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12.6.10
Sem grande alegria em festejos
No 25º aniversário da entrada para a Europa, os nossos PR’s apareceram bem unidos no pessimismo e não foram meigos nas palavras.
Enquanto, para Ramalho Eanes, «esta Europa é um nada, porque não há empenhamento, liderança, e vontade», Mário Soares insiste na falta de líderes, Jorge Sampaio (no Público, sem link) diz que os sinais dados pelos governos europeus «assemelham-se mais a “tiros nos pés” do que a verdadeiras estratégias» e Cavaco Silva fala de «falta de sentido estratégico».
Bem pode Durão Barroso pedir «liderança e coragem política» aos dirigentes europeus e José Sócrates dizer que «coragem não lhe falta», que ninguém parece sequer entrever qualquer luz ao fundo do mais modesto dos túneis. Uma situação absolutamente imprevisível, há vinte e cinco anos, e para a qual não parece haver solução à vista.
P.S. – A ler: Europa pierde la batalla en el mundo financiero
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Com capas e bolos
Qualquer pessoa, com um QI medianamente normal, esperaria encontrar neste livro um conjunto mais ou menos equilibrado de cartas de Salazar para Cerejeira e do segundo para o primeiro.
Há alguns anos, dediquei algum tempo a estudar as relações ente Igreja e Estado nos últimos tempos da ditadura e o tema continua a interessar-me. Embora esperasse encontrar muitos textos já conhecidos – os que se encontram nos arquivos de Salazar na Torre do Tombo, que incluem as missivas que o então presidente do Conselho recebeu e alguns rascunhos das que enviou – convenci-me que (finalmente!) alguém tinha tido acesso ao espólio do cardeal.
Puro engano: dos 95 documentos agora publicados, há apenas 5 cartas (e um telegrama) de Salazar para Cerejeira, precisamente os tais rascunhos que é possível encontrar nos arquivos do primeiro e que eu já conhecia. Tudo o resto são textos e recados de «Manuel» para «António» e longos «anexos» (por exemplo, projectos de revisões da Concordata), quase todos enviados pelo cardeal. Ou seja: na prática, só se encontra metade do que se espera ao ver o livro nos escaparates.
Sei, até por experiência própria, que é grande a pressão na escolha dos títulos para que os mesmos «vendam». Mas creio que os limites foram aqui largamente ultrapassados e não sei a quem poderei reclamar os 19,90 euros que deixei na FNAC.
(Esta obra é o segundo volume de um projecto de investigação sobre «Salazar e os seus correspondentes», coordenado por Fernando Rosas, presidente do Instituto de História Contemporânea, da UNL.)
P.S. - Leia-se o comentário de Rui Almeida e a minha resposta.
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Só na Áustria!
(Via Virgílio Vargas no Facebook)
11.6.10
Outros futebóis
Beatriz Costa, depois de uma grande desgraça no Campeonato do Mundo de 1934
(Espanha-Portugal, 9-0).
(Espanha-Portugal, 9-0).
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África do Sul: a degenerescência do ANC
No dia em que (quase) todos «se instalam» no tal Cabo, cheios de esperanças, leia-se, pelo menos nos intervalos dos jogos, este texto publicado no excelente «Passa Palavra».
«O ANC, partido que liderou todo o processo de libertação nacional, tornou-se, ao fim destes anos de poder, um perigo evidente para a integridade da sociedade sul-africana. Em vez de um projecto político colectivo de transformação da sociedade, é hoje um instrumento de “progresso pessoal” de uma elite, com o consequente agravamento das desigualdades. (…)
Pode ser verdade que o peixe começa a apodrecer pela cabeça, mas é essencial compreender que a degenerescência do ANC não resulta apenas do aumento do poder de uma elite predadora dentro do partido. Houve um tempo em que se acreditou que o poder era um projecto político colectivo que iria transformar a sociedade de baixo para cima. Agora percebe-se, em todos os níveis do partido, que ele é um meio para a incorporação pessoal numa determinada minoria que se aproveita das crescentes desigualdades da sociedade. De certo modo, este processo, mesmo que conduzindo a uma desracialização da hegemonia, não deixa muito espaço para a esperança numa sociedade melhor, se a isso limitarmos as nossas aspirações.»
Na íntegra, aqui.
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Da irresponsabilidade
O que pensarão as agências de rating, os burocratas de Bruxelas e as senhoras Merkel deste mundo, de um país que o próprio Presidente da República declara «INSUSTENTÁVEL»? Continuarão a sustentá-lo?
Tire-se este actor secundário do nosso filme ou arriscamo-nos a que este figure nas antologias de terror!
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10.6.10
10 de Junho – Do mau gosto?
Vem de longe a comemoração do dia em que Camões foi transladado para o Mosteiro dos Jerónimos, em 1880. Feriado nacional desde os anos 20 do século passado, a data ganhou um novo significado em 1944, quando Salazar a rebaptizou como «Festa de Camões e da Raça», por ocasião da inauguração do Estádio Nacional.
Mais graves, e bem mais trágicos, passaram a ser os 10 de Junho a partir de 1963. Transformados em homenagem às Forças Armadas envolvidas na guerra colonial, eram a data escolhida para distribuição de condecorações, muitas vezes na pessoa de familiares de soldados mortos em combate (fotos reais no topo deste post).
Desde 1978 que não é Dia da Raça e, para além de Portugal e de Camões, passou a festejar-se também as Comunidades Portuguesas. Mas continua a haver condecorações – outras, evidentemente, por motivos totalmente diferentes e por razões certamente muito louváveis. Talvez fosse no entanto possível ter escolhido outro dia para as distribuir, já que é quase inevitável associar qualquer distribuição de medalhas neste dia às trágicas imagens do Terreiro do Paço em tempo de guerra colonial.
Acabo de transcrever parte de um texto que publiquei, neste blogue, exactamente há um ano.
Ao ouvir o discurso de António Barreto na sessão solene desta manhã, tive um sobressalto. Não porque tenha alguma objecção contra o desfile dos antigos combatentes, nem porque não reconheça que o Estado nem sempre os tratou bem.
Mas, primeiro, porque a vertente padre Américo do actual Comissário do evento não tem cabimento: houve «soldados bons e soldados maus», sim e como é óbvio.
Segundo, porque a glorificação patrioteira da noção de «soldado português» (independentemente de ter sido «colonialista», «revolucionário» ou «fascista» - as expressões são do próprio António Barreto) me revolve as entranhas.
Terceiro e regressando a algo que já referi a propósito de condecorações: tivessem escolhido outro dos 365 dias que o ano tem para uma exaltação deste tipo. Porque, para quem já era suficientemente crescido no 25 de Abril, soldados e condecorações em 10 de Junho estarão para sempre associados a uma guerra muito concreta. E nem ouso pensar que alguém esteja interessado em branquear esta memória.
P.S. - E antes que alguém venha comparar o que escrevi aqui com a minha posição sobre as crianças com fardas da MP em Aveiro: nada a ver! Se tivessem feito uma cerimónia no Terreiro do Paço, encenando-a como o vídeo mostra para se ver «como era», eu aplaudiria.
ADENDA - A ler: Chega-te para lá, académico decadente e doutrinador falhado
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Novas revoluções chinesas
Ainda a pretexto dos recentes suicídios de empregados da Foxconn (em Schengen, na China), um texto que ajuda a reflectir: New Chinese Revolution: Worker Power Transforms World Economy.
«This scenario might well be called “worker power”, in which a major change in both the Chinese and world economies arises as a result of the – admittedly unexpected, but nevertheless seemingly robust – anger and frustration of the "new" Chinese working class, whose parents' hard work and strenuous effort have, in combination with low wages, made possible both the Chinese and global “economic miracles,” but which now appear to have reached a height of anger, frustration and a point of no return – with results for both China and the world that may be quite a bit different than anyone has been expecting. (…)
They have a different expectation. And once people’s attitudes about being in a factory change, other things will change.»
Para completar, e complicar, registe-se que o Japão depende fortemente de toda esta evolução na China, para a qual começará a olhar mais como um grande mercado de potenciais consumidores do que como uma fonte de mão-de-obra barata.
...(Um artigo de leitura simples e muito esclarecedora, a que cheguei através de J. Nascimento Rodrigues no Facebook.)
Um vídeo com informação adicional:
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9.6.10
Ler a três tempos
Mesmo só para francófonos (Ver até ao fim)
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E para continuar a falar de História
Circula na net, para recolha de assinaturas, esta PETIÇÃO, mais do que oportuna e importante.
Petição Em favor do ensino da História
Para: Sociedade civil, Professores, Investigadores
Considera que o ensino da História é um instrumento fundamental para que os portugueses possam compreender a realidade envolvente, procurar a realização pessoal, contribuir para o desenvolvimento sustentável e para o aprofundamento da democracia?
Sabe que, para além das reduções do peso curricular impostas nas últimas décadas, as disciplinas anuais de História podem vir a dar lugar a unidades curriculares semestrais de História e Geografia?
Tem conhecimento de que, actualmente, para aceder aos Mestrados em Ensino da História e da Geografia no 3º Ciclo do Ensino Básico e no Ensino Secundário basta ter realizado, numa Licenciatura de três anos (180 ECTS), dois anos (120 ECTS) em ambas as áreas disciplinares (nenhuma das quais com menos de 50 ECTS)?
Subscreva a petição proposta pela Plataforma “História, democracia e desenvolvimento”, dinamizada pela Direcção da Associação de Professores de História, pelo Departamento de História, Arqueologia e Artes da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra; pelos investigadores e docentes António Borges Coelho, António Manuel Hespanha, Filomena Pontífice, Isabel Barca, João Paulo Avelãs Nunes, Marília Gago, Olga Magalhães, Raquel Pereira Henriques e ainda por Artur Santos Silva.
Manifesto “História, democracia e desenvolvimento”
As reformas dos Ensinos Básico e Secundário, Politécnico e Universitário concretizadas em Portugal nas últimas décadas contribuíram para a diminuição do peso quantitativo e qualitativo da historiografia — da história, da arqueologia, da história da arte e das tecnologias delas derivadas — nos currículos escolares. Complementarmente, as sucessivas reformas do sistema de ensino e de formação profissional têm implicado a perda de oportunidades de divulgação e de rentabilização deste conjunto de saberes como vectores fundamentais para o aprofundamento da democracia e para a promoção do desenvolvimento sustentável.
Entre outros exemplos de desvalorização da importância da história no âmbito escolar, salientam-se a menor presença ou a ausência de módulos ou disciplinas de história em muitas das ofertas curriculares, as alterações introduzidas em 2007 na formação inicial de professores (“Processo de Bolonha” e Decreto-Lei nº 43, de 22 de Fevereiro) e a continuada precariedade da formação contínua, a simplificação redutora do perfil funcional dos professores e a sistemática menorização das actividades extra-lectivas e extra-curriculares (visitas de estudo, clubes de actividade, exposições ou núcleos museológicos, modalidades de ligação à comunidade, programas de intercâmbio, etc.).
Devido às transformações entretanto ocorridas — níveis crescentes de integração social global e, ao mesmo tempo, de desigualdade entre regiões e países —, a história é, cada vez mais, um saber indispensável para os indivíduos e para as comunidades. A sua natureza estruturante e carácter extensivo, as múltiplas correlações com a realidade actual pressupõem e justificam, quer uma formação particularmente exigente dos professores, quer um contacto regular dos estudantes com a área de saber em causa. As disciplinas de história podem, assim, contribuir para a promoção de competências gerais, transversais e específicas; para combater a hegemonia da cultura de massas e do absentismo cívico.
Mau grado o suposto acesso universal à informação, a escola e, nesta, as disciplinas de história continuam a desempenhar um papel essencial na aquisição de capacidades de rastreio, selecção e interpretação de dados, experiências de vida e memórias. Porque trabalha com a multiplicidade das facetas das sociedades humanas no espaço e no tempo, a história facilita, pois, o contacto com instrumentos de análise que potenciam o combate às assimetrias socioculturais, que permitem uma efectiva capacidade individual de escolha.
Os saberes de matriz historiográfica são, ainda, economicamente relevantes. Garantem uma base sólida para tecnologias como a didáctica da História e o jornalismo, a arqueologia industrial e o património cultural, a museologia e o turismo cultural, a arquivologia e a biblioteconomia, a conservação e o restauro, a cultura organizacional e a diplomacia, o design e a publicidade, o cinema e a produção de conteúdos multimédia. Enriquecem, também, a generalidade dos outros desempenhos profissionais. Instituições públicas e organizações privadas; empresários e profissionais liberais, gestores e quadros superiores, chefias intermédias e trabalhadores são mais adaptáveis e imaginativos, eficazes e responsáveis, geram maior valor acrescentado de forma continuada quando adquirem, formal ou informalmente, competências históricas.
Quando encaradas de forma objectivante, as disciplinas de história podem, igualmente, contribuir para a formação e a consolidação de uma consciência social aberta, democrática e participativa. Fazem-no contextualizando fenómenos complexos; viabilizando posturas menos alienantes face às problemáticas da multiculturalidade e das identidades (locais, regionais, nacionais e globais; sexuais e etárias, socioeconómicas e socioculturais, político-ideológicas e étnico-religiosas); treinando-nos para lidar com as diferenças e as semelhanças, as mudanças e as permanências, a cooperação e a conflitualidade, as situações de crise ou estagnação e de progresso; tornando conjecturável o relacionamento entre o passado, o presente e eventuais cenários futuros.
Para que o ensino da história corresponda a estas expectativas é, no entanto, relevante que se baseie nos pressupostos epistemológicos, nos conceitos teóricos, nas metodologias de reconstituição e interpretação da “nova historiografia”; numa didáctica promotora da qualidade, da criatividade e da autonomia; numa escola de intervenção globalizante. Urge, deste modo, inverter a tendência descrita e encontrar soluções alternativas, debatendo, nomeadamente, planos curriculares, formação inicial e contínua de professores, legislação de enquadramento da escola e da profissão docente.
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