5.10.24

05.10.2012 – Castelos chineses e de pernas para o ar

 


Uma bela imagem de tempos de troika.

5 de Outubro em tempo da Pneumónica

 


Em outubro de 1918, Lisboa não tinha madeira para tantos caixões.

Uma longa descrição impressionante!

«A 5 de Outubro, a revolução republicana festejou-se dentro de portas. O Governo de Sidónio Pais proibiu manifestações e quaisquer ajuntamentos, "em atenção ao luto de muitos portugueses", como fez publicar nos jornais, e para evitar a propagação do vírus. Não se fez a tradicional parada militar na Avenida da Liberdade e mesmo a anunciada soirée no Coliseu dos Recreios, a favor da Assistência aos Mutilados da Guerra e com um programa condizente (exibição de filmes propagandísticos sobre a Primeira Guerra Mundial e um concerto da banda da Guarda Nacional Republicana), foi cancelada no dia 4. Em alternativa, Sidónio aceitou que se realizasse uma tourada no Campo Pequeno, à qual assistiu no camarote, a uma distância higiénica. (…)

A 7 de Outubro, no dia em que Thomaz de Mello Breyner escreveu no seu diário "vamos a ver se escapo", Espanha fechou as fronteiras e só autorizava a entrada no país àqueles que tivessem certificados sanitários previamente avaliados pelo cônsul espanhol em Lisboa. Ricardo Jorge, diretor-geral da Saúde, não gostou da atitude dos espanhóis, mas não se deteve em rebatê-la, preocupando-se antes em procurar locais de acolhimento para as centenas de doentes que entravam todos os dias nos hospitais. Foram também centenas os que morriam quase diariamente. Num só dia, fizeram-se 250 enterros; descobriram-se famílias inteiras mortas nas suas casas; a Direção-Geral dos Hospitais Civis de Lisboa pediu à câmara para que abrisse uma vala comum no cemitério dos Prazeres.»


Fonte: DN, 05.10.2018

Viva!

 



A redução da política às corridas de cavalos

 


«Um dos aspectos mais empobrecedores do comentário político – e por cá há mais comentário do que análise – é o tratamento da política como uma espécie de corrida de cavalos. Quem ganha e quem perde, quem sobe e quem desce, quem tem positiva ou tem negativa, quem tem boas notas e quem tem negativa. Muitas vezes este tipo de pódio para apostas é reforçado pela atribuição de notas como se fosse um exame escolar, um dos vários mecanismos de infantilização que circula numa sociedade em que se é “jovem” aos 35 anos. Do ponto de vista mediático esta simplificação resulta, mas, como hoje o contínuo político-mediático tirou autonomia à decisão política, é relevante analisar as perversidades que isso introduz no debate público, ou seja, na democracia.

Marcelo Rebelo de Sousa foi o introdutor deste tipo de comentário político, dando notas e tendo um papel activo naquelas secções dos jornais com setas para cima e para baixo. Esta simplificação analítica vinha em pacote com secções como “Gente” e com a cenarização, que introduzia uma ficcionalização da política, mas permitia uma enorme vantagem comunicativa.

A outra escola do jornalismo português, a do Independente, era precursora da deslocação para a direita de muita da comunicação social, mas com um forte elitismo cultural e uma afirmação de superioridade social. Estes dois últimos aspectos decaíram com o fim do jornal, mas o primeiro acentuou-se. A junção destas duas escolas acentuou o domínio da direita na comunicação social, trazendo a valorização do protagonismo individual e uma ecologia de temas que valorizava a competição, o psicologismo e o sucesso, em detrimento das questões sociais. A moda e o espírito de rebanho, muito influentes no jornalismo menos qualificado, fizeram o resto. Os pobres, o mundo do trabalho, as desigualdades eram os “feios, porcos e maus” da moda, face aos influencers e aos meninos bonitos das empresas, como Zeinal Bava.

O mecanismo das corridas de cavalos é de um enorme simplismo, porque nem sempre quem “sobe” ganha, ou quem “desce” perde, e nem sempre quem “sobe” ou “desce” está verdadeiramente a “subir” ou a “descer” fora do mundo mediático. A complexidade da acção política, a complexidade da sociedade, as diferentes “recepções” dos sucessos ou falhanços, desaparecem da interpretação, cada vez mais de forma e menos de substância.

As duas escolas tendiam a reduzir a política àquilo a que se chama protagonismo, que valoriza as personalidades, a liderança, e diminui e menoriza a acção colectiva. Aliás, de uma ponta à outra, este tipo de mecanismos competitivos do comentário favorece o individualismo e apaga a complexidade da acção humana e o “ruído do mundo” weberiano. O mundo das redes sociais assenta neste tipo de visão, a que acrescenta uma enorme capacidade de insulto, calúnia e uma indústria da maledicência, ou seja, é eficaz para o “mal”, a que se soma uma incapacidade analítica e um papel quase inexistente do “bem”.

A forma como todo o processo do Orçamento tem vindo a ser tratado é um exemplo deste tipo de mecanismos. Pode-se, como é evidente, fazer um balanço de ganhos e perdas, e é evidente que o PS perdeu porque ficou sem margem de manobra e foi obrigado, entre uma chuva de insultos, a tomar posições que não desejava (escrevo ontem, nunca se sabe o que pode mudar hoje).

Temos os homens e as mulheres, mas falta a paisagem. Embora se fale do “interesse nacional”, toda a gente percebe que é pura retórica e que essa coisa abstracta está de fora não só da actuação dos políticos como da cobertura mediática, que é o que verdadeiramente lhes interessa por razões eleitorais e de formação (a actual geração de dirigentes políticos nasceu e cresceu no contínuo político-mediático). O que falta no julgamento analítico do que se passa com o Orçamento inclui, para começar, o próprio Orçamento em si, que não se reduz às duas medidas polémicas. Quanto do que lá está corresponde a visões diferentes e, no limite, antagónicas da política, supostamente separada pela ideologia, sim, pela ideologia? Eram estas as medidas de identidade para o PSD e para o PS e em que modo a sua alteração, ou recusa, altera o sentido político e ideológico do documento? Quem beneficia ou perde com elas? Como fica a economia, a sociedade, a democracia e por fim, a política neste processo?

Tudo isto apareceu fragmentariamente, mas sempre ofuscado pelas personagens, Montenegro, Pedro Nuno Santos, o Presidente. Mesmo o PS e o PSD, já para não falar do Chega, do PCP, do BE, do Livre, do PAN, personagens menores, ao lado da CGTP, UGT, CIP e CAP, estão no cenário, mas não na acção. Terá sido mesmo assim? Duvido, o interior do PS teve um papel, representados por comentadores sem excepção moles perante o Governo, os “interesses” organizados estão sempre presentes, mas são cavalos invisíveis, que têm tanto mais poder quanto menos se fala deles.

Esta corrida acabou? Não me parece. Mas vai haver outras, pode-se sempre apostar e são um bom entretenimento.»


4.10.24

Jarros

 


Jarro de vidro camafeu. Cerca de 1900.
Thomas Webb & Sons.


Daqui.

Luis Sepúlveda

 


Seriam 75, hoje. Maldita Covid que o levou menos de dois meses depois de esta fotografia ter sido tirada.

O Sonho de Abril do Pina foi uma Barbearia

 


Sobre três homicídios em Lisboa, ler este texto de António Brito Guterres.

04.10.2009 - O dia em que Mercedes Sosa morreu

 


Mercedes Sosa nasceu no Noroeste da Argentina, em San Miguel de Tucumán, cidade onde em 1816 foi declarada a independência do país.

Quando a Junta Militar de Jorge Videla subiu ao poder e se foi tornando cada vez mais agressiva, Mercedes, considerada peronista de esquerda, foi detida durante um concerto em La Plata, em 1979, refugiou-se depois em Paris e em Madrid e só regressou a Buenos Aires, e ao magnífico Teatro Colón, em 1982.








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Precisa-se: nova figura de estilo sobre o Orçamento do Estado

 


«Ainda faltam quase dois meses para a votação final do Orçamento do Estado e eu já estou farto do Orçamento do Estado. A culpa é tanto de quem negoceia o Orçamento do Estado como de quem comenta a negociação do Orçamento do Estado. Quem negoceia apresenta todos os dias as mesmas estrategiazinhas, habilidades tácticas, vitimizações; quem comenta recorre a toda a hora às mesmas metáforas para analisar as estrategiazinhas, as habilidades tácticas e as vitimizações. Quem negoceia está disponível para discutir com sentido de Estado, maturidade e responsabilidade, até porque sabe que a vontade do povo é evitar novas eleições, mas infelizmente esbarra na inflexibilidade de todos os outros.

Quem comenta vê nas negociações uma telenovela com demasiados episódios, um casamento disfuncional, um jogo de póquer, e um daqueles filmes em que dois pilotos conduzem o seu carro na direcção um do outro para ver qual deles resiste mais tempo a dar uma guinada no volante. Fala-se muito da nossa pobreza económica mas raramente se refere a nossa pobreza estilística. As figuras de estilo ajudam a compreender a realidade, mas estas metáforas recorrentes não têm contribuído para ficarmos a perceber melhor o Orçamento do Estado. Talvez também não ajude o facto de o Orçamento do Estado ainda não ter sido apresentado. Tendo em conta que ainda falta quase uma semana para a sua apresentação, e uma vez que estamos em Portugal, o mais provável é que o Orçamento ainda não exista, sequer. Tenho esperança, por isso, de que as divergências se atenuem. É natural que as pessoas discordem umas das outras a propósito de coisas que não existem — como a história das guerras religiosas demonstra. Mas quando o Orçamento existir é possível que a discórdia esmoreça. Aliás, há um ponto no qual toda a gente parece estar de acordo. Quem será o maior beneficiário do Orçamento do Estado? Os jovens? Os reformados? As empresas? A resposta certa é, evidentemente, o Chega. Se PS e PSD se entenderem, ganha o Chega, que passa a ser o grande partido da oposição. Se PS e PSD não se entenderem, ganha o Chega, que passa a ter o poder de condicionar o Governo. Dos jogos do campeonato do mundo de futebol costuma dizer-se que são onze para cada lado e no fim ganha a Alemanha. No Orçamento do Estado é parecido: cada lado apresenta números e no fim ganha quem aprecia os anos 30 da Alemanha.»


Dêem os submarinos ao homem!

 


3.10.24

Debate na AR

 


Luís Montenegro dever ter tido uma má professora na 4ª classe. Depois do SERÁ-LHE de algum tempo, hoje saiu «a senhora deputada 𝐃𝐈𝐙𝐄𝐑-𝐌𝐄-𝐈𝐀».

Hoje há mais um assalto

 

«Um combate de boxe tem vários assaltos. E quando não há grande diferença entre os dois lutadores, é habitual que um ganhe alguma vantagem num determinado período, para no seguinte já ser o adversário a desferir o golpe mais vistoso. (…)

No assalto mais recente, foi o socialista quem se saiu melhor. Entrou no ringue em S. Bento, descartou o melhor que pôde os golpes do social-democrata (o chamado IRS Jovem e o corte transversal do IRC), contra-atacando com o que entende ser um melhor destino para mil milhões de euros. (…)

O que nos traz para o assalto de hoje, em que Luís Montenegro precisa de ganhar vantagem no combate pelo Orçamento. Resta saber se tentará forçar um KO (apresentando uma contraproposta que Pedro Nuno Santos não consiga encaixar) ou se opta por uma tática mais defensiva, à espera de uma vitória por pontos que garanta a sobrevivência do Governo.»