24.8.24

Sem este motivo...

 


... a Terra seria plana?

24.08.1916 – Léo Ferré

 


Léo Ferré nasceu no Mónaco, o pai trabalhava no Casino, a mãe era costureira e Léo, com 7 anos, já cantava no coro da catedral.

Deixou-nos preciosidades que resistem a todas as décadas, com letras suas ou de Aragon, Rimbaud e mais uns tantos. Três entre muitas outras:






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Wifi?

 


Enterrar o mito do colonialismo suave

 


«O PÚBLICO resolveu contrariar o espírito da silly season com duas grandes reportagens sobre o racismo em Angola e Moçambique durante a época colonial.

Sem esgotar o tema, tarefa impossível, estas reportagens dão pistas para reflexão impossíveis de ignorar. Evitando o militantismo e o sensacionalismo, o que ali é testemunhado abala irremediavelmente a estabilidade do mito do “colonialismo suave” português.

O mito do colonialismo suave português, infundido eficazmente desde inícios do século XX, perdura até hoje na nossa sociedade, como uma anestesia colectiva que nos permite um confortável alheamento face a uma sucessão de factos incómodos da nossa história, uma história feita da narrativa de glórias mais ou menos verosímeis para nos redimir da mediocridade do presente. Há verdades na construção deste mito, mas são sempre meias-verdades.

O colonialismo português foi diferente do holandês, do inglês, do francês, do alemão ou do italiano, mas estes também foram diferentes entre si, e diferente de um mau não quer dizer bom. Portugal promoveu heróis populares negros, como o Duo Ouro Negro, o Eduardo Nascimento ou o galáctico Eusébio, o que é verdade e foi simbolicamente importante à época, mas não permite que se confunda a aceitação individual com o racismo abstrato, tendo estas promoções seletivas sido um importante instrumento de política externa do Estado Novo. No mundo existiam brancos e pretos, e os portugueses criaram os mulatos, o que é mais ou menos verdade, não faltando as mais exaltadas odes à mestiçagem e a este suposto espírito universalista português, esquecendo que de facto a crua realidade é que muita da mestiçagem é fruto da violação e da subjugação da mulher indígena, havendo um anátema terrível sobre os mestiços filhos de pai preto e mãe branca. Estes são apenas alguns dos tópicos distorcidos, geralmente acompanhados do relato de um ou outro preto numa esplanada de Lourenço Marques ou num cinema de Luanda.

Acredito em muitos relatos bem-intencionados de gente que viveu nas maiores cidades do Ultramar e que recorda uma evolução e maior e mais humana partilha do espaço com os nativos. Acredito que as populações urbanas mais jovens e mais cultas começassem a trilhar um caminho de redução da discriminação. Acredito que, no contacto com o caso particular, a relação humana entre diferentes fosse criando os laços afectivos naturais, que levam a maior consideração do outro e respeito. Acredito, enfim, que tenha havido um grande número de patrões brancos amicíssimos dos seus criados pretos, mas não conheço um caso de patrões pretos com criados brancos. Tudo isto é muito pouco face a tudo o que não deixamos que perturbe o mito de sermos bons colonizadores. Não há bons colonizadores.

Esta catarse colectiva importa, porque a verdade importa e só a verdade faz justiça. Sim, qualquer potência colonial é devedora de desculpas históricas aos povos que colonizou. Sem teatralidade, sem esquecer o contexto histórico, que não desculpa, mas explica muita coisa, essencialmente, sem dividir mais. Estes momentos só servem se forem momentos de crescimento, de reflexão crítica, mas criativa e criadora. Em suma, se conseguirem fortalecer mais os laços entre os povos em causa e não fomentar a divisão. A este propósito, tivemos recentemente declarações de enorme sabedoria do Presidente de Angola, João Lourenço, em profundo contraste com as do Presidente português, num momento pouco edificante de adesão à agenda divisionista e revanchista de uma corrente agitadora e minoritária.

Regresso onde comecei, estas reportagens do PÚBLICO não nos dizem nada que nós intimamente não saibamos, mas têm o profundo mérito de nos confrontar com discursos ordenados e na primeira pessoa, com uma narrativa bem estruturada e coerente. Não há como escapar. Não, não foi um colonialismo suave. Não, não foi bom, a não ser para a potência colonial. Não, não devemos continuar a perpetuar uma mentira que nos impede de crescer enquanto povo.»


23.8.24

Árvores grandes, grandes árvores (1-8)

 


FIM.

Infelizmente, infelizmente

 


23.08.1927 – Sacco & Vanzetti

 


Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti foram acusados do homicídio de duas pessoas, nos Estados Unidos, e acabaram por ser condenados à pena de morte e electrocutados em 23 de Agosto de 1927, apesar de, cerca de dois anos antes, uma outra pessoa ter confessado ser autora dos crimes.

Na sessão do tribunal em que a sentença da condenação foi lida, Vanzetti incluiu o seguinte nas suas longas declarações finais:

«I would not wish to a dog or to a snake, to the most low and misfortunate creature of the earth. I would not wish to any of them what I have had to suffer for things that I am not guilty of. But my conviction is that I have suffered for things that I am guilty of. I am suffering because I am a radical and indeed I am a radical; I have suffered because I am an Italian and indeed I am an Italian...if you could execute me two times, and if I could be reborn two other times, I would live again to do what I have done already.»

Nunca pararam as reacções e os protestos contra um caso que, com toda a sua trama, passou a funcionar como um símbolo de desrespeito flagrante pelos princípios da justiça na América.

Deu origem a um filme, inspirou escritores, pintores, músicos como Woody Guthrie. Joan Baez viria a consagrar uma das canções mais divulgadas, até Dulce Pontes interpretou «The Ballad of Sacco e Vanzetti», etc., etc.







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Os 50 são os novos 50

 


«Primeiro, o adversário de Trump era um homem branco velho. Agora, é uma mulher negra jovem. De repente, ele vai enfrentar, num certo sentido, o exacto oposto do que pensava que ia ter pela frente. As características pessoais dos outros, em princípio, não me interessam. Tenho aquela ideia antiga segundo a qual o género, a cor da pele, a orientação sexual e a idade, sendo particularidades que a gente não escolhe nem controla, não nos definem. Mas, para Trump, são a única coisa que interessa. É com base nelas que ele formula julgamentos. Por isso, tem um problema para resolver. Ele é agora o idoso. Terá 78 anos no dia da eleição. Se for eleito, no fim do mandato terá a idade que Biden tem hoje. Tudo o que foi dizendo sobre Biden aplica-se agora a si mesmo.

Sei que talvez tenha exagerado quando disse que Kamala Harris é “jovem”. Vai fazer 60 anos em Outubro. No meu tempo, isso não era um jovem. No contexto da política americana, porém, é uma rapariga na flor da idade. Eu, que tenho menos 10 anos do que Kamala Harris, não me definiria como um jovem. Tenho 50 anos e recuso aquelas ideias populares segundo as quais “os 50 são os novos 30”. Não são, não. Nem eu quero que sejam. Não quero voltar a ter as preocupações que tinha aos 30. Aos 50, a gente deixa de ligar ao que os outros pensam de nós, e eu não quero voltar a comportar-me de outra maneira. Faço coisas em público que são muito compensadoras para mim e muito embaraçosas para as minhas filhas. É óptimo. E levo a mal que queiram fingir que sou mais novo do que sou. O idadismo pode ser feio, mas a idadofilia é condescendente e ofensiva. Há uma série de filmes chamada “The Equalizer”. O protagonista, interpretado por Denzel Washington, é um antigo agente da CIA que aproveita a reforma para defender pessoas que são vítimas de várias máfias. No decurso das suas aventuras, Denzel derrota dezenas de mafiosos armados usando apenas as mãos. Notem: ele está desarmado. Contra mafiosos que têm várias armas cada um. Ele pressiona um botão do seu relógio e murmura: “17 segundos.” E depois manieta seis ou sete bandidos exactamente nesse espaço de tempo. Não sei se já disse, mas os mafiosos têm armas automáticas e Denzel está desarmado. Ora, Denzel Washington vai fazer 70 anos em Dezembro. Não esperem que nós, os velhos, sejamos capazes de proezas destas. Contem connosco para dizer coisas erradas em momentos delicados — e mais nada. Tirem estes filmes da categoria de “Acção”, onde estão catalogados, quando deviam estar em “Ficção Científica”.»


22.8.24

Árvores grandes, grandes árvores (8)

 


Banhos Reais de Fasiledes, Gondar, Etiópia, 2013.

Estes Banhos Reais foram uma iniciativa do imperador Fasiledes e construídos durante o seu reinado (1632-1667) no vale do Rio Qeha.

São constituídos por uma estrutura rectangular com muros de pedra, que todos os anos se enche de água para a Epifania (Timket) em que se celebra o baptismo de Jesus no Rio Jordão. As árvores «incrustaram-se» na pedra, como é bem visível.

Três séculos é pouco tempo

 


Será-lhe?

 


Um referendo perigoso e desajustado

 


«A ideia de um referendo sobre imigração, lançada pelo partido Chega a meio de Agosto, é perigosa e desajustada.

Perigosa porque vem alimentar a narrativa de um partido populista que considera que a própria imigração por si só é um perigo e um dos problemas centrais da sociedade portuguesa, o que é um delírio.

Desajustada porque assenta numa falsa ideia, alimentada todos os dias pelo Chega, de que há uma relação directa entre imigração e criminalidade, algo que os próprios factos facilmente desmentem. O número de imigrantes quase duplicou em Portugal desde 2014 e esse crescimento não foi, nem de perto nem de longe, acompanhado por um aumento da criminalidade ou por um qualquer aumento da população de reclusos estrangeiros, tal como o PÚBLICO aqui explicou com detalhe.

Perigosa porque a figura do referendo, inscrita na Constituição com a revisão de 1997, não foi feita para ser utilizada em matérias deste tipo. Vários acórdãos do Tribunal Constitucional alertam, aliás, para a delicadeza do que está em causa. As questões a referendar devem ter sempre “objectividade e precisão”, para se evitar posteriormente “a existência de equívocos” ou “consentir leituras ambíguas”. Uma pergunta à população sobre se a imigração deveria ser controlada seria, por isso, uma aberração.

Desajustada porque a própria figura de referendo tem vindo a perder qualquer utilidade. Segundo a actual lei, um referendo só tem validade se nele participarem mais de 50% dos eleitores recenseados. É o que está expresso no artigo 240 da lei dos referendos: “Só tem efeito vinculativo quando o número de votantes for superior a metade dos eleitores inscritos no recenseamento.” Em nenhum dos três referendos (houve um sobre a regionalização, em 1998, e dois sobre a despenalização do aborto, em 1998 e 2007), mais de metade dos portugueses achou que a questão em causa era suficientemente importante para sair de casa, ou seja, mais de metade dos votantes não quis saber da pergunta que era feita. A participação máxima foi de 49% na consulta sobre a regionalização e a menor de 31%, sobre o aborto.

As pessoas votam nos seus representantes com base em programa eleitorais e com base em concepções da sociedade. A democracia representativa é isso mesmo.

Brandir chavões perniciosos e irresponsáveis sobre a imigração, acenando ao mesmo tempo com a possibilidade de uma consulta directa à população, é motivo de arrepios. Fazer disso moeda de troca para a aprovação do Orçamento do Estado para 2025, um insulto. À atenção de Luís Montenegro."»