23.10.13

Do pequeno país



«O nosso pequeno país cá vai, bem mandado, mas de ser apaparicado à chegada ao clube [UE] passou, depois de 2008, a ser sujeito a tratos de polé. Uma interpretação alemã das causas da crise – golpistas desleixados do Sul abusando de gente séria e trabalhadora do Norte – e uma receita alemã para sair dela – austeridade (que tem aumentado a dívida e minado a democracia) – apesar de erradas foram aceites como boas não só em Lisboa, mas nas outras capitais da Europa. (...)

Entretanto o pequeno país escolhe às vezes para chefes gente com a visão do saguão e o instinto da porta de serviço. Ou então gente tão zelosa que, ao ministrar o remédio para a crise que os alemães ordenaram, decidiu ser mais troikista que a troika. (...)

E por fim Angola, jóia da nossa coroa imperial – no tempo da guerra colonial nenhum cartaz em Lisboa rezava "Moçambique é nosso" - a fazer-nos passar por vergonhas (sempre o malfadado instinto da porta de serviço). "Só nos faltava mais esta" teria comentado o Dr.Salazar quando lhe vieram dizer que havia petróleo em Angola. É muito pior ainda do que ele imaginava.»

(O link pode só funcionar mai tarde.)
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22.10.13

Faria hoje 92



Brassens, Georges Brassens, nasceu em 22 de Outubro de 1921.

«Mourrons pour des idées, d'accord, mais de mort lente
D'accord, mais de mort lente.»



Mourir pour des idées, l'idée est excellente
Moi j'ai failli mourir de ne l'avoir pas eu
Car tous ceux qui l'avaient, multitude accablante
En hurlant à la mort me sont tombés dessus
Ils ont su me convaincre et ma muse insolente
Abjurant ses erreurs, se rallie à leur foi
Avec un soupçon de réserve toutefois
Mourrons pour des idées, d'accord, mais de mort lente,
D'accord, mais de mort lente.

Jugeant qu'il n'y a pas péril en la demeure
Allons vers l'autre monde en flânant en chemin
Car, à forcer l'allure, il arrive qu'on meure
Pour des idées n'ayant plus cours le lendemain
Or, s'il est une chose amère, désolante
En rendant l'âme à Dieu c'est bien de constater
Qu'on a fait fausse route, qu'on s'est trompé d'idée
Mourrons pour des idées, d'accord, mais de mort lente
D'accord, mais de mort lente.

Les saint jean bouche d'or qui prêchent le martyre
Le plus souvent, d'ailleurs, s'attardent ici-bas
Mourir pour des idées, c'est le cas de le dire
C'est leur raison de vivre, ils ne s'en privent pas
Dans presque tous les camps on en voit qui supplantent
Bientôt Mathusalem dans la longévité
J'en conclus qu'ils doivent se dire, en aparté
"Mourrons pour des idées, d'accord, mais de mort lente
D'accord, mais de mort lente".

Des idées réclamant le fameux sacrifice
Les sectes de tout poil en offrent des séquelles
Et la question se pose aux victimes novices
Mourir pour des idées, c'est bien beau mais lesquelles ?
Et comme toutes sont entre elles ressemblantes
Quand il les voit venir, avec leur gros drapeau
Le sage, en hésitant, tourne autour du tombeau
Mourrons pour des idées, d'accord, mais de mort lente
D'accord, mais de mort lente.

Encore s'il suffisait de quelques hécatombes
Pour qu'enfin tout changeât, qu'enfin tout s'arrangeât
Depuis tant de "grands soirs" que tant de têtes tombent
Au paradis sur terre on y serait déjà
Mais l'âge d'or sans cesse est remis aux calendes
Les dieux ont toujours soif, n'en ont jamais assez
Et c'est la mort, la mort toujours recommencée
Mourrons pour des idées, d'accord, mais de mort lente
D'accord, mais de mort lente.

O vous, les boutefeux, ô vous les bons apôtres
Mourez donc les premiers, nous vous cédons le pas
Mais de grâce, morbleu! laissez vivre les autres!
La vie est à peu près leur seul luxe ici bas
Car, enfin, la Camarde est assez vigilante
Elle n'a pas besoin qu'on lui tienne la faux
Plus de danse macabre autour des échafauds!
Mourrons pour des idées, d'accord, mais de mort lente
D'accord, mais de mort lente.
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A derrota final?



«Passaram dois anos e os portugueses foram atingidos por medidas de austeridade de uma violência só equivalentes às executadas na Grécia. Mas, o que se conseguiu, afinal? Recessão pelo terceiro ano consecutivo, taxa de desemprego de 18%, défice público certamente superior a 6% (o plano de recuperação de receita fiscal dificilmente atingirá os desejados 700 M€) e uma dívida de 127.8% do PIB. Pela parte menos visível, aumento da pobreza e degradação da qualidade dos serviços públicos. (...)

Um primeiro-ministro sem preparação, mas que se considera tocado por uma entidade divina e um Presidente no último mandato que detesta aborrecimentos não podem ignorar o insucesso deste e dos OE anteriores. Se nada for feito, será nossa (dos portugueses) a derrota final.»

Manuela Arcanjo

Painéis electrónicos para quê?



O meu regresso da Etiópia começou ontem assim (e terminou muuuitas horas depois).
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21.10.13

Em casa da rainha de Saba



Axum, no Norte da Etiópia, é um paraíso para os arqueólogos, tantos são os rastos de civilizações antiquíssimas já descobertos e os muitos que há ainda por explorar.

Conta a lenda que um filho de Noé, pai de todos os povos de pele castanha, era avô de Etiopos que foi enterrado em Axum e deu o nome a todos os habitantes do país. Seja como for, sabe-se hoje que as origens da civilização etíope remontam o século X a.c.

Poderia descrever túmulos e obeliscos (ficam apenas fotos), falar da «verdadeira» Arca da Aliança que os etíopes reivindicam ter aqui em Axum, mas falta-me tempo e limito-me a referir a rainha de Saba que, segundo as crónicas, teria regressado de uma viagem a Jerusalém grávida de um filho do rei Salomão, criança essa que viria a ser o célebre rei Menelik, fundador da dinastia Salomónica que perduraria na Etiópia até ao século XX e viria a ter, como último representante, o imperador Haile Selassie (tio avô ndo nosso «troiqueiro»).

As ruínas do palácio da rainha de Saba não são mais do que isso mesmo – ruínas –, mas chegam para dar uma ideia do que se terá vivido entre aquelas muitas paredes.




20.10.13

A cidade imperial (*)



O que há de mais extraordinário para ver em Gondar é a «cidade imperial», um conjunto de seis castelos construídos seguindo técnicas introduzidas pelos portugueses no século XVI, implantados numa grande cerca que chegou a ter doze portas. A construção do primeiro teve início em 1640.

Durante o reinado do imperador Fasiladas (1632-1667), Gondar, que até então era uma vila sem importância, tornou-se capital do reino e, no auge do seu esplendor, chegou a ter mais de 80.000 habitantes. Em meados do século XIX era ainda o principal centro de comércio da Etiópia, mas acabou por ser destruída pelo imperador Teodoros que mandou incendiar os principais monumentos e igrejas da cidade.

As imagens dispersas, que aqui ficam, não conseguem dar uma ideia do conjunto, verdadeiramente notável. Este vídeo ajuda.







(*) Este post foi escrito no dia 16, quando a internet andava «avariada». 
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Em verdade...


Em verdade vos digo que ler a entrevista de Sócrates ao Expresso, à espera de um avião, num aeroporto dos confins da Etiópia, é uma experiência transcendental muito estranha. Kant deve ter escrito algo sobre o assunto (ou terá sido Voltaire?). 
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19.10.13

Engenho e arte



Passei os dois últimos dias em Lalibela, a «Nova Jerusalém» da Etiópia, cravada numa região mais árida e agreste do que aquelas em que estive antes (e portanto mais pobre), mas também a que mais turistas procuram e por um motivo indiscutível.

Não há palavras (e muito menos fotografias parcelares) que possam dar uma ideia, mesmo aproximada, do que são as suas onze igrejas, escavadas na rocha e em muitos casos ligadas por túneis. Distribuem-se por dois conjuntos separados por um rio (um com seis igrejas, outro com quatro), estando fisicamente afastada a décima primeira: última a ser construída e a mais espectacular, com a sua forma em cruz, enterrada, e com quinze metros de altura.

As escavações começaram em pleno século XII e todo o conjunto foi construído em apenas vinte e quatro anos, o que é quase inacreditável! Terão estado implicados nas obras, usando instrumentos mais do que rudimentares, 40.000 homens e conta a lenda que trabalhavam enquanto havia Sol e que os anjos faziam o turno da noite…

As igrejas de Lalibela, Património da Humanidade segundo a UNESCO, são um dos grandes motivos de orgulho dos etíopes e com toda a razão. E por falar em orgulho, embora não venha a propósito, há um outro facto que não se cansam de referir: a Etiópia nunca foi colonizada por nenhum outro povo, realidade de que poucos países africanos se podem gabar. 






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18.10.13

Etiópia: terras e gentes (*)



A Etiópia é um país muito extenso e tem por isso regiões com características muito diferentes. Por exemplo, se uma parte do Sul é ocupada por savanas e uma outra por bosques, aquela por onde tenho andado – algumas centenas de quilómetros entre Bahir Dar e Gondar, e respectivos arredores, – é verde, totalmente verde e lindíssima, com montes e vales bem cultivados (claramente, o celeiro do país) e milhares de cabeças de gado a que não faltam excelentes pastos.

Tudo é muito pobre, as casas são absolutamente rudimentares, pessoas e animais inundam as estradas e andam grandes distâncias a pé. (Conta-se como piada que os etíopes ganham tantas medalhas em maratonas, e não só, porque, desde crianças, se habituam a correr quilómetros para chegar à escola.)

Embora a Etiópia seja praticamente autossuficiente em termos alimentares tendo de importar muito pouco, tem falta de quase tudo o resto em infraestruturas e tecnologia. E aí é que as coisas se complicam, não só por problemas políticos num país que é governado há vinte e dois anos praticamente em regime de partido único, com as inevitáveis consequências em termos de corrupção, como pelo facto de a moeda nacional ser tão fraca que tudo o que tem de vir do exterior tem um peso difícil de suportar (face ao euro ou ao dólar, tudo aqui é tão barato que os preços correntes mais parecem gorjetas…).

Em todo o caso, aparentemente vai-se progredindo um pouco (por exemplo através de um interessante sistema de cooperativas) e, ao contrário dos seus vizinhos da Eritreia e da Somália, é raro que etíopes fujam por esta África acima para se afogarem às portas da Europa. O futuro dirá como tudo isto vai evoluir. Mas não será nada fácil.








(*) Este post foi escrito no dia 17 mas o hotel em que estava tinha a internet «avariada»…
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Nilo Azul? (*)



Dia pesado depois de um acordar às 4 para apanhar um avião que me trouxe de Addis Abeba até ao grande Lago Tana, em Bahir Dar, com as suas 37 ilhas (na realidade, algumas são penínsulas), na maioria habitadas e onde podem ser vistas muits igrejas ortodoxas, tipicamente circulares. Visitei uma – Azwa Maria –, do século XIV, revestida do chão até ao tecto com belíssimas pinturas que, para além do efeito decorativo, tinham como função permitir a explicação de cenas bíblicas às populações analfabetas.

A tarde foi dedicada ao rio Nilo, «Nilo Azul» (tão azul como o Danúbio…) e às respectivas cataratas. Sem dúvidas de beleza indiscutível, mas que não sei se justificam o enorme esforço físico exigido para lá chegar, por longuíssimos caminhos cheios de lama e de pedregulhos. É o preço a ser pago pelas vantagens de se visitar um país (ainda?) não invadido por turismo de massas: caso contrário, as ditas cataratas seriam, com toda a certeza, muito facilmente acessíveis…









(*) Este post foi escrito no dia 15 mas, desde então, os hotéis onde estive tinham sempre a internet «avariada». 
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14.10.13

Uma enorme capital



Addis Abeba nada tem de muito especial como cidade, excepto dois bons museus, um Arqueológico e outro Etnográfico, é desorganizada como seria de esperar (com 3,1 milhões de habitantes dos 85 que o país tem). Ou por outra: tem algo que nem eu, nem pessoas com larga experiência de viagens, alguma vez tínhamos visto: um mercado gigantesco, absolutamente caótico, que tem nada menos do que 103 hectares e onde se vende tudo o que imaginar se possa. Indescritível!

Dependente da agricultura como a Etiópia é, terra onde «quem trabalha são as mulheres e os burros» (estes, utlizados para as mais variadas tarefas), depende cada vez mais de investimentos chineses e turcos, exporta algodão e têxteis, carnes de várias espécies animais e, evidentemente, café. Aliás, reza a lenda ou a história (nem sempre é fácil perceber-se em que plano se está exactamente) que foi aqui que o café foi descoberto. Como? Uma cabra ter-se-á mostrado tão excitada depois de comer repetidamente a respectiva planta que os donos decidiram seguir-lhe o exemplo, descobrindo assim as respectivas potencialidades.

Muito teria a contar mas estou sem tempo. Só mais uma pequena nota. A um etíope que me explicava hoje que, não tendo aderido ao calendário gregoriano, estão agora em 2005, disse-lhe que se preparassem para 2011 e seguintes. Julgo que não percebeu porquê.


13.10.13

No reino de Saba



Aterrei já há algum tempo em Addis Abeba, mas, praticamente, ainda só deu para perceber que o ritmo, que por aí nos parece normal, é afinal é mais ou menos frenético quando comparado o que se passa por estas bandas. As formalidades para sair do aeroporto passaram por várias fases e duraram quase duas horas, mas tudo bem: amanhã também é dia e já deu, entretanto, para ouvir falar da rainha de Saba, de não sei exactamente quem que seria tetraneto de Noé e da hipótese muito provável de que tenha sido mesmo aqui o tal berço da humanidade, que tantos reclamam.

Antes, foi uma dormida em terras de sua majestade Merkel, mais concretamente em Frankfurt. E se o aeroporto para mim tem poucos segredos, tantas foram as escalas que já lá fiz, ainda não foi desta que revi a cidade propriamente dita, onde só estive uma vez mas da qual guardo uma sensação inesquecível. Já há alguns anos, chegada de Pequim, na minha cabeça estavam ainda as ruas cheias de multidões, os milhares de bicicletas e automóveis, o movimento que não para durante vinte e quatro horas, quando aterrei em Frankfurt, numa tarde chuvosa de Novembro, e lá passei algumas horas. No centro da cidade tudo era cinzento, chuviscava, não se via rigorosamente ninguém, até um gato preto fugiu alucinadamente quando encarou alguns seres humanos. A sensação que tive foi que a Europa tinha acabado durante as duas semanas em que eu estivera na Ásia e que ninguém me tinha avisado.

Mas agora estou numa terra cheia de gente, é tarde e oiço muita música nas ruas, o roaming dos telefones não funciona, pelo menos hoje porque houve um desafio de futebol importante (???) e estou longe, longíssimo, de muita e muita coisa. O que é excelente! 
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