31.5.25

A canção do nosso futuro?

 




In the town where I was born
Lived a man who sailed the sea
And he told us of his life
In the land of submarines.


Compreender o discurso político, um valor em si

 


«Apercebi-me, através de publicações circuladas nas redes sociais, dos resultados eleitorais recentes na freguesia de Rabo de Peixe, concelho da Ribeira Grande, na ilha de São Miguel. O grande vencedor foi o Chega, que ali obteve mais de 38% dos votos. Mesmo sabendo-se que votaram apenas 1999 eleitores, com uma abstenção superior a 74% e havendo 3% de votos brancos e nulos. Portanto, em Rabo de Peixe, votaram no Chega 769 pessoas (601 na AD, 329 no PS).

Estive pela primeira vez em Rabo de Peixe talvez há 20 anos e recordo ainda os diversos cartazes de organizações internacionais que ali desenvolviam a sua atividade de cooperação ou financiavam projetos, num cenário que é habitual em África e nalguns espaços da América Latina e do Sudeste Asiático, mas que creio que seria único à época em Portugal, vinte anos depois da adesão à União Europeia. A pobreza era, de facto, evidente, densa, marcada.

Em Rabo de Peixe, 60% dos residentes têm uma escolaridade até ao 4.º ano. E um terço da população de Rabo de Peixe recebe Rendimento Social de Inserção. As transferências sociais têm vários efeitos, como é sabido. Um deles em Portugal é fazer descer a taxa de risco de pobreza dos 40% para os 16% (2023), ou seja, colocar-nos, nesse tema, entre o Luxemburgo e Malta, no contexto da União Europeia, e não, por exemplo, entre a Roménia e a Lituânia. Outro é permitirem a narrativa do Chega sobre redistribuição e subvenções sociais, epigrafando os “subsidiodependentes” como exemplos de abuso cívico e de fraqueza pessoal, o que torna a sua expressão eleitoral em Rabo de Peixe aparentemente contraditória.»

Continuar a ler AQUI.

O PS e a crise da esquerda

 


«O desastre eleitoral da esquerda tem como epicentro o PS, mas vai muito mais longe do que o PS. Por razões de oportunidade política e do efeito de rebanho na comunicação social, os argumentos explicativos da AD, desenvolvidos na campanha eleitoral – a culpa foi de Pedro Nuno Santos e da sua liderança “radical”, que derrubou o Governo e colocou o PS como súbdito da “geringonça” –, tornaram-se um discurso único que acabou também por infectar o PS. Na verdade, nada disto é um argumento sério, nem Pedro Nuno Santos é um “radical”, a palavra mais abastardada destas eleições, nem o PS derrubou o Governo, que se suicidou em público, nem o PS tem uma qualquer nostalgia da “geringonça”, tem é nostalgia do Costa da maioria absoluta, que tinha um discurso nas eleições em que a ganhou claramente anti-“geringonça”.

O domínio da comunicação social pela direita fez com que este tipo de “explicações” se tornasse dominante, sem muitas vezes a percepção de que estavam a reproduzir como análise aquilo que era o argumentário da AD. Não é novidade, já aconteceu antes esta submissão a um argumentário que se torna dogmático, perdendo a origem e a marca inicial, para se tornar uma explicação útil. Uma das razões do actual sucesso da direita na comunicação social vem de ter um comentário muito mais agressivo e grupal à direita, face ao “outro” lado, muito mais mole, ou ele próprio mais próximo do argumentário de direita por razões de fracção ou luta interna. Com o eficaz lobby do Observador de um lado e do outro António José Seguro, o que é que se esperava?

A ecologia comunicacional, sendo relevante pelo seu efeito potenciador, não é a razão principal da crise da esquerda, que está presente nos resultados do PS, mas também na quase desaparição do Bloco e na sobrevivência desesperada do PCP.

Na verdade, há factores comuns na crise da democracia na Europa e nos EUA e a crise nacional, mas, no caso português, há também factores endógenos a explicá-la. Do mesmo modo que a ascensão do Chega tem a ver com o crescimento da extrema-direita noutras democracias, esta ascensão tem também de ser interpretada junto com a crise da esquerda, como um processo que tem factores comuns. Esses factores têm a ver com a crise interior dos mecanismos da democracia, a erosão das mediações na sociedade, seja da família, seja da escola, seja de sindicatos e partidos, seja mesmo das igrejas institucionais. Essa erosão dissolve mecanismos institucionais de autoridade que funcionavam com a democracia, para mediar o conflito e dar uma maior qualidade à expressão de interesses e ideias num quadro menos antagonista, individualista e solitário, e ignorante agressivamente. As redes sociais, o deslumbramento tecnológico, a crise do silêncio e do tempo lento, a moldagem dos indivíduos numa aceleração da vida, com a dissolução do conflito social no ressentimento, são hoje característicos da ecologia social que se vive nas democracias ocidentais. Ou seja, o “admirável mundo novo” em que estamos a viver e cada vez mais a entrar é hostil às democracias não por fora, mas por dentro, e por isso a ascensão de políticas de força, com homens fortes, com domínio do pathos, e a liquidação do logos e do ethos, implantadas numa vida percebida como reality show, são factores de mudança particularmente destrutivos da “paz” democrática. Não é apenas social, é educativo no sentido lato e cultural. É uma Weltanschauung, pedindo desculpa por este termo alemão que tem o mérito de ser mais rigoroso.

Ou seja, é tudo mais grave do que se pensa, vai mais fundo do que se imagina, e processos como o Chega (cujo crescimento vem também do bloqueio do crescimento da AD) e a crise da esquerda são epifenómenos. Se formos para a “juventude”, que, como se sabe, em Portugal vai até aos 35 anos infantilizados, vemos em perfeita plenitude os efeitos de uma socialização feita à margem de todas as mediações, seja da escola, seja da família, resultando no antagonismo e radicalização, na ignorância agressiva.

A esquerda há muito tempo que não percebe o que se passa à sua volta, envolveu-se em guerras culturais que perdeu e maximizaram a radicalização, perdeu identidade, subordinou-se às ideias dominantes à direita no PS, castrou-se no PCP no apoio a guerras injustas, e diminuiu-se no Bloco face a sectores radicais urbanos, o que, uma vez passada a novidade e a complacência da comunicação social, o deixou na situação de o “rei vai nu”.

Os resultados eleitorais podem oscilar para um lado ou para o outro, mas o Chega está para ficar e bloquear a governação, o PS a caminhar para ser capturado como pajem da AD, o PCP a tornar-se uma antiguidade de culto, e o Bloco a ser o partido de “todes”. Por baixo de tudo, há um Deus ex machina que move os cordelinhos, que sabe bem de mais como manipular um mundo de fragilidades, de solidão, de ignorância, convencido de que é “moderno”. Há gente que ajuda ao que está acontecer, há gente que sabe o que está a acontecer, há gente que ganha com o que está a acontecer, por isso pode e deve ser combatida em nome da democracia.»


30.5.25

30 de Maio, o dia em que acabou o «Maio de 68»

 



Há 57 anos o general de Gaulle pôs fim a um mês verdadeiramente alucinante que a França viveu em 1968. Numa alocução difundida pela rádio, que ficou célebre, dissolveu a Assembleia Nacional e anunciou a realização de eleições antecipadas: contra o perigo do «comunismo totalitário», «La Réplubique n'abdiquera pas!»



Nessa mesma noite, uma gigantesca manifestação de apoio (500.000 pessoas?) invadiu os Campos Elíseos e marcou o desejo de «regresso à ordem», que os resultados das eleições, que tiveram lugar em 23 e 30 de Junho, confirmaram com uma vitória esmagadora da direita.

.

Montenegro escolhe o PS e Gouveia e Melo parece imbatível

 


«Enquanto escrevo esta newsletter, não sou sobrevoada por seres humanos altamente civilizados (desculpem o ‘pastiche’ de um dos mais magníficos ensaios de George Orwell, O Leão e o Unicórnio: o socialismo e o génio inglês) mas Luís Montenegro acabou de ser indigitado primeiro-ministro, Gouveia e Melo anunciou a sua candidatura a Presidente da República e André Ventura foi "nomeado" líder da oposição.

Comecemos por Gouveia e Melo. Ao assistir ao seu discurso, lembrei-me de Cavaco Silva. Não do Cavaco Silva dos últimos dias da Presidência, não do Cavaco Silva que é a personagem mais odiada pela esquerda (mais do que Passos Coelho), mas do Cavaco Silva vencedor, que conseguiu duas maiorias absolutas e depois dois mandatos como Presidente da República.

Se as sondagens já davam vantagem a Gouveia e Melo, este discurso de arranque é suficientemente poderoso, naquilo que apela ao imaginário nacional, para arrastar os eleitores, incluindo os eleitores do Chega que elegeram agora 60 deputados e também os que votaram PS e PSD. Pode captar eleitores do Chega, mas distancia-se do partido quando afirma que "a democracia está em perigo".»

Ana Sá Lopes
Newsletter do Público, 29.05.2025

Está a ir tudo muito depressa

 


E termina «Linhas Vermelhas», onde Catarina Martins debatia com Cecília Meireles à 2ªf (e certamente também a versão da 4ªf com Miguel Prata Roque e Miguel Morgado).

Isto vai ser rápido

 


«Celebrávamos o 40º aniversário do 25 de Abril quando fui questionado por uma jornalista francesa, que queria saber por que não tínhamos extrema-direita. Tinham-lhe falado da memória da ditadura e da baixa taxa de imigração. Neguei-lhe a primeira, valorizei a segunda, mas disse que estava enganada: que podia ouvir a extrema-direita nos cafés e nos programas da manhã. Só não tinha sido ativada por um partido. Como seria possível ela não existir no último país da Europa Ocidental a descolonizar e num dos últimos a chegar à democracia? Nos últimos seis anos fizemos o caminho que outros levaram décadas a percorrer. E a extrema-direita pode chegar ao poder ou ficar em primeiro com a mesma velocidade extraordinária. Porque nos faltam os instrumentos que, noutros países, retardaram a sua progressão ou atenuaram o seu impacto.

Faltam-nos resistências institucionais. Temos uma comunicação social com pouca autorregulação, autonomia e capacidade financeira. Portugal tem das mais baixas taxas de leitura de jornais da Europa e dos menores apoios públicos à imprensa. A esmagadora maio¬ria informa-se pelas televisões generalistas e pelas redes sociais. Parte das instituições do Estado, marcadas pelo desinvestimento ou pela doença do corporativismo, já foram tomadas pelo populismo dominante, com destaque para a justiça, onde o Ministério Público tem sido o foco do caos. É impossível compreender o ambiente que levou o Chega a saltar de um para 60 deputados em apenas seis anos sem olhar para o clima criado por uma casta pouco sofisticada mas muito poderosa. Não é contra o PS ou contra o PSD, é contra “os políticos”. E temos uma sociedade civil estruturalmente anémica. A começar pelo sindicalismo, que o poder político fez tudo para fragilizar, com contributo de partidos que não o deixam respirar. Portugal tem das taxas de sindicalização mais baixas da Europa, tendo sido a segunda que mais caiu nas últimas quatro décadas em toda a OCDE.

Faltam-nos resistências culturais. Segundo o “European Social Survey”, 62% dos portugueses tinham no início da década crenças racistas: achavam que havia grupos étnicos ou raciais mais inteligentes ou mais trabalhadores ou que havia culturas mais civilizadas. Nunca fizemos, graças a mitos lusotropicalistas que alimentaram a ideia da colonização bondosa, este debate a sério. E foi neste pântano de silêncio que, quando a imigração explodiu, também tardiamente, nos vimos ao espelho. Segundo o Eurobarómetro, já temos mais autoconsciência do racismo — 61% aceitam que há discriminação em relação à cor da pele. Bastaria olhar para a elite política, económica e social e ver a pouca quantidade de não brancos para isso ser evidente. Mas, como somos ótimos a adiar debates, porque dividem, não são prioridade ou não interessam às “pessoas normais”, as fronteiras políticas são porosas e basta um pequeno aperto para até os socialistas começarem a repetir o vox populi sobre minorias e imigrantes. Não há linhas vermelhas, como na Alemanha. Porque, enquanto os alemães falam do seu passado, nós só o celebramos: demos novos mundos ao mundo e o resto não se pode recordar porque isso é “reescrever” a história.

Faltam-nos resistências políticas. Com uma situação económica ainda favorável, Montenegro passou um ano a distribuir o excedente e subiu três pontos quando o seu maior competidor afundou. O voto socialista saltou por cima da AD porque o primeiro-ministro não inspira confiança. Ébrios com o champanhe, a festa na São Caetano, à Lapa, é a da primeira classe do “Titanic”: não percebem que serão os seguintes. No PS acredita-se que a tradição ainda é o que era e que se se fizer de morto será premiado pela alternância, ignorando que há outra alternativa. Neste cenário, Ventura é o mais mobilizador dos três líderes. Carneiro até podia libertar votos à esquerda, mas BE e PCP ficaram em mínimos históricos e o Livre não chega, pela sua natureza, orgânica e liderança, ao voto popular de protesto. Não temos uma France Insoumise ou Die Linke, capaz de disputar o descontentamento à extrema-direita. Quando as coisas correrem mal, esse voto só terá um destino possível.

A extrema-direita chegou mais tarde, cresceu mais depressa e tem todas as condições para manter a trajetória acelerada. Aberta a comporta, o caudal não encontrará, por razões estruturais e circunstanciais, a resistência institucional, cultural e política que permitiu outros países retardarem o desastre. O terreno está todo aberto. Basta um escândalo judicial e uma crise económica e o poder será de Ventura. Quem julga que teremos quatro anos de paz ainda não percebeu o que está a acontecer.»


Gouveia e Melo

 


«Messias da Iglo»
Segundo Vieira Resurrected no Facebook.

29.5.25

O novo caudilho e os génios do PS

 

«Confirma-se o que se antecipava. No sistema político-partidário português haverá um antes e um depois do 18 de maio de 2024. Não se trata apenas de ter terminado o bipartidarismo e passarmos a um cenário tripartido. Desde esta quarta-feira, com a contagem dos votos da emigração, o Chega, um partido da direita radical populista (a designação dos cientistas políticos) ou de extrema-direita (a definição das pessoas comuns), passa a ser o principal partido de Oposição, algo nunca visto na democracia portuguesa e que, na verdade, ninguém previa.

Recordemos que, há seis anos, valia uns escassos 68 mil votos (1,3%) e que o único deputado era André Ventura. Hoje são um milhão e quatrocentos mil os que votam num caudilho que afirma na televisão, com ar compungido, que corre o risco de ser assassinado por ciganos e que, quando sofreu o célebre refluxo esofágico, julgava ter sido envenenado. São tantos quantos os que confiaram o seu voto ao PS, um dos partidos fundadores da nossa democracia liberal, o de Mário Soares, de Jorge Sampaio ou António Guterres.»

Continuar a ler AQUI.

José Luís Carneiro

 


Esta luminária afirmou hoje isto. Como se todos os partidos não tivessem perdido votos para eleição de mais deputados. (Resultados totais: o PS teve mais 4313 votos do que o Chega…)

O PS que se cuide ao eleger este futuro(?) SG ou o trambolhão será maior ainda.


Esta é a noite densa de chacais

 


O voto na emigração e a realidade mediada – uma hipótese

 


«Comecemos por esclarecer a perplexidade de muitos: como é que emigrantes votam num partido que faz campanha agressiva contra a imigração? O espanto resulta de uma ingenuidade bondosa: a maioria vota a pensar nos seus interesses, não com base num sentimento de justiça ou reciprocidade. Os imigrantes não se identificam com os outros imigrantes, mas com o seu próprio problema. Depois arranjam critérios para se excluírem do "problema" geral: são europeus e cristãos, chegaram há mais tempo, integraram-se, trabalham. Ao contrário dos outros, claro.

A falta de empatia com quem vive o mesmo drama que viveram é natural: os imigrantes são os que se sentem mais ameaçados pela concorrência de outros imigrantes. São os que lhe estão mais próximos na escada social de um país. É, por isso, muito comum votarem em partidos que aparentemente os combatem.

No caso dos resultados dos círculos da emigração, que deram uma vitória ao Chega nos dois círculos (com empate em número de deputados com a AD), o voto é, no entanto, para o parlamento do país de origem.

Fui, há um ano, a convite do maior sindicato suíço, falar com emigrantes (portugueses e não só) sobre o 25 de Abril (a conversa foi a 26), poucos dias depois das eleições que revelaram o Chega como maior partido português no círculo da Europa. A Suíça foi determinante para esse resultado. Tudo o que me explicaram foi por interpostas pessoas, porque estes sindicalizados não eram eleitores do Chega. E não ficaram claras as razões do resultado especialmente impressionante naquele país. Da influência de um empregador a queixas muito específicas, tudo me chegou ao ouvido. Apesar de esperar estudos mais aprofundados, nada me pareceu verosímil para uma tendência que parecia transversal na emigração portuguesa, na Europa e fora dela.

Se é verdade que o voto da emigração mais recente pode ser determinado pela situação no país (precisaria de saber o seu peso relativo no voto), cuja leitura pode ser mais severa por parte dos que se viram obrigados a partir, isso não acontece com as comunidades instaladas, que, mantendo uma relação com a realidade portuguesa, não sofrem boa parte dos problemas que temos dado como justificação para o crescimento do Chega.

Os emigrantes na Suíça ou no Brasil não vivem a falta de habitação, não têm contacto com o crescimento da imigração e não se confrontam com os efeitos da pressão sobre serviços públicos em território nacional.

Tirando a parte que emigrou há menos tempo, nada disto os afeta diretamente. E, no entanto, o seu voto de protesto foi ainda mais significativo do que no território nacional. O contacto mediado com esta realidade parece ter, portanto, ainda mais impacto do que o direto.

Só que esse contacto há de ser ainda menos mediado pela comunicação social do que no país. Apesar de muitos verem televisões nacionais ou consultarem sites de notícias, arrisco-me a dizer que a utilização das redes como forma preferencial de informação será ainda mais intensa. E a distância pode tornar essa experiência ainda mais imersiva do que a de quem, apesar de tudo, tem contacto direto e permanente com o que se passa no país. Quando houve tumultos em Lisboa, os meus vizinhos alentejanos perguntavam-me se não tinha receio de ir à cidade, imaginando toda a capital em chamas. Os mitos que se espalham, entre os emigrantes, sobre os benefícios dos imigrantes que chegam a Portugal, têm um efeito ainda mais poderoso junto de quem teve de partir.

Não estou a diminuir as dezenas de razões que ouvi na Suíça, há um ano, de quem conhece a realidade da emigração. Estou a sublinhar, como hipótese plausível, que a forma como nos informamos, debatemos e nos organizamos é determinante para o voto. Que não basta perguntar de que se queixam as pessoas. Precisamos de saber como lhes surge a realidade. Não é por acaso que o crescimento da extrema-direita tem coincidido com a preponderância desta forma de nos informarmos.

Soa mal dar esta explicação, porque todos se esforçam para procurar uma forma de identificação empática com este voto, tentando recuperá-lo para a democracia. Mas, assumindo que há muitas razões para chegarmos a este ponto, seria bom não ignorarmos, para ficarmos bem no retrato, um dos fatores mais distintivos deste tempo. Para não continuarmos a bater em portas erradas. E para não continuarmos a adiar a regulação das redes sociais, pressionados pelos mesmos que, chegados ao poder, esmagam a liberdade de expressão dos outros.»