24.6.23

Portas e vitrais

 


Porta de sala de estar Arte Nova, com vitrais da Joalharia Ruys. Antuérpia, 1902.
Arquitecto Ferdinand Truyman.

Daqui.
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Tudo a correr normalmente

 


As TVs já substituíram o Titan por Prigozhin.

N. B. – Está o mundo inteiro cautelosamente à espera do desenvolvimento dos acontecimentos e, nas redes sociais portuguesas, não se resiste a dar ou pedir bocas sobre o futuro, como se não existisse um dia de amanhã que todos desconhecemos.
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Em dia de canícula

 

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Multibancos em linha reta

 


«Não há maternidades, não há estradas, não há serviços públicos, não há escolas, a rede de comunicações é, em muitas latitudes, deficiente, há poucos espetáculos, faltam os fundos e as gentes e, a enlaçar este bouquet, a certeza de que quase metade do país não tem uma caixa multibanco.

O problema não é novo, mas tem vindo a agudizar-se. Um levantamento recente feito pelo Banco de Portugal concluiu que 42% de freguesias não têm acesso a nenhum terminal e que há vários municípios, rurais e urbanos, obrigados a desembolsar centenas de euros por mês para garantir um serviço que devia ser prestado pelos bancos (não há muitos anos, era a Banca que dispensava centenas de euros às freguesias para ter uma caixa).

Para uma fatia considerável da população menos familiarizada com o homebanking, o multibanco continua a servir para efetuar pagamentos essenciais, como a energia e as telecomunicações. O ato de efetuar operações bancárias físicas, e à cabeça a necessidade de ter acesso a dinheiro vivo para cumprir rotinas básicas, como comprar pão, fruta ou o jornal, não devia constituir uma excentricidade.

A Banca, todos o sabemos, não está preocupada com a coesão territorial. Basta, de resto, atentarmos no critério usado para a instalação dos terminais, segundo o qual a distância até ao multibanco deve ser entre 10 e 20 quilómetros em linha reta. Algo que no Alentejo até pode fazer sentido, mas que em Trás-os-Montes ou na serra da Estrela se revela um perfeito absurdo. Em sua defesa, os bancos, que estão a abandonar o território há anos, alegam que Portugal é dos poucos países da Europa onde não se cobra uma taxa de levantamento.

Mas se esse argumento, embora pífio, até possa ser aceitável para muitas instituições, exige-se que a Caixa Geral de Depósitos, como banco do Estado, faça muito mais. Pelas razões óbvias, mas sobretudo porque teve um lucro de 843 milhões de euros. Contribuir para a coesão nacional também é uma forma nobre de distribuir dividendos.»

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23.6.23

Janelas

 


Janela de vitrais na Vila Kőrössy. Budapeste, 1899-1900.
Arquitecto: Albert Kálmán K Archrössy, Vitrais: Miksa Roth.


Daqui.
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Não passarão, mas tem dias

 

«O quase insignificante episódio da escala de Costa em Budapeste dissolveu-se no ar. Todas as mais sorrateiras justificações têm eco popular: o homem gosta de futebol, e quem não gosta; em calhando, até foi lá apalavrar em segredo um campeonato em Portugal, depois da Jornada Mundial da Juventude precisamos de um novo desígnio nacional e não há melhor do que a bola; no mínimo, foi cumprimentar um colega com quem tem “relações de trabalho”, diz o comunicado oficial. Tudo é leve e, portanto, passa depressa. O que restou, no entanto, foi a pergunta mais difícil: e o “não passarão”, entoado em tom heroico em comícios ainda há pouco, aliás até repetido no Parlamento como um chamamento às armas, em cenas que deixam o país suspenso, agora é que chega a vias de facto? Que é feito dessa promessa garbosa de um levantamento antifascista, de uma intransigência moralizante, de uma aliança progressista europeia — o termo foi mesmo usado repetidamente — e de um combate valente contra as forças das trevas? Nada, pois era o que se esperava.»

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Boris Vian morreu num 23 de Junho

 


Boris Vian morreu com 39 anos em 23 de Junho de 1959. Escritor, engenheiro mecânico, inventor, poeta, cantor e trompetista, teve uma vida muito acidentada e ficou sobretudo conhecido pelos livros de poemas e alguns dos seus onze romances, como L’écume des jours e L’automne à Pékin.

Célebre ficou também uma canção – Le déserteur – que foi, durante muitos anos, uma espécie de hino para todos os que recusavam a guerra, incluindo muitos portugueses.

Alguns vídeos, incluindo o da canção referida, AQUI.
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E se o submarino transportasse refugiados?

 


«O espaço mediático do submersível desaparecido junto aos destroços do Titanic, com cinco pessoas a bordo, remete-nos para uma espécie de banalização das tragédias. Inconsciente, mas reveladora de alguma insensibilidade para o drama daqueles que há anos, dia após dia, enfrentam a escolha entre a miséria e a guerra.

É natural que o resgate dos ocupantes do submarino mereça toda a atenção, tal como aconteceu, por exemplo, com a saga dos 33 chilenos que ficaram presos numa mina em San José, e que foram salvos após 69 dias. Ou, mais recente, a história de Rayan, o menino marroquino de cinco anos que esteve preso num poço com 32 metros de profundidade, e que acabou por ser resgatado sem vida.

O Mundo acompanhou estes dramas com ansiedade, minuto a minuto, e com expetativa. Os “33”, número que batizou o grupo dos mineiros, ou Rayan são pessoas como nós. Podiam ser nossos pais, irmãos, filhos.

Essa preocupação, atenção, e até carinho, não é a mesma para com aqueles que fazem viagens longas e perigosas para escapar a conflitos armados, violência, pobreza e aos efeitos tenebrosos das alterações climáticas. Aqueles que procuram tão-só o direito a viver. Que encontram no mar Mediterrâneo a sua última morada, o seu cemitério.

O Dia Mundial do Refugiado foi assinalado pelas Nações Unidas na terça-feira. Sem pompa ou circunstância. Entre portas ou fora delas.

Estes cidadãos, com os mesmos direitos do que qualquer um de nós, não abandonam as suas casas à procura de luxo, nem de bons salários, nem de boas habitações, nem de bom tempo. Procuram sobreviver. Como os mineiros, como Rayan, como os ocupantes do submarino perdido.

O tema dos refugiados não se pode tornar spam. Eles não são lixo, mesmo que sejam descartáveis para uma grande parte dos governantes.»

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22.6.23

Edifícios

 


Edifício Félix Potin, Arte Nova. Paris, 1904.
Arquitecto: Félix Auscher.

[Mais sobre este Edifício aqui.]


Daqui.
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Não acreditamos nisto, pois não?

 


Le Monde, 21.06.2023
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Vigilância nas democracias europeias

 


«Há poucos anos, Shoshana Zuboff notabilizou-se pelo seu livro “Capitalismo de vigilância”, que descreve como, atualmente, os dados pessoais são objeto de um processo de vigilância massiva na internet, levada a cabo por empresas que nos fornecem serviços online gratuitos, como os motores de busca (Google) e as plataformas de redes sociais (Facebook). Estas empresas recolhem e analisam os nossos comportamentos em linha para produzir dados que podem ser posteriormente utilizados para fins comerciais, monetizando-os. Na maior parte das vezes, não conseguimos ter noção da extensão da vigilância de que somos alvo. Apesar de tudo, trata-se de plataformas relativamente às quais podemos exercer o nosso direito de opt-out.

Contudo, outro tipo de vigilância, mais invasivo, relativamente ao qual não existe opting out, e, em alguns casos, efetuado diretamente pelos Estados e entidades públicas, à margem ou em violação da lei, foi revelado por um consórcio de jornalistas e ONGs, demonstrando que não só países terceiros mas também Estados europeus utilizaram o Pegasus e spyware de vigilância similar contra jornalistas, membros da oposição, diplomatas, advogados e atores da sociedade civil.

Na sequência da constituição de uma comissão de inquérito do Parlamento Europeu para investigar a utilização do software espião de vigilância Pegasus e equivalentes, chegou-se a conclusões alarmantes. Em Espanha, muitas figuras pró-independência catalã foram visadas por duas categorias de software espião, incluindo o primeiro-ministro, o ministro da Defesa e o ministro do Interior, no âmbito do Catalangate. Embora as autoridades espanholas aleguem ter visado cerca de 18 pessoas com autorização judicial, até à semana passada não divulgaram os mandados nem divulgaram quaisquer outras informações, invocando a segurança nacional para justificar a utilização de software espião para efetuar vigilância de pessoas em Espanha.

Na Grécia, este tipo de práticas foi utilizado praticamente deste o início do governo de Kyriákos Mitsotákis, que chamou a si a coordenação dos serviços secretos, os quais mantiveram sob vigilância jornalistas e membros da oposição. Também o governo polaco admitiu a utilização do software, alegadamente utilizado, de modo rotineiro, contra membros da oposição. Na Hungria, a utilização deste tipo de software de espionagem é qualificada como um elemento estrutural de um sistema concebido para controlar e oprimir a oposição, os jornalistas e qualquer denunciante do regime.

Estas práticas denotam a utilização de tecnologias de vigilância por entidades governamentais para violar direitos humanos e minar o processo democrático. Uma resolução aprovada pelo Parlamento Europeu, na semana passada, a 15 de junho, considera que o comércio e a utilização de software espião deve ser objeto de uma regulamentação rigorosa. Essa resolução conclui também, contudo, que nem os Estados-Membros, nem o Conselho Europeu, nem a Comissão Europeia parecem interessados em maximizar os seus esforços para investigar plenamente o abuso de software espião, acabando, por essa forma, por proteger conscientemente os governos nacionais que violam os direitos humanos. Perante a tensão entre segurança e soberania nacionais e direitos humanos, o pêndulo da balança continua desequilibrado.

Em Portugal, o Governo já esclareceu, na Assembleia da República, pela voz do ministro da Administração Interna, que não utiliza nem pretende utilizar o Pegasus. Contudo, o relatório do Parlamento Europeu alude a uma investigação divulgada pela Lighthouse Reports que revela que Portugal, juntamente com outros países, tem sido exposto à atividade da Tykelab, uma empresa sediada em Roma que utiliza um software que explora vulnerabilidades nas redes telefónicas que permitem a terceiros ver a localização dos utilizadores e, potencialmente, intercetar as suas chamadas sem que seja deixado qualquer registo de compromisso nos seus aparelhos. A quem são prestados estes serviços? Quem é vigiado? Não se sabe. Mas, atendendo a que esta investigação é de agosto de 2022, ninguém parece muito interessado em saber.»

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Mariana Mortágua sobre SNS

 



Ontem na AR.
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