22.8.25

Excesso de confiança

 


«Há imagens que se colam. A do abraço entre o líder parlamentar e o ministro da Presidência, de sorriso aberto e copos de gin na mão enquanto o país ardia, é a de um Governo totalmente alienado por circunstâncias políticas que lhe têm sido demasiado favoráveis. E os abraços veraneantes não destoa¬ram das palavras. De quase uma hora de discurso na Festa do Pontal sobraram sete minutos para o tema que monopoliza as preocupações dos portugueses há um mês. Antes de tudo, Montenegro primeiro-ministro queria discordar de Montenegro líder da oposição. Em 2022 pedia para “não se distrair as pes¬soas”, remetendo os incêndios “mais para o lado do clima”, e recordava que “as vagas de calor muito acentuadas” já eram previsíveis. Em 2025 fala de uma “tragédia fruto das circunstâncias meteorológicas, que são particularmente difíceis e adversas”, com “elevadas temperaturas, níveis baixos de humidade e ventos fortes”.

Depois, queixou-se das televisões, porque dividiam os ecrãs com “metade da imagem com labaredas e a outra metade da imagem com a Festa do Pontal”. Uma divisão fiel à realidade: enquanto as labaredas cobriam o país, o Governo fazia a festa no Algarve. Mas não é fácil para quem foge das entrevistas e raras vezes responde a jornalistas e à oposição lidar com os momentos em que perde o controlo da narrativa. Nada a fazer: o fogo ofuscou o regresso da Fórmula 1, que só poderia ser tema, naquele momento, para quem tivesse decidido ignorar o país. Como as perceções ainda continuam a ser tudo para Montenegro, aquele ecrã dividido levou-o a suspender finalmente as férias e a pedir o auxílio europeu para o combate aos incêndios, que, escassas horas antes, a ministra tinha garantido ser desnecessário. Poucos dias depois de ter acordado para o que se passava, disse que “estamos todos muito esgotados”, um estranho plural para quem andou desaparecido.

Não houve, fora dos PowerPoint e dos pacotes, teste em que Luís Montenegro tenha passado. Falhou em todos os momentos críticos e decisivos, incluindo os mais previsíveis. Falhou nos períodos tradicionalmente difíceis para as urgências. Falhou na resposta à crise aguda da habitação, que se agravou com as medidas implementadas pelo Governo. Parece encaminhar-se para falhar nas contas públicas, sem que nenhuma melhoria no funcionamento do Estado o pareça justificar. E falhou na reação aos fogos, independentemente das condições estruturais, que não vão mudar. Por ter falhado em tudo é que andamos há meses a falar de imigrantes. Espanta-me que a culpa dos incêndios também não seja deles. Mas o mais estranho para um Governo mais obcecado com as perceções do que com políticas que não sejam, como a contrarreforma laboral, encomendadas por quem diligentemente serve é falhar na capacidade de sentir inquietações mais evidentes do país. O oportunismo eleitoral, que o fez copiar as políticas do Chega, não se traduz numa ligação mais intensa aos sentimentos populares. “O senhor não merece estar aqui”, ouviu Montenegro de uma mulher no funeral de um bombeiro, na Covilhã. Uma frase assassina que já deve estar a fazer Ventura, o único político mais taticista do que Montenegro, vacilar na colagem ao Governo.

O falhanço comunicacional da Festa do Pontal não foi um deslize. É o estado da arte de um Governo alienado. Os resultados de 18 de maio, que deixaram todas as alternativas bloqueadas, foram maus conselheiros. Com o crescimento do Chega e a catástrofe socialista, Montenegro está concentrado na oportunidade histórica de ferir de morte o PS, tornando o PSD no partido hegemónico do centro político. Conta com a extrema-direita para mudanças na legislação laboral, para as políticas de imigração e, porque devemos levar a sério os apelos de Relvas, para uma revisão constitucional. E, mesmo assim, espera que o PS tenha “aprendido” com o castigo eleitoral depois de uma crise política desejada e cumpra a função de se responsabilizar pelo próximo Orçamento do Estado. É este “à vontadinha” que promove a incompetência e o alheamento da realidade. Os bons Governos precisam de algum medo, e Montenegro e a sua tropa acreditam que estão sozinhos no terreiro. Estão cheios de si. Tão cheios que só se veem a si mesmos. Um ano e meio de um Governo minoritário que falhou todos os testes decisivos parece ter chegado para ganhar a displicência de uma maioria absoluta e de oito anos de poder.»


21.8.25

Uma bela casa

 


Uma casa residencial Arte Nova, 1902. Tbilisi, Geórgia.
Simon KIdiashvili.

Daqui.

Alexandre O’Neill

 


39 anos sem ele.

21.08.1968 - Numa madrugada de Praga



Na noite de 20 para 21 de Agosto de 1968, as tropas do Pacto de Varsóvia invadiram a Checoslováquia , pondo fim à chamada Primavera de Praga que durou pouco mais de sete meses.



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(Fotos de Josef Koudelka, Invasion of Prague, Thames & Hudson, 2008.)
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Ramos de giesta e alguidares

 


«"Fala-se em aumentar o investimento na Defesa. Como pode este país falar disso quando os nossos concidadãos têm que enfrentar o fogo com ramos de giesta, baldes, alguidares e mangueiras de regar o jardim?" A crítica, em forma de pergunta, foi feita por Xavier Viegas, um dos maiores especialistas em incêndios e professor jubilado da Universidade de Coimbra, na semana passada, no JN, quando as chamas já tinham livre trânsito no Centro e Norte do país, e enquanto todos assistíamos, em sucessivos diretos televisivos, que se mantêm desde então, ao desespero das populações de tantas aldeias com o fogo à porta, sem ajuda visível.

Foi há cerca de um mês que o primeiro-ministro explicou o impacto de antecipar, ainda este ano, a meta de investimento de 2% do PIB (a riqueza anual produzida no país) em Defesa: mais 1300 milhões de euros, que somam aos mais de quatro mil milhões que já se gastam todos os anos. Ou seja, o que Luís Montenegro propôs ao país é que o Orçamento do Estado reserve, todos os anos, mais de cinco mil milhões de euros dos impostos dos portugueses para a Defesa. Acresce que há um compromisso de chegar a 5% do PIB até 2035, ou seja, e a "preços" atuais, uma escalada de custos até aos 14 mil milhões de euros por ano.

Não há dúvida de que se vive um período de incerteza e confrontação. E que União Europeia (Portugal incluído) não pode continuar dependente de uma potência pouco fiável (os EUA de Trump) ou incapaz de se defender perante a ameaça de autocratas imperialistas (a Rússia de Putin). Mas, como em tudo, é preciso fazer as contas. Racionalizar, integrar, cooperar, até fundir, se necessário, o poderio militar europeu, antes de começar a gastar. E estabelecer prioridades para o combate. Começamos pelos caças, mísseis e navios, ou por garantir que há algo mais do que ramos de giesta, alguidares e mangueiras de jardim?»


O que são NbSs?

 


20.8.25

Pesa-papéis

 


Pesa-papéis “Flor de Macieira”, de vidro Favrile iridescente. Cerca de 1915.
Tiffany Studios, Nova Iorque.

Daqui.

Não vamos embora

 


«À primeira vista, é "apenas" um gesto de inabilidade política, indelicadeza e desrespeito pelo escrutínio a que qualquer titular de cargo público está sujeito. Terminada uma curta declaração sobre os incêndios, a ministra da Administração Interna ignora uma pergunta dos jornalistas, levanta-se e dirige ao staff um sonoro "Vamos embora". O que acaba por ser, simbolicamente, uma síntese perfeita do que sucessivos governos têm feito ao país que arde e sofre as consequências do abandono.

O Estado tem ido embora, literalmente, de concelhos onde foram encerrados serviços públicos que eram essenciais para assegurar proximidade, conhecimento do território, qualidade de vida e dinâmicas locais de emprego. E tem ido embora a cada decisão que acentua assimetrias e concentra recursos e investimento em Lisboa - o que acontece em praticamente todas as áreas setoriais. Se analisarmos orçamentos e modelos de decisão e governação, somos um país profundamente centralizado e em que grande parte do território é, de facto, paisagem.»

Continuar a ler AQUI.

Nobel da Paz?

 


Os meios de conspiração social

 


«Todos os que têm dirigido a sua solidariedade para quem perdeu casa e outros bens nos incêndios deviam pensar melhor. Estão a esquecer a principal vítima do fogo, que é Luís Montenegro. No Algarve, o primeiro-ministro queixou-se das estações de televisão, que estavam naquele dia a “preencher ecrãs com metade da imagem com labaredas e outra metade com a Festa do Pontal”. Pretendia com isso dizer que a comunicação social tinha o objectivo maldoso e pouco subtil de mostrar que, enquanto parte do país ardia, vários membros do Governo estavam reunidos numa festa. Infelizmente, Montenegro ficou-se pela crítica, e não deu sugestões aos jornalistas acerca do modo como deviam noticiar dois acontecimentos que estavam, de facto, a ocorrer ao mesmo tempo. Talvez devessem mostrar apenas as labaredas. Ou mostrar apenas a Festa do Pontal. Ou mostrar as labaredas, depois mostrar outra coisa qualquer, e depois então mostrar a Festa do Pontal. Entre as imagens das labaredas e as da festa do PSD, uma reportagem que fizesse o papel que aquele gelado de limão desempenha nas refeições compridas, para limpar o palato entre um prato e outro. Talvez pudesse ser mesmo uma reportagem sobre gelados de limão, para garantir que o palato fica limpo e que ninguém associa as imagens do fogo às imagens da festa.

No espaço de pouco mais de um mês, Montenegro é o terceiro político que se queixa da perfídia dos jornalistas. Sócrates declarou ser vítima de uma conspiração da comunicação social, Ventura também se queixa de ter toda a comunicação social contra si, e agora é Montenegro que revela um plano da comunicação social para o atacar. O que isto indica é que a comunicação social é muito mais perigosa do que se pensa. Uma coisa é os jornalistas montarem uma conspiração contra uma pessoa. Duas conspirações já parece demasiado. Mas três conspirações é simplesmente ridículo. O plano parece óbvio: ao empreenderem tantas conspirações, os jornalistas pretendem conspirar contra a própria ideia de conspiração. Quando vários dirigentes políticos, e tão diferentes entre si, se queixam do mesmo suposto inimigo, ficamos com a ideia de que são paranóicos narcisistas com a mania da perseguição, o que é evidentemente impossível. Há realmente uma conspiração em curso. E destina-se a desacreditar quem denuncia conspirações.»


19.8.25

Regressam as taças

 


Taça esmaltada com gavinhas de videira e uvas. Vidro e ouro e esmalte gravado e pintado. Antes de 1896. Adquirida para a Exposição Universal de Paris de 1900.
Philippe-Joseph Brocard.

Daqui.

O Luís contra quem trabalha

 


«Talvez nunca, em 50 anos, um governo tenha tentado impor tamanho desequilíbrio do direito do trabalho. Trata-se, na realidade, de um novo Código do Trabalho, violentamente liberal, à medida e até indo além das reivindicações patronais, que desvaloriza profundamente o trabalho e que impõe uma verdadeira desconsideração pela pessoa do trabalhador em inúmeras matérias centrais. Não tenho dúvidas de que, por várias vias, esta proposta tem de ser derrotada. Nalguns casos, como nos despedimentos, o mais certo é cair por inconstitucionalidade. Noutros, como nas plataformas, por chocar com diretivas europeias. Haverá casos em que já se sabe não haver qualquer maioria parlamentar de suporte (como no luto gestacional). Mas acima de tudo, a ofensiva deve ser repelida pela indignação e mobilização coletivas. Há muito a melhorar na lei do trabalho? Com certeza. Em velhas questões, como o tempo do trabalho, a precariedade ou o salário, e em novas, como a digitalização, a gestão algorítmica ou o trabalho sob condições climáticas extremas. Mas impedir esta contra-reforma laboral é a primeira condição para que isso seja feito.»

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