9.10.12

FMI dixit



«Não chegam as receitas "tradicionais" para o ajustamento nos países "periféricos". É necessário que os países com excedentes na zona euro importem mais dos outros membros. É preciso desvalorizar o euro, colocar no terreno um mecanismo de transferências interno e criar condições de financiamento menos onerosas para os países deficitários.»  

Daqui.
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Merkel: o mesmo casaquinho


Hoje, em Atenas

Campeonato Europeu de Futebol, Junho 2012, (Alemanha 4 – Grécia 2).


(Confesso que até acho uma certa graça. Antes isto do que as griffes da Lagarde!)
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E quanto a alternativas



... é nas linhas que Nuno Ramos de Almeida escreve hoje no «i» que me revejo. Tudo o resto está nas entrelinhas. 

 «O actual programa do PSD, CDS e da direcção do PS é o mesmo e chama-se: Memorando da troika.

É simbólico que no meio da maior crise existente a única proposta do líder do chamado “maior partido da oposição” seja diminuir o número de deputados. Como se a garantia de uma economia justa passasse por ter um parlamento só com representantes do PS e do PSD. Esta iniciativa tem um objectivo claro: calar administrativamente as vozes que se opõem no parlamento a este caminho de catástrofe. (...)

Para muitas pessoas o que está a falhar não são só os governos do bloco central mas a própria democracia. As acusações aos políticos em geral, os argumentos populistas são a prova de que muitos não vêem a diferença de responsabilidades. Se percebem que os governos portugueses foram maus para a população e bons para os amigos, não conseguem acreditar que PCP e Bloco de Esquerda podem ser o veículo de uma alternativa política e de poder. E provavelmente têm razão. Este governo deve ser demitido, o povo tem de ser chamado a decidir o seu futuro, mas PCP e Bloco de Esquerda são demasiado pequenos para ambicionar ser governo.

É preciso construir uma alternativa que possa ir a votos para ganhar. Só uma força que junte independentes contra a troika, comunistas e bloquistas pode triunfar. Há um longo caminho a percorrer para conseguir este cenário e muito pouco tempo para o fazer. Se ele não existir, a democracia tal como a conhecemos não vai expressar o simples facto de a população portuguesa estar contra o Memorando da troika.»

(Os realces são meus.)

Na íntegra aqui. 

E acrescento: mesmo que o caminho seja mais longo do que o tempo desejável para o percorrer, é preferível ter calma e evitar correrias apressadas e inconsequentes por atalhos que mais não são do que becos sem saída. 
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8.10.12

Atenas, «com arrepios na espinha»



Ângela Merkel vai amanhã a Atenas, onde estará seis horas, e, apesar de medidas de segurança draconianas que vão envolver 7.000 polícias antimotim, snipers, helicópteros, baias de ferro e barricadas, foram proibidas todas as manifestações de protesto no centro de Atenas, entre as 9:00 e as 22:00.

Milhões de gregos, sobretudo os mais velhos, recordam, «com arrepios na espinha», os tempos da junta militar, entre 1967 e 1974, quando eram proibidos «reuniões e ajuntamentos de mais de três pessoas». 

Nem quando Bill Clinton visitou Atenas em 1999, em atmosfera hostil, se viu uma operação de segurança com estas dimensões.

Estará prevista alguma visita da «chancelerina» (linguagem inclusiva, se faz favor...) a Portugal? É só para ir fazendo algumas previsões...  

Fonte, entre outras.
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No Sábado, não haverá pés a medir


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Aquilino Ribeiro Machado



Morreu ontem. Não o conheci intimamente, mas encontrava-o por vezes em casa de um amigo comum, Edmundo Pedro, com quem ele partilhava o piso de um mesmo prédio. Já fisicamente frágil nos últimos anos, mas sempre firme nas ideias e muito directo na expressão das mesmas. Recentemente, o Facebook pôs-nos a dialogar com alguma frequência. 

No dia 25 de Setembro, publicou este último post: 
Nuvens de tormenta 
O povo desceu à rua no passado dia 15 para expressar o seu mal-estar, a sua desilusão e a sua profunda revolta contra a politica anticrise pertinazmente levada a efeito pelo governo, que conforme toda a gente já se apercebeu conduziu apenas a um agravamento da situação. A insistência em prosseguir com a mesma receita e a falta de maleabilidade do poder para ouvir aqueles que passivamente o não acatam, ou lhe não cantam loas, está a gerar um clima de profunda irritação e uma sensação de encurralamento que pode levar à percepção de que a violência será a única e inevitável saída. As manifestações hoje em Madrid obedeceram à mesma lógica e de ambos os lados da fronteira parece evidente a rejeição de todos os políticos em geral. Porém a rejeição de todo o poder constituído é um risco letal. A nostalgia de uma ordem e de uma chefia firmes diz-nos a história que leva ao totalitarismo e à submissão a uma ordem forte e regeneradora. Contra este risco há que restituir a esperança ao povo. Se não se mostrasse tão acomodatício, esse papel caberia agora ao Partido Socialista. Infelizmente ele teima em ensimesmar-se num cálido distanciamento. 

E escolho uma dos muitos comentários que me deixou, em posts publicados no meu mural: 
«A democracia cada vez se assemelha mais, entre nós, a uma velha mangueira carregada de água, que aqui está cheia de bossas e à frente magrinha pelo fluir menos afogado da corrente que a atravessa. Quer no sitio das bossas quer no dos estrangulamentos, ameaça, a todo o momento, rebentar.» 
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Cavaco não está só



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«Perguntas que não fiz ao ministro das Finanças»



Este texto que Nicolau Santos publicou no Expresso de 5/10/2012 (sem link) merece ser lido e divulgado. 

«Senhor ministro das Finanças, agora que nas suas conferências de imprensa cada vez é mais limitado o número de perguntas que os jornalistas lhe podem colocar, utilizo este espaço para tentar obter algumas respostas. 

1) V. Exa. considera que pessoas superiormente inteligentes e bem preparadas tecnicamente como o senhor podem tomar decisões completamente estúpidas e irracionais? 

2) Se a resposta for negativa, como será seguramente o caso, V. Exa. considera que é possível corrigir em três anos os desequilíbrios acumulados pela economia portuguesa em década e meia? 

3) Se a resposta for negativa, como o bom senso parece indicar, que país e que modelo económico espera V. Exa. deixar no final desta legislatura? Um país destruído na sua coesão social, com uma classe média totalmente depauperada, um desemprego esmagador, jovens sem esperança e velhos sem amparo? E o modelo económico assentará em baixíssimos salários e mão de obra qualificada, que trabalhará para uma côdea de pão (ou seja, para salários de €500)? 

4) Considera V. Exa. que o regresso da República Portuguesa aos mercados internacionais deve ser conseguido a qualquer custo e constituir o ómega e o alfa da politica económica, independentemente dos seus custos económicos e sociais? 

5) V. Exa. acredita que é possível sustentar o crescimento do país em 18 mil empresas exportadoras? E o que espera que aconteça as outras cerca de 300 mil que existem e trabalham para o mercado interno? 

6) V. Exa. anunciou que a economia começaria a recuperar no segundo semestre deste ano e que em 2013 já teríamos um crescimento de 0,3%. Agora diz-nos que a recuperação será no segundo semestre de 2013 e que em 2014 já teremos um crescimento de 1,2%. V. Exa. falhou? E porque é que deveremos acreditar agora nesta sua nova previsão? 

7) Quais considera V. Exa. que são os efeitos para a economia de uma quebra acumulada de investimento de 29,6% entre 2011 e 2013? 

8) Quais considera V. Exa. que são os efeitos económicos e sociais para uma economia de mais de 1 milhão de desempregados? 

9) V. Exa. anunciou um enorme aumento de impostos, com a redução dos escalões de oito para cinco. No ultimo escalão vão estar famílias com rendimentos acima de €80 mil contra os atuais €153.300. V. Exa. considera ricos os que ganham mais de 80 mil euros por ano? 

10) Em três anos, V. Exa. vai tirar às famílias portuguesas mais de €1O mil milhões por via fiscal. Teremos de trabalhar entre seis a oito meses por ano para o Estado antes de começarmos a ganhar para nós. V. Exa. sente-se confortável ideologicamente com isto? 

11) V. Exa. tem consciência de que ao aplicar uma sobretaxa de 4% sobre os rendimentos de 2013 logo a partir de janeiro (e não apenas no final do ano) causa dificuldades dramáticas a milhares de pessoas? Sabe que a carga fiscal aumenta em mais de 34% para a generalidade dos contribuintes? 

12) V. Exa. anuncia cortes substanciais para 2014 nas prestações sociais, educação e segurança. Vai continuar a cortar nas prestações sociais? E na segurança? Não pensa que o banditismo e a violência vão aumentar? 

13) V. Exa. já descobriu que a realidade não cabe numa folha de Excel? Muito obrigado pelo seu silencio.» 

(Via Helena Araújo no Facebook)
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7.10.12

Os mais pacientes?



«De facto, o discurso do 5 de Outubro de Cavaco Silva contribuiu para o sentimento de orfandade, utilizando toda a moderação deste mundo, dos portugueses em relação aos políticos. Existe, porém, uma razão para que o Presidente da República tenha feito o discurso que fez. Como toda a gente já reparou, a coligação governamental acabou e o Governo está ligado à máquina: Cavaco vai ter de arranjar uma solução de Governo e não é o momento para criar conflitos com quem quer que seja. (...) No discurso do 5 de Outubro, Cavaco não falou do País nem para o País porque está demasiado ocupado a pensar que tipo de solução governativa vai arranjar para Portugal. (...)

Claro que os objectivos do défice não serão alcançados. O desemprego vai brevemente chegar aos 20% e as poucas empresas que restam falirão. Mas a Vítor Gaspar isso não perturba desde que os mercados estejam satisfeitos. Gaspar e Passos parecem desconhecer que o assalto anunciado acelerará furiosamente o processo de desagregação social e lançará o País no mais absoluto caos. A miséria, o desespero, a desobediência civil farão parte do nosso quotidiano. 

Podemos não ser o melhor povo do mundo, mas somos certamente o mais paciente com a loucura e a incompetência.»

Pedro Marques Lopes
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Regressos a Belém



Estou certa de que muitos dos que têm agora 20 ou 30 anos, e que andam pelas ruas em tantas manifestações, dentro de três décadas se recordarão dos locais, das pessoas, de detalhes sem importância, das cores e até dos cheiros, sem conseguirem lembrar-se do motivo exacto que os levou a protestar ali, naquele dia, amalgamando causas, lutas e datas. Pode parecer-lhes neste momento impossível que isto venha a acontecer, mas garanto que não é, mesmo que tenham uma memória prodigiosa.

Aqueles de nós que andam nisto há muitos anos, reviveram uma vez mais esta experiência, há poucos dias, quando regressaram a Belém para «saudarem» a reunião do Conselho de Estado. Todos se recordavam de uma outra grande manifestação, ali mesmo, em tempos de PREC, mas sem conseguirem caracterizá-la. E embora no meu calendário da memória ela estivesse mais ou menos bem datada, deu-me algum trabalho a acertar, mesmo recorrendo ao Google. (E lembro-me de tudo, até da terrível fome que só conseguimos matar às tantas da noite...)

Foi em 1975, cinco dias antes do 25 de Novembro, não acabou tão tarde como a deste ano mas também foi longa. Contra o quê? Contra o VI Governo Provisório de Pinheiro de Azevedo (que entrara em greve...), em resposta a um apelo das Comissões de Trabalhadores da Cintura Industrial de Lisboa, com o apoio da Intersindical, PCP e FUR, para exigir um governo «verdadeiramente revolucionário». (Em vão, como o futuro muito próximo viria a demonstrar...)

Mas houve uma grande e significativa diferença que João Tunes em boa hora recorda: «A manifestação de 1975 culminou com uma ida ao varandim do palácio que dá para a praça de todo o Conselho da Revolução e com um discurso do Presidente da República em pessoa (Costa Gomes, então General) resumindo para a multidão (para o povo) o que aquele Conselho tratara e concluíra, enquanto desta vez os conselheiros limitaram-se a sair de Belém em alta velocidade e ocultos em potentes viaturas, enquanto Sua Excelência o presidencial Cavaco devia estar a recolher-se aos aposentos privados para disputa de recato com a sua esposa, ao mesmo tempo que um funcionário de nível hierárquico deslavado lia, aos jornalistas, um comunicado protocolar. Nada disto surpreende, nem sequer a diferença sublinhada que chega a fazer duvidar, numa leitura apressada, que se trate do mesmo país em que se deram as duas manifestações.» 

O país é o mesmo, sim. Mas ainda bem que a presciência é apanágio dos deuses e dos magos ou teríamos desistido, há 37 anos, se nos tivesse sido permitido ver o filme dos acontecimentos de 2012. Mas não foi o caso e por isso continuámos – e continuamos.
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Isto não pára!


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O regresso do povo


O texto de Sandra Monteiro no último número de Le Monde Diplomatique (edição portuguesa). 

«Depois das manifestações de 15 e 29 de Setembro, que reuniram nas ruas do país entre quinhentas mil e um milhão de pessoas, a crise em Portugal entrou numa nova fase. O povo regressou, disse basta. Doravante é muito improvável que os governantes – os nacionais e os externos – possam continuar a excluí-lo da equação. O papel que ao povo estava reservado era o de simples objecto das políticas, devendo suportar, com resignação expiatória e salvífica, todos os sacrifícios. Mas, perante mais uma escalada nos cortes austeritários que continuam a amputar as vidas dos trabalhadores, dos desempregados e dos pensionistas, em Setembro atingiu-se um ponto de saturação. As mobilizações populares sinalizaram o estilhaçar da narrativa dominante associada à austeridade europeia: necessidade, inevitabilidade e eficácia. Foi preciso fazer alguma coisa de extraordinário, porque se deixou de acreditar que as medidas de austeridade fossem limitadas no tempo, ou que melhorassem as contas públicas, diminuíssem o desemprego, detivessem a espiral da dívida e colocassem o país numa rota de crescimento.

Nenhum desses objectivos era real, nunca foi. A austeridade não é um parêntesis findo o qual se vá regressar à realidade anterior (mesmo com todos os problemas que ela tinha, a começar pelas desigualdades). Os sacrifícios a que a esmagadora maioria da população está a ser sujeita não são úteis, pelo menos não para a própria população. Os beneficiários da austeridade são os detentores dos mais elevados rendimentos, os credores, os especuladores, os rentistas. Mais do que da crise do século, conviria falar do negócio do século. Um negócio que está a destruir as sociedades, as economias e a própria democracia.»

Continuar a ler AQUI.
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