23.5.16

Edmundo Pedro, Adriano Moreira e o Campo do Chão Bom


(Expresso, 21.05.2016)

Republico um post divulgado há dois dias já que, entretanto, o primeiro foi ligeiramente alterado e substancialmente ampliado.


Ao contrário do que Edmundo Pedro escreve, o projecto do Campo do Chão Bom, reaberto por portaria assinada por Adriano Moreira como ministro do Ultramar (ver no fim deste «post»), não só se concretizou como albergou, até 1 de Maio de 1974, elementos dos movimentos que lutavam pela independência de Angola, Guiné e Cabo Verde, ou apoiantes dos mesmos. Ou seja: presos políticos.

Justino Pinto de Andrade foi um deles e quem estiver interessado pode ouvi-lo, em vídeos gravados numa sessão realizada em Lisboa, em 2008 (na qual Edmundo Pedro participou), e que são AQUI referidos.

A ler também ESTE TEXTO de Raimundo Narciso.

Não entendo o que terá levado Edmundo Pedro a escrever este artigo para o Expresso. Eu tenho tanta documentação sobre toda a questão, que levaria várias horas a referi-la na totalidade.

*******************

P.S. – Junto duas Notas deixadas como comentários no Facebook, uma de Raimundo Narciso e outra de Diana Andringa:

Raimundo Narciso: «Realmente só um lapso de memória e confusão pode explicar o artigo do nosso amigo Edmundo. Então ele participou directamente no colóquio da AR sobre o Tarrafal promovido em parceria pelo Movimento «Não Apaguem a Memória» de que ele é sócio honorário, em 29 de Out de 2008. E nesse colóquio em que ele presidiu a uma mesa (na foto), tratou do 1º Tarrafal o dos portugueses e do 2º Tarrafal de 1961 a 1974 no qual se destacou, como bem referiu a Joana Lopes, com uma intervenção um ex-preso angolano, desta 2ª vida do Tarrafal, Justino Pinto de Andrade, professor universitário em Luanda. O Campo foi reaberto por legislação do ministro competente de Salazar, Adriano Moreira, como se disse, em 1961, para angolanos, guineenses e cabo-verdianos (para os Moçambicanos havia o terrível Campo/prisão da Machava).»

Diana Andringa: «De facto, a portaria nº 18.539, de 17 de Junho de 1961, assinada por Adriano Moreira, não "ordena a reabertura do 'campo de concentração do Tarrafal'" - mas institui em Chão Bom um campo de trabalho, cujo pessoal será "recrutado, em regime de comissão, entre os servidores dos respectivos quadros da província de Angola, que suportará todos os encargos".
A ligação a Angola, onde meses antes começara a luta armada de libertação nacional, indica de imediato que tipo de presos será colocado nesse campo - e de facto chegam ao "Campo de Trabalho de Chão Bom", em Fevereiro seguinte, 33 presos angolanos do chamado "Processo dos 50".
E desde então até à libertação do campo, em 1 de Maio de 1974, passaram por ali 220 presos políticos, combatentes das lutas de libertação de Angola, Guiné e Cabo Verde. (E também, de um dos lados do campo, presos comuns.)
Vale a pena reler "Angolanos no Tarrafal - alguns casos de habeas corpus", publicado pela Afrontamento em 1974 e organizado pelos advogados Fernando de Abranches-Ferrão, Francisco Salgado Zenha, Levy Baptista e Manuel João da Palma Carlos, e verificar como em 1973 o director do Campo, Eduardo Vieira Fontes, referindo-se a alguns presos angolanos diz que "os requerentes cumprem medidas administrativas de segurança no Campo de Trabalho de Chão Bom, que lhes foi imposta a medida de "residência em Cabo Verde - Campo de Trabalho de Chão Bom" por prática de actos contrários à integridade territorial da Nação".
E como o Juíz de Sotavento, em relatório ao Supremo Tribunal de Justiça, escreve que, no campo instituído pela citada portaria nº 18.539, "estão instalados os presos políticos naturais de Angola e se albergam os indivíduos a quem foram impostas medidas de segurança administrativas".
Poderá também ler-se os Papéis de Prisão de Luandino Vieira, ou ouvir os testemunhos dos presos políticos de Angola, Guiné e Cabo Verde em "Tarrafal: Memórias do Campo da Morte Lenta", que tornam claro como, a partir de 1962, e na sequência da portaria referida, ali estiveram encerrados mais de duas centenas de patriotas africanos.»



 .
.

Estes queridos jornalistas…



A propósito da visita de Obama ao Vietname, um jornalista do Público escreve hoje que aquele país e os EUA travaram uma guerra sangrenta até «há pouco mais de duas décadas». Longas décadas tem este jornalista na mente, já que a dita guerra terminou em 1975. Não cumpriu a escolaridade obrigatória? Não usa o Google? Não há editores que revejam os textos?

P.S. - Entretanto, o erro já foi corrigido na versão online. Mas o jornal em papel foi para a rua errada, claro. 
.

O salário dos presidentes. E o dos trabalhadores



Nicolau Santos, no Expresso diário de 23.05.2016:

....(...)
.

23.05.1934 - Bonnie & Clyde



Bonnie Parker e Clyde Barrow morreram em 23 de Maio de 1934. Ela tinha apenas 23 anos, ele 25, mas, apesar de curtas, as suas vidas foram atribuladíssimas, recheadas de assaltos e assassinatos, até que eles próprios foram abatidos numa emboscada, numa estrada deserta, algures no estado da Louisiana – cravados de balas, cerca de cinquenta para cada um, segundo consta. 


Ficaram imortalizados no imaginário da história do crime norte-americano como Bonnie & Clyde e foram trazidos para o nosso por um magnífico filme de Arthur Penn (1967), com «som» de Serge Gainsbourg, e, também, por uma inesquecível balada cantada por Giorgie Fame. 



.

Saga dos contratos de associação? Assino por baixo


«Proprietários, professores, pais e filhos mobilizam-se para ter subsídios públicos a serviços privados. Vão organizados como um qualquer grupo político com um programa de exigências, mobilização na rua, símbolos comuns. Agora vieram dizer que não respeitam a lei e vão matricular as crianças. Isso exige dinheiro para compra de materiais, profissionais, contacto, assessoria de imprensa e deslocações. Um grupo com finanças, portanto. E clareza política sobre para onde querem ir - estratégia clara. Podia ser um sindicato, uma associação patronal ou qualquer outro grupo organizado - provavelmente partidos de direita e alguns sectores da igreja. Não subscrevo nenhuma das suas exigências, não tenciono entregar 1 euro de impostos a estas escolas, mas não estou nada indignada com a sua luta. E é isso que eles estão a fazer - luta política baseada na organização e mobilização da sua base social. Quem não concorda que se organize, pague quotas, mobilize em objectivos comuns, venha para a rua. E dedique 2 minutos por dia a pensar conjunta política e estratégia em vez de ir atrás da primeira causa fracturante que abre telejornais. Em vez de se queixar deles no Facebook porque "eles" - neste caso a destruição do orçamento público - só existe porque há um "nós " que abandonou a política como estratégia, a organização como vital e a ideologia como disputa de um projecto futuro - tudo coisas que não foram abandonadas do outro lado, de tal forma que a sua ideologia - o neoliberalismo - tem-se imposto no ocidente com uma unanimidade que a maioria das pessoas está convencida que é uma "ciência económica". A direita mostrou à esquerda que escreve em blogues e jornais que as lutas se ganham mas ruas com organização centralizada infernizando o adversário, dia a dia. E que quando pode vence no parlamento, quando não pode tenta nas ruas. É um cheirinho a PREC - oh! País que nunca para de nos surpreender - trazido pelos sectores conservadores, os mesmo que, em teoria, até há duas semanas, odiavam manifestações. Agora andam a ler O Que Fazer? do Lenine - compraram 100 no largo do Caldas. Nos compêndios de história a luta dos colégios chama-se luta de classes. Não estarei ao lado deles - tem que haver uma barreira clara entre público e privado, um fim à remuneração pública de capitais por pequenos que sejam privados - mas gabo-lhes o sentido de eficácia e determinação. Traçam um caminho e preparam-se para ele, por isso a sua caravana tem passado há décadas indiferente aos latidos, os choramingos, de indignação»

Raquel Varela no Facebook.
.

Marcelo e Costa



«O Presidente da República considera "irritante" o optimismo do primeiro-ministro, parece agastado com a polémica dos colégios e tem sérias reservas sobre a proposta do Governo para as 35 horas na Função Pública. Será que a relação entre Belém e São Bento esfriou? (…)

Polémica dos contratos de associação com os colégios, novo recado. "Estou esperançado que seja possível, com rapidez, encontrar um entendimento", pediu o Presidente, numa chamada de atenção ao Governo. Desta vez Marcelo não alinhou com Costa, que foi vaiado no sábado e domingo por pais, alunos e professores. Os mesmos que clamaram pela intervenção do Presidente.

Episódios sem importância? Provavelmente. Mas o Presidente parece ter achado que este é o "timing" para afirmar as suas diferenças face ao primeiro-ministro. Que é altura de descolar da imagem de ser o braço direito de um Governo apoiado no braço esquerdo.

O vinco pode em breve tornar-se mais visível. Marcelo passou, via Expresso, a mensagem de que tem sérias reservas em relação ao momento escolhido para a reposição das 35 horas na Função Pública, 1 de Julho, quando o país estará de novo sob exame de Bruxelas e pode vir a ser alvo de sanções. Um veto político não estará descartado. Será receio de que o optimismo de Costa lhe tolde a percepção sobre as implicações orçamentais da medida? Ou será que quer ajudar o primeiro-ministro a adiar a entrada em vigor do novo horário?

Ao estilo Marcelo: A gestão da relação pública com António Costa mudou? Mudou. E isso é mau? Não, é até saudável. Significa que a cooperação estratégica acabou? Não.»

André Veríssimo

22.5.16

Desejos de Marcelo



«Marcelo quer um banco mau, uma UE fixe, umas escolas privadas bem com a vida, paz em Moçambique - é uma miss mundo com mais livros.» 

João Quadros, Negócios, 20.05.2016
.

Dica (301)




«Meanwhile, in the US, opposition to agreements such as TTIP have become mainstream in a presidential debate that has recognised that the rule of big business has not benefited ordinary people. Cameron is firmly pushing forward with the most extreme version of TTIP imaginable. But the ground is moving under him, and all the other politicians who can’t break with the neoliberal orthodoxy of the last 40 years.» 
.

Charles Aznavour, 92



Charles Aznavour nasceu em 22 de Maio de 1924, tem 70 anos de carreira, mais de 100 milhões de álbuns vendidos e continua bem activo. Apresenta actualmente a sua comédia musical «My Paris» no Connecticut, que retrata Paris de 1900 através da vida de Toulouse-Lautrec.



Aznavour o cantor, mas também «o arménio»:



E, sempre, voltar a ouvir velhas relíquias guardadas no baú:






.

Se non è vero, è ben trovato


«O possível veto de Marcelo às 35 horas pode trazer benefícios quer ao Presidente, quer ao primeiro-ministro: “É uma solução em que os dois ganham e ninguém perde a face.” Costa, porque ganha tempo e adia a entrada em vigor da medida na altura em que Bruxelas examina o “esforço” do Governo para poupar, e ao mesmo tempo aparece como vítima do veto junto dos seus parceiros de esquerda, e dos sindicatos. Marcelo, por seu lado, beneficia junto da sua base de apoio de um afastamento da maioria de esquerda.» (Público 22.05.2016)

As afirmações citadas são de Pedro Adão e Silva. 
.

É isto


.

Portugal a preto e branco



«Vemos muitos pretensos membros da nossa elite a esperar que a União Europeia use um cadafalso para colocar na ordem quem ponha em causa os sacrossantos princípios da austeridade vigente que até os próprios Estados Unidos criticam às claras. A decisão política de Bruxelas (por causa do referendo britânico e das eleições espanholas - um favor do PPE ao seu colega Rajoy), e a incapacidade de sancionar Alemanha ou França pelos seus incumprimentos do Pacto de estabilidade, mostram também o ambiente em que Portugal está. Bruxelas deseja agora mais cortes na saúde, talvez na senda do pavor que se tornou o sector na Grécia nos últimos tempos, em que nem dinheiro para comprar seringas novas existe. É claro que o governo português, até pelo equilíbrio que tem de fazer para manter a maioria parlamentar, resvala algumas vezes para ilusões de óptica. Como é o caso das 35 horas, em que o que Mário Centeno sabe ser impossível, António Costa vem dizer que é possível. Arménio Carlos continua a viver (tal como Ana Avoila) no mundo das maravilhas, em que a máquina de imprimir dinheiro é controlada pelo departamento bolchevique na Fábrica de Dinheiro. Nada disso é real.

Portugal está, como sempre, numa encruzilhada e com os pés em terreno minado. Tudo continua a ser um Festival da Eurovisão em versão lusitana, por motivos político-partidários e interesses mais sombrios que se vão desenrolando independentemente do que se decide. O certo é que o desemprego persiste, a classe média está mais pobre, o investimento (interno ou externo) não existe, Angola e China deixaram de puxar pelas exportações e Bruxelas espera a sua vez. Continua a faltar um projecto político, económico e social para Portugal. Credível. E esse é o nosso grande problema.»

Fernando Sobral