18.6.22

Ide e lede

 

Um ano muito insólito: para onde vamos?
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Maria Bethânia

 


Chega hoje aos 76 com quase 60 anos de uma carreira iniciada em 1963, quando o seu irmão Caetano Veloso a convidou a participar na peça «Boca de Ouro». Foi nessa época que, tal como Caetano, conheceu Gilberto Gil e Gal Costa, e com eles entrou em «Nós, Por Exemplo» (Agosto de 1964).

Depois… continuou até hoje.







Noturno ao vivo (2021):


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Paul McCartney

 


Chega hoje aos 80. Será possível?
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Falácias, erros e o dilema moral sobre a guerra na Ucrânia

 


«Como já há muito poucas coisas que me surpreendem, assisto com mais pena do que furor, a como é possível numa democracia e em liberdade haver boa gente capaz de aceitar tanta falácia, tantas mentiras, tantos erros, e procurar pretextos para aquilo que é um pecado mortal, a acédia, a preguiça, a indiferença na sua pior forma, face ao sofrimento inútil, desnecessário, maléfico dos outros. Usei maléfico intencionalmente, porque, se há mal no mundo, é a violência da morte, da destruição, da fuga, da miséria provocada a quem já estava no limiar da pobreza, por uma invasão brutal, criminosa, sem razões, nem pretextos, da Ucrânia pela Federação Russa de Putin.

Medi todas as palavras: brutal, porque vai muito mais longe das eventuais necessidades militares, é punitiva na sua natureza, para os mais fracos. Criminosa, porque não respeita nem sequer um dos frágeis adquiridos civilizacionais, as leis da guerra. Os dois lados fazem o mesmo, mas, quer se queira quer não, a responsabilidade primeira é do invasor. Sem razões, nem pretextos, porque por muito que se possam acumular razões, e algumas há para a preocupação russa, a resposta é tão desproporcionada, que remete não para essas razões, mas para outras de natureza imperial. Nas democracias devem combater-se essas intenções imperiais de território e riqueza, como se fossem connosco.

Eu sei que escrever o que vou escrever é em grande parte inútil, mas mesmo assim tento, porque o faço para os “outros”, onde estão amigos e companheiros meus. Muitas dessas pessoas são genuinamente altruístas, são capazes de sacrifícios pelos outros, preocupam-se com a miséria e a pobreza, não vivem a sua vida num registo egoísta e individualista, têm os defeitos comuns de toda a gente, mas também tem virtudes menos comuns nos dias de hoje, de dedicação e solidariedade. Podemos criticar muitas das formas políticas que traduzem a sua vida e militância, como podemos criticar a incapacidade de muitos católicos em ultrapassar a caridade por uma consciência social, mas nem por isso deixam de ser, aquilo que uma classificação em desuso, chamava de “pessoas boas”.

Como é possível que não vejam o que se está a passar, porque, por muita manipulação (que há) e por muita espectacularização da dor para garantir audiências, eles sabem que há um enorme sofrimento injusto e injustificável na Ucrânia nestes dias e sabem o que o causa e quem o desencadeou e provocou. Sim, é verdade que na Palestina, no Iémen, em África há idêntico sofrimento, mas fazer amálgamas dissolve a consciência do mal. Deixaram-se prender numa espécie de identidade pelo inimigo, identidade pelo adversário, incapacidade em sair de um mundo político que se indigna com a NATO e acaba por ser indiferente com a Rússia de Putin. Ele há muito poucos defensores explícitos da invasão da Ucrânia, mas há muitos justificadores. É desse esforço de justificação que vou tratar, usando os argumentos do “outro lado”, antes de usar os meus.

As minhas fontes não são discussões nas redes sociais, nem tweets, nem comentários anónimos. São os documentos do PCP, os artigos do Avante! (que mesmo assim evita falar muito da Ucrânia, o que é interessante), os artigos do Abril, Abril, em particular os de José Goulão, os comentários de alguns militares nas televisões, com destaque para a SICN e CNN, e várias outras opiniões de defensores da interpretação essencialmente anti-NATO da guerra. O resultado dessa interpretação é uma equidistância retórica entre a responsabilidade russa e a da NATO e da Ucrânia, contrapondo uma vaga referência à “violação do direito internacional” pela Rússia, com páginas e páginas sobre a esmagadora culpabilidade dos “nazis” ucranianos, da NATO, dos EUA, das indústrias de armamento, da conspiração anticomunista e anti-russa.

Como se trata de adultos, parto do princípio de que eles sabem muito bem o que estão a apoiar, o que estão a defender, o que estão a esconder e onde querem chegar. Vejamos algumas questões:

Começou a “guerra” em 2014?

Sim e não. A “guerra”, se começou em 2014, começou pelo apoio russo à separação do Donbass e pela ocupação da Crimeia, em ambos os casos operações militares com ocupação e anexação do território. Esta é a guerra de 2014. O golpe da Praça Maidan - e repare-se que não coloquei golpe entre aspas -, não é uma guerra, nem serve de pretexto para a guerra actual nem para a de 2014. Os nacionalistas ucranianos, cujo nacionalismo é nos seus extremos protonazi (como aliás o nacionalismo russo, mas não como o nacionalismo francês, por exemplo), não invadiram a Rússia. Vamos chamar guerra à guerra, e guerra é muito mais do que uma “operação militar” (como afirmam os russos), é o que está realmente a acontecer nos dias de hoje.

Manifestar-se pela Paz, mas que “paz”?

Já se realizaram e vão-se realizar várias manifestações com o pretexto da paz. Nos cartazes diz-se “guerra e corrida aos armamentos, não!” Não sei muito bem como interpretar esta palavra de ordem, porque a “guerra” iniciou-se porque houve uma invasão militar de um país pela Rússia e a “corrida aos armamentos” é uma resposta inevitável a essa invasão, não a sua causa. Não deviam nomear a Rússia e dirigir para o invasor a sua condenação em nome da paz? Deve haver um acordo de paz? Sem dúvida, mas desde que esse acordo não implique o benefício do infractor, porque, se é assim, ele favorece a guerra e não a paz. Aquando da guerra do Vietname, identificava-se muito bem os EUA como o agressor, e ninguém esperava que os vietnamitas fizessem um acordo de paz deixando os EUA a ocupar parte do território.

Eu seria o primeiro na manifestação se a paz desejada passasse pela retirada do invasor, pelo pagamento de indemnizações pelas destruições causadas, pela libertação das populações prisioneiras contra a sua vontade na Rússia, pelo julgamento dos crimes de guerra por autoridades independentes, pelo respeito pela soberania ucraniana. E então sim, incluiria nesse acordo, uma considerável autonomia das minorias russófilas na Ucrânia, o seu direito à língua e à cultura, idêntico julgamento dos crimes de guerra ucranianos e a exigência da luta contra a corrupção, a democracia e a liberdade, uma eventual renúncia à entrada na NATO, desmilitarizando as zonas fronteiriças.

Qual foi o maior atentado contra a Paz (com letra grande) nestes dias de guerra?

Foi a ameaça de iniciar uma guerra nuclear feita por Putin e Lavrov, um acto sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial. O “se”, em “se estiver em risco uma ameaça existencial para a Rússia”, torna ainda mais grave a afirmação, dita de viva voz (não é manipulação). Isto, sim, justificava enormes manifestações. Como não há tanques americanos às portas de Moscovo, nem mísseis convencionais lançados do Alasca, a interpretação do que é a “ameaça existencial”, ainda por cima num conflito num país terceiro, por parte de Putin, é mais que perigosa porque dá para tudo.

Continuaremos.»

17.6.22

Jean-Louis Trintignant

 


Menos um. Tinha 91 anos. Ficam no baú da nossa memória «Un homme et une femme», «Ma Nuit Chez Maud», «Z» e tantos outros filmes.




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O Google na NATO?

 


A Big Tech

“Por que é que a NATO precisa de integrar não só a Finlândia, mas também o Google”, escreve o israelita Shlomo Kramer, grande empresário de segurança informática, na revista Fast Company.

Explicita no subtítulo: “Se quereis a paz no mundo, pensai menos na Inglaterra, na França e na Alemanha, e mais no Google, Apple e PayPal.”

Kramer tem um argumento forte. Os colossos do Silicon Valley têm uma capitalização análoga à de países do G7: a Apple tem uma capitalização de 2,18 biliões de dólares, enquanto o PIB italiano é de 1,9 biliões.

Mais: “As multinacionais que geram grande parte do nosso crescimento económico têm a capacidade tecnológica – para não falar do orçamento – para projectar e promover o tipo de dissuasão rápida e eficaz que nenhum governo consegue facilmente fornecer.” As grandes empresas são capazes de fazer melhor e muito mais depressa. E têm, de facto, maior liberdade de acção perante a lei.

Dá o exemplo do PayPal. Quando esta plataforma de pagamentos digitais suspendeu a actividade com a Rússia, o golpe para muitos operadores de comércio electrónico russo foi mais forte do que qualquer outra sanção. Outro exemplo conhecido é o facto de Elon Musk ter ligado à Ucrânia a sua rede de satélites Starlink, com um papel efectivo no campo de batalha.

Seria chocante a ideia de ver os CEO das mega-empresas sentados à mesa do G7, ao lado do Presidente americano ou do francês, ou reunidos com os comandantes militares.

O que Kramer anuncia é uma era de muito maior de interpenetração entre o Estado e a Big Tech, coisa que a China faz metodicamente. O Google acaba de renovar um gigantesco contrato com a Agência de Segurança Nacional americana (NSA).

Conclui em tom algo idealista, mas extremamente actual perante a barbárie reinante. “Aquilo de que precisamos não é de maiores investimentos na segurança informática. Sugerimos uma nova Convenção de Genebra sobre os limites aos objectivos da guerra informática, como hospitais, casas de repouso ou escolas. (…) A Big Tech é orgulhosa de ter transformado todas as indústrias. Chegou o momento de aprender a revolucionar a guerra.”

A geopolítica não desaparece, pelo contrário: ganha novos actores e actores privados. Um futuro inquietante.»

Jorge Almeida Fernandes
Excerto da Newsletter do Público (16.06.2022)
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Pensar global

 


«As grandes crises acarretam frequentemente resoluções importantes. A criação de organizações globais, com o objetivo de pensar o mundo como um todo, foi uma das decisões cruciais que resultaram dos conflitos armados do séc. XX. Existem hoje mais de 300 organizações intergovernamentais e várias delas têm como princípio o propósito de trabalhar com todos e para todos. Criada em 1948, a Organização Mundial da Saúde (OMS) é uma dessas organizações. Das inúmeras conquistas no seu currículo, talvez a mais visível seja a erradicação da varíola, após uma longa campanha mundial de vacinação. É certo que há ainda muito trabalho por fazer — hoje, uma em cada cinco crianças no mundo não recebe vacinas contra doenças evitáveis como a difteria, tosse convulsa, tétano, sarampo ou poliomielite — mas a ação da OMS salvou muitos milhões de vidas nas últimas sete décadas.

Se, para muitos, é clara a importância de haver instituições fortes e inclusivas, que lideram um processo de cooperação e colaboração em vez de competição, outros (e muitas vezes os mesmos) consideram que estas organizações têm modelos de governação ultrapassados e pouco transparentes, não representando o interesse global. O sentimento de desconfiança associa-se frequentemente ao ritmo demasiado lento com que estas organizações normalmente parecem responder às solicitações que lhes são dirigidas.

A pandemia de covid-19 teve a proeza de revelar os extremos destas posições. Durante os últimos dois anos, a OMS esteve na mira de todos, e nem sempre pelas melhores razões, tendo sido criticada por não conseguir convencer os 194 Estados-membros a seguirem as suas orientações. Por outro lado, a pandemia veio relembrar-nos que vivemos todos no mesmo planeta, e que os nossos maiores problemas — sejam pandemias ou resistência a antibióticos ou mudanças climáticas — são todas questões urgentes e globais que só podemos abordar ou mitigar coletivamente.

Enquanto uns apelam a reformas urgentes e efetivas, outros duvidam que haja tempo ou se é mesmo desejável esperar pela reforma das grandes instituições. A cientista, já reformada, Françoise Barré-Sinoussi, laureada em 2008 com o Prémio Nobel em Fisiologia e Medicina pela descoberta do vírus VIH, e o professor de Ciência Política Olivier Nay propuseram recentemente reformular a OMS com a criação de um novo pilar — um Painel Intergovernamental para a Saúde Global — envolvendo uma rede de cientistas de diferentes partes do mundo e de diversas disciplinas, responsáveis por promover consensos científicos sobre as principais questões de saúde e por propor uma agenda global. Tratar-se-ia de algo semelhante ao conhecido IPCC (do inglês Intergovernmental Panel on Climate Change), que, desde que foi criado em 1988, tem sido fundamental para pressionar os governos a agir perante as suas projeções e análises sobre mudanças climáticas. Este novo pilar da OMS funcionaria como uma rede global de especialistas, descentralizada e protegida da pressão política ou interferência burocrática. Dar voz à comunidade científica, com a capacidade de pensar livre e globalmente, resultaria num processo de tomada de decisão mais ambicioso, consensual e inclusivo no ecossistema global de saúde, colocando o conhecimento científico na base da decisão política. O mundo enfrenta enormes desafios, novos e antigos, na saúde global e a OMS continua a ser a única organização com capacidade para traduzir o conhecimento científico em políticas internacionais endossadas pelos mais diversos governos. Reformulá-la é essencial para reganharmos a capacidade de trabalhar com todos e para todos.»

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16.6.22

David Mourão-Ferreira partiu há 26 anos

 


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Não é fotomontagem

 


O autor é António Cotrim, fotojornalista da Lusa (12.06.2022)

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Conversar com Putin

 


Esta doutrina não é, à partida, desprovida de bom senso. Parece é partir de uma falácia inicial. E que não é nova. Não é nova nem na perspetiva histórica, e muito menos na relação que o Ocidente estabeleceu com Putin nas últimas duas décadas. À Europa deu jeito uma relação económica que permitisse construir gasodutos e oleodutos com que se abasteceu com energia barata. (…)

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O veneno da humilhação



 

«A humilhação é daqueles temas que, tal como o tempo para Agostinho de Hipona, sabemos o que é se ninguém nos questiona sobre o assunto, mas, se nos obrigam a explicar, a evidência esfuma-se. Como diferenciar a humilhação de noções irmãs tais como a vergonha, o desprezo, a desonra, a desqualificação, a exclusão ou o sentimento de injustiça? Como explicar um sentimento vivido muitas vezes de forma tão íntima e silenciada? Não é fácil explicar o que é de facto a humilhação quando toca a esfera privada, pessoal, mas também coletiva, ou em contexto histórico ou geopolítico. Ouvimos, nos últimos tempos, falar de humilhação em várias situações como no caso Chris Rock e Will Smith, no da cadeira ausente para Ursula von der Leyen na Turquia, ou as declarações de Macron sobre “não humilhar a Rússia”, fazendo eco ao Tratado de Versalhes e à humilhação do povo alemão que teria levado à ascensão do nazismo.

Em A sociedade decente, o filósofo Avishai Margalit descreve a humilhação como sendo “todo o comportamento ou condição que constitui uma razão válida para uma pessoa considerar o respeito de si ferido”, fazendo também referência à noção de dignidade. Hélène Savoie Colombani em Da humilhação nos mitos kanak descreve a humilhação como sendo “um sentimento de vergonha que resulta de uma ofensa, de um ato que fere o amor próprio, o orgulho ou a dignidade do indivíduo ou de uma comunidade”. Mas como se faz o salto da humilhação para a vingança absolutamente violenta e desproporcionada?

Para o filósofo Olivier Abel, que publicou este ano o livro Da humilhação – o novo veneno da nossa sociedade, esta desproporção é parte integrante do processo de humilhação. Ao contrário da violência que pode ter uma resposta rápida, dou-te um estalo e tu retribuis, a humilhação segue um percurso lento, fica ali em lume brando, provoca ressentimento, rancor, ruminação até explodir. E quando explode é violento, amplificado, desproporcionado. Para Abel, “o papel da humilhação na história é mais importante do que o da violência”. No caso da Alemanha, defende o filósofo, produziu-se uma narrativa, um reescrever da história que tinha precisamente como objetivo exacerbar o sentimento de humilhação do povo alemão. As dificuldades económicas não chegam para excitar um povo, tal como não chegam para explicar comportamentos de voto, como escrevi há tempos aqui numa crónica.

Mas a humilhação não conduz sempre à vingança desproporcionada. Nos assassinatos em massa nas escolas dos EUA, quando estes são cometidos por indivíduos mais jovens, apresenta-se muitas vezes a explicação do historial de assédio, das humilhações passadas enquanto aluno. Corre pela Internet um meme com a célebre foto de Elizabeth Eckford, uma das primeiras alunas negras a frequentar uma escola mista em 1957, a ser agredida verbalmente por um grupo de jovens que gritavam “volta para casa, preta”, “volta para África”, no qual está escrito: “humilhada todos os dias, nunca atacou uma escola”.

Poderia também dar aqui o exemplo dos feminicídios, homens que matam mulheres, que por vezes o fazem por sentimento de humilhação, “porque ela já não quer ser minha, rejeitou-me, vi-a dançar com outro”, etc. E mulheres vítimas de humilhação contínua que não passam para uma fase de vingança desproporcionada. Relembrando-nos a conhecida reflexão, atribuída à escritora Margaret Atwood, mas que na verdade é um resumo do excerto de uma conferência: “Os homens têm medo de que as mulheres se riam deles. As mulheres têm medo de que os homens as matem.” Ao que poderíamos acrescentar: as mulheres têm medo de que os homens as matem porque eles não admitem que “elas se fiquem a rir”.

Existem várias formas de lidar com a humilhação: “Muitos dos que são humilhados não são humildes. Alguns reagem à humilhação com raiva, outros com paciência e outros com liberdade. Os primeiros são culpados, os segundos inofensivos e os últimos justos”, escrevia há quase um século o abade francês Bernardo de Claraval. A correlação entre humilhação e humildade é essencial, pois pode precaver a passagem à vingança, à exageração do orgulho ferido, mas por outro lado também pode fazer o indivíduo cair numa depreciação extrema de si próprio podendo até levar ao suicídio. O monstro não é aquele que me humilha, o monstro sou eu, como bem descreve Sartre.

A questão da humilhação extravasa, portanto, as relações interpessoais, ocorre também ao nível do grupo ou das instituições. A nossa sociedade foi aos poucos saindo da utilização da humilhação como castigo, as orelhas de burro e as reguadas já não se usam, mas processos de humilhação continuam sob outras formas na escola, mas também na relação da polícia ou da justiça com pessoas negativamente racializadas.

A humilhação continua ainda a ser um espetáculo, um divertimento, desde emissões televisivas como “o elo mais fraco”, o estilo de comédia apelidado “roast” que permite insultar, humilhar uma personalidade sendo esta obrigada a manter-se imperturbável, insensível, sem contar com as redes sociais, provedoras prolíficas de todo o tipo de humilhação pública. Encontramos essa mesma injunção à passividade nos que criticam o “politicamente correto”, naqueles que se indignam porque “já não se pode dizer nada”. O verdadeiro problema que aqui se nos coloca não é o da liberdade de expressão dos humilhadores, mas o da liberdade de resposta dos humilhados. O que estas pessoas não suportam é que aqueles que se calavam antes, aqueles que respondiam “sim” à ilustre pergunta “não levas a mal, pois não?” agora respondam “sim, levo”.


É preciso, pois, encontrar um equilíbrio na resposta à humilhação, entre a humildade extrema, o “dar a outra face” crístico, e a vingança desproporcional injustificável, entre a passividade e o ódio. E isso passa pela justiça e liberdade. E ainda por repudiar a manipulação de sentimentos de humilhação baseados em orgulhos supremacistas e a sua justificação ou tolerância. Em deixar de tomar as dores dos mais fortes quando estes atacam os mais fracos. Mas, sobretudo, é necessário construir uma sociedade na qual a humilhação não seja valorizada e aplaudida, onde cuidarmos uns dos outros não seja visto como uma fragilidade, mas como uma resistência.»

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15.6.22

A saga da falta de médicos

 

«Tenho ouvido, sempre que possível, os debates nos órgãos de comunicação social sobre as falhas nas urgências e os serviços encerrados por falta de pessoal. Há duas coisas que retive destes debates e que me parecem óbvias e fáceis de pôr em prática. A primeira é dar muito mais responsabilidade aos órgãos de gestão dos hospitais e das unidades de saúde. Para gerir, para contratar, para organizar. A segunda tem a ver com as remunerações. Como é possível que um tarefeiro, contratado a uma empresa privada de recursos humanos para suprir a falta de pessoal dos hospitais, possa ganhar à hora muito mais do que os médicos do quadro desse mesmo hospital? É tão absurdo que nem sequer a velha explicação de que se trata das regras da concorrência consegue justificar. Ao mesmo tempo, o ministério queixa-se de que muitas das vagas abertas por concurso ficam por preencher.

Depois, há a velha questão das remunerações. Porque é que os médicos não podem ganhar tanto como os juízes? Ou mais do que outros quadros superiores da função pública? É como os pilotos, que ganham imenso porque exercem uma profissão desgastante e extremamente exigente. Haverá alguma profissão mais exigente do que a dos médicos? Porque é que não ganham por mérito e por capacidade? Seria, talvez, útil romper com o tabu da igualdade.»

Teresa de Sousa
Newsletter do Público, 14.06.2022
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