8.6.22

Emagrecer por decreto

 

«Não é uma questão de opinião, é factual. A inflação em maio foi de 8,1%. A gasolina e o gasóleo estão mais caros. Quase todos os bens e serviços, incluindo os essenciais, estão mais caros. A comida está mais cara. Como a atualização dos rendimentos não acompanha a taxa de inflação, os portugueses estão a empobrecer. E são cada vez mais os que já não conseguem pôr comida na mesa. Não é opinião, é facto denunciado pelas mais respeitadas instituições de solidariedade social: há cada vez mais gente a pedir ajuda e há cada vez menos gente com capacidade para ajudar. Perante isto, o que faz o Estado? Incentiva o emagrecimento forçado e decide, por decreto, reduzir de 120 mil para 90 mil o número de pessoas com acesso ao cabaz de alimentos que distribui aos mais vulneráveis. Faz algum sentido? Para quem usa o coração e a cabeça, não faz nenhum. Para um Governo em estado de negação, pelos vistos faz.»
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08.06.1972 – A «menina do Napalm» foi fotografada há 50 anos

 


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Olhem para o que digo...

 


«António Costa aproveitou um Encontro Nacional de Associações Juvenis para lançar às empresas portuguesas um desafio: “um aumento de 20% do salário médio no país”. Mesmo sendo o “salário médio” um indicador melindroso num país de grandes desigualdades (se subir muito o salário de um gestor isso faz aumentar o salário médio sem que subam os outros salários), o que surpreende é que o primeiro-ministro faça esta exortação a outros ao mesmo tempo que rejeita fazer a sua parte. Por um lado, nos salários cujo valor depende legalmente da decisão política do Governo e da maioria absoluta que o sustenta – o salário mínimo e os salários da administração pública -, que estão neste momento a perder valor real porque a inflação os consome. Por outro, nas grandes fontes legais de desequilíbrio de rendimentos em Portugal. De facto, se debatemos o salário real, é impossível fazê-lo sem ter em conta três aspetos: a inflação, as desigualdades salariais e a lei laboral. O que tem feito o Governo a este propósito?

Sobre a proteção dos rendimentos relativamente à inflação, não há muito a assinalar, antes pelo contrário. O aumento de 0,9% para a administração pública e a recusa de um aumento intercalar do salário mínimo significa empobrecimento, aumento da desigualdade e menor peso dos salários no PIB.

Sobre desigualdades salariais, elas têm vindo a aumentar e a pandemia agravou o problema em duas vertentes: aquelas dispararam entre trabalhadores e gestores das mesmas empresas, por exemplo, com casos em que os gestores recebem mais de 250 vezes o que ganha um trabalhador; e aumentaram as desigualdades de género (11,4%, de acordo com os últimos dados). A proposta de criar leques salariais de referência, medida que tem sido discutida em vários países, continua a ser um tabu por cá.

Sobre a lei do trabalho, as alterações de 2012 que foram responsáveis por uma imensa transferência de rendimento do trabalho para o capital permanecem nos seus aspetos essenciais. Com efeito, o Governo aprovou recentemente uma “Agenda para o Trabalho Digno” em que continua a deixar intocados os principais mecanismos de degradação salarial e de prolongamento do horário de trabalho que foram inscritos na lei no período da troika: o corte nos dias de férias, o corte no valor das horas extra para metade, o corte nas compensações por despedimento, que é também um mecanismo de precarização. É certo que a proposta anunciada tem medidas positivas: a previsão de uma presunção de contrato de trabalho para os trabalhadores de plataformas digitais, a exigência de transparência na gestão algorítmica da atividade, um melhor enquadramento do outsourcing, por exemplo. Mas que agenda para a dignidade do trabalho é esta em que não se mexe em normas aviltantes como a que impede um trabalhador de contestar um despedimento ilícito se não devolver ao patrão a compensação que é sua por direito? Ou em que nada se estabelece sobre trabalhadores por turnos, que são já cerca de 800 mil em Portugal, em cada vez mais setores de atividade, e tão desprotegidos pela lei? Ou que continua a permitir que haja convenções coletivas (em grande medida estagnadas por força de regras legais e que seriam o instrumento por excelência para aumentar salários) com conteúdos piores que a lei geral?

O Governo quis separar as propostas para o “trabalho digno” do debate sobre a “política de rendimentos”, atirado para outubro, ao mesmo tempo que projeta no espaço público grandes declarações. Só que separar os debates, por mais jeito que dê na gestão da agenda política, é um artifício. Não há dignidade do trabalho sem cuidar de rendimentos dignos pelo trabalho prestado. E eles não surgem em resultado de proclamações ou de desejos, mas de escolhas e de decisões concretas que o Governo, infelizmente, tem vindo a rejeitar.»

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7.6.22

Entretanto na Ucrânia

 


Uma finalista de uma escola de Arte de Kharkiv em frente do que resta da mesma, no dia em que teria lugar o baile de finalistas e com o vestido que então levaria.

Outros finalistas da mesma escola organizaram um espectáculo de dança em frente dos escombros.


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Luis Sepúlveda

 

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África, China e Europa

 


«O reputado economista bissau-guineense Carlos Lopes publicou recentemente na sua conta do Twitter um mapa do Economist que é obrigatório mostrar aos líderes e comentaristas europeus quando eles falam da suposta dependência do continente africano em relação à China. O que mostra o referido mapa? Uma realidade insofismável: em vinte anos (de 2000 a 2020), o comércio mundial com a nação mais populosa do planeta cresceu de 25% para 75%, envolvendo maioritariamente todos os continentes, exceto a América do norte (EUA e Canadá); a maior parte da Europa, inclusive, aparece no mapa tingido a cor de laranja, tal como os demais continentes (tingi-los de vermelho seria, certamente, provocatório demais).

E, contudo, os nossos queridos ex (?) - colonizadores não perdem uma oportunidade para manifestar a sua genuína preocupação com a alegada dependência de África relativamente àquela que, até ao século XIII, era a maior potência mundial e hoje ameaça reaver esse estatuto, entretanto consolidado pelos EUA após a II Guerra Mundial. O último exemplo dessa preocupação foi manifestado há dias pelo chanceler alemão, Olaf Scholz, no intervalo das suas atribulações tribais e geopolíticas criadas pela maka da Ucrânia, que a Europa nada fez para evitar, devido, precisamente, à sua subserviência em relação aos Estados Unidos. Antes de avançar, e como o pensamento literal parece cada vez mais dominante, esclareço que, quando falo em "genuína preocupação", estou a ser irónico.

Indo direto ao ponto e segundo noticiou o New Straits Times, disse o líder alemão: - "A ´farra´ (ipsis verbis) dos empréstimos de longo prazo da China aos países pobres, em particular, levanta um sério perigo que pode provocar a próxima crise financeira mundial". Para Scholz, "há realmente um sério risco de que a próxima grande crise da dívida no Sul Global resulte dos empréstimos concedidos pela China em todo o mundo e dos quais não temos uma visão completa devido ao grande número de atores envolvidos". O chanceler alemão acrescentou que "isso provocará uma enorme crise económica e financeira quer na China quer no Sul Global, afetando igualmente o resto do mundo".

As declarações de Olaf Scholz foram feitas em Estugarda, durante uma conferência para discutir os financiamentos chineses aos países africanos, nomeadamente para construir estradas e universidades, incrementando, assim, a presença de Pequim no continente. Os líderes europeus acusam a China de arrastar os países pobres para a armadilha da dívida, ao conceder-lhes empréstimos que eles não podem pagar, enquanto Pequim refuta, alegando que tais empréstimos se destinam a aliviar a pobreza.

O professor brasileiro Cláudio Pinheiro realça igualmente, entretanto, outro ponto: a China passou a liderar não só o comércio e o investimento em infraestruturas, mas também o financiamento à ciência em África. Sugiro aos interessados um artigo da revista Nature, de 2 de outubro de 2018, acerca do plano de desenvolvimento acordado entre a China e os países africanos no valor de 60 mil milhões de dólares e em que o treinamento é um dos pilares fulcrais. No âmbito desse plano, 100 mil africanos (académicos, cientistas e outros profissionais) serão formados, em diversos níveis, em instituições chinesas.

Isso parece (estou a ser gentil) assustar a Europa e o Ocidente em geral. Lamento informar, antes de encerrar, que o verdadeiro risco temido pelas potências ocidentais não é que África se torne dependente da China, mas que se torne "independente" das potências em questão.

Como africano, entretanto, o que me preocupa é outra questão: serão os nossos países capazes de colocar a agenda de cooperação com a China a serviço do desenvolvimento efetivo do continente e de autênticas políticas de justiça social ou apenas como mais um meio para aumentar a corrupção? Isso são outros quinhentos.»

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6.6.22

Cavaco aparece, Costa agradece

 

«Para quem viveu esses tempos, ver Cavaco Silva acusar António Costa de “assédio ou asfixia da democracia” só pode ser visto como humor involuntário. Como uma parte dos leitores não tem memória viva desses tempos, talvez seja bom lembrar que o diálogo nos governos citados acabava, quase sempre, com o bastão nas costas de quem discordava de tanta benevolência. Foi assim nos protestos da Ponte 25 de Abril, onde a polícia chegou a disparar, deixando paraplégico um dos manifestantes. Foi assim nas manifestações estudantis contra as propinas. Numa das mais célebres, em frente ao Parlamento, em novembro de 1993, vários estudantes tiveram de receber assistência hospitalar. Lá dentro, no hemiciclo, os deputados do PSD falavam numa “contenção de louvar” da PSP. Foi assim com os “secos e molhados”, onde o diálogo social de Cavaco Silva impedia sindicatos de polícias e mandou a polícia carregar sobre os polícias. A imagem, de tão inusitada, correu a Europa.»
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06.06.1968 – A noite em que Maurice Béjart foi expulso de Portugal

 


Foi há 54 anos que Maurice Béjart deu um espectáculo de ballet em Lisboa, que estaria na origem da sua expulsão do país.

«Em 6 de Junho morreu Robert Kennedy, vítima de um atentado que tivera lugar dois dias antes. Nessa mesma noite, em Lisboa, Maurice Béjart apresentou o seu «Ballet du XXe. Siècle», no Coliseu dos Recreios absolutamente repleto. Assistimos a um magnífico «Romeu e Julieta». Durante a última cena, ouviu-se gritar, repetidamente, "Façam amor, não façam guerra!". Simultaneamente e em várias línguas, eram lidas notícias sobre lutas, revoltas e injustiças. Foi arrepiante a emoção vivida na sala que se levantou em aplauso prolongado. Béjart veio então ao palco para afirmar que Robert Kennedy fora “vítima de violência e de fascismo” e para pedir um minuto de silêncio “contra todas as formas de violência e de ditadura”. Com a maior parte dos espectadores de pé, renovaram-se os aplausos, com mais força e com mais entusiasmo.

Informado do sucedido, Salazar proibiu os espectáculos seguintes e ordenou que Béjart saísse imediatamente de Portugal. Franco Nogueira cita uma nota distribuída à imprensa pelo Secretariado Nacional de Informação:

“Foram dirigidas à juventude exortações derrotistas e tomadas atitudes de especulação política inteiramente estranhas ao próprio espectáculo. Perante a luta que teremos que manter em defesa da integridade nacional, não pode consentir-se que uma companhia estrangeira aproveite, abusivamente, um palco português para contrariar objectivos nacionais.”

Béjart nunca se referiu a Portugal. Mas Salazar era bom entendedor e bastava-lhe menos de meia palavra para perceber – como nós – que Béjart quisera deixar um sinal de solidariedade aos antifascistas portugueses.

Momentos raros como este funcionavam para nós como bálsamo e como estímulo. Ajudavam-nos a não desanimar.» (*)

(*) Joana Lopes, Entre as Brumas da Memória. Os católicos portugueses e a ditadura, Âmbar, 2007, pp. 118-119.

Alguns minutos de «Romeu e Julieta»:


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A existência da Ucrânia não é negociável

 


«Após cem dias desde o início da agressão, não provocada, da Rússia à Ucrânia, a ONU calcula que pelo menos 4000 civis tenham sido mortos. O número real será, sem dúvida, muito superior. Um relatório publicado na sexta-feira por uma equipa de peritos jurídicos independentes conclui que as atrocidades cometidas pela Rússia na Ucrânia equivalem a um genocídio. Contudo, há uma escola de pensamento no Ocidente, cada vez maior, a defender que as vítimas devem negociar com os seus assassinos e aceitar mais derramamento de sangue e ocupação a fim de oferecer a Putin uma “estratégia de saída”. Trata-se de uma ilusão tão ofensiva quanto perigosa.

No seu discurso em Davos, na semana passada, Henry Kissinger recomendou “sensatez” à Ucrânia, para que se possa acabar com a guerra e regressar ao “anterior statu quo”. Por outras palavras, a Ucrânia deve ceder os territórios que a Rússia já ocupou, a Crimeia e o Donbass, como recompensa por desencadear três meses de carnificina e causar a maior crise de refugiados da Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

Os praticantes da Realpolitik precisam de compreender que a Ucrânia não luta apenas pelo território, como num jogo de Risk, mas pelas pessoas que lá vivem. O nome de Bucha, nos arredores de Kiev, será para sempre recordado como um local de crimes de guerra hediondos cometidos pelas forças de ocupação russas após apenas algumas semanas. Por todos os locais onde o exército de Putin passou, temos uma lista perturbadora de tortura, violação, assassinato e desaparecimentos forçados. Há infra-estruturas civis e críticas que são deliberadamente visadas e há cidades inteiras, como Mariupol, que estão agora inabitáveis – bastaram poucos meses para tamanha miséria e parece impossível imaginar o que acabará por se revelar ao longo dos anos. Quando os ucranianos ouvem que devem “desistir” do território, isso é sinónimo de abandonar os nossos compatriotas neste cenário.

E o terror não acaba quando as forças russas “libertam” uma cidade. Esta invasão nunca foi para proteger território – em vez disso, trata-se de engenharia social à escala real por um regime que não acredita na existência da identidade ou do Estado ucraniano. Há vídeos a circular em canais no Telegram, filmados nas regiões agora ocupadas de Kherson e Zaporizhzhia, que mostram residentes aterrorizados, obrigados a recitar confissões forçadas, onde confirmam que “concluíram um curso completo de desnazificação”. Esta grotesca experiência faz lembrar a lavagem cerebral aos uigures, minoria muçulmana, pelo governo chinês nos campos de concentração de Xinjiang. Mas, aparentemente, a Ucrânia tem de entregar o nosso povo a estes algozes, em nome de um “acordo negociado” inexistente com a Rússia.

Se as vidas dos ucranianos tiranizados não suscitarem suficiente preocupação pela tomada de medidas, então apelaria ao sentido de pragmatismo dos decisores políticos. A guerra na Ucrânia não começou em 2022, mas em 2014, quando as forças russas invadiram e ocuparam ilegalmente a Crimeia, Donetsk e Lugansk, com uma tímida resposta da comunidade internacional. Será que esta abordagem cautelosa saciou, de algum modo, a sede de Putin por novos alvos? Será que as democracias ocidentais gozaram de um período de paz em troca de dar ao Kremlin o que queria? Desde o bombardeamento de civis em Alepo até ao uso de armas químicas nas ruas de Inglaterra, passando pelo financiamento da violenta repressão da ditadura bielorrussa contra os protestos, Putin tem-se empenhado numa campanha de desestabilização global e continuará a fazê-lo, caso não seja vigorosamente combatido.

Chegar a acordos é algo que não faz parte do vocabulário de Putin. Sabemos isto pelos enganos que infligiu aos seus próprios cidadãos. Quando se tornou Presidente da Rússia, em 2000, Putin propôs um contrato social efectivo com o país: em troca de uma economia forte para retirar o país da pobreza pós-soviética, as liberdades políticas seriam severamente restringidas. O que se seguiu foi uma orgia de cleptocracia onde os lucros das abundantes reservas de petróleo e gás do país foram desviados para as contas bancárias da elite e gastos principalmente no Ocidente. O contrato com o povo russo foi violado desde o início e a distracção deste facto foi proporcionada pela conquista imperial regular de Estados vizinhos.

Com a guerra, o objectivo original do Kremlin era ocupar toda a Ucrânia numa questão de dias e é quase certo que, caso o tivessem conseguido, outros países, como a Moldova ou o Cazaquistão, teriam sido os alvos seguintes. Talvez ainda sejam. A Bielorrússia foi, efectivamente, anexada em tudo menos no nome. O que Kissinger, certos governos europeus e outras pessoas pedem é uma rendição e apaziguamento efectivos que só irão suscitar mais ameaças à segurança.

Pode ser verdade que a inflação é uma questão muito maior para os eleitores, e que as perturbações nos mercados globais de alimentos e energia venham, provavelmente, a intensificar-se nos próximos meses. A implicação de que isto é, de alguma forma, culpa da insistência da Ucrânia em lutar pela sua sobrevivência, e não uma consequência do bloqueio naval russo dos portos ucranianos no Mar Negro, que impede dezenas de milhões de toneladas de cereais de chegarem ao seu destino, é uma leitura errada do que está a acontecer. A recente sugestão da Rússia, de que poderia reabrir as exportações de cereais da Ucrânia em troca de um alívio das sanções, devia ser suficiente para eliminar todas as dúvidas na cabeça de qualquer pessoa sobre qual é a origem da actual instabilidade global.

Face a uma campanha genocida, os ucranianos não devem ser aconselhados a negociar a sua existência. Nos últimos dias, falei com colegas defensores dos direitos humanos da Síria e da Líbia, ambos países em que forças e mercenários russos semeiam a morte e a destruição com total impunidade. O mundo não pode permitir que a Ucrânia seja acrescentada a esta lista. Não seremos os últimos. Aqueles que mascaram o seu cinismo com o chamado pragmatismo precisam de voltar à escola e aprender que a única forma de derrotar quem faz bullying é enfrentá-lo.»

Presidente do Centro para as Liberdades Cívicas, uma ONG ucraniana dedicada à defesa dos direitos humanos
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5.6.22

Cazaquistão

 


Posso estar enganada, mas creio que nunca ligámos muito àqueles países da Ásia Central terminados em -ão e, sobretudo, que nunca os distinguimos muito uns dos outros, a não ser quando algum é especialmente «abanado», como foi o caso do Afeganistão. Não é de todo verdade, como constatei quando andei por alguns e basta olhar para o mapa para ver como um deles se destaca – o Cazaquistão.

Escreverei um dia destes sobre o que pensei quando passei por algumas regiões desse grande país. É o nono do mundo em dimensão, tem uma população de apenas 18,75 milhões de habitantes de 100 etnias diferentes (com forte tendência para crescer) e é a maior economia da Ásia Central (tem gás, petróleo e muitas reservas minerais).

Kassym-Jomart Tokayev, o actual presidente, pretende uma importante viragem: prepara um referendo nacional que inclui a proposta de transição de um modelo superpresidencial para uma república presidencial (e muitas outras mudanças). Parece pouco mas não é.

Aconselho os interessados a lerem dois artigos recentes e destaco um excerto do segundo, hoje publicado e especialmente actual.



«O Cazaquistão nunca reconheceu a anexação da Crimeia. O reconhecimento da independência das repúblicas do Donetsk e Lugansk também não está na ordem do dia. Esta é a nossa posição firme, à qual continuaremos a aderir no futuro. O nosso país absteve-se de votar resoluções na AG da ONU e no CDH sobre a crise ucraniana, uma vez que o presidente Tokayev expressou uma posição clara sobre a disponibilidade do Cazaquistão, se necessário, para agir como mediador.»
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05.06.1898 – Federico García Lorca

 


García Lorca nasceu em Granada há 124 anos.

Poeta e dramaturgo, conta-se entre as primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola. Foi fuzilado, com 38 anos, em Agosto de 1936, entre 17 e 19, pelo seu alinhamento político com os Republicanos e por ser declaradamente homossexual.

Todos os anos, nessa data, em Viznar, perto de Granada, ciganos cantam, dançam e dizem poesia em honra de Lorca e de cerca de 3.000 fuzilados pelos franquistas, cujas ossadas se encontram por perto.

Ver dois vídeos AQUI, num post do ano passado.
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D. Afonso III e as ciclovias de Moedas

 


«Estou em crer que, quando D. Afonso III de Portugal mandou a corte fazer as malas e mudar-se para Lisboa, estava longe de imaginar que 767 anos mais tarde se rasgariam vestes por avenidas fechadas ao trânsito aos domingos e por troços de ciclovia abolidos ou em vias de abolição. No entanto, também é possível que eu esteja enganada e que o rei, conhecido pela sua inteligência e pela prosperidade a que conduziu o país, tenha previsto esta possibilidade. Imagino-o até no seu leito de morte, de mão dada com D. Dinis, seu filho primogénito, a sussurrar: “Dinis, deixa a capital sossegada em Coimbra que esta gente aqui de Lisboa é toda muito umbiguista.”

E como toda a gente sabe que nunca se nega o último desejo de um rei, D. Dinis fez o que lhe foi pedido. Ele e todos os reis que se seguiram, já que, é sempre curioso recordar, nunca na nossa história e até aos dias de hoje foi oficializada de forma documental a transferência do título de capital de Coimbra para Lisboa.

Eu adoro Lisboa, registe-se. Tirando as noites de Santos Populares que me agravam sobremaneira a claustrofobia, Lisboa é a minha cidade sonhada e gosto dela porque sim. Gosto de como o Tejo, tão menos significante em Espanha, se torna grandioso aos pés da cidade de mágica luz. Gosto do fado e dos pastéis de bacalhau. Gosto da paz de Belém e de como ali, naquele bocadinho, o mundo me parece infinito.

Mas, caramba, que não há meio de uns quantos iluminados se convencerem que a Ponte 25 de Abril não é uma fronteira do país. E vai daí que aqui andamos nós a assistir, ainda que incrédulos, a debates muito acesos sobre uma ciclovia que nem sabemos bem onde fica.

E estes debates aparecem em programas de opinião, de comentário e dominam as redes sociais. Assim mesmo, como se uma rua de Lisboa fosse um problema de todo o país. Assim mesmo, como se à esmagadora maioria dos portugueses interessasse conhecer os contornos da novela que opõe Moedas a ciclistas, ciclistas a automobilistas e peões ao mundo.

Antes que me venham com a conversa do sentimento de inferioridade e do recalcamento deixem-me lá dizer que me orgulho das minhas origens, metade construídas na fonte da Praça do Giraldo e a outra metade nas pedras do Real Alcázar de Sevilha. E nunca me senti inferiorizada por não pertencer à capital, que sempre me acolheu como aquela música bonita, com a Mariza, o Paulo Flores e a Roberta Sá, que há uns anos passava sempre nos aviões da TAP: de braços abertos. Mas não percebo, não percebo mesmo como é que de um tema absolutamente “comezinho” de política local se faz um caso nacional em que já não há cão nem gato que não tenha uma opinião a dar, ainda que, com sorte, nunca tenha passado nos locais em discussão.

Há dias escrevi no Twitter que enquanto mais de meio país se debate com a transferência de competências que ameaça arrasar financeiramente as autarquias, há uns quantos que parecem muito mais preocupados com um troço desaparecido de ciclovia. E é claro que veio a turba. E é claro que se inflamou. E é claro que fui acusada de não compreender a política ambiental e a importância da sua defesa. E é claro que me perguntaram logo se era avençada de Carlos Moedas ou se aqui, no Alentejo, já tínhamos ouvido falar em mobilidade sustentável. Logo a nós, reis das carroças e das parelhas de bois.

Mas, brincadeiras à parte, acredito verdadeiramente que a importância nacional que damos a estes temas mostra bem o tipo de país que somos: um país que dá demasiada importância ao que não a tem, que é atraído pela trivialidade como os mosquitos para a luz e que tem um prazer particular em viver numa permanente silly season.

Reparem, nós vamos a Lisboa. Aliás, nós, especialmente no interior sul, precisamos de Lisboa. Há serviços que só podemos encontrar na capital e cuidados de saúde que são exclusivos das três maiores cidades do país. Todos os dias centenas de ambulâncias percorrem as nossas estradas para levar a Lisboa uma parte substancial dos doentes oncológicos da região sul. Nós podemos não viver lá, mas sabemos bem a importância que a cidade tem nas dinâmicas e destinos do país.

E obviamente que nos solidarizamos com os 24% de utentes inscritos sem médico de família na região, que sabemos que os transportes públicos de Lisboa interessam ao país inteiro que lá vai, nem que seja de visita, e que não somos insensíveis às causas dos lisboetas.

Mas, sim, somos claramente insensíveis ao drama das ciclovias ou, pelo menos, de uma parte delas. E é bastante ingrato que se debata tão aprofundadamente e com tanto espaço na comunicação social um tema tão pouco relevante e que, depois, problemas bastante mais graves não consigam nunca ter destaque no debate público.

A descentralização de competências está aí e, cada vez mais, boas intenções à parte, parece que só será benéfica para o Governo central que, em questões de aparente menor monta, sacode a água do capote para cima das autarquias. Começa a pairar sobre a cabeça dos autarcas a sensação de que o Governo se prepara, mais do que qualquer outra coisa, para descentralizar a dívida.

Luísa Salgueiro, presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses, vai fazendo o que pode para chamar a atenção para o problema. No Porto, Rui Moreira, luta para não ter de ceder. E em Lisboa, Carlos Moedas tenta chamar a atenção para o problema, afirmando que as autarquias não podem servir de tarefeiras ao Governo, mas a mensagem não passa, porque é imediatamente engolida pelo “problema” das ciclovias a que toda a gente parece mais interessada em dar destaque.

E, sim, eu nesta crónica estou a fazer o mesmo. Mas pareceu-me importante passar a mensagem de quem, de fora de Lisboa, tem toda a autoridade para dizer que Lisboa é do país, mas que as ciclovias e as avenidas que fecham aos domingos estão longe de ser um problema nacional.

Uma ciclovia lisboeta não pode valer mais tempo de discussão do que a cobertura em amianto de uma escola no concelho de Bragança. Uma avenida encerrada aos domingos na capital não pode gerar mais debate do que uma urgência pediátrica permanentemente encerrada no interior do país. Um limite de velocidade alterado numa cidade, mesmo que capital, não pode fazer rasgar mais vestes do que a falta de transportes públicos longe das grandes cidades onde ou vamos de carro ou vamos de carro.

Dir-me-ão alguns que os lisboetas escolhem os seus problemas e que, como são mais, são naturalmente mais ouvidos. Mas é que nem isso é verdade. Num país de cerca de 10 milhões de habitantes, Lisboa agrega cerca de meio milhão.

Há, portanto, 9,5 milhões de portugueses para quem as questiúnculas lisboetas são bairrismo, mas que continuam a vê-las dominar o debate público.

E, às vezes, no meio da irritação, dá vontade de entrar numa máquina do tempo e dizer a D. Afonso III que se deixe mas é estar sossegado. Olha tão bem que se está em Coimbra.»

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