14.8.10

Alguém previa isto há meia dúzia de anos?


A imagem não mostra uma distribuição do que quer que seja em África ou no Haiti, mas sim em East Point, arredores de Atlanta, EUA.

Na passada quarta-feira, cerca de 30.000 pessoas, depois de esperarem muitas horas em filas que começaram três dias antes, precipitaram-se, empurraram-se e tiveram mesmo de receber cuidados médicos (dezenas de feridos, alguns em estado grave), na esperança de conseguirem um impresso de candidatura para ajuda na obtenção de um alojamento.

O que foi distribuído? 455 cheques com subsídios para arrendamento e 13.000 impressos a preencher para entrar numa fila de espera.

Nestes vídeos, alguns números e imagens esclarecedoras que deixaram os americanos em estado de choque. «É isto a América?»

Inútil chamar a atenção para a cor de pele dominante - ou única.





(Fonte), entre outras.
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E ainda há quem diga que a idade não melhora


George Clooney
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De pequenas histórias que ficam para a História


«O meu primeiro emprego, entre 1959 e 1963, em plena ditadura salazarista, foi o de “locutor da rádio”. Uma das coisas que tinha de fazer era um “programa de discos pedidos” às sextas-feiras, em que os ouvintes telefonavam das 21h00 às 21h30, eu gravava os telefonemas e o programa era transmitido depois, com os telefonemas e as respectivas músicas. Eu arranjei um truque: em vez de atender os telefonemas dos ouvintes, arriscando-me a só me pedirem porcarias, era eu que telefonava aos meus amigos, indicava-lhes a música que eles deviam pedir, e assim compunha programas inteiros com músicas de resistência e contestação de todo o mundo…»

Dois exemplos:





Pescado aqui.
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O regresso


Um curioso texto de Yoani Sánchez, no dia em que Fidel Castro fez 84 anos (ontem).

«Habíamos empezado a recordarlo como algo del pasado, que era hasta una forma noble de olvidarlo; muchos estaban disponiéndose a perdonarle sus errores y fracasos para colocarlo en algún ceniciento pedestal de la historia del siglo XX, donde su rostro - retratado en su último mejor momento - ya aparecía junto a los muertos ilustres. De pronto ha salido a exhibir impúdicamente sus achaques y a anunciar el fin del mundo, como si quisiera convencernos de que la vida después de él carecerá de sentido.

Durante las últimas semanas, aquel que fuera llamado el Uno, el Máximo Líder, el Caballo, o con el simple pronombre personal ÉL, se nos ha presentado despojado de su otrora subyugante carisma, para confirmarnos que aquel Fidel Castro - afortunadamente - ya no volverá, aunque por esta vez sea nuevamente noticia.»
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13.8.10

Paraskevidékatriafobia?


Só se escreve com copy/paste, como no caso do vulcão islandês, e a palavra significa, pura e simplesmente, fobia às sextas-feiras 13 [do grego Paraskeví (sexta-feira) e dekatreís (13)].

Apontam-se variadíssimas causas históricas para que a data sugira azar ou sorte, geralmente de origem religiosa (Cristo morreu numa sexta-feira e havia 13 pessoas à mesa na Última Ceia, por exemplo), e há também quem considere que 12 é um número tão perfeito (12 meses no ano, 12 signos no Zodíaco, 12 horas nos relógios) que 13 só pode ser «impuro».

Mas a realidade aí está para demonstrar que a data funciona. Hoje, haverá certamente mais apostadores no Euromilhões (em França, regista-se um acréscimo de 25% em todo o tipo de jogos) e, por outro lado, continua a não existir fila 13 em muitos aviões e é prática corrente que os hotéis não tenham 13º andar nem quartos com o número em questão.

E eu, que devia ter viajado hoje para Moscovo, e apanhar depois o Transiberiano, talvez tenha tido sorte com o cancelamento russo porque leio que os fogos, embora mais reduzidos agora em número, se aproximam da tal central nuclear (Sarov), de que já falei há alguns dias e que fica mesmo muito perto da primeira etapa que faria no comboio.


Ter ido talvez fosse desafiar o destino para além do razoável e desrespeitar a dita cuja paraskevidékatriafobia…

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Se a inveja matasse


«A petição "Equivalência de Mestre (com maiúscula) aos titulares das anteriores licenciaturas com formação de 5/6 anos" já está na Net e, até ontem, tinha sido subscrita por 13 941 futuros Mestres (com maiúscula).
Pela ordem natural das coisas, seguir-se-á a exigência dos mestres de passarem a doutores "in extenso" (e a dos doutores meramente "distintos" passarem a "distintos cum laude", e estes a "magna cum laude", e estes a "summa cum laude", e por aí fora até ao infinito). É o conceito "Novas Oportunidades" levado ao limite, antes de os títulos de "Dr." e "Doutor" começarem a ser atribuídos a todos os portugueses no momento do baptizado.»
Manuel António Pina, no JL.

E acrescento eu: quem fez a 4ª classe há 40 anos devia pedir a equivalência a Matemática do 9º ano? E a Português do 12º? E assim sucessivamente?
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Ordem de esquecimento à saudade


Gostei de saber que Ruy Duarte Carvalho viveu os últimos anos e morreu em Swakopmund, essa pequena cidade lindíssima, no litoral da Namíbia, onde se tem a surpresa de atravessar a fronteira para uma espécie de Alemanha, pouco tempo depois de deixar para trás a duna 45. É uma bela porta para se sair deste mundo.

As ruas do centro são com aquela que a fotografia mostra, quando se entra na principal livraria podia estar-se em Wiesbaden, a ordem no trânsito e a limpeza das ruas são legado de algumas décadas de presença alemã que os namibianos teimam em não perder.

Bem gostava que me tivessem mostrado a casa onde Ruy Duarte estaria provavelmente a escrever (e não a que Angelina Jolie e Brad Pitt alugaram quando decidiram que uma filha por lá nascesse…), mas nem o Lonely Planet, nem o meu guia (by the way angolano do Sul, tal com Ruy Duarte) ma assinalaram.

Recordar Swakopmund (e o deserto, inesquecível, ali tão perto…) é sempre um enorme prazer e, neste caso, um motivo para divulgar um texto de Ondjaki, escrito ontem mesmo.

cresci numa Angola em que o Ruy acreditou – e ajudou a construir
Sabemos que perdemos um amigo, um mestre, quando nos é tão difícil falar da sua partida. Sabemos que perdemos um escritor, quando somos invadidos por uma brutal saudade daquilo que ele ainda viria a escrever. Angola perdeu, na minha opinião, um dos pilares mais sólidos da sua literatura e da sua antropologia. Partiu o homem, o artista e o pensador, num corpo que reunia estas coisas com tal elegância e intensidade, que parecia um ser de ficção. Quando um homem, como o Ruy Duarte, pode ser lembrado como exemplo de integridade, coerência, honestidade intelectual e elevadíssima qualidade estética em tudo o que fez, esse homem pode partir em paz – e nós podemos entregar-nos, quase a sorrir, à saudade de o querermos reler. Lembro o poeta. Lembro o amigo. Lembro o mestre. Serenamente, celebro os momentos que passei com ele, em conversa atenta, em diálogos de escutar. Ao homem que escreveu “há coisas que eu diria para entender mais tarde”, eu presto a minha homenagem, não como escritor, mas como jovem angolano. Bem sei que eu cresci numa Angola em que o Ruy acreditou – e ajudou a construir. Bem sei que foi sobretudo para as gerações vindouras que ele andou a escrever, mais ou menos cifrados, os textos que esculpiu para nos dizer o que era “fazer arte”, tendo escolhido a abordagem dos seres discretos, dos corajosos, dos que abdicam na hora certa. Devagarinho, lá teremos de dar “ordem de esquecimento” à nossa saudade; e aos poucos, no que nos deste, havemos de ler todos os “sinais misteriosos” – que já se vão vendo… Obrigado, camarada Ruy. Obrigado mesmo!

(Daqui)
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Puro fel


«Se eu fosse mau como as cobras, em vez de “Cavaco Silva e Sócrates interrompem férias por causa dos incêndios” escreveria "Cavaco Silva interrompe as férias por causa das eleições presidenciais; Sócrates interrompe férias por causa de Cavaco Silva."»

Roubado, sem tirar nem pôr, ao Porfírio Silva.
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Morreu o angolano Ruy Duarte de Carvalho


1941-2010. Participou na luta pela libertação de Angola e tornou-se mais tarde nacional deste país. Poeta, antropólogo, escritor e cineasta. Viveu em Swakopmund, Namíbia, nos últimos anos. A sua poesia encontra-se reunida em Lavra (2005) e os livros Vou lá visitar pastores (1999), Actas da Maianga (2003), Os Papéis do Inglês, As paisagens Propícias (2005), Desmedida (2007), que ganhou o Prêmio Literário Casino da Póvoa, e A Terceira Metade (2009), todos na Cotovia. No Brasil Os Papéis do Inglês (Companhia das Letras) e Desmedida (Língua Geral).
(Foto e texto a partir daqui)

Nota – Encontrei dezenas de notícias em jornais e blogues angolanos e brasileiros que referem, em título, a nacionalidade de RDC. Nenhuma em Portugal.

Em meados do século passado desembarquei em Lisboa com uma bicicleta e uma caixa de tintas a óleo na bagagem. Eram prendas preciosas, uma de aniversário e outra por ter feito o 2º ano do liceu, de que tinha conseguido não me separar quando por decisão familiar fui nessa altura remetido de Moçâmedes para fazer em Santarém, num prazo de 5 anos, o curso de regente agrícola. Mas nem da bicicleta nem das tintas a óleo nunca mais voltei a fazer uso. Passei esses 5 anos na condição de aluno interno, a residir no próprio estabelecimento escolar, e tanto as tintas a óleo, que eram o reconhecimento dos meus mais evidentes talentos de infância, como a bicicleta, que era uma adjectivação de gloriosas adolescências coloniais, foram sacrificadas à disciplina e ao programa da minha estadia em Portugal. Fiz o que tinha a fazer dentro do prazo previsto, fui sendo bom aluno e isso me foi assegurando o direito de vir a Angola com passagens por conta do estado durante quase todas as férias grandes. E em 1960, com 19 anos, voltei definitivamente à jóia da coroa do império português para começar a fazer pela vida, até hoje e a partir daí, conforme as circunstâncias e segundo os meus próprios critérios...

Não estou, porém, evidentemente, a contar a estória pelo princípio. Quando de facto fui embarcado em Moçâmedes com destino a Santarém, eu estava também a ser remetido ao exacto local do meu nascimento biológico e de onde, mais cedo portanto, tinha vindo com a família, que entretanto emigrava arruinada mas servida ainda de criada branca e acompanhada de cães de caça, desembarcar em Moçâmedes. De qualquer maneira o que me calhou na vida foi estar de volta a Angola com um curso médio já feito quando a maioria dos sujeitos angolanos da minha classe etária e com recursos para estudar, com alguns dos quais eu tinha feito o 2º ano do liceu, estava a ser, por sua vez, expedida para a metrópole para estudar em faculdades. Não beneficiei, assim, nem de uma iniciação universitária comum nem da escola de cativação ideológica que também foi para a minha geração a casa dos estudantes do império, por exemplo, e pelo menos duas consequências maiores para o meu percurso biográfico terão resultado desta configuração das coisas : a primeira é que o lugar onde vim ao mundo, na Europa, sempre constituiu para mim, desde que me lembro a enfrentar a vida e a reflectir nas coisas, uma referência de exílio; a segunda é que tudo quanto pela vida fora se me foi revelando em termos de relação com o tempo histórico que foi o meu, e determinando o meu lugar cívico no mundo, acabou de uma maneira geral por me ocorrer a maior parte das vezes de maneira directa, física e existencialmente interpelativa, e não raro brutal, para só vir a impor-se de forma ainda assim mentalmente muito elaborada e muito ruminada, nalguns casos, teoria ajudando, quase sempre só depois.

12.8.10

Parvoíces


Um cardeal romano inventou mais uma questão semi-fracturante na ICAR, ao considerar que as crianças devem passar a ter acesso à primeira comunhão antes dos sete anos, considerada até agora «a idade da razão».

Diz ele que a dita idade da razão chega hoje mais cedo, e eu admito que sim, e o tema não teria qualquer interesse a não ser para os implicados, não fosse a mentalidade que os extractos divulgados do texto do cardeal Cañizares revelam.

Ignoro as considerações que faz sobre a evolução da questão ao longo da história e nem discuto, obviamente, se esperar pelos sete anos é privar alguém «de uma dádiva de Deus» ou se está em causa a força necessária «para viver com felicidade e com esperança» - quem tem fé acredita certamente que sim.

Mas quando leio que «as crianças vivem imersas em mil dificuldades, rodeadas por um ambiente que não as encoraja a ser o que Deus quer que elas sejam», não posso deixar de me perguntar que espécie de Deus draconiano é que esta gente tem na cabeça, que tem desejos e exigências concretas para seres de quatro, cinco ou seis anos. Certamente que não vejam muitos desenhos animados, arrumem os carrinhos e não façam xixi na cama. Com a primeira comunhão mais cedo, tudo isto correrá certamente muito melhor. E Deus ficará feliz.

(Fonte)
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Dizem que é uma espécie de cinquentenário

…  o destes senhores...

Os primórdios:

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Sempre demos luzes ao mundo



Os proibicionistas exultam e esperam que, a partir de hoje, passemos a morrer muito mais saudáveis. E a ideia é «avançar de seguida para outros alimentos», o que até já devia ser feito. Em breve,  restaurantes sem saleiros?

Não se educa, proíbe-se: a tradição ficou-nos no sangue (e a UE veio ajudar). Se é possível comprar pão sem sal, ou com muito pouco, esta medida só pode ser publicidade a uma qualquer Tristar ou incitamento a comércio clandestino e ao secular contrabando.

Podiam ter optado por uma pequena etiqueta: «Comer pão mata».
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