3.5.13

Sorbonne, 3 de Maio



Se 2 de Maio marca o início do mítico movimento francês de 1968, com a chegada ao Quartier Latin da crise estudantil que tivera a sua origem mais próxima na ocupação da Universidade de Nanterre, em 22 de Março, foi no dia seguinte, 3 de Maio, que tudo tomou maiores proporções. O desenrolar dos acontecimentos foi absolutamente alucinante, começando por uma reunião de solidariedade com Nanterre, passando por ameaças de confrontos entre grupos rivais de estudantes e culminando, ao princípio da tarde, com um pedido do reitor à polícia para que evacuasse a Sorbone. Seguiram-se cinco horas de verdadeira batalha campal, com barricadas, cocktails Molotov, pedradas, matracas e gases lacrimogéneos, que se saldaram por dezenas de feridos e mais de 500 prisões. Os distúrbios continuaram nos dias que se seguiram.

Como é sabido, o movimento não se manteve fechado no mundo dos estudantes: extravasou para o do trabalho, a nível de operários, de camponeses e do sector terciário, reuniu-se numa gigantesca manifestação em 13 de Maio e esteve na origem de uma longa greve geral incontrolada.

O que houve de absolutamente específico, e de certo modo inesperado, foi que não estiveram em questão apenas motivações sociais ou laborais, mas também exigências de alterações profundas a nível do relacionamento humano e dos costumes. Recorde-se que uma das causas para a ocupação de Nanterre foi a revindicação de os rapazes passassem a ter acesso às residências universitárias femininas...

Recordaremos sempre a apologia da subversão e da transgressão, «é proibido proibir», «a imaginação ao poder» – a grande utopia.

Foram-se acalmando as hostes, foi dissolvida a Assembleia Nacional em 30 de Maio e realizaram-se eleições legislativas (que os gaulistas ganharam por larga maioria) no mês de Junho. Mas nada ficaria na mesma.

A recordar:

A célebre intervenção de Daniel Cohn-Bendit no pátio da Sorbonne e a evacuação pela polícia:




Algumas canções da época, pela emblemática Dominique Grange:

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2.5.13

Dans le port d' Amsterdam




... y aura des lampions qui chantent.


Da minha janela, foi assim:

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A Lisboa de García Márquez



No Notícias Magazine de 28/4/2013, Ricardo J. Rodrigues publica uma belíssima crónica sobre a estadia de Gabriel García Márquez em Lisboa, em Junho de 1975, o que pensou, por onde andou, com quem esteve. O texto está online, mas, não vá o diabo do desaparecimento dos links tecê-las, copiei-o para aqui, onde pode ser lido na íntegra. Vale mesmo a pena fazê-lo!

Para abrir o apetite, alguns excertos do que Gabo então escreveu, citados por R. J. Rodrigues:

«Lisboa é a maior aldeia do mundo. Quando chegar, conto-te desta revolução.»

«Tive a sensação de estar a viver de novo a experiência juvenil de uma primeira chegada. Não só pelo verão prematuro em Portugal e pelo odor a marisco, mas também pelos ventos e pelos ares de uma liberdade nova que se respiravam por toda a parte.»

«Lisboa é uma das mais belas cidades do mundo e, até há um ano, era também uma das mais tristes, por obra de uma rara ditadura medieval que durou quase meio século e cuja força se fundava numa polícia política inclemente. É um país de pobres que enfrenta obstáculos terríveis e uma pressão tremenda. Por causa da sua posição geográfica, está obrigado a sentar-se de sapatos rotos e casaco remendado na mesa dos mais ricos e sofisticados do mundo.»

«Toda a gente fala e ninguém dorme, às quatro da manhã de uma quinta-feira qualquer não havia um único táxi desocupado. A maioria das pessoas trabalha sem horários e sem pausas, apesar de os portugueses terem os salários mais baixos da Europa. Marcam-se reuniões para altas horas da noite, os escritórios ficam de luzes acesas até de madrugada. Se alguma coisa vai dar cabo desta revolução é a conta da luz.» 
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O DEO, essa espada de Dâmocles


Mesmo antes de serem conhecidas as medidas que o DEO não concretiza, e cuja revelação nos está prometida para amanhã às 20:00, sabemos já o suficiente para sentirmos sobre as nossas cabeças uma espada de Dâmocles a que não escaparemos. No momento que passa, Fernando Sobral é um dos colunistas cuja leitura não dispenso. Publica hoje, no Jornal de Negócios, mais uma bela crónica: Nem DEO, nem Dá (*)

«O Documento de Estratégia Orçamental (DEO) é um equívoco no nome: nem Deu, nem Dá. É um enunciar de cortes sobre cortes, porque já é impossível aumentar os impostos. Vítor Gaspar rapa o pouco que restava no fundo do tacho, até não haver mais nada para retirar. (...)
Gaspar não dá, nem deu: tira. Tira dinheiro, direitos e futuro. Porque para ele não existe vida real para lá dos gráficos. (...)

Gaspar é o grande exterminador de milhões de sonhos, que acabaram em Portugal, destruídos por uma austeridade que aniquilou empresas sem fim e empregos aos milhares. Não está só. Se Sócrates destilou "swaps", Passos e Gaspar conviveram com eles, acrescentando-lhes dor. Estão bem uns para os outros. (...)

A vida de muitas pessoas está a ser destruída silenciosamente e instituiu-se o medo do futuro. Gaspar e Passos estão no glaciar de onde se olha sem emoção para tudo isso. O DEO risca uma década nacional do mapa. E apaga milhões de portugueses da existência. É a este "ao DEOs dará" que chegámos 13 anos depois da criação do euro.»

(*) O link pode só funcionar mais tarde.
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Não desanime!



Já faltou mais. Veja AQUI
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Consensos «tipo Cavaco»?



«A crise tende a multiplicar os impasses, os impasses tendem a aprofundar a crise. Assim se adensa, tanto na vida das pessoas como na das nações, o carrossel de todos os dramas. E o pior que nestas situações pode acontecer é ficar-se preso na teia do que Gregory Batteson designou uma vez como o "double bind".
Trata-se de um dilema que coloca uma pessoa ou uma comunidade perante mensagens ou exigências conflituantes, de tal modo que bloqueia qualquer saída, dando origem a comportamentos paradoxais. (...)

Só faltava mesmo a cereja no bolo: e ela apareceu com a insólita aposta [feita por Cavaco Silva] de fazer o País caminhar para o consenso através da intensificação dos antagonismos e em apelar à convergência político-partidária estimulando a desconfiança na democracia!
Este passo é, todos o reconheceram, dificilmente compatível com as funções de representação nacional, de mediação institucional e de pedagogia política que deveria caracterizar o exercício presidencial. Não admira por isso que, com esta espiral paradoxística de Cavaco Silva, o País dê crescentes sinais de um novo tipo de fadiga, a fadiga presidencial... (...)

Cavaco Silva não só falhou o alvo do seu apelo ao consenso, como perdeu o "momentum" em que o podia fazer com autoridade e eficácia. Resta-lhe agora, aos olhos dos portugueses, vacilar – para usar os termos do filósofo Jean-François Lyotard – entre o litígio e o diferendo: enquanto o primeiro pode ficar pela discordância mais ou menos acentuada, já o segundo conduz ao conflito e à guerra. O tempo o dirá.»

1.5.13

A-SSA-SSI-NOS! A-SSA-SSI-NOS! – 1º de Maio de 1962


Um texto de Helena Pato, incluído no seu livro «Já uma estrela se levanta».

Seguíamos num Volkswagen – eu acompanhava-os, até ver. O Alfredo Noales, com quem já casara, tinha recebido do chefe de redacção do República a incumbência de fazer a reportagem. Para a censura cortar inevitavelmente de alto a baixo, é claro. Ao seu lado, um amigo, um camarada nosso, que estava connosco por ser um dos organizadores. No banco de trás seguia eu, impaciente e receosa.

Nas vésperas tinham sido lançados panfletos por toda a cidade, chamando o povo a comemorar o 1.º de Maio, a manifestar-se. Se a ditadura proibia toda e qualquer manifestação, o «1.º de Maio» era assunto subversivo cuja referência pública, escrita ou em voz alta, só por si, podia valer prisão. Nos últimos meses, reuniões e mais reuniões na nossa casa, em Campo de Ourique – tudo muito discutido, muito preparado à porta fechada, mas nada passara por mim. Apenas sabia que algumas dezenas de brigadas clandestinas, furtivamente e durante noites e noites, iriam cobrir de propaganda a cidade de Lisboa e os arredores. Papéis, aos milhares, por todos os sítios: apelos à manifestação contra o regime e abundante informação acerca das greves que nos últimos meses despontavam, umas a seguir às outras, nas empresas dos arredores de Lisboa.

Chegámos à Praça do Comércio uns dez minutos antes das 6 da tarde. 1º de Maio de 1962. Uma data histórica – que persiste em sobrar-me, em ficar-me para trás, sempre que quero escrever sobre a resistência ou sobre a repressão fascista. Talvez por ter sido a única vez que, em idênticas circunstâncias, passei mesmo ao lado da morte. Depois, foram décadas a gritar: «A-ssa-ssi-nos! A-ssa-ssi-nos!» Não se tratava de um grito demagógico, eles eram realmente assassinos.

O nosso carro ia devagar. As ruas estavam praticamente desertas e, ao olharmos para as lojas e para os cafés, a calma e a óbvia normalidade assustaram-nos. Estaríamos à beira de um fracasso? Seria aquele o resultado de tanto trabalho de organização de tantos meses a fio?
«Tem calma, Lena, ainda não são 6 horas!» Tanta reunião, tanta agitação, e um ambiente que parecia explosivo no crescendo das greves, iria dar assim em nada? Seria que o povo não tinha coragem de assumir nas ruas o descontentamento que vinha manifestando à boca calada e que já revelara de forma tão convicta, tão expressiva, nas eleições do Delgado? Afinal onde estava esse povo? «Tem calma, Lena, ele vai aparecer!» O Povo amedrontara-se? Não se atrevia a enfrentar as forças policiais que os estudantes haviam defrontado por mais do que uma vez durante esse mesmo ano? 1500 jovens presos num só dia, em Março, na Cidade Universitária, e agora ninguém se mexia?
«Esta manifestação é política, amiga, não é associativa… hoje é mais complicado arriscar!», lembrava o camarada ciente de uma experiência de luta que eu admirava.

De uma coisa eu tinha a certeza: a tarde estava mais quieta do que o habitual à mesma hora. A Baixa parecia adormecida. Dava-me a impressão de que a acção prevista teria sido prematura ou as expectativas demasiado grandes, que o medo trancara os lisboetas em casa e que os empregados e os lojistas – comércio, moda, capelistas, pastelarias, cafés – estariam a abandonar os estabelecimentos, aos poucos, para fugirem da confusão. Mas por onde parariam os bancários, que tinham prometido uma boa adesão? Continuávamos ansiosos, a rodar, rua abaixo, rua acima, repetitivamente, devagarinho, varrendo metodicamente um espaço cruzado por artérias quase vazias.

Emudecêramos. Somente meia dúzia de estudantes nossos conhecidos passou por nós. Que era feito do pessoal da outra banda? Então os operários da Siderurgia? E os da Lisnave? «Espera e verás, camarada… Hão-de vir, virão em peso… Sabemos que vão estar em força.» Qual quê! Algum comércio ia-se fechando ao nosso lado, e eu desanimada. Havia quem, à porta das lojas, se metesse para dentro e quem saísse para os passeios – caminhavam imperturbáveis, eles de chapéu na cabeça, elas de malinha no braço. «São donos das lojas e caixeiros, já se sabia, Lena… Pouco se contava com eles…»

Começámos por ver a guarda nacional republicana a cavalo, em grupos – três agora, quatro depois –, a avançar pela Rua Augusta, vinda do Terreiro do Paço. Postura sobranceira, a exibir a força.

Quando se cruzou connosco, o Alfredo apressou-se a colocar no vidro do automóvel, em posição de boa visibilidade, uma pequena cartolina branca com os dizeres IMPRENSA – JORNAL DIÁRIO, desenhados na véspera, omitindo tratar-se do República para não chamar a atenção. Não queria dar-lhes qualquer pretexto para detenção, pois referir o jornal República era falar de oposição ao regime. (Continuar a ler)

A menina Etelvina não conhecia o Pingo Doce



Numa antiga vila do nosso Oeste, a menina Etelvina atravessava a rua todos os dias para comprar 50 gramas de manteiga amarela e trazia para casa 1/2 quilo de açúcar num cartuxo de papel pardo. Na velha mercearia inscreviam-se as dívidas num caderno de capa preta, para mais tarde serem pagas à semana ou ao mês, e ninguém falava de campanhas de descontos.

Se tivessem dito à menina Etelvina, sempre assim conhecida mesmo quando já bem encarquilhada nos seus 80 e tal anos, que os seus bisnetos se levantariam mais cedo num dia feriado para fazerem uma longa fila à porta da mercearia onde esperavam encher um carrinho de víveres e pagar só metade do preço (não com dinheiro mas com um cartãozinho de plástico), ela ter-se-ia benzido e rezado uma avé-maria. Mas se soubesse depois que, afinal, tinham sido enganados por um boato, que alguém tinha lançado na tasca da esquina, daria uma enormíssima gargalhada. E voltava para casa com 50 gramas de manteiga e 1/2 quilo de açúcar.

Hoje, lembrei-me da menina Etelvina.

(Imagem daqui.)
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Por esse mundo fora



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DEO sem gratias



Se não tiverem mais nada para fazer, dêem-se ao trabalho de ver, na íntegra, o papel que o governo ontem pariu. Mas não vale a pena terem medo, muito medo: as previsões não valem mais do que as de um qualquer zandinga e falharão, para o mal ou para o menos mal, como todas as outras até aqui. 
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No último 1º de Maio em ditadura




(Republicação)

Às 2:50 minutos do 1º de Maio de 1973, as Brigadas Revolucionárias executaram uma das suas acções mais espectaculares, da qual resultou a destruição de dois andares do Ministério das Corporações (actual Ministério do Trabalho e da Segurança Social), na Praça de Londres em Lisboa. 

Explicaram mais tarde em comunicado (que pode ser lido AQUI, na íntegra): «O Ministério das Corporações é, por um lado, o instrumento mais directo dos patrões portugueses e estrangeiros, que através dele fixam as condições de trabalho do proletariado – salários, horários – enfim, exploração e repressão (…); e, por outro, um instrumento de exploração directa dos trabalhadores, através da Previdência (…) que fornece serviços de Saúde e Previdência miseráveis.» 

Facto demasiado grave e espectacular para que a censura o silenciasse, foi noticiado nos meios de comunicação social e objecto de todas as conversas, num dia quem que se preparavam manifestações proibidíssimas e precedidas por largas dezenas de detenções nas semanas precedentes (Leia-se a circular da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, de 9/5/1973.) 

Durante a tarde, foram recebidos telefonemas com falsos alertas de bomba em várias grandes empresas de Lisboa. Veio a saber-se depois que se tratara também de uma iniciativa ligada às Brigadas Revolucionárias, cujo objectivo era «libertar» mais cedo os trabalhadores para que pudessem participar na manifestação. 

Ao fim do dia, foi o cenário habitual, mas especialmente repressivo nesse ano, que o Avante! relatará mais tarde: «Em Lisboa, numerosos trabalhadores se concentraram na Baixa a partir das 19:30, sendo brutalmente carregados pela PSP à bastonada, soco, pontapé, do que resultaram dezenas de feridos que tiveram de receber tratamento no hospital, sendo feitas várias prisões.» (O resto pode ser lido AQUI.) 

Um ano mais tarde… foi a maior festa que imaginar se possa! 
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