Há alguns dias, chamei a atenção para dois documentos relacionados com as eleições de 1969, publicados nos «Caminhos da Memória». Num deles, projecta-se que os CTT troquem listas nos envelopes enviados pela oposição.
Encontrei entretanto esta elucidativa descrição de Vital Moreira no «Causa Nossa»:
«Como a lei não previa que as listas concorrentes constassem de um boletim único, a oposição tinha de imprimir os seus próprios boletins de voto e distribui-los pelos eleitores, o que era uma tarefa trabalhosa e dispendiosa, e só cobriu parte dos eleitores inscritos. Para que os boletins de voto fossem iguais aos da Acção Nacional Popular (novo nome da antiga União Nacional, o partido oficial), conseguimos saber pelos tipógrafos comunistas clandestinos como seriam os dela, tendo depois feito imprimir os nossos com o mesmo tipo de papel e de impressão. Qual não foi a nossa surpresa quando nas vésperas da eleição recebemos os boletins de voto da ANP, impressos num papel de textura e de tonalidade ostensivamente diferentes e com uma impressão facilmente reconhecível pelo tacto. Tinham alterado à última da hora os boletins de voto, para os diferenciarem propositadamente dos nossos, de modo a inibir quem tivesse receio de ser identificado como votante da oposição...»
Assim se viviam as campanhas eleitorais há 40 anos…
(Na foto, Mário Soares e Maria Barroso a votar em 26/10/1969)
Há mais do que um motivo para ser impossível esquecer o Cambodja, onde estive há cerca de seis meses: os magníficos templos de Angkor, a miséria extrema em que vive uma parte da população (*) e as pegadas deixadas pelos inqualificáveis crimes dos Khmers Vermelhos.
Um texto que Rui Bebiano publicou ontem fez-me «regressar» porque não há família no Cambodja que não tenha uma história semelhante à que é contada no livro que é referido. A do guia turístico que acompanhou o grupo em que integrava não era muito diferente (tinha 13 anos em 1975), o que é inevitável num país que perdeu 20 a 25% da população (cerca de dois milhões de pessoas, embora não haja números exactos), em apenas quatro anos – enquanto nós por cá vivíamos o PREC e os anos que se seguiram, ou seja há relativamente pouco tempo.
Uma das consequências absolutamente impressionante e visível, mesmo para o turista desprevenido, é que o Cambodja é hoje um país quase sem velhos: a grande maioria dos que teriam actualmente cerca de 60 anos, ou mais, desapareceu - pura e simplesmente.
Mas o que nunca sairá da memória de quem por lá passou é a «fotografia» de um dos mais célebres killing fields, situado nos arredores de Phnom Pehn, onde se encontra o Museu do Genocídio de Tuol Sleng. Numa antiga escola transformada em prisão e nos terrenos que a rodeiam, terão sido torturadas e assassinadas cerca de 10.000 pessoas – homens, mulheres e muitas crianças –, como testemunham largas centenas de fotografias expostas em grandes painéis. É um museu muito simples, impressionante pobre, mas terrível.
Há muita literatura sobre este período negro de uma parte importante do sudoeste asiático, há um grande filme (The Killing Fields, Terra Sangrenta, em português) e muitos pequenos vídeos como este, precisamente sobre o museu de Tuol Sleng.
(*) Escrevi, in loco, um pequeno texto sobre as terríveis condições em que vivem muitos cambojanos.
Há cinco anos, andei três dias num mini-cruzeiro no rio Yangtze, o tal onde existe hoje a monumental Barragem das Três Gargantas, então ainda em construção. Mais de um milhão de pessoas tinha sido ou estava a ser deslocado, já que a subida das águas fez desaparecer do mapa muitas aldeias.
Hoje leio que a construção de um canal que ligará o Norte ao Sul obrigará a deslocar mais 300.000 chineses.
Eu sei que se trata de um país tão populoso que, em percentagens, tudo é relativo. Mas é como os argumentos sobre as estatísticas relativas à pena de morte: um morto é sempre uma pessoa – e um deslocado é outra.
E passo a contar uma pequena história. No tal passeio pelo Yangtze, parámos junto a este pequeno pagode e, através do guia, falei com uma rapariguita que vendia bugigangas a turistas. Explicou que estava sozinha porque a família já deixara aquele local que, pouco tempo depois, ficaria inundado. Estavam agora longe? Nem por isso: a dois dias de viagem, de comboio.
No rescaldo de semanas e semanas vividas na agitação dos nossos recentes actos eleitorais, haverá certamente quem se recorde ainda de umas legislativas que se realizaram no dia 26 de Outubro de 1969 – há 40 anos, portanto.
Um ano depois de Salazar passar a estafeta a Marcelo Caetano, muitos acreditaram que a tal primavera anunciada iria permitir que tudo se passasse mais normalmente do que no passado, ou seja, com um mínimo de liberdade e de decência. Não foi o caso, como é sabido.
Nos próximos dias, deixarei aqui alguns apontamentos, fotos, links para os Caminhos da Memória. Por hoje, apenas o anúncio de um colóquio que será organizado pelo Instituto de História Contemporânea - As Eleições de 1969 e as Oposições, 40 Anos depois -, no qual colaborarei com grande prazer. Terá lugar no Sábado, dia 31 de Outubro, e o programa detalhado pode ser lido aqui.
Já com parte da alma no Laos e na Birmânia (a outra ainda anda por cá durante uns tempos…), comprei ontem este acessório de viagem – 1 kg, mais pequeno do que uma folha A4, lindo de morrer -, na esperança de poder relatar aqui umas histórias, com cedilhas e acentos, e de ir mostrando umas pelingrafias.
Mas sinto-me como quem faz fila para comprar pilhas sem ter lanterna, porque nem sei se vou conseguir ligar-me à net, muito menos ao Blogger, ao Facebook ou ao Twitter - talvez ao mail…. Em países onde nem há ATM’s nem cartões de crédito, e onde a censura é o que se sabe… Para já, vou recheando the little animal.
E já fiz também umas contas que metem fusos horários: se não houver atrasos, devo chegar a Luang Brabang 22 horas depois de descolar da Portela…
Vai por aí um alvoroço com o lançamento de Caim, o seu último livro. Desta vez (!...), quem disse o que é absolutamente evidente e indispensável foi o porta-voz da Conferência Episcopal: «um escritor da craveira de José Saramago deveria ir por um caminho mais sério» e o livro é pura «operação de publicidade». Marketing, demagogia e mais nada.
Aluno classificado pelos portugueses sempre com «Bom» (14,5% teria sido a sua pior nota desde que é presidente), vê agora na pauta um mísero 9,6%. Dantes, dava para ir à oral mas à justa.
Que assim continue, pliiize, pelo menos durante mais um anito. Que procure câmaras escondidas, descubra microfones e inspeccione computadores – e, sobretudo, que venha depois contar como foi.
«Foi recebida uma carta do «Reverendo Pároco da paróquia do Corgo, a solicitar um subsídio para fazer face às despesas com o processo de Beatificação do Servo de Deus – Frei Bernardo de Vasconcelos. Aprovado por unanimidade: Atribuir o subsídio de 1.000.00 euros.»
A notícia é de 2005, mas o professor Marcelo, que foi presidente da Assembleia Municipal lá da terra durante doze anos e até Domingo passado, não podia ter dado estes tostões? E terá metido uma cunhazita em Roma? Será que, entretanto, esta causa já foi ganha e Celorico tem um beato, ainda por cima com mui nobre nome?