemos a longo prazo. Que os próximos 32 anos sejam excelentes para todos os que por aqui passarem!
.

António Costa 2021 vs 2019

 

.

31.12.1968 – Primeira afirmação colectiva de católicos contra a guerra colonial

 


É um ritual: nesta data, regresso à passagem do ano de 1968 para 1969. Há sempre quem não saiba que a «Cantata da Paz», tão divulgada por Francisco Fanhais depois do 25 de Abril, foi por ele estreada nessa noite, com letra propositadamente escrita para o efeito por Sophia de Mello Breyner, numa Vigília contra a guerra colonial.

Em 31 de Dezembro de 1968, cerca de cento e cinquenta católicos entraram na igreja de S. Domingos, em Lisboa, e nela permaneceram toda a noite, naquela que terá sido a primeira afirmação colectiva pública de católicos contra a guerra colonial.
.
Conteúdo do comunicado que entregámos ao cardeal Cerejeira quando terminou a Missa do Galo que ele celebrou e descrição dos acontecimentos que se seguiram AQUI, num post de 2020.

O último dia de ontem

 


«Perdidos no tempo, sensação intruja de que as coisas se sucedem com sentido, que estamos em controlo, que somos poder. Que mandamos no devir, que ele se submete, faz figas e nós desatamos, dá nós mas nós desfiamos. Omnipotentes seguimos, sempre a lembrar-nos, queridos, da nossa pequenez. De como somos formigas no universo, vírgulas no tempo, lapsos que preenchem frestas. Nunca desarmamos de tão humildes. Passou o dia em que nos despedimos de um ano marcante e anónimo, repleto de coisas que não foram feitas e outras que se perderão para sempre. Hoje são só despedidas e votos. O último dia foi ontem.

Tenderemos a sair da nossa vida aos fascículos para viver uma vida inteira? Acumular memórias pode ajudar na tomada de decisões. 2022 será um ano resolutivo, estupendo para falhanços, milagres e júbilos oriundos das mais diversas proveniências. Família, emprego, sociedade, eleições, normalidade ou o que resta dela, a crise. As respostas que temos à mão são, curiosamente, eternas e insatisfatórias. Produtos de suposições, das variantes e da fé, dos imbecis e dos enganados, soluções gratas pela demarcação das conspirações e dos conspiradores e teólogos da destruição pelos "chips", o que vamos dizer e contrapor no ano novo é um refugo velhinho e acabado, reciclado das piores espécies destes últimos meses. Ou a natureza nos livra do mal ou continuaremos a repartir o mundo entre os bons e os maus, dividindo-o entre a espécie humana e uma subespécie de gente que focinha entre teorias. Que bondoso seria deixar as trincheiras e sair disto melhor. Lamentavelmente, se isto acabar, a que nos vamos agarrar para continuar a negar que somos todos da mesma gente? A nova divisão será pior, ensandecida, ainda mais viral e pesará com mais gravidade. E continuaremos convencidos, à partida, que o amor vence.

"E como foi o teste?", a interrogação apressa-se a substituir o já longínquo "como tens estado?". De certa forma, a nova tomada de perspectiva sobre o bem do outro é mais abrangente porque, derivando igualmente do interior, apresenta chancela médica. Gravamos hoje os derradeiros minutos, celebramos, apertamos as mãos entre a indecisão de como se faz, como se só soubéssemos o que fazer depois do outro nos mostrar como. Uma miríade de sinais para garantir que estamos juntos, que vamos ficar bem, que o pior já passou, derivações sobre a falta que faz o abraço. Estamos entregues ao requinte de não termos de escolher senão entre os próximos. Os que estão mais perto. Igualmente bem de saúde, obrigado. Agradecemos sempre. Sempre.»

.

30.12.21

Guardar para hipotética memória futura

 

.

Um mundo sem mulheres?

 


Mais vale recorrer ao humor do Jovem Conservador de Direita no Facebook:

«A Internet acordou com mais uma indignação, a capa do jornal Negócios está pejado de homens brancos a dizerem coisas sobre como deve ser o futuro do país. Estamos a falar de pessoas que têm responsabilidades em empresas e conselhos de administração, que decidiram abdicar de um bocadinho de tempo para poderem falar para um jornal. Se isto não é de louvar, não sei o que será. Imaginem a quantidade de negócios, a quantidade de spreadsheets, a quantidade de piropos às secretárias que ficaram por fazer, só de deixarem de parte as suas actividades diárias de criar riqueza para se tornarem em Dras. Mayas da economia?

A indignação está na falta de diversidade, o que me parece errado. Estamos a dia 30 do final do ano e, para haver diversidade, teríamos de contratar senhoras para conselhos de administração, dar-lhes formação, explicar tudo muito devagarinho, esperar que conseguissem fazer o trabalho dos senhores e, no fim, dizer-lhes "Deixe estar, querida, não vai aprender até amanhã, eu faço." Não se pode pedir diversidade ao dia 30 de Dezembro.

E o melhor é que há diversidade nesta capa, há carecas, pessoas com barba, totós de óculos, totós sem óculos, pessoas a sorrir, pessoas que nunca sorriram, senhores que jogam padel em clubes privados diferentes, há um que gosta de se vestir de minion às terças à noite, há chineses por detrás de três deles, há um que dorme com um Dr. Cavaco Silva de peluche e há dois que dançam a Macarena todos nus, barrados com mel de eucalipto, sempre que fecham um negócio por zoom.»
.

Almoço em dia 1 de teste obrigatório

 


O meu restaurante de cada dia estava assim. E eu almocei numa mini-esplanada encostada à vidraça, vestida como se estivesse na Gronelândia antes do degelo, até que o Sol teve piedade, fintou o Ómicron e brilhou para todos nós. Amanhã há mais.
.

O poder do imobiliário é o inferno da habitação

 


«Ao longo das últimas décadas, o imobiliário tem sido um dos poderes mais resilien¬tes, como agora se diz, na sociedade portuguesa. Foi um dos motores da acumulação financeira, concentrou investimentos e favores, promoveu a corrupção nas autar¬quias através da maquinaria da reclassificação de terrenos que permitiu mais-valias generosas e estimulou o desordenamento territorial que faz de algumas das nossas cidades montras do absurdo. O imobiliário foi rei, em parceria com partidos políticos, Governos, poderes locais. Foi um centro de redistribui¬ção de lucros e apetites. Foi o lado obscuro da banca. Criou fortunas. Ao longo deste século, foi também o farol da especulação e o epicentro da crise mundial de 2008 e da recessão que se lhe seguiu, em que bancos caíram como castelos de cartas e os Estados se endividaram para os proteger. Agora, regressa ao centro das atenções e pelos piores motivos.

Mais do que inflação

A subida do preço da habitação tem surpreendido os analistas. Nos EUA, o aumento em 2020 foi de 11%, o -maior dos últimos 15 anos, incluindo na comparação o período do auge da especulação do subprime. Segundo o Eurostat, na Europa a evolução é desigual: entre 2010 e 2021, o preço subiu 111% no Luxemburgo e 51% em Portugal, mais do que o valor das rendas (que se agravou 23%), mas desceu em Espanha, Itália e Grécia. Estes aumentos têm dois efeitos graves: ao mesmo tempo que ampliam uma ilusão de enriquecimento patrimonial, tornam mais difícil o acesso a habitação para as gerações mais jovens e favorecem a corrida especulativa que segrega os mais velhos que viviam em arrendamentos nos centros das cidades. No caso português, o efeito tem desagregado as cidades espacial¬ (os mais velhos vão para as periferias ou para o interior) e etariamente (saem os mais novos). A inflação habitacional tem ainda origem noutros custos: em setembro do ano passado, a despesa média de uma família europeia com gás para aquecimento durante um ano era de €119, em setembro deste ano já era de €738.

Portugal

Num país envelhecido (23,4% com mais de 65 anos) e hiperconcentrado territorialmente (50% da população em 31 concelhos, sobretudo nas ¬áreas metropolitanas), uma estratégia de investimento na habitação seria fundamental para responder a estas duas crises.

Ora, como se verifica pelos dados preliminares do Censos de 2021, não é fácil. No nosso país, 70% das famílias são proprietárias da sua habitação, das quais 62% já não têm encargos financeiros diretos. As dificuldades de acesso a habitação digna serão, então, a qualidade dessas casas de propriedade familiar, que constituem, em muitos casos, um património degradado, o custo da compra para quem não as tem e o custo dos alugueres para 22,3%, quase um quarto das famílias.

……. Esses obstáculos foram estudados por Ana Cordeiro Santos, da Universidade de Coimbra, que analisou recentemente a ‘Sociedade de Proprietários e Bem-Estar Patrimonial: A Propriedade no Centro da Política’ (“Le Monde Diplomatique”, dezembro), que inclui o gráfico que pode aqui ver. Tomando como referência o ano de 2015, verifica-se como o salário médio varia pouco (mais 6% em 2020), ao passo que o preço da habitação dispara em 45%.

Se a compra de casa se vai tornando mais difícil, sobretudo para quem chega agora à vida adulta, o aluguer está também pela hora da morte: 61,4% das rendas são mais de €650 e 21% são mais de €1000.

Um plano que não é plano

Há então muita habitação que é património das famílias e quase dois terços já a pagou. Mas parte dessas habitações são más. Este capital familiar está degradado pelo tempo, dada a deficiente qualidade da construção, os erros de isolamento térmico ou outros. O IHRU (Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana) fez em 2018 o levantamento destas carências e encontrou 25.762 famílias que teriam de ser realojadas, tendo calculado em €1500 milhões o seu custo. O assunto foi tema quente nas eleições de 2019, constituiu mesmo a mais solene promessa do PS: em 2024, nos 50 anos do 25 de Abril, toda a gente estaria realojada.

Escusado será dizer que nada aconteceu nos dois anos seguintes, não houve orçamento para o inexistente programa de construção ou reabilitação habitacional. Os dias foram passando e a efeméride vai-se aproximando, mas a promessa ficou esquecida nas gavetas do Ministério das Finanças. Só foi reavivada com o PRR (Plano de Recuperação e Resiliência), mostrando, curiosamente, que os recursos internos nunca foram mobilizados para esta prioridade. Mesmo assim, a verba anunciada continua aquém do necessário, agora adiando para 2026 a data do festejo.

O problema é que, a cumprir-se a meta, e é preciso mais do que a promessa, ela pode ser insuficiente. Estudos recentes apontam para 35 mil famílias em carência, e o próprio Governo, em 2017, tinha publicado um estudo sobre uma “Nova Geração de Políticas de Habitação” que apontava para o objetivo de subir de 2% para 5% a oferta de habitação pública, ainda assim muito inferior à média europeia, o que significaria disponibilizar mais 170 mil fogos. Não há outra forma de condicionar os preços e de orientar estrategicamente a política de habitação. Será nestas eleições que se ergue tal vontade?»

.