2.1.08

O Tratado de Lisboa em Dez Fichas

A FONDATION ROBERT SCHUMAN publicou um estudo intitulado «O Tratado de Lisboa explicado em 10 fichas», disponível em francês e em inglês.

Trata-se de um documento longo, muito claro e bem esquematizado. Parece-me um bom instrumento de trabalho para / se / quando o tema vier a ser discutido a sério entre nós.

Mas não fiquei convencida quanto à dispensabilidade de referendo para os países que se tinham comprometido a fazê-lo – antes pelo contrário.

Diz-se, por exemplo, a páginas tantas:

«O objectivo da Constituição europeia era aumentar a eficácia das instituições da União, aprofundando o seu funcionamento no plano democrático. Face ao bloqueamento do processo de ratificação provocado pelo “não” da França e da Holanda, na Primavera de 2005, o problema permanecia intacto e tinha de ser resolvido.»
(...)
«Esta mudança de perspectiva, na aparência essencialmente formal, permite responder aos pedidos de países como a Holanda, a República Checa ou o Reino Unido que consideraram, durante a negociação, que era preciso abandonar:
«- os símbolos “constitucionais” (os termos “Constituição”, “ministro europeu dos Negócios Estrangeiros”, “leis” e “leis-quadro”);
- os símbolos da União (bandeira, hino, divisa, etc.)».


Na essência, Constituição e Tratado não diferem. Nada que não se soubesse.

Vejo a Europa como um doente a quem foi diagnosticado um problema cardíaco e que vai ser sujeito a um transplante de coração. Mas, como ele não quer, diz-se-lhe que será um simples bypass.

1.1.08

O fim do fumo


Também em França, entraram hoje em vigor as medidas antitabagistas. Cá, como lá, paremos para pensar - talvez demasiado tarde.

Alguns excertos de um artigo do Libération:

«Quand on entre dans un célèbre café à Saint-Germain-des-Prés où il est désormais interdit de fumer, on se souvient des artistes et des intellectuels qui étaient là, assis à leurs tables, avec leurs cigarettes ou leurs cigarillos. On voudrait nous faire croire, depuis que sur la photographie de Jean-Paul Sartre, on a retiré la cigarette qu’il tenait dans sa main, combien ce siècle passé, pourtant si riche en inventions de la pensée, pourrait laisser le souvenir d’une certaine décadence. (*) (...)

Cette impression de vivre "la fin d’une époque" coïncide curieusement avec le constat d’une disparition ostensible ou sournoise des libertés, au nom d’une optimisation de la gestion de la société. (...)

Nul ne peut ignorer que, derrière l’interdiction de fumer dans l’espace public, se cache une véritable stratégie de l’interdit. (...)

Au nom de la majorité, la résignation collective aux nouvelles figures de l’assujettissement, rendues légitimes par les impératifs de la santé publique, deviendrait alors une mesure idéale des progrès de la démocratie.»

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(*) Trata-se da fotografia acima reproduzida e que foi retocada, como se explica aqui.

31.12.07

O SIM que salvou o ano

Nas quinhentas e uma revistas de 2007 que vão desfilando, há pouquíssimas referências à vitória do Sim no referendo sobre o aborto. Ainda menos à sua importância (*).

Para mim, 11 de Fevereiro foi o dia mais importante do ano em Portugal. Foi nele que se fez realmente a diferença, porque demos então um passo em frente, ética e civilizacionalmente. Contra ventos e muitas marés, os portugueses (poucos, é certo, mas os suficientes) disseram «Basta!» ao obscurantismo e à hipocrisia. Tiraram manchas cinzentas à História.

Sem passadeiras vermelhas nem canetas de prata, festejámos, no Altis em Lisboa e noutros locais por todo o país. Com alegria genuína, depois de uma campanha difícil, com menos recursos (muito menos) do que as imagens das televisões poderiam fazer crer.

Um mês antes do referendo, fui a uma primeira reunião de «voluntários» de um dos movimentos e quase caí de espanto quando constatei que os dedos de pouco mais de uma mão chegavam para contar as presenças. Arregaçámos as mangas e outros se foram juntando (mais «outras», naturalmente ou nem por isso...), mas nunca fomos muitos. Porque a verdade é que, se havia sempre notáveis disponíveis para serem entrevistados, faltavam mãos para tarefas «menores» e pés para calcorrear ruas, gélidas e chuvosas, em épicas distribuições de muitos milhares de panfletos.

Mas «tout est bien qui finit bien» – e foi o caso. Felizmente.

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(*) Excepção – expectável – para a Shyznogud, em Womenage à Trois.

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Declaração conjunta dos Movimentos pelo Sim, Hotel Altis, 11/2/2007:

De que se ri o governo?

...é o título da crónica de Daniel Sampaio na Pública desta semana (sem link).

Alguns excertos (o realce é meu):

«Acima de tudo, perdeu-se a esperança. Ouve-se na rua o ruído de grandes manifestações, mas sobretudo pressente-se a apatia, o desinteresse pela política, a falta de entusiasmo, a indiferença ou desdém para com os membros do governo (odiados ou apenas tolerados, nunca estimados), que se empertigam ao menor sinal de oposição.»

«...na realidade, ninguém se deveria gabar do fecho de uma escola ou do encerramento de um hospital: é preciso perceber que se está apenas a oferecer um binóculo longínquo a quem acaba de perder os óculos



A última imagem é especialmente feliz. Este governo anda a oferecer binóculos, computadores e Novas Oportunidades a quem precisa de óculos, tabuadas e emprego.

30.12.07

Espanha: a Igreja ao ataque

ACTUALIZADO (*)


Realizou-se hoje, em Madrid, uma grande manifestação convocada pelo arcebispo da capital como «Acto de defesa da família cristã» – um milhão e meio de participantes, segundo os organizadores, quarenta bispos e uma mensagem especial de Bento XVI transmitida por videoconferência.

Na prática, e a três meses das eleições gerais, foi um protesto contra o governo de Zapatero, pelas medidas tomadas em vários domínios como divórcio, casamento de homossexuais, aborto e educação para a cidadania. O sistema foi acusado de defender um «laicismo radical» que, ao atacar a família, «leva à dissolução da democracia».

Os problemas das relações entre a Igreja e o governo socialista manifestaram-se desde que este iniciou o seu mandato, em 2004. O El País de hoje traz um interessante artigo sobre o assunto.

Neste momento, a hierarquia eclesiástica está de tal modo aliada ao PP, na oposição, que alguns sectores da Igreja e uma parte da própria direita se sentem incomodados. E isto apesar de alguns recuos por parte do governo:

«Además de renunciar a ampliar la legislación sobre el aborto y a abordar la eutanasia, el Gobierno ha mantenido la asignatura de religión en la escuela - como oferta obligatoria, aunque sin computar a los efectos de la nota final -, y ha estabilizado laboralmente a cargo de las arcas del Estado a los 15.000 profesores de la asignatura, 8.000 de ellos en la escuela pública, que la jerarquía eclesiástica selecciona y despide a su libre albedrío, guiada por criterios tan extravagantes para la moral civil como "vivir en pecado" o divorciarse.»

Assiste-se ao renascer de uma ideologia neotradicionalista que recupera a velha tentação de impor ao conjunto da sociedade as normas morais da Igreja – de uma forma muito intransigente e relativamente agressiva.


Perante tudo isto, os nossos policarpos parecem, apesar de tudo, mais ou menos meninos de coro – digo eu...

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(*) Aconselho a leitura deste texto de Rui Bebiano, o meu comentário ao mesmo e a sua resposta.

28.12.07

Aos Prezados Accionistas

Numa carta datada de 19 de Dezembro, mas que só hoje, dia 28 (!), chegou a cada «Prezado Accionista», diz Jardim Gonçalves:

«Reflecti profundamente sobre o presente e futuro do Millennium bcp [escreve-se mesmo assim, com minúsculas] e tomei a decisão que considero, no presente, como a mais adequada. Tal como em 2005, cessarei as funções que desempenho a um ano do final do mandato e uma vez encerrado o exercício».

Refere ainda que continuará a ser decisiva para o banco «a existência de uma ampla transparência e convergência de vontades e interesses».

Escusava de se ter cansado a reflectir - e quanto a transparência, já sabíamos que foi exemplar...

Homens e lobos

ACTUALIZAÇÃO (*):

No Quarta República (via A Origem das Espécies).

«O Governo, o presente, desmantelou mais uma Unidade de Urgência em Vila Pouca de Aguiar, tendo os doentes que seguir para Vila Real. (...)

Enquanto isto, o Governo, e aí não sei se foi o actual, esbanjou entre 100 e 150 milhões de euros para construir um viaduto exclusivamente destinado a lobos e proceder a alterações no traçado da auto-estrada de Vila Real para Chaves, precisamente nas imediações de Vila Pouca de Aguiar.

Apesar de haver várias passagens subterrâneas destinadas aos bichos em geral, a distinta casta dos lobos exigiu um caminho aéreo, com arranjo paisagístico especial, para não lhes criar stress no atravessamento.

São sete os lobos de tão elevada estirpe, pelo que cada um custou cerca 20 milhões de euros!...De elevada estirpe e de inteligência pelo menos tão fina como a dos promotores do loboduto: parece que ainda nenhum atinou com tal caminho!...»


Embora reconheça que há muita ignorância e/ou muita demagogia nas manifesações contra encerramento de urgências e similares, custar-me-ia a engolir esta «pílula» se vivesse em Vila Pouca de Aguiar...



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(*) Aconselho a leitura dos esclarecimentos deixados pelo leitor Henrique Pereira dos Santos (a quem agradeço) na Caixa de Comentários.

27.12.07

Matai-vos uns aos outros


Tinha acabado de ler a homilia de Natal de D. José Policarpo, quando caiu a notícia do assassinato de Benazir Bhutto.

O cardeal fez um discurso virado para dentro da sua comunidade, em termos estranhos para o comum dos mortais (« Separados pelo pecado, Deus e o homem reencontram-se em Jesus Cristo, podem conhecer-se e amar-se, na verdade profunda dos seus corações»). Tudo bem – a missa era dele e os fiéis também.

Mas, e isso é mais grave, aproveitou para afirmar que «todas as expressões de ateísmo, todas as formas existenciais de negação ou esquecimento de Deus, continuam a ser o maior drama da humanidade».

Ignorou – ou fingiu ignorar – que as religiões e as suas igrejas são também «o maior drama da humanidade», porque estão muito longe (cada vez mais longe?) de serem um elo entre nações e dentro das nações. Porque os homens continuam a matar em nome dos deuses e dos seus representantes na terra. Porque há religião a mais – e não a menos – a determinar os destinos do mundo.

Hoje, a vítima foi Benazir Bhutto – apenas mais uma.

26.12.07

Festivos equívocos


Regressou a calma. Ficaram para trás supostas ou reais alegrias, os gastos e o desgaste.

Há um tempo e uma idade para tudo. Mas parece-me que nunca ouvi, como este ano, tantas pessoas desejarem Boas Festas ao mesmo tempo que confessavam sofrer antecipadamente com a perspectiva da invasão de filhos, netos e sobrinhos, queixando-se (aos outros) do malentendido que se anunciava como de festa e de reencontro.

As crianças agradecem. São atafulhadas de embrulhos sem perceberem muito bem a razão, fingem acreditar que não é o avô que está vestido de Pai Natal e tiram partido da situação. Melhor para elas.

Quanto aos adultos que não acreditam no Menino Jesus, há sobretudo trabalho e comezainas - como se do fim de um ramadão se tratasse. Este ano, vieram à televisão uns fundamentalistas das dietas aconselhar-nos a comer um prato de sopa ou uma fatia de pão escuro antes da ceia para depois termos menos fome. Sera que há pachorra?

Há também as complicações das famílias. No caso de um casal meu amigo, em que ambos têm pais separados e recasados, há tantas refeições a marcar, e com tantos filhos e enteados, que os almoços e ceias começam no dia 24 mas só param lá para 27.

Quase não ouvi notícias, a não ser como fundo de outros barulhos. Mas parece que o Sócrates continua contente, o Cardeal preocupado e o Papa igual a si próprio. Ainda bem.

Não desanimem porque para o ano há mais – a nossa matriz judaico-cristã assim o determina.