25.10.09

Eu sei que não é fácil

















… mesmo nada fácil, mas tentem esquecer José Rodrigues dos Santos numa entrevista que fez a Luís Sepúlveda e oiçam o que este foi dizendo.

E ficarão provavelmente com vontade de ler o seu último livro A sombra do que fomos.

Eles andam por aí…













Ciclicamente, aparecem petições para que seja reposto o nome original de Ponte Salazar na actual Ponte 25 de Abril. Aí está mais uma que neste momento já tem cerca de 900 assinaturas. Há também uma página no Facebook com mais de 1.600 fãs, etc. etc.

Copio um parágrafo do texto da dita petição (que, já agora, podia estar mais escorreitamente redigida...):
«É neste contexto, que, indignado pelo tratamento continuado de parte importante do que somos hoje como nação, e para que a reposição da justiça seja efectiva, cabe a nós, cidadãos, utilizando o direito à indignação, e acima de tudo não colaborar mais com a hipocrisia, denunciar, e por todos os meios, rectificar mal entendidos ou actos cometidos no calor da agitação, própria, dos momentos de fraqueza da nossa História.»

O «momento de fraqueza da nossa história» foi certamente o 25 de Abril e a concretização do que ele representou, por exemplo, com a eliminação do nome de Salazar uma das pontes que liga Lisboa à margem Sul.

Mais papistas do que o papa são estes senhores, já que o próprio Salazar, quando visitou a ponte na véspera da sua inauguração, previu que o nome seria um dia alterado:
«As letras estão fundidas no bronze ou simplesmente aparafusadas? É que, se estão fundidas no bloco de bronze, vão dar muito trabalho a arrancar.»


P.S. (1) - No fundo, é deste Portugal que esta gente tem saudades:




P.S. (2) - E não é que ele, @oliveirasalazar, o propriamente dito, me respondeu no Twitter?
@joanalopes É legitimo. O Sidónio Pais tem uma avenida, o Marquês tem um estátua e praça. Igualdade de oportunidades para os ditadores.

24.10.09

Preliminares
















Por outras palavraa e não só: se a oposição votar em bloco que se suspenda a avaliação dos professores, sairá a sorte grande a Isabel Alçada, certo? O novo governo bem queria continuar, mas…

Nem o ruído nem a cor das coisas

Paraíso a Oeste?

Costa Gravas tem 76 anos, nasceu na Grécia mas vive há muito tempo em Paris. Para muitos, continuará certamente associado para sempre a Z, um filme de 1969 sobre a chamada «ditadura dos coronéis» gregos.

Defensor incansável de grandes causas, denunciou os métodos estalinistas em L’Aveu, a colaboração americana com o golpe de Pinochet em Missing, o silêncio do Vaticano perante o Holocausto em Amen.

Agora, em Eden à l’Ouest, fala dos «sem papeis», esses novos nómadas que chegam clandestinamente à Europa e vivem nos nossos países com medo de serem devolvidos às condições degradantes de onde ousaram sair.



Em entrevista, que El País publica hoje, não esconde o seu pessimismo:
«El capitalismo, esa pasión por el dinero. Dinero, dinero, tener más coches y más grandes, una casa en el campo, piscina, eso es lo que mueve hoy al mundo. (…) Europa ha vivido todo lo peor, las masacres, las guerras más terribles, junto a lo más maravilloso, el arte, la filosofía, la literatura. ¿Y qué hacemos ahora que estamos juntos en la Unión Europea? Hablar de economía, ver dónde se gana más dinero. Cuando cayó el muro de Berlín pensamos que por fin el mundo iba a ser diferente, pero no, es peor. ¿Qué le estamos diciendo a la juventud sobre la necesidad de crear un mundo mejor? Que todo, el medio ambiente, el paro, la economía, que todo es peor, que no hay esperanza. No proponemos una vida mejor, sólo que cada vez vamos hacia un mundo más oscuro.»

P.S. - Quem quiser ver ou rever Z na íntegra, pode fazê-lo aqui.

23.10.09

Entretanto, no Chile












A justiça chilena está a reabrir centenas de processos das vítimas dos interrogatórios policiais do regime de Pinochet, com o objectivo de as indemnizar.

Acaba também de ser anunciada a criação do «Instituto de Derechos Humanos» e uma antiga prisão vai ser transformada em Museu da Memória. Mas, para muitos, a reconciliação será sempre impossível enquanto antigos torcionários passearem pelas ruas do Chile.

Para se entender um pouco do que se está a falar em termos de interrogatórios policiais, um testemunho entre muitos:
«Por la violación de los torturadores, y embarazada, aborte quedé en la cárcel. Sufri descargas eléctricas, acoso sexual y con perros me introdujeron ratas vivas por la vagina. Me obligaron um tener relaciones sexuales con mi hermano y padre, que también estaban detenidos. Tenía 25 años. Estuve en prisión hasta 1976.»

(Fonte)

Até 11 de Setembro de 1973, tudo isto pareceria impossível – mas não foi.

Admirável mundo livre

















As autoridades marroquinas proibiram a distribuição do Le Monde no país, pela publicação de um desenho considerado ofensivo para a família real. Nada que não fosse de esperar.
(Daqui)

Mas esta é melhor. Nos Estados Unidos, um homem arrisca um ano de prisão e uma multa de $2.000 por preparar um café, nu, na sua própria cozinha. Alguém passou na rua, olhou pela janela e fez queixa à polícia. Esta considerou poder tratar-se de exibicionismo…
(Daqui)

Coisas que me reconciliam com a blogosfera













Este humor logo no início de mais uma manhã.

22.10.09

E para acabar o serão de outra maneira


Não há futuro para os grafólogos

















Quando os computadores invadirem generalizadamente as escolas – o que será óptimo, sem qualquer espécie de reserva da minha parte – morrerá definitivamente o ensino da caligrafia (se é que ainda existe). Desapareceram há muito aqueles cadernos especiais, com duas linhazinhas paralelas que só as maiúsculas podiam ultrapassar. Mas muito em breve será a própria relação de cada um com a sua própria letra, com a da sua geração, ou mesmo com a do seu país, que se extinguirá, pura e simplesmente.

Para Umberto Eco, o declínio do ensino da caligrafia nas escolas prejudica a aprendizagem de uma habilidade psicomotora que favorece a coordenação entre a mão e os olhos e espera que a humanidade redescubra esta ferramenta que foi indispensável no Ocidente, desde a assimilação helénica da escritura fenícia, por volta do século VII antes de Cristo.

Não creio. As cartas de amor nunca mais serão manuscritas nem perfumadas (talvez com o Windows 9 ou 10, sabe-se lá...) e o meu amigo A. bem pode regressar ao estudo dos astros porque a grafologia tem certamente os dias mais do que contados.

(A partir de)

Allons enfants de la patrie

















A polémica regressa a 22 de Outubro, em França, desde que há dois anos Sarkozy tornou obrigatório que fosse lida nas escolas uma carta de Guy Moquet, como «testemunho dos valores de sacrifício e de coragem, fundamentais para os jovens franceses».

As reacções não se fizeram então esperar por parte de partidos, sindicatos e muitos professores que recusaram seguir a determinação, acusando-a de oportunismo e de instrumentalização de um documento - descontextualizado e de cariz tipicamente pessoal.

Guy Moquet foi um jovem comunista francês, de 17 anos, executado em 22 de Outubro de 1941, num campo de reféns em Châteaubriand, juntamente com mais de duas dezenas de resistentes. Na véspera da execução, escreveu um texto de despedida à família e não se entende, de facto, o que é que pode justificar a imposição da sua leitura nas escolas, a não ser um certo tipo de sentimentalismo destinado a fomentar o orgulho da pátria.

Menos entendo ainda por que mistério foi considerado que a dita carta podia «dar força» à equipa de rugby francesa!

De fil en aiguille, vem-me à memória o êxtase perante o hino nacional cantado pelos nossos bravos «rugbistas», que me arrepiou não de orgulho mas de medo. E porque há sempre mais fio e mais agulhas, façam o favor de ler o post que a M. Manuela Cruzeiro publicou hoje nos «Caminhos da Memória». Nada a ver? Mais do que possa parecer.

21.10.09

Mas também descubro outras diferenças









Retomo o diálogo com o João Tunes que acaba de se referir a um post deste blogue.

Assino tudo o que ele diz e também eu dava «os meus trinta [e alguns] anos vividos em ditadura para troca de uma qualquer democracia, mesmo que mal amanhada» - sem hesitação.

Mas a «humildade democrática e cidadã do anterior Presidente da República a cumprir voluntariamente o serviço cívico de membro vulgar de uma mesa de voto», nas últimas eleições autárquicas, tem tudo a ver com isto:
«O Presidente da República [Jorge Sampaio] lembrou-se dos tempos em que exerceu uma função fiscalizadora, juntamente com Francisco Salgado Zenha, quando procuraram controlar o processo eleitoral "nas supostas eleições de 1969".»

Não sei por onde andava então aquele senhor que hoje vive em Belém e diz umas coisas estranhas ao país. Já não estava em Boliqueime, mas dou alvíssaras a quem o tenha visto numa sessão da CDE ou da CEUD, nas arruaças do futuro MRPP ou mesmo na Ala Liberal de Marcelo Caetano. É esse «mundo», ou outro qualquer, que lhe faz falta – e a nós, por tabela.