5.7.22

Isto não se inventa

 


A realidade ultrapassa a imaginação possível.
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Ou a lógica é uma batata

 

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Costa, o político imprevisível

 



Não é a primeira vez que António Costa surpreende o país com uma solução completamente distinta daquela que se esperava. Aconteceu com a “geringonça”, um golpe de asa que poucos acreditavam poder ter sucesso (lembro-me bem das conversas que tive na altura com políticos de vários partidos e das dúvidas que havia, apesar das pistas que iam sendo dadas). Foi assim nos incêndios mortíferos de 2017, que teriam feito cair qualquer Governo, mas que só mais tarde (e por pressão presidencial) resultaram na saída da ministra da Administração Interna. Foi assim quando o depauperado SNS reverteu a desgraça da pandemia, havendo momentos em que Portugal chegou a ser um exemplo para outros países. E foi assim em muitas outras ocasiões críticas para o executivo: o assalto em Tancos, o tempo de serviço dos professores, o chumbo do orçamento, as eleições antecipadas. 

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Biden tem a solução para a falta de mão-de-obra

 


«Aeroportos e companhias áreas responderam com prontidão à acelerada redução de receitas que a pandemia implicou e reduziram substancialmente o número dos seus funcionários. O caos nos principais aeroportos, com especial impacto nas principais plataformas europeias de distribuição, replica o congestionamento em rede. Lisboa não é excepção.

As companhias foram mais diligentes a despedir do que a contratar, ou porque o queriam evitar ou porque foram incapazes de prever a avalanche que se aproximava da pista. O cenário torna-se ainda mais tortuoso quando as dificuldades se transformam no momento certeiro para fazer greve em nome da melhoria de condições laborais.

Mas, quer em Portugal, quer na esmagadora dos países europeus, ninguém se precaveu, também, para os congestionamentos que o fluxo de passageiros iria trazer ao controlo de entradas e saídas do país. Má gestão de recursos, condições salariais insatisfatórias e ausência de planeamento acabaram por impedir que as companhias tivessem capacidade de dar resposta a esta súbita explosão. No caso nacional, é notório que o crescimento turístico tem vindo a crescer a um ritmo superior ao registado na pré-pandemia, pelo menos desde a Páscoa, e em grande parte devido ao mercado interno.

Ninguém põe em causa a importância do turismo na economia portuguesa. Também é consensual que essa importância é desmesurada e que decorre da ausência de um plano estratégico de desenvolvimento económico digno desse nome. O turismo tem, desde logo, um efeito crucial no mercado de trabalho, ao representar mais de 5 por cento do total nacional.

O problema, toda a gente sabe, é este: horários prolongados e imprevisíveis, condições precárias, contratos sazonais, ausência de evolução na carreira e baixos salários (a remuneração média por trabalhador, neste sector, é inferior à média nacional). Bradar aos ventos, como faz parte do sector, de que não há trabalhadores disponíveis esconde a verdadeira questão: já não há trabalhadores disponíveis para aceitar aquelas condições. O mercado de trabalho está a mudar.

A crise do transporte aéreo, como lhe chama a presidente executiva da TAP, que a justifica pela ausência de trabalhadores a nível global, pode não estar solucionada antes do pico das férias. A falta de mão-de-obra na hotelaria portuguesa também não. A carreira não é atractiva e a alternativa pode ser recrutar fora do país, se este deixar de se empanturrar com burocracia. A outra solução é esta, e é de Joe Biden: “Pay them more” [Paguem-lhes mais]...»

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4.7.22

Transportes noutros mundos (7)

 


À espera de turistas para grandes passeios no Bósforo. Istambul, Turquia (2011).
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Pedro Nuno Santos

 


«Pedro Nuno Santos é uma das raras figuras nacionais do PS com uma trajetória político-ideológica. Chamem-lhe dogmatismo, se quiserem, ou coerência, se preferirem o elogio à crítica. Mas a verdade é que navega orientado por uma ideia: é preciso que o PS não tenha vergonha de ser socialista. Ideia esta que, por sua vez, combina com uma estratégia política que nunca escondeu: é preciso um governo do PS apoiado pela esquerda. E sendo que à ideia e à estratégia se associa um discurso económico-social sobre o país, no qual a noção de povo inspira simultaneamente justiça social e mobilização produtiva do Estado.

Haverá certamente razões para objetar ao comportamento do ministro na última semana, mas não nos iludamos. É por ele ter uma ideia que não falta quem lhe chame radical. É porque a ideia que tem envolve uma estratégia que não falta quem lhe critique a ambição. E é porque o seu discurso sobre o país mete as mãos na economia que não falta quem o considere irresponsável. Assim é e será enquanto continuarmos a dar por adquirido que responsabilidade é deixar os mercados entregues à sua vidinha, sem fazer grandes ondas; que a ambição é um exclusivo dos empresários e outros empreendedores de causas individuais que começam e acabam na sua própria pessoa; e que as ideias, estas, são matéria para mero consumo filosófico ou para mais um qualquer fórum republicano de reflexão.

Não sei se os danos de reputação sofridos recentemente pela figura de Pedro Nuno Santos são irreparáveis. Se forem, o principal prejudicado será o PS. Deixará terreno livre à sua esquerda, que é para o lado em que eu durmo melhor, mas tornará a vida mais fácil às novas direitas. É que as ideias, a estratégia e o discurso de Pedro Nuno Santos são também os que, no espaço do PS, mais capacidade terão de disputar terreno - se não a curto, pelo menos a médio e longo prazo - às novas direitas. O discurso económico de Pedro Nuno Santos é coletivista onde o da Iniciativa Liberal é individualista, mas em ambos os casos há a noção de que a economia se faz de moralismo quotidiano e de idealismo histórico. Quanto ao Chega, se encontra frontal oposição no socialismo desavergonhado de Pedro Nuno Santos, encontra igualmente aí uma esquerda que não tem medo de ser apodada de populista.» 

Zé Neves no Facebook
(Assino por baixo.)
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Aeroportos



 

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Arvin George no Twitter
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O passismo voltou, que a gestão ao centro está ocupada

 


«Quem julga ter ouvido alguma clareza em relação a futuros entendimentos com o Chega estará à espera que o PSD-Açores, que passou alguns “muros” para “sobreviver politicamente”, perca em breve a confiança do PSD nacional. Ou então não ouviram o que julgaram que ouviram. O que ouviram foi uma desculpa para regressar ao nunca resolvido ressentimento dos passistas com 2015. Montenegro não queria falar do Chega, mas da “geringonça”. Logo no início da intervenção, não queria dizer ao que vinha, mas de onde vinha. E a incompreensão do que foi a “geringonça” é evidente quando pinta um retrato tremendo sobre a forma como os portugueses olham para os últimos seis anos, esmagadoramente desmentido pelos resultados eleitorais.

É justa a critica ao governo de gestão em que se está a transformar o executivo de um Costa esgotado de soluções depois revertido o que os partidos à sua esquerda o obrigaram a reverter. A questão é se um político com o perfil de Montenegro, formado na mesma cultura da vacuidade programática de Costa, faria diferente. É justa a critica à falta de investimento nos serviços públicos. Mas essa crítica não teve tradução no resto da intervenção do novo líder do PSD.

O guião foi o habitual: a esquerda tem ideologia, a direita tem soluções para as pessoas. Garantido o remate preguiçoso, Montenegro fez uma intervenção quase exclusivamente ideológica. Baseado num conceito de liberdade essencialmente anti-social-democrata – basta ouvir militantes e dirigentes a explicarem o que é ser social-democrata para perceber até onde pode ir a ignorância sobre o conceito que deu nome ao partido em que se filiaram –, o debate que Montenegro propõe fazer sobre políticas públicas é o de saber o que mais pode ser entregue ao privado. Mais nada de relevante existe no seu esboço programático.

Para o Serviço Nacional de Saúde, a cartilha é a de sempre, seja qual for o problema: é preciso recorrer ao privado contra o qual o Estado tem, apesar de gastar 40% dos seus recursos em saúde com ele, um preconceito ideológico. Nem uma proposta sobre a fixação de profissionais ou investimento no SNS. Porque, de uma forma mais clara do que alguma vez foi feito no PSD, a Montenegro parece querer, como a IL, transferir para o setor privado a generalidade da prestação de serviços de saúde, reservando ao Estado o papel de mero financiador. Se não é isto, o resto não esteve no seu discurso.

Até quando fala do ensino pré-escolar, defende que o “preconceito ideológico” não deve levar o Estado a querer concorrer com o privado. A questão já não é só a necessidade de recorrer ao privado, é abster-se de criar uma rede pública para não criar concorrência ao negócio. IL, cá está ela de novo.

Nas propostas do combate à carestia de vida e à inflação, os salários estiveram ausentes. Montenegro propõe um programa assistencialista. Com um programa de emergência que deve aproveitar os ganhos fiscais com a inflação, apesar de no mesmo momento propor baixar os impostos e dispensar esses ganhos fiscais. Como de costume, o PSD promete as vantagens dos impostos – a receita – sem as desvantagens dos impostos – a cobrança.

Ou talvez esteja a ser injusto. Como a IL, Montenegro acreditará que o milagre económico de baixar os impostos dará mais receitas ao Estado. Tudo o resto que disse sobre economia foi menos do que genérico. Baixar os impostos e a conversa genérica também vão conseguir reter os jovens no país.

Dirão que o PSD é um partido reformista. Não, não é. O PSD foi, a começar pela criação do SNS, contra muitas reformas importantes que se fizeram neste país. E volta a sê-lo. Opondo-se, com algumas boas razões, à farsa da descentralização em curso, já se percebeu como voltará a impedir, como no passado, uma das mais importantes reformas administrativas: a regionalização. Desta vez é por causa da Ucrânia. Apesar da proposta de referendo ser para 2024, Montenegro já sabe que daqui a dois anos não haverá condições para esse referendo, sem o qual a regionalização não se pode fazer.

Quando falo da IL, falo dos órfãos mais jovens e radicalizados do passismo, que abandonaram as fileiras da direita de sempre, vestiram umas farpelas modernas nos costumes a que dão importância nula, e criaram um grupo de visionários fanáticos. Pode ser que se safem fora da casa de partida, porque o entusiasmo da base do PSD com o novo líder pode ser apenas a certeza de que tão cedo não arranjam outro. Mas a sua agenda, almofadada com umas juras de amor vagas e inconsequentes ao Estado Social, estava toda no discurso de Montenegro.

Os nomes que o acompanham, sinal de uma lufada de ar fresco no partido, ilustram o regresso ao passado, a começar por Maria Luís Albuquerque. Montenegro é a versão sorridente e simplificada do Passos antes da troika, que já prometia uma guinada do partido à direita. O problema é que, como tantas vezes recordou Rui Rio, que as perdeu todas, as eleições não se vencem, perdem-se. E se Costa nos oferecer quatro anos de gestão corrente o poder pode cair no colo de qualquer um. Como os passistas bem sabem.

O passismo está de volta. Não vejo qualquer drama. Têm uma agenda ideológica clara, as provas dadas pelo passado e o centro ocupado por um PS que se prepara para quatro anos que já cheiram a pântano. Mas, por rigor, o PSD devia tirar o “social-democrata”, corrente ideológica de que é agora declarada adversária, da sigla.»

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3.7.22

Transportes noutros mundos (6)

 


Ver nascer o dia, num destes balões, por cima dos milhares de templos de Bagan, Birmânia (2009).
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03.07.1883 – Franz Kafka

 

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Exactamente

 

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Observar o Observador

 


«O Observador publicou um artigo de opinião, de Lucas Claro, com o título A Grande Substituição, e com conteúdo à altura do título, cuja leitura nem recomendo. Pretende o autor, segundo referiu, que se inicie em Portugal o debate à volta deste tema.

De que estamos a falar?

A mais fina flor da extrema-direita europeia e os supremacistas brancos nos Estados Unidos, de forma clara, têm chamado a atenção para um problema que os preocupa e que assusta o autor do artigo: pelo andar da carruagem, qualquer dia estamos todos misturados e perdemos a pureza dos nossos genes. Nas palavras de Lucas Claro: “(...) uma população que em momento algum foi consultada sobre se efetivamente desejava tornar-se uma minoria no seu próprio país.”

A que população se referirá o autor?

Não será certamente aos portugueses. Não parece estar aqui em causa o critério da nacionalidade. O autor aponta o número de estrangeiros que obtiveram a nacionalidade portuguesa durante o ano de 2020 (149.157) e mais adiante continua, implicitamente, a incluí-los no universo dos estrangeiros a residir em Portugal. Chama ainda a atenção para o facto de os sucessivos governos não serem claros relativamente ao número de estrangeiros a residir por cá. Uma espécie de: “eles não têm coragem de nos contar o perigo que corremos”.

A população que merece os cuidados dos adeptos desta teoria são os nacionais de origem certificada, os caucasianos, os tugas puro-sangue no nosso caso ou os eurodescendentes no caso dos Estados Unidos. Seria interessante averiguar se consideram um luso-descendente, com nacionalidade estadunidense, como estando incluído no grupo a preservar ou como fazendo parte da ameaça estrangeira.

O artigo tem mais pérolas como a de se referir ao Martim Moniz como “bairro histórico da nossa Capital” em vez de praça. Fala também em alfacinhas de gema. Certo. É uma pessoa que aprecia os portugueses, e os que vivem em Portugal, como se apreciam as peças de um carro: deve saber-se se são de origem.

Mas o artigo em causa tem uma relevância e só por isso vale a pena falar dele: traz para a imprensa uma teoria que, mais do que ser de extrema-direita, é efetivamente nazi e tem sido inspiração para atentados terroristas e massacres. Nada como avançarmos firmes, mesmo que seja na direção do abismo. Ficou escrito preto no branco. Corrijo: como é no Observador ficou branco no preto. Têm essa opção.

Aos portugueses que possam estar preocupados com a substituição da nossa estirpe ou com a sua diluição através de misturas ou cruzamentos com outras, tenho a dizer algumas coisas.

Reparem que aqueles que se consideram a pura representação dos nossos genes portugueses não são pessoas particularmente beneficiadas pela inteligência. Imaginem um país onde predominassem pessoas como o autor do artigo em causa. É que mesmo sem saber quem é, ou o que faz, deve temer-se o pior.

Temos várias minorias neste país. Desses, a única que realmente nos pode preocupar é a formada por fascistas, racistas e, está à vista que também os há, nazis. São os que verdadeiramente atentam contra uma coisa que conquistámos e que é preciosa: a democracia. São os que incitam ao ódio e à discriminação. Detestam minorias, mas são eles próprios a minoria detestável.

Outro aspecto para que chamo a vossa atenção é o facto de sermos um povo de emigrantes e, por isso, alvo de preconceitos e discriminação como estes que sustentam a esta teoria. Não é um privilégio ser português em Paris ou no Luxemburgo, deixemo-nos de ilusões. O melhor que conseguimos é ser considerados trabalhadores e honestos. Está aqui implícito um juízo sobre a nossa pretensa inferioridade. É uma pequena – mesmo pequena – amostra do que sofrem as pessoas racializadas perante estes nazis. Mas a semente do mal, a de estabelecer diferenças, está lá.

E este mal está sempre relacionado com pobreza. Por alguma razão se fala sempre do Martim Moniz ou de São Teotónio e Odemira. É onde estão os imigrantes pobres. O cheiro a caril na Mouraria ou no Alentejo incomoda, mas os estrangeiros ricos, que contribuíram para a expulsão dos velhos residentes de Alfama, não merecem destaque.

Somos uma comunidade e o mal está entre nós da mesma maneira que está em nós mesmos. E temos mesmo de lidar com isso. Pergunto-me o que leva o Observador, do qual sou assinante, a publicar uma coisa desta natureza. E fico sem respostas. Nenhuma satisfaz e nenhuma tranquiliza.»

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