12.1.11

Rios que vão (4)






Rio Yangtze, China (2004)
...
...

11.1.11

«Era uma vez um pintor que havia em Moçambique» - Um texto de DIANA ANDRINGA


Quando Moçambique se despede de Malangatana, um texto de Diana Andringa, incluído no Catálogo da Exposição «Novos Sonhos a Preto e Branco», aberta ao público até 23 de Janeiro, na Casa da Cerca - Centro de Arte Contemporânea, em Almada.


Conheci o Malangatana muitos anos antes de o conhecer.

“Era uma vez um pintor que havia em Moçambique e cujos quadros fotografavam coisas que sabíamos que eram África, mesmo que nunca tivéssemos estado em África...”

E mais uma coisa: “Esse pintor, sabes? Esse pintor é negro.”

Bem que desconfiara, eu, ao olhar os quadros. Mas duvidando: Moçambique não era, então, uma terra que desse a negros a possibilidade de se tornarem pintores.

Era mais comum serem exactamente aquilo que ele foi: babá de meninos, apanhador de bolas, aprendiz de curandeiro... Aprendiz de curandeiro? É isso que explica aquelas formas estranhas entre as pessoas comuns que povoam os quadros?

Não conhecia Malangatana, não conhecia Moçambique, mas aqueles quadros eram-me familiares. Aquelas caras que me olhavam, aqueles olhos onde perpassava medo, susto, dor, mas também – mas sobretudo? – dignidade. E espanto: um espanto de recusar que o Mundo pudesse ser assim, como de facto era.

Espanto igual o meu: e onde, nesse Mundo, nesse Moçambique onde negro, se acaso cidadão – ou seja, não indígena, “assimilado” – o era sempre de segunda classe, fora Malangatana buscar essa capacidade de pintar?

No Catálogo de uma exposição organizada em 1961 – tinha Malangatana uns 25 anos – pelo Núcleo de Arte de Lourenço Marques, Pancho Guedes, depois de referir que os quadros apresentados eram “resultado de pouco mais de um ano e meio de trabalho de ex-criado de bar”, escrevia:

“Malangatana é um pintor natural, completo, nele a composição, a harmonia de cores, não é jogo intelectual: acontece-lhe, tão naturalmente como as histórias e as visões.

Ele sabe sem saber. (...)

Ele é visitado por espíritos; certos quadros são alucinações, fragmentos de um inferno que já foi de Bosh.

Malangatana tem um conhecimento profundo das razões subterrâneas dos homens, o que aliado à sua extraordinária visão formal, produz pintura de uma totalidade tão rara que apesar de ele ser um principiante já é um dos primeiros pintores de África.”


Encruzilhada


Concorde-se ou não com os diagnósticos e com a terapia aconselhada, vale a pena ler a análise de Filipe González sobre a questão europeia, publicada ontem em El País.

«Los ciudadanos de los distintos países se mueven en el desasosiego, cuando no en la frustración, con actitudes de rechazo a las reformas estructurales imprescindibles que se están proponiendo por los distintos Gobiernos, porque piensan que son la consecuencia de una crisis financiera de la que no se sienten responsables. No entienden que el coste de la crisis lo paguen los que no la provocaron, en tanto siguen campando a sus anchas los que nos llevaron a ella.»
...
...

Não há almoços grátis


Resta saber se há mesmo lugares para todos à mesa…

«China se está convirtiendo en un socio político clave para Europa. Todo se desarrolla como si China hubiera decidido desmentir a los pájaros de mal agüero que nos prometían un futuro de aislamiento para Europa a raíz de la nueva dominación chino-estadounidense, el G-2. Pero, por suerte, China parece preferir un G-3. Un juego a tres bandas que permite, entre otras cosas, hacer avanzar en el seno del G-20 la voluntad compartida por China y los europeos de instaurar una mejor regulación y vigilancia del sistema monetario internacional.

Dos factores objetivos explican el enfoque chino: por una parte, no perder un buen cliente para sus exportaciones; por otra, reforzar la zona euro encaja mejor con la doctrina monetaria china, que también es favorable a los movimientos controlados, lo que le permitiría reevaluar su moneda a su ritmo, en lugar de la brutal reevaluación que reclama EE UU. También cabe destacar un indiscutible componente de "revancha histórica" por un país que, en el siglo XIX, conoció un principio de colonización a través de las factorías europeas y hoy compra factorías en Europa. Pero todo esto se inscribe en un contexto de interdependencia bienvenida. Y para los europeos representa la oportunidad histórica de un juego más abierto, de una Europa a la que China invita a ocupar su lugar, en vez de aceptar verse marginada algún día.»

(Daqui.)
...
...

10.1.11

Voto útil, voto contra


Sempre me insurgi contra a defesa do voto útil em eleições legislativas, porque me recuso a deixar de apoiar e partido com que tenho mais afinidades para escolher um outro, apenas por receio de que um terceiro venha a ser o mais votado: o meu voto tem efeitos na composição das bancadas parlamentares.

Concretamente e apesar de todos os apelos lancinantes de uma certa esquerda, não votei PS em 2009 por causa do simples «pavor» de ver Manuela Ferreira Leite em S. Bento. Não tenho filiação partidária mas mantive o apoio ao Bloco e renová-lo-ia amanhã: a experiência mostra bem que ter uma parte das bancadas da AR à esquerda do PS, com uma presença tão forte quanto possível, foi e é absolutamente fundamental. E como abomino maiorias absolutas, acabei por juntar o útil ao (resultado) agradável.

Em presidenciais, a questão põe-se em termos completamente diferentes porque se trata de um campeonato em que só há um que ganha - ou logo à primeira volta, ou em confronto com um outro, três semanas mais tarde.

Assim sendo, no dia 23, todos os votos de quem não quer Cavaco em Belém por mais cinco anos são «úteis» porque são «contra» a hipótese de ele ganhar imediatamente.

Pode-se escolher qualquer dos outros candidatos e o importante é não ficar em casa. Mas os que votarem em Manuel Alegre poderão fazê-lo por uma de duas razões: por considerarem que ele é o melhor de todos os candidatos em campo - e eu considero -, ou porque Cavaco entrará tanto mais fragilizado na segunda etapa da campanha quanto maior, na primeira, for a votação no seu único potencial adversário. E isso conta.

Depois, para 13 de Fevereiro, … as contas não serão difíceis.

(Publicado também aqui.)
...
...

Para a eternidade


Fiquem então descansados, historiadores e memorialistas, porque nada disto se vai perder ao longo dos tempos - «isto» sendo conteúdo de blogues, páginas do Facebook, perfis de Twitter e tudo o mais que adiante aparecerá, que ficará protegido em túmulos virtuais para alguém mais tarde consultar.

Vêm aí os e-túmulos, alimentados por energia solar (ecologia oblige…) e acessíveis a partir de um simples telemóvel com bluetooth. Muito mais atractivos do que as sinistras pedras de mármore em campas rasas, não sei se a ocupar prateleiras em jazigos, mas certamente ornamentáveis com fotografias tiradas do Facebook ou de posts de um qualquer blogue.

Claro que já surgiram as primeiras discussões sobre direitos de acesso: deve este ser reservado a familiares dos autores ou não, com que regras de protecção de privacidade, que defesas contra hackers devem ser garantidas, etc., etc. etc.

O que não é dito é se o Facebook continuará activo entre e-túmulos, dando aos seus habitantes a possibilidade de criarem grupos do tipo «we are dead».

Tudo matéria para reflexão sobre o que aí vem, mais dia menos semestre.

(Daqui, via Virgílio Vargas no Facebook)
...
...

Uma bela alegoria que dispensa muitas explicações


«Uma epidemia abateu-se sobre um bairro, ameaçando sobretudo as casas periféricas, mais frágeis. Apesar de a vida do bairro ser gerida entre as famílias, segundo processos democráticos por todos estabelecidos, os moradores das casas do centro, mais poderosos, entenderam ordenar aos moradores da periferia o que deviam fazer para evitar (ou curar) a epidemia. Num claro abuso de poder face às regras vigentes, não se limitaram portanto a dizer que era preciso estancá-la, acrescentando como o deviam fazer. E a todo o momento lembravam os restantes moradores que o incumprimento das suas orientações clínicas poderia acarretar, em última instância, a expulsão da comunidade.»

Continua aqui.
...
...

Agachar


(A propósito das notícias sobre entrada do FMI em Portugal, por «desejo» da Alemanha e da França.)

«O primeiro-ministro "desvaloriza" e o presidente da República "desconhece". Este, num repente de dignidade nacional (que diabo!, estamos em período eleitoral), estranha que a notícia tenha surgido sem o caso ter sido discutido no "palco próprio" que, segundo a presidencial opinião, será, não o país, mas as... "instâncias comunitárias".

Ou seja, Alemanha e França já decidiram que seremos governados pelo FMI e aqueles que elegemos para nos governarem ainda não sabem de nada. Nem eles nem (pois o marido é sempre o último a saber) o país, a quem será cobrada a factura.

A tragicomédia tem ainda um terceiro protagonista, o líder do PSD que, na excitante perspectiva de vir aí um tutor, quer eleições, convicto de que ele próprio será seu melhor e mais cumpridor lugar-tenente do que o actual primeiro-ministro.

Gerada nas cinzas convulsas da humilhação do Ultimato Inglês, é a vez de a medíocre República que hoje temos se agachar, também ela sem o mais leve assomo, já não digo de orgulho, mas de soberania.»

Manuel António Pina, no JN.
...
...

9.1.11

Vítor Alves - Morreu o Capitão Diplomata


Um texto de Mª Manuela Cruzeiro, escrito para este blogue.

Era o mais sereno e discreto dos Capitães de Abril, na verdade Major, alguém que se imaginava melhor nos corredores da carreira diplomática do que nas unidades militares, mesmo que fosse na sala de oficiais.

Oficial do Estado Maior, levou para a conspiração a dose de realismo, moderação e autoridade que refreasse os excessos de optimismo dos jovens capitães. Membro da Direcção da Comissão Coordenadora do MFA (juntamente com Otelo e Vasco Lourenço), integrou o núcleo duro do Movimento, desempenhando o delicado papel de mediador nas difíceis negociações do Programa do MFA, um texto que faria do 25 de Abril algo muito diferente de um clássico golpe militar.

Essa imagem colou-se-lhe. Será sempre o capitão diplomata. Controlado nas palavras e nas emoções, nunca se vangloriou do seu protagonismo pessoal e muito menos quis louros que não lhe pertencessem, sempre fiel à curta declaração que fez na primeira conferência de imprensa na noite de 25 de Abril de 1974: «Não houve um só chefe. Fomos todos nós!»

O seu low profile manteve-se, quase fazendo esquecer uma brilhante carreira político-militar, que atravessou todas as fases da Revolução: integrou o Conselho da Revolução durante toda a sua vigência, foi membro do Conselho de Estado, figura destacada do Grupo dos 9, além de ser o militar de Abril com mais intenso percurso político: Ministro sem pasta do 2º e 3º governos provisórios, Ministro da Defesa Nacional e da Comunicação Social no 4º Governo Provisório, Ministro da Educação e Investigação Científica no 6º Governo Provisório.

Morreu num período de profunda crise nacional e, consequentemente, de vertiginosa actividade noticiosa - razão (ou pretexto?) pela qual a sua morte não passará de breve apontamento nos grandes meios de informação. Já assim aconteceu com outros seus companheiros. É pena, é injusto, é indesculpável um país despedir-se assim de um dos seus melhores.

...
...

Cavaco e a laicidade


Foram tantos e tão graves os acontecimentos vividos nos últimos tempos, e tudo se passou de uma forma a tal ponto vertiginosa, que a visita de Bento 16 a Portugal parece ter-se realizado há uma eternidade, quando ainda nem sequer decorreram nove meses desde que teve lugar.

Mas, neste momento de balanço crítico do actual mandato do presidente da República, convém lembrar o que foi então o seu comportamento em termos de falta de respeito pela laicidade da República, a que os portugueses tinham direito.

Muitas vozes tentaram fazer-se ouvir desde que foi anunciada a visita e as circunstâncias em que a mesma decorreria como, por exemplo, a tomada de posição de 5.550 pessoas que assinaram uma Petição, da qual retiro dois parágrafos mas que se encontra online na íntegra:

«Desejamos deixar claro que, se em Portugal há católicos dos quais uma fracção, mais ou menos importante, se regozijará com a visita de Joseph Ratzinger, há também católicos e não católicos para quem o carácter oficial da visita papal, o seu financiamento público e a tolerância de ponto concedida pelo Governo, são agressões perpetradas contra os princípios de laicidade do poder político que a própria Constituição da República Portuguesa institui.

Esta infracção da laicidade a que estão constitucionalmente vinculadas as autoridades republicanas torna-se ainda mais gritante e deletéria quando consideramos que se celebra este ano o Centenário da Implantação da República, de cujo legado faz parte o princípio de clara separação entre Estado e Igreja, contra o qual atentará qualquer confusão entre homenagens a um chefe de Estado e participação oficial dos titulares de órgãos de soberania em cerimoniais religiosos.»

O que se passou na realidade é do conhecimento público, mas a própria página da Presidência da República (verdadeira bíblia, permanentemente citada por Cavaco Silva…) registou para a eternidade que o presidente foi esperar o papa ao aeroporto de Lisboa, o recebeu com Honras de Estado nos Jerónimos e depois em Belém, assistiu à missa no Terreiro do Paço em Lisboa, às cerimónias em Fátima e foi à despedida no aeroporto Sá Carneiro, no Porto.

O exagero que tudo isto representou, em especial a participação nos actos religiosos, não como cidadão católico mas com estatuto de chefe de Estado (ou não estaria registada e ilustradíssima na página da Presidência...), foi, no meu entender, absolutamente inadmissível.

Num outro registo, recorde-se também como lamentável a presença de toda a família do presidente na cerimónia que teve lugar no Palácio de Belém, numa clara sobreposição do plano oficial com o familiar. Este vídeo notável ficará guardado no nosso anedotário - e não só.


---
---

Entretanto no Brasil


Já falei em tempos do caso Cesare Battisti, escritor italiano, antigo membro de um grupo de luta armada, muito activo nos últimos anos da década de 70.

Embora se tenha declarado inocente, foi condenado a prisão perpétua em 1987 por vários crimes que lhe foram atribuídos, partiu a tempo para França e depois para o México, regressando mais tarde a Paris onde viveu e trabalhou. Acabou por ter de fugir para o Brasil antes que se concretizasse a decisão do Conselho de Estado francês que autorizou a sua extradição, na sequência de um terceiro pedido feito por Itália (depois dos dois primeiros terem sido recusados). A mesma solicitação viria a ser feita ao Brasil, onde Battisti foi preso preventivamente em 2007.

Um dos últimos actos de Lula da Silva como presidente foi recusar a extradição de Battisti, mas a direita brasileira não desiste e tenta ganhar a questão no plano jurídico. Todos os pormenores sobre este caso, actualizados hoje no Passa Palavra.
...

Um tema que regressou

...

...
...