22.6.10

Ilusões



(Via Virgílio Vargas no Facebook)

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Na Cochinchina – também mas não só


Quase peço desculpa por dizer, uma vez mais, que não consigo tentar posicionar a Europa e os seus estados de alma, o Ocidente em geral e as suas crises, os PECs e contra-PECs, a não ser vistos de fora, de preferência a partir de onde se encontra agora o centro de tudo o que de verdadeiramente importante está a acontecer: a Ásia e, mais concretamente, a China e sua vizinhança.

Neste contexto, um texto que Le Monde publicou ontem sobre o Vietname, se nada traz de verdadeiramente novo, realça factos importantes e põe o dedo em várias feridas.

O povo vietnamita não esquece que a vizinho chinês o dominou durante dez séculos, mas copiou-lhe o modelo económico, com maior sucesso do que qualquer outro país do sudoeste asiático (5,3% de crescimento em 2009, em tempo de crise mundial, não é nada mau, mesmo se se regista uma certa inveja em relação 8,7% do mestre…) e sabe que a China é «o grande irmão, o único inimigo político e o principal parceiro económico». Isto apesar de tentar diversificar, olhando para Singapura e para a Rússia como aliados que quer ter em conta.

Os seus 86 milhões de habitantes correspondem à população de uma província da China e o seu PIB é 1/40º do chinês. A balança comercial é desequilibrada, a favor da potência mais forte, claro, que exporta maquinaria, computadores e automóveis e importa matérias-primas (petróleo, carvão e borracha).

Mas - e aqui há um facto importante a registar – o aumento de salários na China está a provocar deslocalizações de empresas para o Vietname, onde a mão-de-obra é mais barata. E o que faz Hanói? Aproveita e, simultaneamente, deslocaliza já para o Laos e para o Cambodja (isso não vem no artigo de Le Monde, mas sei-o eu) e começa a olhar para África – no fim da linha, sempre, e sabe-se lá até quando…

Continua portanto esta transumância da produção de bens e de serviços, também de pessoas, num ciclo talvez inevitável mas infernal, que nós, europeus e americanos, iniciámos – é bom não esquecer. Como acabará tudo isto? Sem nenhum risco de um efeito boomerang?

Foto: ruas de Hanói, onde estive há um ano.
Na página que se segue: alguns artesãos – com os dias contados.

Sondagens?

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Se Saramago ainda escrevesse


… isto já dava para um romance.
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21.6.10

Revoltas chinesas em Paris


Belleville é um bairro no Nordeste de Paris, onde, como em muitos outros, se misturam vários povos e diferentes culturas.

Nas últimas décadas, aumentou a presença de asiáticos e, se se manteve a coabitação com outras comunidades, nomeadamente magrebinas, turcas e africanas, a verdade é que o comércio mais importante passou para as mãos dos chineses, o que faz com que a sua força se venha a sentir e a impor cada vez mais.

É sabido que se trata de uma comunidade de imigrados que não se envolve normalmente em incidentes e dela disse SarKozy, há apenas quarto meses, que era «o modelo de uma integração com sucesso».

Precisamente por essa razão, os acontecimentos registados há poucos dias, em Belleville, revestem-se de uma especial importância. Durante uma manifestação organizada por um conjunto de associações contra a insegurança da comunidade chinesa, nomeadamente de pequenos comerciantes que são vítimas de assaltos frequentes, um pequeno incidente funcionou como um rastilho : depois de um roubo de um saco a uma cidadã chinesa, os compatriotas conseguiram agarrar o ladrão, entregaram-no à polícia francesa, esta nada fez e deixou-o partir em liberdade.

Foi o suficiente para se seguir o que nos habituámos a ver com outros protagonistas: carros virados, cadeiras e mesas pelo ar, garrafas contra a polícia, gás lacrimogéneo desta contra os manifestantes, etc., etc.

Nada de especialmente original, portanto? Nem tanto assim, já que a entrada em cena de uma comunidade normalmente avessa a este tipo de reacções pode significar o início de uma nova vaga de problemas, qualitativa e quantitativamente preocupante.


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E a cidade voltou a sorrir


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Desta vez foram 7! Um belo início de Verão




Um clássico, agora em versão anti-vuvuzelas



A propósito: Valham-nos as bruxas!
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20.6.10

Totalitarismos


«O totalitarismo, porém, ao invés de uma era de fé, promete uma era de esquizofrenia. Uma sociedade torna-se totalitária quando a respectiva estrutura se torna manifestamente artificial, isto é, quando a respectiva classe dirigente perdeu a sua função mas consegue manter-se agarrada ao poder pela força ou pelo embuste. Uma sociedade assim, por muito tempo que persista, nunca pode dar-se ao luxo de se tornar tolerante ou intelectualmente estável. (…) Porém, para sermos corrompidos pelo totalitarismo, não é obrigatório que vivamos num país totalitário.»

George Orwell, Livros & Cigarros
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Eu também queria ver o Telejornal



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Vaticano, Saramago e o resto


Ao contrário de muito que tenho lido acerca do artigo sobre José Saramago, que Claudio Toscani publicou ontem no órgão oficial do Vaticano, considero-o perfeitamente normal. Diria mais: legítimo.

Se é discutível a pressa com que o mesmo apareceu, vinte e quatro horas (ou nem tanto) depois da morte do escritor, não diria o mesmo quanto ao seu conteúdo. Não sei se os termos «populista» e «extremista» são os mais correctos para qualificar Saramago, mas parte do seu discurso foi certamente anti-religioso e é verdade, sim, que tornou «banal o sagrado», o que, na minha opinião, foi um dos seus maiores méritos e um dos seus impactos mais úteis e inegavelmente eficazes. O que para o autor do texto do Osservatore Romano é uma terrível acusação – ter culpado «um Deus no qual nunca acreditou» - foi, no meu entender, uma consequência coerente e corajosa do que Saramago sempre defendeu. E, repito o que disse anteriormente, não sou especialmente fã de Saramago - nem como escritor, nem como pessoa.

Se O Evangelho segundo Jesus Cristo não foi uma das suas principais obras literárias, teve certamente um impacto único e marcou uma época. Esperava-se que o Vaticano batesse agora palmas depois de o ter condenado quando foi publicado? E que elogiasse Caim e as declarações públicas que então foram proferidas e que, não por acaso, escolhi ontem para «homenagear» o autor? Todas as distâncias mantidas, se tivesse morrido hoje o último dos algozes do Holocausto, não nos precipitaríamos a recordar os seus crimes?

Para o Vaticano, Saramago foi «um inimigo». Talvez Claudio Toscano se mantivesse calado se tivesse morrido um escritor mediano de um país secundário como é Portugal. Não se tratasse de um prémio Nobel e o relevo não teria sido certamente o mesmo, como não teria Portugal exultado orgulhosamente pelo seu herói, em horas e horas de transmissões televisivas e centenas de depoimentos chorosos ou exultantes. Para já não falar do patético folhetim do destino a dar a todas ou a uma parte das suas cinzas... Alguém se lembra de algo parecido quando morreu José Cardoso Pires?

Vários pesos e várias medidas, nos dois pratos de uma mesma balança – neste caso, o da vida e o da morte.


ADENDA - No extremo oposto, e a merecer realce, o notável comunicado da Conferência Episcopal Portuguesa, cujo link foi deixado nesta Caixa de Comentários.


P.S. - O Sr. Silva não veio ao enterro de Saramago. Who cares?

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Aung San Suu Kyi, a Birmânia e Jane Birkin



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