«Na última semana, o Presidente da República afirmou que Donald Trump é, “objetivamente, um activo soviético... russo [sic]”. Disse-o sem hesitação, com tal à-vontade, como se a frase fosse apenas ligeiramente excêntrica e não, como de facto é, um precipício. Soou como gafe, foi tratada como delírio marcelesco, mas há na escolha das palavras uma inquietação que vale mais do que o escândalo. Porque, no fundo — e apesar do riso que provocou —, a tese de Marcelo não é nova. Circula há anos, em surdina: Trump não poderá ser um erro da democracia. É (tem de ser) um cavalo de tróia russo. Um presidente estrangeiro no seu próprio país, conduzido pela chantagem, pela dívida, por alguma informação comprometedora.
A ideia de que Trump age sob coacção — de que alguém o guia a partir das sombras — oferece um certo conforto. É um enredo clássico, à la Guerra Fria: o mal vem de fora, é engenhoso, manipulador, não é nosso. Há um vilão com um plano e um protagonista aprisionado. Mas essa hipótese, reciclada da teoria do Manchurian Candidate, talvez seja mais fantasiosa do que perturbadora. Porque a verdade é mais crua. Trump não precisa de conspirações para agir contra a ordem liberal.
Fê-lo de livre vontade, e fê-lo inúmeras vezes. Ameaçou retirar os Estados Unidos da América da NATO, desvalorizou o artigo 5.º do tratado, apelidou a União Europeia de inimiga e fragilizou relações com aliados históricos, enquanto elogiava, sem ironia, a “força” e a “inteligência” de Vladimir Putin. Convidou Volodymyr Zelenskyy a Washington com honras de aliado para, pouco depois, o destratar publicamente. Sabotou as agências de inteligência americanas, em Helsínquia, perante o próprio Putin.
Há gestos que atravessam a democracia como fendas. Donald Trump o primeiro presidente moderno a ameaçar infringir os direitos dos Estados americanos e a ameaçar mobilizar o exército contra o próprio povo. Instigou o redesenho de mapas eleitorais e exigiu, num registo de absurdo institucional, mais cinco lugares no Congresso, como se lhe fossem devidos por direito divino. O Texas, que redesenhou os seus mapas distritais em 2021, não tem qualquer base para o fazer agora. Mas Trump quer e, dentro do seu círculo, querer é quase ter.
Soma-se a tudo isto a sua interferência direta em declarações conjuntas internacionais — como quando recusou reconhecer a Rússia como o agressor num comunicado do G7 — e a crescente erosão dos equilíbrios de poder internos. Desrespeito por ordens judiciais, ataques ao poder legislativo, constrangimento ativo de estados que não alinham com a linha federal. E mais longe: o apoio tácito a figuras próximas do Kremlin, como o candidato Călin Georgescu, cuja eleição na Roménia foi anulada por suspeitas fundadas de interferência russa. A vice-presidência americana, ao reagir, alinhou do lado errado da história.
Isto não exige conspiração. Exige memória. E coragem para ver.
Há algo mais perigoso do que uma pessoa que mente: uma pessoa que acredita. A chantagem pode ser denunciada. A manipulação pode ser desarmada. Mas a crença — sobretudo quando se confunde com destino — transforma-se num motor quase místico. Trump não age como quem serve interesses alheios, como um peão. Age como um cruzado que cumpre um desígnio. E é isso que o torna incontrolável. O seu poder não é apenas institucional, é emocional, espiritual, performativo. E, quando um líder acredita na sua missão com mais fervor do que nas regras que jurou cumprir, já não há sistema de freios que o detenha. Só a queda.
Mas o que nos inquieta verdadeiramente não é ele. Somos nós. O que a figura de Trump expõe — sem máscara, sem filtro, sem media training — é uma verdade que preferimos não ver: o Ocidente produziu o seu próprio delírio. John Gray escrevia que “os racionalistas liberais desviam o olhar do mundo que, sem saber, ajudaram a criar”. Trump não é um intruso. É a distorção de um modelo que já não sabe o que é, nem a quem serve. A ideia de verdade foi-se tornando tão frágil, tão relacional, tão mediada, que acabou por se tornar opcional. E, agora, perante um homem que vive nesse regime de pós-verdade como se fosse o único possível, o espanto já não basta. Espantar-se é, em si, um privilégio.
É por isso que a teoria da conspiração conforta. Porque oferece uma ficção de ordem, ainda que perversa, num mundo que já não reconhece os seus próprios reflexos. Dizer que Trump está sob o controlo de Moscovo é menos inquietante do que admitir que milhões de americanos — e não só — acreditam nele por vontade própria. Que o seguem, que o aplaudem, que o elegem, e que o farão de novo, se tiverem oportunidade. O perigo não está no estrangeiro. Está em casa.
E nós, deste lado do Atlântico, assistimos com uma mistura de incredulidade e impotência. Mas também com uma estranha dependência. Porque Trump ameaça a própria arquitetura ocidental, mas continua a ser o líder da potência na qual se ancora a nossa segurança. A Europa, que se habituou a projectar o seu poder através da diplomacia e da economia, descobre-se desarmada perante o regresso do imperialismo místico. E os que ainda acreditam no primado da razão, da norma e da moderação, reagem com o mesmo gesto de sempre: espanto.
O espanto, hoje, é fuga.»

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